{"id":1836,"date":"2002-10-06T12:12:13","date_gmt":"2002-10-06T15:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1836"},"modified":"2023-03-27T16:57:33","modified_gmt":"2023-03-27T19:57:33","slug":"deixe-que-digam-que-pensem-que-facam-os-conhecimentos-previos-na-formacao-de-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/deixe-que-digam-que-pensem-que-facam-os-conhecimentos-previos-na-formacao-de-professores\/","title":{"rendered":"Deixe que digam, que pensem, que fa\u00e7am &#8211; Os conhecimentos pr\u00e9vios na forma\u00e7\u00e3o de professores"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1841\" style=\"width: 149px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1841\" class=\"size-full wp-image-1841\" title=\"avisala_12_reflex7\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex7.jpg\" alt=\"\" width=\"139\" height=\"146\" \/><p id=\"caption-attachment-1841\" class=\"wp-caption-text\">Prof.a Lindalva<\/p><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Falar sobre a forma\u00e7\u00e3o de professores, no momento atual, significa pensar sobre os desafios que ela coloca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas finalidades (Atualizar os professores em rela\u00e7\u00e3o a novos saberes disciplinares? Transformar as pr\u00e1ticas e a perspectiva did\u00e1tica que lhes d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o?), aos seus conte\u00fados (As disciplinas? Os m\u00e9todos? O conhecimento did\u00e1tico?), e aos seus dispositivos (Aprender com especialistas das \u00e1reas? Com bons modelos? Com a an\u00e1lise de situa\u00e7\u00f5es profissionais?).<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o permanente dos professores \u00e9 algo bastante recente e por algum tempo foi centralizada nos professores especialistas (ling\u00fcistas, psic\u00f3logos, matem\u00e1ticos etc.) com o intuito de promover a atualiza\u00e7\u00e3o quanto aos saberes disciplinares.<\/p>\n<p>Hoje, com a consolida\u00e7\u00e3o de um outro paradigma de forma\u00e7\u00e3o de professores, surge uma nova figura nesse cen\u00e1rio: o formador de professores. Quem \u00e9 esse profissional? Temos chamado de formador um profissional que tem, na pr\u00e1tica pedag\u00f3gica, a mat\u00e9ria-prima de seu trabalho, cujo objetivo \u00e9 desenvolver a autonomia dos professores mediante a constru\u00e7\u00e3o conjunta dos meios da reflex\u00e3o na e sobre sua a\u00e7\u00e3o para que se apropriem dos fundamentos do que fazem.<!--more--><\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a traz, para o formador, uma s\u00e9rie de desafios: al\u00e9m de construir o conhecimento did\u00e1tico necess\u00e1rio \u00e0 an\u00e1lise dos problemas que os professores enfrentam nas situa\u00e7\u00f5es de sala de aula, ele tamb\u00e9m precisa valorizar os saberes advindos da experi\u00eancia, desenvolver uma forte articula\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica, formular boas situa\u00e7\u00f5es formativas e refletir continuamente sobre as suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse formador perdeu, portanto, o porto seguro das certezas do especialista e a ilus\u00e3o pedag\u00f3gica da transmiss\u00e3o de saberes, estando, com isso, submetido \u00e0 necessidade de aprender sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o ensino e a aprendizagem na forma\u00e7\u00e3o de professores, tomando a sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica como objeto de an\u00e1lise e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o deste artigo \u00e9 analisar a primeira atividade realizada no contexto de um programa de forma\u00e7\u00e3o, a qual substituiu a tradicional etapa inicial de diagn\u00f3stico (realizado apenas pelo formador com o prop\u00f3sito de identificar problemas e buscar solu\u00e7\u00f5es) por uma situa\u00e7\u00e3o-problema que consistiu na realiza\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o did\u00e1tica seguida da reflex\u00e3o sobre ela.