{"id":1905,"date":"2003-01-09T01:08:51","date_gmt":"2003-01-09T03:08:51","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1905"},"modified":"2023-03-27T16:58:44","modified_gmt":"2023-03-27T19:58:44","slug":"leitura-escrita-e-grafite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/tempo-didadico\/leitura-escrita-e-grafite\/","title":{"rendered":"Leitura, escrita e grafite"},"content":{"rendered":"<h5>Educadores da zona sul de S\u00e3o Paulo descobriram, no grafite, um grande aliado para o ensino de pr\u00e1ticas de leitura, escrita e de artes visuais. Al\u00e9m de promover o avan\u00e7o na leitura, os conhecimentos adquiridos ao longo do projeto ajudaram crian\u00e7as e jovens de 8 a 14 anos a pensar formas de interven\u00e7\u00e3o que melhoraram o aspecto dos muros da institui\u00e7\u00e3o. Veja como esse trabalho foi realizado com pouco recurso e muito apoio da comunidade.<\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1911\" title=\"avisala_13_grafite8\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite8.jpg\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"279\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite8.jpg 602w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite8-300x139.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><br \/>\nAs crian\u00e7as e os jovens que freq\u00fcentam o Espa\u00e7o Gente Jovem (EGJ) Santa Cec\u00edlia eram tamb\u00e9m alunos de uma escola p\u00fablica. Mas, mesmo assim, muitos n\u00e3o sabiam escrever, e mesmo os alfabetizados n\u00e3o eram leitores.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nInfelizmente s\u00e3o muitos os casos de alunos da 5a, 6a, 7a e at\u00e9 8a s\u00e9ries com s\u00e9rias dificuldades para compreender uma reportagem ou um par\u00e1grafo de texto, ainda que simples. E, embora a alfabetiza\u00e7\u00e3o seja tarefa da escola, os espa\u00e7os destinados \u00e0 complementa\u00e7\u00e3o escolar n\u00e3o podem ignorar o problema, pois n\u00e3o se pode admitir que crian\u00e7as de 10, 12, \u00e0s vezes 14 anos ou mais, continuem analfabetas: educa\u00e7\u00e3o de qualidade \u00e9 direito de todo cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Como a equipe do EGJ Santa Cec\u00edlia estava encontrando dificuldades para fazer seus alunos avan\u00e7ar, desenvolvi com os professores o projeto grafite, numa aposta de que o contato com esse universo seria suficientemente interessante para os jovens e contribuiria para suas aprendizagens.<\/p>\n<p>Os alunos poderiam ler para aprender sobre o grafite e tamb\u00e9m conhecer algumas das t\u00e9cnicas de grafitagem que lhes permitissem fazer interven\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o da institui\u00e7\u00e3o. O EGJ fica na zona sul de S\u00e3o Paulo, ber\u00e7o do grafite e do hiphop, segundo contam as mat\u00e9rias de jornal e revista que eu li. Imaginei, ent\u00e3o, encontrar ali os tais grafiteiros que poderiam, quem sabe, contribuir com nosso trabalho. O pr\u00f3ximo passo foi tomar as decis\u00f5es did\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>A primeira vers\u00e3o do projeto<\/strong><br \/>\nComo professora de apoio<sup>1<\/sup> tinha encontros semanais com o grupo. Utilizava este tempo para desenvolver algumas etapas do trabalho e combinava com o Anderson, educador da turma, outras tantas atividades que ele faria quando eu n\u00e3o estivesse l\u00e1. Com ele tamb\u00e9m discuti os objetivos e conte\u00fados que o projeto contemplaria.<\/p>\n<p>Propus, como um objetivo a ser compartilhado com o grupo de alunos a produ\u00e7\u00e3o de um f\u00f4lder<sup>2<\/sup> sobre o grafite, para ser distribu\u00eddo no dia da oficina de grafite, que seria organizada por eles e oferecida \u00e0 comunidade. Todo texto tem um destinat\u00e1rio, mas \u00e0s vezes esquecemos disso quando estamos na escola ou no EGJ.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria que isso acontecesse mais uma vez. Era importante os alunos saberem que leriam textos recomendados por mim para produzir folhetos que teriam um destinat\u00e1rio espec\u00edfico: o p\u00fablico da oficina.<\/p>\n<p>Com esse intuito, propus a leitura de diferentes textos para que eles resumissem e pudessem utilizar no final do semestre.