{"id":1884,"date":"2003-01-08T20:47:47","date_gmt":"2003-01-08T22:47:47","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1884"},"modified":"2023-03-27T16:58:53","modified_gmt":"2023-03-27T19:58:53","slug":"o-preconceito-nas-entrelinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/o-preconceito-nas-entrelinhas\/","title":{"rendered":"O preconceito nas entrelinhas"},"content":{"rendered":"<h5>Quem nunca encontrou uma express\u00e3o ou informa\u00e7\u00e3o preconceituosa e racista em algum livro, nos versos das brincadeiras tradicionais infantis, nas express\u00f5es populares? A presen\u00e7a desses textos no cotidiano das institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o nos convida a pensar sobre os valores que queremos de fato transmitir e como os educadores podem mudar essa realidade<\/h5>\n<p><!--more--><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1887\" title=\"avisala_13_jeitos\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_13_jeitos.jpg\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_13_jeitos.jpg 602w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_13_jeitos-300x165.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><br \/>\n&#8220;Barra manteiga na fu\u00e7a da nega, um, dois, tr\u00eas\u201d, diz a brincadeira tradicional<sup>1<\/sup> encontrada em v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil e bastante apreciada pelas crian\u00e7as nos parques e recreios. Os adultos, entretidos com o corre-corre, a movimenta\u00e7\u00e3o e a anima\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, muitas vezes n\u00e3o se d\u00e3o conta dos valores transmitidos nesses versos.<\/p>\n<p>De onde teria vindo esta letra? Ser\u00e1 que existem outras brincadeiras que tratam os brancos dessa mesma maneira? N\u00e3o \u00e9 o que temos visto. Confira, no exemplo do popular joguete de decis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem uma bonequinha?<br \/>\nEla \u00e9 loira e engra\u00e7adinha?<br \/>\nQuantos anos ela tem?<br \/>\n1, 2, 3, 4&#8230;2&#8221;<\/p>\n<p>Caracter\u00edsticas positivas como bonequinha e engra\u00e7adinha est\u00e3o ligadas ao biotipo loiro, alimentam a auto-estima do branco. Outros exemplos se espalham por a\u00ed, refor\u00e7ando, de forma inconsciente, valores racistas.<\/p>\n<p>Quais os impactos que isso pode ter na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as? Bel Santos e J\u00falia Rosemberg, integrantes da equipe do Programa de Educa\u00e7\u00e3o do CEERT e da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de S\u00e3o Paulo, respondem a esta quest\u00e3o: \u201cOs estere\u00f3tipos sobre a popula\u00e7\u00e3o negra, transmitidos por meio de apelidos que os comparam a animais ou objetos (macaco, gorila, carv\u00e3o etc.), das m\u00fasicas infantis e de ilustra\u00e7\u00f5es que os colocam sempre como escravo, como minoria ou desenvolvendo atividades subalternas, provocam nas crian\u00e7as negras a cren\u00e7a de que estes s\u00e3o os seus lugares, que esta \u00e9 a \u00fanica hist\u00f3ria poss\u00edvel\u201d, afirmam elas, chamando a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que as crian\u00e7as negras n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas prejudicadas:<\/p>\n<p>\u201cPor outro lado, o efeito na crian\u00e7a branca \u00e9 de faz\u00ea-la acreditar em sua superioridade. S\u00e3o conseq\u00fc\u00eancias desastrosas, para todos os envolvidos, porque favorecem a constru\u00e7\u00e3o de uma imagem de si que \u00e9, no m\u00ednimo, injusta e incorreta.\u201d<\/p>\n<p><strong>Monteiro Lobato: um caso de racismo?