<\/p>\n<p>Tal entrada tinha como objetivo favorecer uma participa\u00e7\u00e3o ativa dos professores desde o in\u00edcio do processo, ampliar as possibilidades de assimila\u00e7\u00e3o de novos conhecimentos did\u00e1ticos e, ao mesmo tempo, desvelar ao formador os conhecimentos pr\u00e9vios dos professores e suas pr\u00e1ticas habituais.<\/p>\n<div id=\"attachment_1842\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1842\" class=\"size-full wp-image-1842\" title=\"avisala_12_reflex3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex3.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"169\" \/><p id=\"caption-attachment-1842\" class=\"wp-caption-text\">Prof.a S\u00f4nia<\/p><\/div>\n<p>O programa de forma\u00e7\u00e3o de professores<sup>1<\/sup> de 1\u00aa \u00e0 4\u00aa s\u00e9ries de escolas p\u00fablicas de Serra Pelada<sup>2<\/sup> consiste em uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es formativas para colaborar com a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem da leitura e escrita.<\/p>\n<p>Trata-se de uma proposta de forma\u00e7\u00e3o profissional articulada ao contexto real de trabalho via a realiza\u00e7\u00e3o de projetos did\u00e1ticos pelos professores com seus alunos. Para desenvolv\u00ea-los, os professores contam com a supervis\u00e3o de uma formadora que faz visitas mensais ao munic\u00edpio e tamb\u00e9m utiliza estrat\u00e9gias de acompanhamento a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O programa foi iniciado em mar\u00e7o de 2002 e ter\u00e1 a dura\u00e7\u00e3o de quatro anos. A an\u00e1lise que faremos neste artigo circunscreve-se, portanto, \u00e0s primeiras a\u00e7\u00f5es desenvolvidas com os professores das escolas envolvidas.<\/p>\n<p><strong>Conhecendo Serra Pelada: suas escolas, professores e alunos<\/strong><br \/>\nNa primeira viagem, enquanto sub\u00edamos a serra, fomos surpreendidas pela beleza da paisagem e pela singularidade das hist\u00f3rias, quase sempre ligadas \u00e0 atividade do garimpo de ouro (pela qual a regi\u00e3o tornou-se conhecida na d\u00e9cada de 80), contadas pelas educadoras que nos recebiam.<\/p>\n<p>Tratamos de conhecer o povoado e visitamos as escolas participantes do Programa: fizemos contatos com os diretores e apresentamos a proposta de trabalho. Percorrendo as escolas e as salas de aula, notamos que n\u00e3o havia livros nas classes, a n\u00e3o ser os did\u00e1ticos que pareciam bastante utilizados na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhuma das escolas possu\u00eda um espa\u00e7o de leitura j\u00e1 instalado ou mesmo um outro dispon\u00edvel para que isso viesse a acontecer, o que nos pareceu ser decorrente da aus\u00eancia ou da escassez de livros observada nas escolas.<\/p>\n<p>Embora o trabalho estivesse sendo inaugurado com esse encontro, j\u00e1 tomamos uma iniciativa que pretendia come\u00e7ar a operar alguma transforma\u00e7\u00e3o (por m\u00ednima que pudesse ser, naquele momento) e, ao mesmo tempo, demonstrar que ir\u00edamos oferecer suporte material e pedag\u00f3gico para que as mudan\u00e7as pretendidas pudessem, de fato, vir a ocorrer.<\/p>\n<div id=\"attachment_1843\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1843\" class=\"size-full wp-image-1843\" title=\"avisala_12_reflex5\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex5.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"210\" \/><p id=\"caption-attachment-1843\" class=\"wp-caption-text\">Serra Pelada no Futuro &#8211; Prof.a Gerlane<\/p><\/div>\n<p>Deixamos com cada um dos diretores alguns livros de literatura infantil doados pelo MEC com o pedido de que chegassem \u00e0s m\u00e3os dos professores, os quais, por sua vez, deveriam l\u00ealos para os alunos.