<\/p>\n<p><strong>Conhecimento sobre grafite<\/strong><br \/>\nPara saber o que as crian\u00e7as j\u00e1 conheciam sobre o grafite, planejei uma atividade inicial: apresentei uma s\u00e9rie de fotos sobre arte de rua, nos bairros da Lapa e Vila Madalena, contendo grafites, e tamb\u00e9m de lugares que n\u00e3o apresentavam tais interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No rodap\u00e9 de cada foto, a localiza\u00e7\u00e3o, o nome do artista, o ano de realiza\u00e7\u00e3o, o estabelecimento onde foi feita a interven\u00e7\u00e3o e uma breve descri\u00e7\u00e3o do tipo de t\u00e9cnica usada. Distribui as imagens de acordo com os grupos e pedi que as analisassem apoiando-se nestas quest\u00f5es:<\/p>\n<div id=\"attachment_1912\" style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1912\" class=\"size-full wp-image-1912\" title=\"avisala_13_grafite4\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite4.jpg\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite4.jpg 602w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite4-300x235.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><p id=\"caption-attachment-1912\" class=\"wp-caption-text\">Alunos pesquisam no mural as imagens dos grafites estudados at\u00e9 o momento<\/p><\/div>\n<p>Do que tratam estas fotos? O que \u00e9 igual e diferente entre elas? Quem sabe o nome destas pinturas nas paredes? Conhecem alguma pessoa que faz este tipo de trabalho nos muros? E aqui no bairro existe este tipo de pintura nas paredes? Onde? Ia ouvindo a discuss\u00e3o dos grupos e registrando o que cada um dizia. As crian\u00e7as adoraram as fotos e fizeram muitas coloca\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 picha\u00e7\u00e3o \u2013 disse algu\u00e9m do grupo.<br \/>\n\u2013 Eu j\u00e1 ouvi falar deste lugar aqui, Vila Madalena \u2013 respondeu o outro.<br \/>\n\u2013 Isto aqui \u00e9 feio \u2013 disse uma garota apontando para uma picha\u00e7\u00e3o \u2013 mas este \u00e9 bonitinho \u2013 apontando para um desenho de ursinho no muro de uma escola infantil.<br \/>\n\u2013 Tem at\u00e9 o telefone do cara que fez, olha! \u2013 apontou o colega do lado, muito observador.<\/p>\n<p>O grupo arriscou classificar o que as fotos mostravam:<\/p>\n<ul>\n<li>Grafite<\/li>\n<li>Picha\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Arte<\/li>\n<li>Pintura<\/li>\n<\/ul>\n<p>Fizeram tamb\u00e9m algumas observa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Tem desenhos que t\u00eam autor.<\/li>\n<li>Grafite \u00e9 colorido.<\/li>\n<li>Grafite \u00e9 uma esp\u00e9cie de desenho com picha\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Tem letras misturadas.<\/li>\n<li>Picha\u00e7\u00e3o \u00e9 feia e suja a cidade.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Essa proposta mostrou que as crian\u00e7as sabiam algumas coisas, mas ainda confundiam as interven\u00e7\u00f5es e n\u00e3o conseguiam definir a diferen\u00e7a entre desenhos, picha\u00e7\u00f5es, grafites e pinturas.<\/p>\n<p>Um outro ponto interessante foi a descoberta de algumas palavras que coloquei na ficha t\u00e9cnica das fotos: \u201cInterven\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas no espa\u00e7o urbano\u201d. Escolhi esse t\u00edtulo porque n\u00e3o queria direcionar o olhar para um tipo espec\u00edfico de interven\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m tinha como objetivo que os alunos come\u00e7assem a se familiarizar com esses termos que surgiriam nos textos futuros.<\/p>\n<p>Um deles perguntou:<br \/>\n\u2013 O que \u00e9 interven\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Conforme sugeriu um outro aluno, ajudei a procurar a palavra no dicion\u00e1rio. E tamb\u00e9m os verbetes gr\u00e1fica e urbano, desconhecidos por eles.<\/p>\n<p>Os alunos disseram conhecer muitos lugares do bairro e tamb\u00e9m dois pichadores famosos: \u201cZinho\u201d e um outro. Ficaram muito animados com a id\u00e9ia de fotografarmos as interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Incentivei-os a pensar em locais interessantes para registrar, podendo inclusive fotografr\u00e1-los para nossas interven\u00e7\u00f5es. Pedi que pesquisassem e trouxessem os endere\u00e7os por escrito, os nomes dos colaboradores e a justificativa de sua escolha. Ao final da atividade, Anderson, observou detalhes importantes da pr\u00e1tica pedag\u00f3gica. Disse que os textos que acompanhavam as fotos incentivaram os alunos a falar bastante.<\/p>\n<p>O fato de eu ter posto as quest\u00f5es na lousa antes de entregar as fotos facilitou a an\u00e1lise do grupo. Ele observou que v\u00e1rias vezes eles se voltavam para a lousa para procurar as perguntas e que isso facilitava suas conversas. Notou ainda que ficaram muito motivados em perceber semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as e que para isso, queriam analisar todas as fotos. O sucesso da atividade se deveu \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o que foi dada \u00e0 leitura de imagem e do texto.