<\/strong><br \/>\nDe fato, mesmo na literatura de boa qualidade, n\u00e3o se pode negar a exist\u00eancia de textos que discriminam os negros. S\u00e3o mensagens que ofendem a auto-estima da crian\u00e7a negra e lhe negam refer\u00eancias positivas e fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o e o fortalecimento de sua identidade.<\/p>\n<p>Inaldete Pinheiro de Andrade, ativista do movimento negro no Recife, estudou a fundo essa quest\u00e3o. Em seu livro Racismo e antiracismo na literatura infanto-juvenil, ela denuncia: \u201cA omiss\u00e3o da identidade, os apelidos depreciativos, est\u00e3o no cotidiano das crian\u00e7as negras.<\/p>\n<p>Com o refor\u00e7o da literatura infanto-juvenil, este segmento de escritores e escritoras, est\u00e3o garantindo a manuten\u00e7\u00e3o dos preconceitos e discrimina\u00e7\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o negra, com o poder da linguagem.\u201d<\/p>\n<p>Monteiro Lobato, um dos mais importantes escritores da literatura infanto-juvenil, \u00e9 um exemplo de escritor conceituado que infelizmente escreve de maneira a refor\u00e7ar preconceitos. Veja como Dona Benta se refere \u00e0 negra Nast\u00e1cia.<!--more--><\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 disse Dona Benta. \u2013 N\u00f3s n\u00e3o podemos exigir do povo o apuro art\u00edstico dos grandes escritores. O povo &#8230;Que \u00e9 o povo? S\u00e3o essas pobres tias velhas, como Nast\u00e1cia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outras coisa n\u00e3o fazem sen\u00e3o ouvir as hist\u00f3rias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passa-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.<\/p>\n<p>E mais adiante, na voz de Em\u00edlia, encontramos a seguinte impress\u00e3o sobre as tradicionais e populares hist\u00f3rias recontadas por tia Nast\u00e1cia.<\/p>\n<p>\u2013 (&#8230;) Parecem-me muito grosseiras e b\u00e1rbaras \u2013 coisa mesma de negra bei\u00e7uda, como tia Nast\u00e1cia.<\/p>\n<div id=\"attachment_1888\" style=\"width: 186px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1888\" class=\"size-full wp-image-1888\" title=\"avisala_13_jeitos3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_13_jeitos3.jpg\" alt=\"\" width=\"176\" height=\"224\" \/><p id=\"caption-attachment-1888\" class=\"wp-caption-text\">A imagem estereotipada n\u00e3o combina com a sabedoria de uma negra velha<\/p><\/div>\n<p>Sem d\u00favida, o autor teve um papel fundamental para o desenvolvimento de uma literatura nacional. \u201cEle quebrou a depend\u00eancia dos padr\u00f5es liter\u00e1rios vindos da Europa\u201d, reconhece Inaldete.<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o se pode negar que em algumas de suas obras, sobretudo no S\u00edtio do Pica Pau Amarelo, o escritor, influenciado por um tempo marcado pela experi\u00eancia escravocrata, reproduziu a sociedade da casa-grande.<\/p>\n<p>Em suas hist\u00f3rias, a crian\u00e7a negra n\u00e3o encontra personagens positivos com quem possa identificar-se: \u201cDona Benta \u00e9 a patroa, senhora branca, intelectual, conhecedora do mundo europeu. Em\u00edlia, Narizinho, Pedrinho, Visconde, todas as figuras brancas s\u00e3o inteligentes. Tia Nast\u00e1cia \u00e9 a empregada, negra, que s\u00f3 fala basbaquices, cheia de espantos.<\/p>\n<p>Lobato subjuga tia Nast\u00e1cia a um papel rid\u00edculo, somente lhe dando destaque como boa quituteira \u2013 a velha imagem escravocrata de que lugar de negra \u00e9 na cozinha (&#8230;).