<\/p>\n<p>Combinamos que, em nosso encontro seguinte, receber\u00edamos not\u00edcias do que havia sido feito a partir de um pedido aparentemente t\u00e3o simples, de algo que poderia ser corriqueiro em outro contexto.<\/p>\n<p>Criamos, assim, uma atividade inicial com o objetivo de desencadear o trabalho com um dos primeiros conte\u00fados que elegemos para a forma\u00e7\u00e3o &#8211; a leitura de hist\u00f3rias pelo professor \u2013 e de fazer o levantamento dos conhecimentos pr\u00e9vios dos professores em rela\u00e7\u00e3o a essa situa\u00e7\u00e3o did\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Coletando os depoimentos: professores, alunos e livros<\/strong><br \/>\nNa segunda viagem fomos preparadas para colher os depoimentos dos professores e diretores, com gravador em punho e muita curiosidade para saber o que havia acontecido. Sup\u00fanhamos que essa atividade inicial traria um elemento novo na rotina de crian\u00e7as e professores e nos permitiria o acesso \u00e0s concep\u00e7\u00f5es desses \u00faltimos sobre leitura, mesmo que n\u00e3o tivessem a pr\u00e1tica de ler hist\u00f3rias para seus alunos, em fun\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de livros de literatura infantil.<\/p>\n<p>Dissemos aos diretores que gostar\u00edamos muito de saber que efeitos os livros causaram no grupo de professores e de alunos das escolas. Alguns dos depoimentos obtidos nesse momento nos indicaram que um movimento de aprecia\u00e7\u00e3o da literatura come\u00e7ava a acontecer tanto entre os professores quanto entre as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Ouvimos, entre outras coisas, que algumas professoras se encantaram com as hist\u00f3rias lidas em classe e levaram os livros para casa com o intuito de ler tamb\u00e9m para seus filhos pequenos. Soubemos que alguns alunos mais velhos, de 5a em diante, pediram para ler os livros rec\u00e9m-chegados no hor\u00e1rio de intervalo das aulas.<\/p>\n<p>Nas classes de 1a \u00e0 4a s\u00e9ries em que a leitura foi feita, as crian\u00e7as apreciaram os livros, pediram para ouvir novamente a hist\u00f3ria e passaram a \u201cexigir\u201d que outras fossem lidas nos dias que se seguiram \u00e0 primeira leitura. Em muitos casos, realmente se caracterizou uma completa novidade, como sup\u00fanhamos que fosse acontecer.<\/p>\n<p>Na conversa que tivemos com diretores, desej\u00e1vamos ter not\u00edcias do que tinha acontecido com a entrada dos livros nas escolas; j\u00e1 na conversa com os professores quer\u00edamos saber de que maneira haviam encaminhado a atividade de leitura de hist\u00f3rias com as crian\u00e7as.<\/p>\n<div id=\"attachment_1844\" style=\"width: 176px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1844\" class=\"size-full wp-image-1844\" title=\"reflex9\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/reflex9.jpg\" alt=\"\" width=\"166\" height=\"99\" \/><p id=\"caption-attachment-1844\" class=\"wp-caption-text\">Compartilhando saberes durante o processo formativo<\/p><\/div>\n<p>Os professores deram depoimentos de forma detalhada, incentivados por nosso interesse e nossas perguntas. Por limita\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel incluir aqui todos eles, mas os quatro fragmentos a seguir (veja abaixo, no final da mat\u00e9ria) podem exemplificar o quanto nos informam sobre as concep\u00e7\u00f5es dos professores acerca da leitura.<\/p>\n<p><strong>Os conhecimentos pr\u00e9vios dos professores<\/strong><br \/>\nAnalisamos a transcri\u00e7\u00e3o dos depoimentos dos professores sobre a atividade feita com os livros que haviam sido doados \u00e0s escolas. Notamos que as falas eram muito ricas e transparentes e revelavam que, mesmo que n\u00e3o tivessem condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da leitura de hist\u00f3rias de modo freq\u00fcente, sistem\u00e1tico e intencional, ficaram mobilizadas para pensar sobre essa atividade e tinham muitas id\u00e9ias a respeito.