<\/p>\n<div id=\"attachment_1917\" style=\"width: 348px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1917\" class=\"size-full wp-image-1917\" title=\"avisala_13_grafite2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite22.jpg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite22.jpg 338w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite22-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><p id=\"caption-attachment-1917\" class=\"wp-caption-text\">Professor lendo para os alunos uma revista sobre grafite<\/p><\/div>\n<p><strong>Ler para conhecer mais<\/strong><br \/>\nPara dar in\u00edcio ao trabalho de leitura, escolhi textos em fun\u00e7\u00e3o dos temas sobre os quais eles precisariam se informar. Um exemplo foi a reportagem da Folha de S\u00e3o Paulo \u2013 Folhateen agosto\/99 \u2013 que discutia a prolifera\u00e7\u00e3o desse tipo de arte na cidade, a influ\u00eancia do hip-hop, break, rap, MC\/DJ e grafite.<\/p>\n<p>Como a reportagem era longa, selecionei os par\u00e1grafos que falavam sobre o grafite e o hip-hop. Um texto muito claro e contextualizado historicamente. Depois da leitura deixei que a turma trouxesse seus coment\u00e1rios. Voltamos ent\u00e3o ao primeiro registro sobre o que eles sabiam e o retomamos, acrescentando agora os conhecimentos despertados a partir da leitura da reportagem.<\/p>\n<p>Aprenderam que existe um tipo de grafite que \u00e9 do hip-hop. Outro ponto que chamou a aten\u00e7\u00e3o foi sobre a disputa de espa\u00e7o dos grupos. As letras \u201cgordas\u201d, como diziam os jovens para se referir a um tipo espec\u00edfico de grafite, passaram a ser chamadas de letras \u201cvolumosas\u201d, conforme o texto dizia. E ainda:<\/p>\n<ul>\n<li>No grafite hip-hop tem imagens sobre o rap e sua dan\u00e7a.<\/li>\n<li>No grafite usa-se spray e tinta.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Dias depois, Anderson planejou uma atividade similar: a leitura do artigo da revista Veja S\u00e3o Paulo. Como a reportagem era extensa, ele leu antes e selecionou trechos que julgou interessantes. Entregou uma c\u00f3pia por dupla e se p\u00f4s a observar as crian\u00e7as. Percebeu que algumas n\u00e3o prestavam aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se lembrou do encontro anterior e retomou a proposta: disse que depois da leitura teriam que dizer tudo o que descobriram sobre os pichadores. Pediu que retomassem a leitura e discutissem. Deu 15 minutos e ent\u00e3o deixou que os grupos fizessem suas observa\u00e7\u00f5es. Notou que todos prestaram mais aten\u00e7\u00e3o e comentou:<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed todo mundo queria falar!<\/p>\n<p>Anderson foi capaz de retomar uma atividade em que notou problemas. Isso foi poss\u00edvel porque ele estava seguro com o encaminhamento da aula e, consequentemente, p\u00f4de observar a a\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Percebeu com muita propriedade os procedimentos que os alunos utilizaram:<\/p>\n<ul>\n<li>Tinha gente que procurava encontrar as palavras exatamente como ele solicitou, ou seja, eram alunos acostumados a procurar no texto a partir de perguntas, como acontece nos livros did\u00e1ticos.<\/li>\n<li>Outros queriam ler o texto inteiro para encontrar uma informa\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Por fim, havia aqueles que iam direto a uma parte do texto porque sabiam que o que estavam procurando deveria estar ali.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A partir da\u00ed, a leitura passou a fazer parte da rotina de nosso trabalho por meio de diferentes modalidades:<\/p>\n<ul>\n<li>leitura em duplas e discuss\u00e3o em grupo do que entenderam sobre o texto.<\/li>\n<li>leitura realizada pelo educador com o acompanhamento dos alunos, que explicitaram suas d\u00favidas.<\/li>\n<li>leitura em pequenos grupos e discuss\u00e3o sobre o que entenderam, e depois um pequeno semin\u00e1rio para cada grupo explicar, por exemplo, sobre um grafiteiro famoso que estudou.<\/li>\n<li>leitura para coletar informa\u00e7\u00f5es importantes para a escrita do texto e elabora\u00e7\u00e3o de perguntas para o grafiteiro que veio ao EGJ.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong><br \/>\nPesquisando o bairro<\/strong><br \/>\nNa etapa seguinte, Anderson preparou a pesquisa de campo das crian\u00e7as. Com sua ajuda, elas retomaram as anota\u00e7\u00f5es feitas anteriormente e completaram com as \u00faltimas indica\u00e7\u00f5es de locais do bairro que podiam fotografar.