<\/p>\n<p>Usa a express\u00e3o racista tradicional \u2013 a negra \u2013, querendo lembrar constantemente que ela \u00e9 diferente do grupo e por isso a cor da sua pele deve ser lembrada com inferioridade, com desprezo, sua condi\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca de ser negra.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 surpreendente que o autor n\u00e3o elogiasse a heran\u00e7a africana de tia Nast\u00e1cia como contadora de hist\u00f3ria, nota Inaldete. \u201cEm nenhum momento ela \u00e9 vista como detentora ou transmissora de conhecimentos que, como negra velha certamente acumulou, considerando ser a linguagem oral uma pr\u00e1tica aplicada nas culturas tradicionais, tra\u00e7os marcantes nas popula\u00e7\u00f5es negras, assim como nas outras culturas onde predominou a oralidade. E tia Nast\u00e1cia vem daquela \u00e9poca&#8230;\u201d<br \/>\n<strong><br \/>\nE agora: ler ou n\u00e3o ler?<\/strong><br \/>\nA quest\u00e3o se resume em decidir ler ou n\u00e3o ler? Devemos excluir esses conte\u00fados dos planejamentos? Afastar as crian\u00e7as \u00e9 uma medida que resolve?<\/p>\n<p>Julia Rosemberg e Bel Santos, do CEERT, t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o frente a essa quest\u00e3o: \u201cN\u00e3o h\u00e1 conte\u00fado que deva ser escondido ou livro que deva ser queimado, sem provocar uma discuss\u00e3o sobre seus conte\u00fados.\u201d, dizem as educadoras que v\u00eam trabalhando para melhorar significativamente as rela\u00e7\u00f5es entre negros e brancos nos ambientes escolares.<\/p>\n<p>Sabemos que esses textos existem, est\u00e3o nos livros e agora na TV, na m\u00eddia de maneira geral. Est\u00e1 no mundo, no nosso cotidiano. N\u00e3o h\u00e1 como negar sem que se corra o risco de disfar\u00e7ar a realidade e amenizar as diferen\u00e7as que, dessa forma, continuam veladas.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 importante apresentar a obra e discuti-la criticamente. Contextualizar historicamente, ajudar os alunos a identificar as passagens preconceituosas, enfim, possibilitar uma leitura cr\u00edtica. Al\u00e9m de Monteiro Lobato, muitos outros escritores famosos podem apresentar um texto que induz \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e que necessitaria de uma reflex\u00e3o atenta.<\/p>\n<p><strong>Como fazer boas escolhas<\/strong><br \/>\nA escola assume um importante papel ao escolher e apresentar produ\u00e7\u00f5es culturais para as crian\u00e7as, procurando analisar se nesse material as pessoas s\u00e3o tratadas corretamente. Estudos de Fulvia Rosemberg e R. Paim e de A.C. Silva (veja bibliogafia)<sup>3<\/sup> trazem refer\u00eancias que orientam os educadores a tomar decis\u00f5es importantes na hora de escolher a literatura que vai incentivar em sua classe.<\/p>\n<p>Alguns indicadores podem ajudar na sele\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel, por exemplo, analisar se: os negros aparecem ocupando diversas posi\u00e7\u00f5es sociais e profissionais, n\u00e3o apenas nas posi\u00e7\u00f5es subalternas como morador de rua, dom\u00e9stica, lixeiro etc.; a imagem dos negros \u00e9 valorizada em si ou se s\u00e3o comparados a animais, parecidos com macacos e outros; os negros se apresentam em toda a hist\u00f3ria ou se s\u00f3 aparecem para ilustrar o per\u00edodo da escravid\u00e3o; se as personagens negras s\u00e3o ressaltadas e valorizadas ou se sempre aparecem em \u00faltimo lugar.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Bel e J\u00falia e as iniciativas do CEERT est\u00e3o contribuindo para formar leitores mais cr\u00edticos, que podem, inclusive, aprender a reclamar: isso possibilita avan\u00e7os no campo editorial, que podem produzir materiais did\u00e1ticos e paradid\u00e1ticos que respeitem a diversidade humana, recusem o incorreto e o estereotipado.