<\/p>\n<p>No seu conjunto, os depoimentos revelam o que alguns dos professores j\u00e1 sabiam (impl\u00edcita ou explicitamente) que:<\/p>\n<ul>\n<li>a leitura de hist\u00f3rias interessa aos alunos, desperta sua curiosidade e \u00e9 apreciada por eles; os alunos imaginam as situa\u00e7\u00f5es narradas e exercem sua criatividade a partir delas;<\/li>\n<li>\u00e9 poss\u00edvel ter interpreta\u00e7\u00f5es diferentes para um mesmo texto e opini\u00f5es diferentes sobre a tem\u00e1tica abordada;<\/li>\n<li>\u00e9 poss\u00edvel conversar com os alunos antes da leitura para que antecipem o que poder\u00e3o encontrar a partir do t\u00edtulo, da capa, da apresenta\u00e7\u00e3o feita pela professora;<\/li>\n<li>\u00e9 poss\u00edvel conversar com os alunos depois da leitura das hist\u00f3rias para saber o que pensaram, o que sentiram, que rela\u00e7\u00f5es estabeleceram e as diferentes opini\u00f5es presentes no grupo;<\/li>\n<li>\u00e9 poss\u00edvel escolher o momento da rotina mais adequado para realizar a leitura;<\/li>\n<li>alunos s\u00e3o capazes de recriar hist\u00f3rias lidas, acrescentando elementos novos e diferentes da vers\u00e3o original;<\/li>\n<li>os alunos conhecem hist\u00f3rias e podem narr\u00e1-las;<\/li>\n<li>as hist\u00f3rias podem emocionar, comover e agradar seus leitores e ouvintes, inclusive, o pr\u00f3prio professor;<\/li>\n<li>a leitura de hist\u00f3rias cria v\u00ednculo, elos de amizade entre professor e alunos e entre os colegas;<\/li>\n<li>a organiza\u00e7\u00e3o dos alunos na forma de uma roda facilita a participa\u00e7\u00e3o na atividade de leitura de hist\u00f3rias;<\/li>\n<li>o leitor deve \u201cviver\u201d a hist\u00f3ria;<\/li>\n<li>ler narrativas contidas nos livros did\u00e1ticos n\u00e3o suscita o mesmo interesse do que ler os livros de literatura infantil que receberam;<\/li>\n<li>a leitura de textos diferentes feita por diferentes subgrupos de uma mesma classe confere sentido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de reconto.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Por outro lado, os depoimentos tamb\u00e9m revelam aspectos importantes que precisam ser tomados como conte\u00fados de forma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que sabemos que as id\u00e9ias do professor sobre o que faz com seus alunos s\u00e3o determinantes da natureza e da qualidade do trabalho que desenvolve e que queremos construir uma outra perspectiva did\u00e1tica do trabalho com leitura na escola.<\/p>\n<p>Tais aspectos est\u00e3o bastante arraigados nas pr\u00e1ticas escolares tradicionais e, em fun\u00e7\u00e3o disso, os professores ainda n\u00e3o consideram que:<\/p>\n<ul>\n<li>a leitura de hist\u00f3rias contribui para a aprendizagem da leitura e da escrita;<\/li>\n<li>a leitura de livros de literatura infantil tem um fim em si mesma (n\u00e3o precisa de pretextos, n\u00e3o necessita de propostas atreladas a ela para que ganhe sentido \u2013 desenhos, question\u00e1rios etc.);<\/li>\n<li>a leitura em voz alta deve ser preparada previamente (quer se trate de leitura pelo professor, quer se trate de leitura pelo aluno);<\/li>\n<li>a observa\u00e7\u00e3o atenta das imagens \u00e9 importante e pode ser favorecida pela organiza\u00e7\u00e3o da atividade durante a leitura do professor e tamb\u00e9m pela organiza\u00e7\u00e3o de cantinhos de leitura na classe, de modo que os alunos possam ter acesso aos livros, manipul\u00e1los, ler junto com um colega etc.;<\/li>\n<li>contar hist\u00f3rias \u00e9 diferente de ler o que est\u00e1 escrito no livro (em termos da performance e tamb\u00e9m das aprendizagens que uma e outra situa\u00e7\u00e3o propiciam);<\/li>\n<li>quando os alunos pedem que uma hist\u00f3ria seja lida novamente, em geral, eles a compreenderam e apreciaram;<\/li>\n<li>a leitura n\u00e3o deve ser vista exclusivamente como uma situa\u00e7\u00e3o de descanso, de preenchimento de aula vaga;<\/li>\n<li>os livros de literatura infantil