<\/p>\n<p>Um aluno levou o guia da cidade, e a partir da xerox do mapa do bairro, eles elaboraram o roteiro. Combinaram a data da sa\u00edda, prepararam m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas e discutiram sobre como utilizar o pouco recurso que tinham: estabeleceram como regra que cada um s\u00f3 poderia bater uma foto. Anderson lembrou algumas dicas utilizadas pelos fot\u00f3grafos, como abrir dist\u00e2ncia ou aproximar para enquadrar a imagem que ser\u00e1 registrada, segurar firme no momento de clicar etc.<\/p>\n<div id=\"attachment_1913\" style=\"width: 521px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1913\" class=\"size-full wp-image-1913\" title=\"avisala_13_grafite5\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite5.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite5.jpg 511w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite5-300x187.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 511px) 100vw, 511px\" \/><p id=\"caption-attachment-1913\" class=\"wp-caption-text\">Na visita as crian\u00e7as encontraram de tudo: grafite, picha\u00e7\u00e3o, pintura, propaganda etc.<\/p><\/div>\n<p>Quando cheguei, eles estavam organizados e j\u00e1 tinham distribu\u00eddo as tarefas entre os pares. Fiquei extremamente feliz com a organiza\u00e7\u00e3o do grupo e com o empenho do Anderson para que essa sa\u00edda fosse realmente interessante e divertida para todos.<\/p>\n<p>O percurso foi o m\u00e1ximo! Nunca vi tantos grafites na minha vida. O bairro \u00e9 forrado de interven\u00e7\u00f5es nas paredes, e muitos comerciantes contrataram servi\u00e7os de antigos grafiteiros que hoje j\u00e1 se profissionalizaram. Um dos mais elaborados trazia as imagens de todos os integrantes dos Racionais MC, um grupo de rap bastante conhecido pelos garotos.<\/p>\n<p>Nossa sa\u00edda foi motivo de curiosidade na vizinhan\u00e7a. Imagine s\u00f3, at\u00e9 um pastor de uma igreja saiu na porta para ver a \u201cbanda\u201d passar. Tinha gente que pedia para ser fotografada!<\/p>\n<p>Foram feitas v\u00e1rias fotos ap\u00f3s muitas subidas e descidas por escad\u00f5es e ruelas. As crian\u00e7as descobriram que h\u00e1 um pichador que deixou muitas marcas no bairro, mas n\u00e3o se identificou. N\u00f3s o reconhecemos pelo estilo de letra. H\u00e1 outro grafiteiro que assina. Passamos na porta da casa dele e acenamos para a m\u00e3e, que estava lavando lou\u00e7a e gentilmente sorriu para um garoto que gritou:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a m\u00e3e do Zizi, aquele que fez os grafites l\u00e1 na escada.<\/p>\n<p>Fiquei encantada com o passeio,com os garotos e tudo o que encontrei pelo bairro. N\u00e3o imaginava encontrar tanto. Uma coisa \u00e9 ler no jornal que aqui \u00e9 o ber\u00e7o do grafite hip-hop, outra \u00e9 circular pelo bairro a p\u00e9. Como geralmente ando de \u00f4nibus, minha vis\u00e3o fica muito limitada.<\/p>\n<p>Essa sa\u00edda me fez pensar sobre o quanto estamos distantes da realidade com que trabalhamos. N\u00e3o estou pregando um turismo \u00e0 l\u00e1 \u201cRocinha\u201d para ingl\u00eas ver a favela. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. Mas fiquei impressionada com a oportunidade que eu perderia se n\u00e3o tivesse conhecido o bairro. Pensei ent\u00e3o em tantos outros trabalhos que j\u00e1 fiz, tantos outros lugares pelos quais passei e que n\u00e3o conheci de fato.<\/p>\n<p><strong>Produzindo os textos<\/strong><\/p>\n<p>Dias depois, quando as fotos chegaram da revela\u00e7\u00e3o, os jovens puderam<br \/>\napreciar seu trabalho. Adoraram ver as fotos e ficaram satisfeitos com os enquadramentos. Em duplas, pedi que escrevessem textos para as imagens, retomando as anota\u00e7\u00f5es feitas na \u201cexpedi\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentando as descri\u00e7\u00f5es que julgassem interessantes.<\/p>\n<p>Os alunos se apoiaram no modelo de ficha que eu havia apresentado no primeiro encontro. Utilizaram as anota\u00e7\u00f5es realizadas durante o passeio para o preenchimento dos dados. As fichas traziam as seguintes informa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>fot\u00f3grafo<\/li>\n<li>escritor<\/li>\n<li>suporte<\/li>\n<li>localiza\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>autor (caso estivesse mencionado no grafite)<\/li>\n<li>contato (caso estivesse mencionado no grafite)<\/li>\n<\/ul>\n<p>Ao final, as crian\u00e7as ficaram ainda com a tarefa de pensar e decidir, a partir do que vimos, o que \u00e9 grafite, painel, picha\u00e7\u00e3o e pintura de parede. O que fosse apontado pelos alunos como de maior interesse seria foco de pesquisa das aulas seguintes, servindo como roteiro tanto para a consulta aos livros e revistas quanto para as entrevistas com os grafiteiros que convidariam para ir ao EGJ.