<\/p>\n<p>Podemos propor reelabora\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas, poemas, versos etc. de modo a ressignificar condutas, conceitos, posturas etc., para que uma mudan\u00e7a de atitude ocorra de fato.\u201d \u201c\u00c9 valioso desconstruir estere\u00f3tipos, como sugere a professora Ana C\u00e9lia da Silva <sup>4<\/sup>, mas acreditamos que esta deva ser uma atividade feita em conjunto, com as crian\u00e7as negras e brancas. O verso (loira engra\u00e7adinha), por exemplo, pode ser substitu\u00eddo por todas as outras caracter\u00edsticas das pessoas presentes na sala de aula.<\/p>\n<p>Talvez com outras m\u00fasicas a decis\u00e3o coletiva deva ser: \u2018n\u00e3o cantamos mais porque esta m\u00fasica \u00e9 racista!\u2019 Qualquer que seja o caso, n\u00e3o seria suficiente proibir os alunos de cantarem: eles precisam, como sujeitos, recusarem-se a cant\u00e1-la.\u201d<\/p>\n<p><strong>O papel da literatura antiracista <\/strong><br \/>\nA literatura infantil oferece, sim, uma oportunidade de rever as posi\u00e7\u00f5es racistas, desde que os adultos se posicionem: devem se preocupar em apresentar \u00e0s crian\u00e7as textos de uma grande diversidade liter\u00e1ria, incluindo express\u00f5es anti-racistas.<\/p>\n<p>Inaldete \u00e9 uma entusiast<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1889\" title=\"avisala_13_jeitos1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_13_jeitos1.jpg\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"184\" \/>a desse tipo de literatura, mas esclarece que n\u00e3o se trata de obrigar as crian\u00e7as a uma leitura for\u00e7ada apenas para conseguir uma nota melhor na escola. Faz-se necess\u00e1rio incentivar o gosto pela leitura, e o adulto, cumprindo o papel de educador, deve fazer distin\u00e7\u00f5es entre os textos e se empenhar para que as crian\u00e7as escolham.<\/p>\n<p>Esse ideal se faz presente na sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica de escritora para p\u00fablico infanto-juvenil: ela se empenha em transmitir a tradi\u00e7\u00e3o oral ao mesmo tempo em que informa as crian\u00e7as sobre as origens negras de seus antepassados, como faz em Cinco Cantigas para Voc\u00ea Contar:<\/p>\n<p>\u201cEscravos de J\u00f3<br \/>\nJogavam caxang\u00e1<br \/>\nTira, bota<br \/>\nDeixa zambel\u00ea ficar<br \/>\nGuerreiros com guerreiros<br \/>\nFazem zigue-zigue e z\u00e1s! (bis)<\/p>\n<p>Foi assim que meu av\u00f4 fugiu da tirania do senhor. Meu av\u00f4 dizia que foi negro fuj\u00e3o, tantas vezes era pego, tantas vezes fugia, porque n\u00e3o aceitava a escravid\u00e3o. Cada dia era dia de um negro fugir para a liberdade e de zigue-zigue e zigue-zigue, z\u00e1s!&#8230; fugia do capataz.<\/p>\n<p>Na outra senzala a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diferente. Com a escravid\u00e3o ningu\u00e9m era contente, s\u00f3 o senhor, que vivia dessa explora\u00e7\u00e3o. Os negros brincavam na capoeira e, de golpe em golpe inventado, viram o jogo aprimorado para se defenderem do capit\u00e3o do mato.<\/p>\n<p>(&#8230;) Vou m\u00b4embora pra um quilombo, nada de chicote no lombo; no quilombo eu sou livre, n\u00e3o tenho senhor, n\u00e3o\u201d \u2013 dizia o vov\u00f4, negro fuj\u00e3o, que n\u00e3o temia capataz e de zigue-zigue e ziguezigue, z\u00e1s! era um guerreiro, escravo nunca mais.\u201d<\/p>\n<p>Sabemos que a pr\u00e1tica da leitura \u00e9 um instrumento de acesso \u00e0 compreens\u00e3o do mundo: resta, agora, incluir os negros nesse universo e tirar as crian\u00e7as negras da invisibilidade, para que possam, tal como as brancas, ter seus iguais aparecendo nas lendas, f\u00e1bulas e outras hist\u00f3rias, de uma maneira mais respeitosa e justa.