de qualidade n\u00e3o devem ser chamados de livros de \u201chistorinha\u201d;<\/li>\n<li>as tradicionais atividades de interpreta\u00e7\u00e3o de texto e os question\u00e1rios para verifica\u00e7\u00e3o da aprendizagem s\u00e3o inadequados e substitu\u00edveis pela conversa que se pode ter com eles ou por outras propostas;<\/li>\n<li>a freq\u00fc\u00eancia com que a leitura \u00e9 feita na sala de aula \u00e9 um aspecto importante na forma\u00e7\u00e3o do leitor;<\/li>\n<li>uma biblioteca circulante pode ser uma boa estrat\u00e9gia para desenvolver um v\u00ednculo prazeroso com a literatura;<\/li>\n<li>as interrup\u00e7\u00f5es feitas durante a leitura podem prejudicar o acompanhamento que o ouvinte \u00e9 capaz de fazer do desenrolar da trama e, com isso, comprometer sua interpreta\u00e7\u00e3o (ao contr\u00e1rio do que se poderia imaginar uma vez que muitas \u201cparadinhas\u201d s\u00e3o feitas para verificar o que est\u00e1 sendo entendido&#8230;);<\/li>\n<li>os alunos podem ter oportunidades de autocontrolar o que compreendem nas situa\u00e7\u00f5es de leitura.<\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"attachment_1845\" style=\"width: 452px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1845\" class=\"size-full wp-image-1845\" title=\"avisala_12_reflex1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex1.jpg\" alt=\"\" width=\"442\" height=\"464\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex1.jpg 442w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex1-285x300.jpg 285w\" sizes=\"auto, (max-width: 442px) 100vw, 442px\" \/><p id=\"caption-attachment-1845\" class=\"wp-caption-text\">Prof.o Nilton Cesar<\/p><\/div>\n<p><strong>O planejamento do encontro de forma\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO levantamento desses conhecimentos pr\u00e9vios dos professores, realizado a partir de uma atividade inicial que lhes foi proposta &#8211; ler hist\u00f3rias para seus alunos &#8211; permitiu-nos conhecer suas concep\u00e7\u00f5es sobre leitura na escola, mesmo que n\u00e3o tivessem o h\u00e1bito de realiz\u00e1-la por falta de materiais adequados para tanto: bons livros de literatura infantil.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o paramos por a\u00ed, uma vez que o objetivo do levantamento de conhecimentos pr\u00e9vios n\u00e3o \u00e9 apenas torn\u00e1-los acess\u00edveis \u00e0quele que o realiza (formador ou professor), mas incluir o sujeito de forma ativa em seu processo de aprendizagem.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o disso, a partir da an\u00e1lise dos depoimentos, optamos por discuti-los com os professores atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es problematizadoras. Consideramos que seria interessante e muito significativo coloc\u00e1-los para refletir a respeito delas, sobretudo, porque algumas eram pol\u00eamicas, antag\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Preparamos um pequeno texto que continha seis pares de afirma\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, sendo algumas de autoria dos professores de Serra Pelada; outras, criadas por n\u00f3s e, ainda, algumas em que mescl\u00e1vamos essas duas coisas, com o intuito de enfatizar determinadas id\u00e9ias. Os professores receberam o seguinte material:<\/p>\n<p>1.\u00a0 Ler para qu\u00ea ?<br \/>\nA) \u201cQuando leio hist\u00f3rias para as crian\u00e7as, eu pe\u00e7o que fa\u00e7am alguma coisa depois. Pode ser um desenho, uma pe\u00e7a de teatro ou responder um question\u00e1rio com perguntas sobre o texto. Sem isso, acho que a leitura n\u00e3o \u00e9 uma atividade, fico sem saber se compreenderam.\u201d<\/p>\n<p>B) \u201cAcho importante que sintam prazer ao ouvir uma hist\u00f3ria e n\u00e3o quero que pensem que precisam prestar aten\u00e7\u00e3o porque eu vou cobrar que fa\u00e7am uma atividade com o que ouviram. Na vida, muitas vezes, lemos para conhecer outros mundos, para viver outras aventuras.