<\/p>\n<p><strong>Criando um texto coletivo<\/strong><br \/>\nA atividade seguinte tinha como objetivo a elabora\u00e7\u00e3o de um texto coletivo que poderia ser usado, no futuro, para o f\u00f4lder. Queria saber como as crian\u00e7as utilizam as informa\u00e7\u00f5es trabalhadas e como as transformam em texto coletivo.<\/p>\n<p>Levei, ent\u00e3o, exemplos de f\u00f4lderes \u2013 de exposi\u00e7\u00f5es diversas, de lan\u00e7amento de livros, de programa\u00e7\u00e3o mensal etc. \u2013 para que analisassem: como circulam as<\/p>\n<p>informa\u00e7\u00f5es nesse tipo de portador de texto? Para que servem esses folhetos? Que tipo de informa\u00e7\u00e3o eles apresentam? Qual a forma de apresenta\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es? O que est\u00e1 presente em todos esses folhetos? O que t\u00eam de diferente?<\/p>\n<p>Antes da entrega dos folhetos retomei com o grupo o objetivo do projeto e o porqu\u00ea de ler os textos sobre grafite. Depois contei como consegui os folhetos e expliquei que, como eles iriam fazer algo parecido com os textos deles, teriam que conhecer um f\u00f4lder. S\u00f3 ent\u00e3o formei os agrupamentos e distribui os folhetos para que lessem e discutissem.<\/p>\n<p>Quando terminaram fiz uma roda de conversa. Como os folhetos eram muito bonitos e ilustrados a motiva\u00e7\u00e3o foi grande. Depois de todos falarem, pedi que sugerissem como gostariam de fazer a arte final de seus folhetos. Conclu\u00edram que:<\/p>\n<ul>\n<li>tem que ter t\u00edtulo<\/li>\n<li>endere\u00e7o completo do EGJ (um aluno falou at\u00e9 em e-mail)<\/li>\n<li>nome dos autores do projeto<\/li>\n<li>fotos que eles tiraram e que ainda poderiam tirar<\/li>\n<li>texto explicando o que \u00e9 grafite<\/li>\n<li>texto sobre alguns grafiteiros que eles iriam estudar (algu\u00e9m lembrou de eu ter mencionado o nome do Alex Vallauri)<\/li>\n<li>capa bem bonita<\/li>\n<li>desenhos, figurase grafites<\/li>\n<li>fotos com legendas<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Como organizar o conte\u00fado do texto<\/strong><br \/>\nRetomei ent\u00e3o um dos textos sobre grafite estudados pelos alunos. Pedi que lessem o t\u00edtulo primeiro. Depois perguntei sobre o que o texto tratava. Ningu\u00e9m respondeu. Retomei, procurei explorar o t\u00edtulo com eles e ent\u00e3o disseram que tratava das semelhan\u00e7as entre o grafite e a picha\u00e7\u00e3o. Perguntei que semelhan\u00e7as poderiam existir e se o texto dizia isso. Responderam:<\/p>\n<ul>\n<li>os dois s\u00e3o feitos na parede<\/li>\n<li>s\u00e3o coisas proibidas<\/li>\n<li>se localizam no espa\u00e7o urbano<\/li>\n<\/ul>\n<p>Pedi que me apontassem no texto a passagem que poderia confirmar o que eles diziam. Alguns conseguiram fazer isso tranq\u00fcilamente, outros precisaram de ajuda. Ent\u00e3o, Amanda, 8 anos, disse que tinha mais uma semelhan\u00e7a, mas n\u00e3o soube explicar e recorreu ao texto para ler:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cDesse modo, grafite e picha\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00f5es an\u00e1rquicas, marginalizadas no \u00e2mbito historicamente cultural, acabam sendo absorvidas pelo pr\u00f3prio sistema que as baniu&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Pedi que contasse o que a levou a imaginar que nesse trecho haveria mais uma semelhan\u00e7a. E ela respondeu:<\/p>\n<div id=\"attachment_1920\" style=\"width: 257px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1920\" class=\"wp-image-1920 \" title=\"avisala_13_grafite7\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite7.jpg\" alt=\"\" width=\"247\" height=\"217\" \/><p id=\"caption-attachment-1920\" class=\"wp-caption-text\">Atividade de pintura, a partir de leitura de imagens de diferentes grafiteiros<\/p><\/div>\n<p>\u2013 Ah, M\u00e1rcia, \u00e9 a\u00ed que est\u00e1:\u201c&#8230; acabam sendo absorvidas pelo pr\u00f3prio sistema que as baniu&#8230;.\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei o que haviam entendido sobre esse trecho e ningu\u00e9m se arriscou. Perguntei o que sabiam sobre \u201cmarginalizadas\u201d, e assim fomos decompondo a palavra, e da\u00ed em diante expliquei o contexto. Para concluir, acrescentaram mais um item \u00e0 listagem de semelhan\u00e7as:<\/p>\n<ul>\n<li>os dois j\u00e1 foram marginalizados pela sociedade<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 arte do grafite<\/strong><br \/>\nForam muitas as atividades de leitura para conhecer os diferentes grafiteiros. Entre uma e outra leitura, propunha tamb\u00e9m algumas atividades pr\u00f3prias da grafitagem como, por exemplo, a confec\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica de m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>Nas entrevistas lidas, os alunos descobriram que antigamente as lojas apresentavam os s\u00edmbolos de suas mercadorias na fachada, bem grandes: um vendedorde \u00f3culos, por exemplo, poderia pedir a um artista que desenhasse um grande \u00f3culos na parede.