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Barra-manteiga, brincadeira do folclore popular e do repert\u00f3rio infantil.<br \/>\n<sup>2<\/sup> Fonte: pesquisa oral da professora Lucilene da Silva.<br \/>\n<sup>3<\/sup> Fonte: CEERT- Centro de Estudos \u00c9tnicos e Raciais.Tel.: (11) 3868-1804.<br \/>\n<sup>4<\/sup> Ana C\u00e9lia da Silva. Desconstruindo a discrimina\u00e7\u00e3o do negro no livro did\u00e1tico, EDUFBA.<\/p>\n<h4>Como \u00e9 ser negro<\/h4>\n<p>\u201cUma vez, sentei debaixo de uma parreira de uva, na casa da v\u00f3 L\u00eddia. Fiquei olhando para o alto, as bolinhas cheias de suco por dentro. Eram muito saborosas (quando eu n\u00e3o descobria formigas entre os gomos).<\/p>\n<p>A v\u00f3 L\u00eddia sempre ficava ali, arrumando suas plantinhas, enchendo o mundo com cheiro de terra molhada. Nossa conversa era ela perguntar pouco e eu responder pouquinho. Mas tinha um amor que grudava a gente, uma na outra. L\u00e1 estava ela, a v\u00f3 linda com sua cor negra, cabelo branquinho, olhos serenos, m\u00e3os fortes e uma perna manca.<\/p>\n<p>E a\u00ed eu perguntei:<br \/>\n\u2013 V\u00f3, quem inventou a cor das pessoas?<\/p>\n<p>Isso eu perguntei porque havia aprendido que uns s\u00e3o amarelos, outros<br \/>\nbrancos e outros vermelhos.<\/p>\n<p>Ela disse: \u2013 Eu s\u00f3 respondo se tu me disser quem inventou o nome da cor das pessoas.<\/p>\n<p>Eu fiquei l\u00e1, pensando e chupando uva, e ela continuou plantando suas sementes.\u201d<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias da Preta. Heloisa Pires Lima. Cia. das Letrinhas.Tel.: (11) 3167-0801.<\/p>\n<div id=\"attachment_1890\" style=\"width: 117px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1890\" class=\"size-full wp-image-1890\" title=\"avisala_13_jeitos2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_13_jeitos2.jpg\" alt=\"\" width=\"107\" height=\"133\" \/><p id=\"caption-attachment-1890\" class=\"wp-caption-text\">Hist\u00f3rias da Preta. Heloisa Pires Lima<\/p><\/div>\n<h4>Para saber Mais<\/h4>\n<p><strong>Dicas de leitura<\/strong><\/p>\n<p>\u201cUm bom texto sobre diversidade humana, n\u00e3o necessariamente fala sobre o tema\u201d \u2013 explicitamente dizem as educadoras do CEERT, J\u00falia Rosemberg e Bel Santos. \u201cNa Educa\u00e7\u00e3o Infantil e nas s\u00e9ries iniciais, as imagens desempenham papel primordial no contato com o texto.<\/p>\n<p>Convidar\u00edamos os educadores a levar para a sala de aula o livro Tanto, Tanto!, de Trish Cooke, rec\u00e9m traduzido pela Editora \u00c1tica, que fala de um dia de festa na vida de um beb\u00ea; de como sua fam\u00edlia se relaciona com ele; do quanto ele \u00e9 \u2018fofo\u2019 e desperta bons sentimentos e vontade de brincar em quem se aproxima. Como um texto desse fala de diversidade? A ilustradora Helen Oxenbury traz uma fam\u00edlia negra extremamente simp\u00e1tica.<\/p>\n<p>Outra sugest\u00e3o, tamb\u00e9m da Editora \u00c1tica em parceria com a Unicef, \u00e9 Crian\u00e7as do Mundo Todo, que apresenta como e com quem vivem, como se vestem, do que brincam o que comem etc. \u00c9 um convite para conhecer os afrobrasileiros. Quais costumes africanos incorporaram-se \u00e0 cultura brasileira?\u201d<\/p>\n<p>Inaldete Pinheiro Andrade, a autora que tanto contribuiu para esta mat\u00e9ria, tamb\u00e9m d\u00e1 suas sugest\u00f5es: A Prefeitura \u00e9 Nossa, de Nicol\u00e9lis, conta a hist\u00f3ria de um garoto que com sua turma dirige a cidade: o detalhe interessante \u00e9 que o prefeito \u00e9 negro! Negro tamb\u00e9m \u00e9 o l\u00edder da turma do bairro, personagem principal da cole\u00e7\u00e3o Catapimba e sua Turma, de Ruth Rocha.