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m acho que a leitura, \u00e0s vezes, faz a gente se emocionar e cria um elo de amizade entre eu e eles e entre os colegas.\u201d<\/p>\n<p>2. Antes da leitura&#8230;<br \/>\nC) \u201cAntes de come\u00e7ar a ler, eu mostrei o livro pra eles e perguntei o que eles achavam daquele texto. Como uma formiga poderia escapar da neve, ainda mais estando presa? E claro que eles disseram meio mundo de opini\u00f5es! \u2013 Professora, a formiga n\u00e3o pode escapar da neve, ainda mais estando presa.\u201d<\/p>\n<p>D) \u201cPedi para um aluno escolher entre dois livros de hist\u00f3rias que n\u00f3s n\u00e3o conhec\u00edamos. Disse para prestarem bastante aten\u00e7\u00e3o na leitura e que depois eu mostraria as figuras pra eles.\u201d<\/p>\n<p>3.\u00a0 Durante a leitura&#8230;<br \/>\nE) \u201cAh, hist\u00f3ria eu gosto de ler direto, de cabo a rabo, pros meninos entrarem no clima da hist\u00f3ria, poderem imaginar aquelas cenas, aqueles personagens&#8230;\u00e9 diferente de ler texto pra estudar, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p>F)\u201cQuando eu acho que a hist\u00f3ria tem palavras dif\u00edceis ou que os meninos n\u00e3o est\u00e3o entendendo, eu vou parando de ler e explicando. Eu tamb\u00e9m procuro responder as perguntas que eles fazem enquanto eu leio, porque, se n\u00e3o fa\u00e7o isso, eles n\u00e3o acompanham, n\u00e3o aproveitam a leitura.\u201d<\/p>\n<p>4.\u00a0 Depois da leitura&#8230;<br \/>\nG) \u201cFiz uma atividade de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria para verificar o que as crian\u00e7as tinham compreendido. Perguntei, por exemplo, quais s\u00e3o os personagens que apareceram na hist\u00f3ria, como eles se comportavam, por que se comportavam desta maneira etc.\u201d<\/p>\n<p>H)\u201cDepois que eu li a hist\u00f3ria, eu discuti com eles, perguntei se eles concordavam com o que o livro estava mostrando. Alguns diziam que sim, outros diziam que n\u00e3o&#8230; e ficava aquela maior concorr\u00eancia entre os meninos e as meninas por causa da pergunta contida no t\u00edtulo da hist\u00f3ria. Eu expliquei pra eles o que o livro estava dizendo e perguntei pra eles o que eles entenderam.\u201d<\/p>\n<p>5.\u00a0 Ler ou contar as hist\u00f3rias dos livros?<br \/>\nI) \u201cQuando eu percebo que os meus alunos n\u00e3o est\u00e3o se preocupando com a hist\u00f3ria, eu procuro n\u00e3o ler mais. Eu passo a contar a hist\u00f3ria, fazendo gestos, dramatizando.\u201d<\/p>\n<p>J) \u201cEu sempre leio as hist\u00f3rias, mesmo quando elas parecem complicadas. Eu acho que, quando eu leio com emo\u00e7\u00e3o, quando eu vivo a hist\u00f3ria que estou lendo, eles entendem. Eu treino na minha casa antes de ler na classe e meus alunos j\u00e1 me disseram que acham que eu tenho um jeito de contar hist\u00f3ria. Porque, por exemplo, quando est\u00e1 escrito que o cachorro fazia uma carinha triste, a\u00ed eu fa\u00e7o uma carinha triste tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>6.\u00a0 \u201cProfessora, l\u00ea de novo?\u201d<br \/>\nL) \u201cAcho que quando as crian\u00e7as fazem este pedido, est\u00e3o querendo saborear de novo o gostinho bom que sentiram quando ouviram a hist\u00f3ria pela primeira vez. \u00c9 como os adultos que desejam ler novamente um livro que j\u00e1 terminaram de ler. Por isso, eu sempre que posso, fa\u00e7o a vontade deles.\u201d<\/p>\n<p>M) \u201cQuando as crian\u00e7as me pedem para ler de novo, eu sempre \u201cfico com a pulga atr\u00e1s da orelha\u201d. Ser\u00e1 que n\u00e3o prestaram aten\u00e7\u00e3o enquanto eu lia da primeira vez? Ser\u00e1 que n\u00e3o entenderam alguma parte da hist\u00f3ria ou ser\u00e1 que n\u00e3o entenderam nada? Algumas vezes, eu torno a ler uma ou duas vezes, dependendo do tamanho do livro. Outras vezes, eu explico que eles t\u00eam que ficar quietos e prestar aten\u00e7\u00e3o na pr\u00f3xima hist\u00f3ria que eu vou ler, porque eu n\u00e3o posso ficar repetindo tudo.