<\/p>\n<p>O grafiteiro Alex Vallauri partiu desse mesmo princ\u00edpio, s\u00f3 que usava os s\u00edmbolos de sua gera\u00e7\u00e3o. Perguntei ent\u00e3o ao grupo quais eram os s\u00edmbolos de sua gera\u00e7\u00e3o, e eles responderam:<\/p>\n<ul>\n<li>super-her\u00f3is (Batmam, Pok\u00e9mon e Pica-pau)<\/li>\n<li>pr\u00e9dios (marca das cidades)<\/li>\n<li>flores (preserva\u00e7\u00e3o da natureza)<\/li>\n<li>caneta (preocupa\u00e7\u00e3o com estudo)<\/li>\n<li>televis\u00e3o (marca de comunica\u00e7\u00e3o)<\/li>\n<li>computador (marca de comunica\u00e7\u00e3o)<\/li>\n<li>mo\u00e7a bonita (futuras namoradas)<\/li>\n<li>e outros desenhos como sorvete, bola, estrela, \u00f3culos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Ent\u00e3o cada um p\u00f4de desenhar seu s\u00edmbolo e, com a ajuda do educador, recortar com estilete para fazer uma esp\u00e9cie de molde vazado. As primeiras aplica\u00e7\u00f5es foram testadas sobre folhas de papel: ficaram lind\u00edssimas!<\/p>\n<p><strong>Oficinas na comunidade<\/strong><br \/>\nO professor Anderson e a coordenadora Ivanete procuraram na comunidade quem pudesse fazer algumas oficinas com as crian\u00e7as sobre a arte do grafite. O simp\u00e1tico Zizi, grafiteiro do bairro, com aproximadamente 20 anos, prontificou-se a ensin\u00e1-las.<\/p>\n<div id=\"attachment_1918\" style=\"width: 405px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1918\" class=\"size-full wp-image-1918\" title=\"avisala_13_grafite3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite3.jpg\" alt=\"\" width=\"395\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite3.jpg 395w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite3-300x211.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><p id=\"caption-attachment-1918\" class=\"wp-caption-text\">Professor auxilia grupo a produzir carta ao grafiteiro. Duas alunas pesquisam no texto uma palavra que gostariam de colocar na carta<\/p><\/div>\n<p>Durante dois meses, ele ministrou aulas de aprecia\u00e7\u00e3o, desenhos e esbo\u00e7os de grafites de artistas brasileiros famosos. Esses encontros aconteciam semanalmente e, apesar de nunca ter feito isso antes (ensinar crian\u00e7as), o jovem artista foi para o EGJ com sua pasta de desenhos para mostrar a elas, que ficavam boquiabertas com as belas produ\u00e7\u00f5es e sua facilidade em desenhar.<\/p>\n<p>Tive a oportunidade de v\u00ea-lo com as crian\u00e7as: incr\u00edvel o respeito m\u00fatuo que surgia entre todos. Inesquec\u00edvel o sorriso orgulhoso de Zizi quando era chamado de professor. Ele se mostrou extremamente generoso com elas e seu trabalho foi \u00e1rduo, porque tinham muitas dificuldades para fugir de um desenho estereotipado.<\/p>\n<p>Sabemos que ainda hoje, infelizmente, a atividade de desenho em muitas escolas est\u00e1 restrita \u00e0 educa\u00e7\u00e3o infantil, e o modelo predominante vem dos mimeografados do tipo Ursinhos Pufs, coelhinhos da P\u00e1scoa, Mickeys, M\u00f4nicas etc.<\/p>\n<p>Apesar da dificuldade, o grafiteiro conseguiu propor desafios, como escolher um tema e fazer diversos estudos sobre ele. Desse modo, as crian\u00e7as puderam aprimorar suas produ\u00e7\u00f5es, ainda que os temas fugissem um pouco dos padr\u00f5es mais encontrados nos muros grafitados.<\/p>\n<p><strong>O evento final<\/strong><br \/>\nN\u00e3o foi s\u00f3 nas aulas que o grafiteiro Zizi revelou sua preocupa\u00e7\u00e3o social e o respeito para com as crian\u00e7as: no dia combinado para grafitar o muro do CJ, depois de tantos estudos e esbo\u00e7os, ele convidou outros grafiteiros e aprendizes da pr\u00f3pria comunidade para auxiliar as crian\u00e7as na transposi\u00e7\u00e3o do que haviam planejado para o muro. Ajudaram muito, mas \u00e9 claro que tamb\u00e9m tiveram espa\u00e7o garantido para grafitar.<\/p>\n<p>Foi uma boa troca: os aprendizes de Zizi puderam usar spray de cores diferentes, o que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel, porque \u00e9 caro. Al\u00e9m disso, puderam fazer tudo \u00e0 luz do dia, o que propicia uma outra luminosidade, e, o melhor, sem correr o risco de serem presos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de muito produtiva para as crian\u00e7as, a grafitagem permitiu a esse grupo ser visto na comunidade de outra forma que n\u00e3o marginal. No dia da pintura, observei cenas marcantes dessa mudan\u00e7a de postura: vi um pai segurando sua filha no colo para que alcan\u00e7asse o topo do muro, com um spray na m\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1919\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1919\" class=\"size-full wp-image-1919\" title=\"avisala_13_grafite6\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite6.