<\/p>\n<p>Pretinha e Branquinha, as fadas do livro de Lucia G\u00f3es, desconstroem o estere\u00f3tipo europeu t\u00e3o enfatizado nos livros infantis.<\/p>\n<p>Em O Bonequinho Doce, de Ala\u00edde Lisboa Oliveira, as crian\u00e7as podem aprender com os personagens do livro que ningu\u00e9m nasce racista, aprende-se a ser racista. Da mesma autora,A Bonequinha Preta conta a afei\u00e7\u00e3o de uma menina branca por sua boneca negra.<\/p>\n<p>Um N\u00f3 na Garganta, \u00e9 o que sentia a personagem de Mirna Pisnky, de tanto ser desprezada por ser negra, at\u00e9 o dia em que se olhou no espelho e notou que era realmente bonita.<\/p>\n<p>E Ana Maria Machado, t\u00e3o apreciada pelo p\u00fablico infantil, nos brinda com uma s\u00e9rie de livros que refor\u00e7am a beleza e a intelig\u00eancia de personagens negros, alimentando com leveza e muita gra\u00e7a o debate sobre as rela\u00e7\u00f5es entre negros e brancos.<\/p>\n<p>S\u00e3o dicas imperd\u00edveis: Raul da Ferrugem Azul, Do outro lado tem Segredo, De Olhos nas Penas, Era Uma Vez Um Tirano, Pena de Pato e Tico-tico, Mandigas na Ilha Quilombola, O Pav\u00e3o do Abre e Fecha, Menina Bonita do La\u00e7o de Fita.<\/p>\n<h4>Bibliografia<\/h4>\n<ul>\n<li>Racismo e Anti-racismo na Literatura Infanto-juvenil. Inaldete Pinheiro de Andrade. Etnia Produ\u00e7\u00e3o Editorial.Tel.: (81) 3271-0437.<\/li>\n<li>Preconceito de Cor e a Mulata na Literatura Brasileira. J.R. Queiroz. Ed. \u00c1tica.Tel.: 11) 3346-3000.<\/li>\n<li>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Literatura Negra. Zil\u00e1 Bernd. Ed. Brasiliense.Tel.: (11) 6198-1488.<\/li>\n<li>Literatura Infantil e Ideologia. F\u00falvia Rosemberg.Teses 14. Ed. Global. Tel.: (11) 3277-7999.<\/li>\n<li>A Literatura Infantil na Escola. Regina Zilberman.Tese 1. Ed. Global.<\/li>\n<li>Racismo e anti-racismo na educa\u00e7\u00e3o &#8211; repensando nossa escola. Eliane Cavalleiro (organizadora). Editora Selo Negro &#8211; Summus. Tel.: (11) 3872-3322.<\/li>\n<li>Paiad\u00e3o era nag\u00f4 e Cinco cantigas para voc\u00ea contar. Inaldete Pinheiro de Andrade. Servi\u00e7o de Apoio \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Alternativa \u2013 Centro Luis Freire. Tel.: (81) 3301-5241.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nunca encontrou uma express\u00e3o ou informa\u00e7\u00e3o preconceituosa e racista em algum livro, nos versos das brincadeiras tradicionais infantis, nas express\u00f5es populares? A presen\u00e7a desses textos no cotidiano das institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o nos convida a pensar sobre os valores que queremos de fato transmitir e como os educadores podem mudar essa realidade<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3200,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,374],"tags":[1104,509,512,511,507,510,508,44,43],"class_list":{"0":"post-1884","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-jeitos-de-cuidar","8":"category-revista-avisala-13","9":"tag-revista-avisa-la-2003","10":"tag-cantigas","11":"tag-discriminacao","12":"tag-identidade","13":"tag-igualdade","14":"tag-inaldete-pinheiro-de-andrade","15":"tag-literatura","16":"tag-negro","17":"tag-racismo","19":"post-with-thumbnail","20":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1884"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1884\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}