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"197\" \/><p id=\"caption-attachment-1919\" class=\"wp-caption-text\">Grafiteiro ajuda crian\u00e7a a finalizar sua id\u00e9ia<\/p><\/div>\n<p>Um outro jovem, bon\u00e9 virado para tr\u00e1s, cal\u00e7as largas e jeito despojado, auxiliando uma garotinha a controlar o jato do spray, enquanto iniciava o seu grafite. E, no final do evento, as cozinheiras do EGJ ofereceram um bolo a todos os participantes, decorado com um desenho de grafite.<\/p>\n<p>O f\u00f4lder, um produto simples mas representativo do processo de leitura e escrita, foi reproduzido e distribu\u00eddo no pr\u00f3prio dia para os pais e transeuntes que paravam para apreciar, perguntar ou posar para sair em fotos. Dessa forma, encerramos o projeto.<\/p>\n<p>Esse trabalho conciliou o estudo da leitura e da escrita com um prop\u00f3sito social e vinculou isso \u00e0 integra\u00e7\u00e3o com a comunidade.<\/p>\n<p>(M\u00e1rcia Cristina da Silva, Formadora do CEDAC e do Instituto Avisa l\u00e1)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Professor de apoio \u00e9 um formador que atua diretamente em uma sala de aula durante quatro meses, compartilhando o desenvolvimento de um projeto did\u00e1tico, junto com o educador da sala, cujo objetivo \u00e9 criar contexto de observa\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o da pr\u00e1tica pedag\u00f3gica.<br \/>\n<sup>2<\/sup> F\u00f4lder: impresso de pequeno porte, constitu\u00eddo de uma s\u00f3 folha de papel, com uma ou mais dobras, e que apresenta conte\u00fado informativo ou publicit\u00e1rio.<\/p>\n<h4>Projeto Grafite<\/h4>\n<p><strong>Faixa et\u00e1ria:<\/strong> 8 a 14 anos<\/p>\n<p><strong>Tempo previsto:<\/strong> 4 meses<\/p>\n<p><strong>Eixo de trabalho predominante:<\/strong> Pr\u00e1ticas de leitura e escrita<\/p>\n<p><strong>Objetivo compartilhado com o grupo:<\/strong> Organizar uma oficina de grafite para a comunidade e produzir um f\u00f4lder sobre o grafite para ser distribu\u00eddo no dia.<\/p>\n<p><strong>Objetivo did\u00e1tico:<\/strong> Propor situa\u00e7\u00f5es nas quais os alunos possam ler, buscar informa\u00e7\u00f5es e utiliz\u00e1-las para a produ\u00e7\u00e3o de um novo texto informativo, resumido, para compor um f\u00f4lder.<\/p>\n<p><strong>Conte\u00fado:<\/strong> Procedimentos de leitura de texto informativo.<\/p>\n<p><strong>Etapas previstas de trabalho:<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>Saber como as crian\u00e7as est\u00e3o lendo, que recursos e procedimentos utilizam.<\/li>\n<li>Conhecer o que as crian\u00e7as sabem sobre grafite.<\/li>\n<li>Propor ao grupo a interven\u00e7\u00e3o no bairro a partir do que v\u00e3o conhecer no projeto.<\/li>\n<li>Ampliar o que as crian\u00e7as conhecem sobre arte da rua, propondo uma visita ao bairro.<\/li>\n<li>Levantar com os alunos um panorama do bairro a respeito de arte de rua, utilizando como recurso tecnol\u00f3gico a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica.<\/li>\n<li>Iniciar com os alunos o processo de pesquisa sobre grafite, a partir das imagens registradas por eles.<\/li>\n<li>Ampliar os conhecimentos do grupo com a leitura de reportagens e livros sobre o grafite para selecionar informa\u00e7\u00f5es relevantes ao estudo.<\/li>\n<li>Ajudar o grupo na elabora\u00e7\u00e3o de um texto coletivo que far\u00e1 parte do f\u00f4lder.<\/li>\n<\/ol>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica:<\/h4>\n<p>Iniciativa do Instituto C&amp;A. Desenvolvimento: Cooperapic, Instituto Avisa l\u00e1 e Espa\u00e7o Gente Jovem Santa Cec\u00edlia.Tel.: (11) 5853-0173. Equipe: Anderson Santos Lima, Maria Ivanete Cabral dos Santos, M\u00e1rcia Cristina da Silva e Priscila Monteiro. Grafiteiro: Zirmalei de Jesus Ribeiro (Zizi).<\/p>\n<div id=\"attachment_1914\" style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1914\" class=\"size-full wp-image-1914  \" title=\"avisala_13_grafite1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite1.jpg\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite1.jpg 602w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2003\/01\/avisala_13_grafite1-300x171.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><p id=\"caption-attachment-1914\" class=\"wp-caption-text\">As crian\u00e7as conheceram interven\u00e7\u00f5es em ruas da Vila Madalena<\/p><\/div>\n<h4>Como propor a leitura de um texto<\/h4>\n<p>Ler, por mais simples que seja o texto, pode ser uma tarefa muito complexa para aqueles que n\u00e3o s\u00e3o leitores de fato. Mas a aproxima\u00e7\u00e3o dos textos pode ser apoiada pelo educador se ele tiver clareza do que espera da leitura. No caso do texto informativo, por exemplo, como os que foram estudados pelos jovens durante o projeto Grafite, \u00e9 importante seguir algumas orienta\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ol>\n<li>O prop\u00f3sito da leitura deve ser claramente colocado aos alunos: qual ser\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o a ser buscada?<\/li>\n<li>A leitura deve ser iniciada pelo t\u00edtulo, e o educador deve levantar com o grupo quais as antecipa\u00e7\u00f5es que podem ser feitas a respeito do texto.<\/li>\n<li>Tamb\u00e9m \u00e9 importante verificar se as crian\u00e7as manifestam d\u00favidas quanto ao entendimento de palavras ou mesmo do contexto: como procuram resolver essas d\u00favidas? Tentam explicar? Sugerem dicion\u00e1rios? Perguntam ao educador?<\/li>\n<li>Ao t\u00e9rmino de cada par\u00e1grafo, deve-se verificar com os alunos o que conseguiram entender. Pedir que manifestem suas opini\u00f5es, mesmo que contradit\u00f3rias, propondo que se reportem ao texto e, se for o caso, pedir que releiam.<\/li>\n<li>S\u00f3 ent\u00e3o o professor dever\u00e1 propor uma discuss\u00e3o sobre quais s\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es mais importantes, de acordo com a pesquisa. O professor pode optar pelo trabalho em duplas e, nesse caso, pedir que justifiquem suas indica\u00e7\u00f5es. Depois lembrar o que foi acordado.<\/li>\n<li>Importante que o grupo comece a elaborar procedimentos para sele\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es como: para selecionar, preciso saber o que estou procurando; quando achar \u00e9 importante saber grifar as informa\u00e7\u00f5es principais.<\/li>\n<\/ol>\n<h4>Estrat\u00e9gias de leitura<\/h4>\n<p>Ler um texto e compreender seus significados \u00e9 tarefa que exige mais do que a simples decodifica\u00e7\u00e3o. Durante a leitura usamos uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias que nos ajudam, pouco a pouco, a compreender os significados que v\u00e3o surgindo a cada linha.<\/p>\n<p>\u00c9 importante que os educadores ajudem os jovens a tomar consci\u00eancia e utilizar tais estrat\u00e9gias, pois elas podem definir o entendimento de seu conte\u00fado. Uma importante estrat\u00e9gia de leitura \u00e9 a antecipa\u00e7\u00e3o de significados, que pode ser feita, entre outras formas, pela leitura do t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Diante do t\u00edtulo Estilo americano no Brasil, por exemplo, do texto O que \u00e9 Grafite, de Celso Gitahy, os alunos levantaram as seguintes hip\u00f3teses, na tentativa de antecipar sobre o que o texto tratava:<\/p>\n<ul>\n<li>tipo de roupa dos americanos<\/li>\n<li>jeito de grafitar dos americanos<\/li>\n<li>grafite americano<\/li>\n<li>grafite americano que fez sucesso no Brasil<\/li>\n<li>viagem<\/li>\n<li>grafite hip-hop<\/li>\n<li>outro tipo de grafite<\/li>\n<li>o estilo de l\u00e1 que veio para c\u00e1<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>A verifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma segunda estrat\u00e9gia:<\/strong><br \/>\npor meio dela os jovens voltam ao texto para confirmar ou n\u00e3o suas hip\u00f3teses iniciais, dando prosseguimento ao trabalho de leitura. Nesse momento \u00e9 importante que o educador pe\u00e7a aos alunos que expliquem melhor, que voltem ao texto, que releiam um trecho para verificar suas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Os alunos anseiam por validar seus esfor\u00e7os, saber se estavam certos ou n\u00e3o.Atrav\u00e9s de coloca\u00e7\u00f5es simples como, por exemplo, \u201cComo voc\u00ea descobriu isto?\u201d, \u201cEm que parte do texto o autor fala sobre isto?\u201d, \u201cTem certeza de que \u00e9 isto que o texto fala, n\u00e3o gostaria de reler?\u201d, o professor pode ajudar os alunos a verificar e validar seus conhecimentos, fortalecendo o sentimento de compet\u00eancia leitora.<\/p>\n<h4>Bibliografia<\/h4>\n<ul>\n<li>Ler e escrever para estudar, apostilado, 1999. Semin\u00e1rio Internacional do Centro de Estudos da Escola da Vila.Tel.: (11) 3726-3384.<\/li>\n<li>O que \u00e9 Graffiti, Celso Gitahy. Ed. Brasiliense. Tel.: (11) 6198-1488.<\/li>\n<li>Kid Grafisco, Philip Ridley. Ed. Cia. da Letras. Tel.: (11) 3167-0801.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educadores da zona sul de S\u00e3o Paulo descobriram, no grafite, um grande aliado para o ensino de pr\u00e1ticas de leitura, escrita e de artes visuais. 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