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_1846\" style=\"width: 197px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1846\" class=\"size-full wp-image-1846\" title=\"avisala_12_reflex6\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex6.jpg\" alt=\"\" width=\"187\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex6.jpg 187w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex6-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 187px) 100vw, 187px\" \/><p id=\"caption-attachment-1846\" class=\"wp-caption-text\">Prof.a Luisa<\/p><\/div>\n<p>A estrat\u00e9gia adotada na reuni\u00e3o consistiu no seguinte: distribu\u00edmos c\u00f3pias desse texto para cada professor e recomendamos que todos lessem, pensassem sobre as afirma\u00e7\u00f5es e se posicionassem diante de cada uma delas. O passo a seguir foi uma conversa dos professores com seus parceiros para compartilhar as opini\u00f5es e exercitar o uso das justificativas e dos argumentos. Por \u00faltimo, todos participaram de um debate.<\/p>\n<p>Enquanto liam, percebemos que muitos professores foram capazes de localizar os fragmentos de sua fala e gostaram de se ver contemplados naquela atividade. Houve,at\u00e9 mesmo, casos em que uma pessoa identificava a fala de um colega da mesma s\u00e9rie e comentava. Percebemos tamb\u00e9m que, de certa forma, satisfizeram a curiosidade de saber o que os professores de outra s\u00e9rie tinham dito e o que seria feito com os depoimentos dados.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o do primeiro par de afirma\u00e7\u00f5es foi realmente pol\u00eamica e dividiu os participantes em fun\u00e7\u00e3o de suas id\u00e9ias. A pouca clareza em rela\u00e7\u00e3o aos prop\u00f3sitos e modalidades de leitura levava alguns deles a defender a necessidade de realiza\u00e7\u00e3o de alguma atividade (desenhos, question\u00e1rios, as usuais atividades de interpreta\u00e7\u00e3o de texto \u2013 que, como sabemos, n\u00e3o levam em conta a polissemia do texto liter\u00e1rio) ap\u00f3s a leitura de hist\u00f3rias para garantir a compreens\u00e3o das mesmas; havia, de outro lado, os partid\u00e1rios da id\u00e9ia de que a leitura de literatura j\u00e1 \u00e9 uma finalidade de extrema import\u00e2ncia em si e de que o professor deve conquistar os alunos para a leitura de textos liter\u00e1rios, ajudando-os a encontrar prazer nessa pr\u00e1tica, a identificar prefer\u00eancias, a iniciar um percurso leitor.<\/p>\n<p>Foi de fundamental relev\u00e2ncia esse momento de discuss\u00e3o entre pares e da socializa\u00e7\u00e3o das diferentes id\u00e9ias. Como sabemos, h\u00e1 um potencial de aprendizagem muito grande na diversidade dos saberes presentes num grupo de professores e, sem di\u00e1logo, n\u00e3o se pode construir representa\u00e7\u00f5es partilhadas.<\/p>\n<p>Avaliamos que o debate foi \u00fatil para introduzir uma vis\u00e3o diferente da costumeira concep\u00e7\u00e3o escolar de que a literatura deve estar a servi\u00e7o de outra atividade did\u00e1tica, sem o que n\u00e3o tem valor.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 preciso advertir sobre os riscos de realizar uma atividade como essa, pois se n\u00e3o houver uma inten\u00e7\u00e3o clara e planejada do formador em oferecer aos professores as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 reflex\u00e3o e \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de suas id\u00e9ias, pode-se cair numa vis\u00e3o dualista que p\u00f5e em oposi\u00e7\u00e3o o que \u201cdeve ser feito\u201d e o que \u201cn\u00e3o deve ser feito\u201d tendo apenas como par\u00e2metro as expectativas do formador.<\/p>\n<p>Por isso, na coordena\u00e7\u00e3o do debate, consideramos importante n\u00e3o esgotar a quest\u00e3o, ao contr\u00e1rio, ampli\u00e1-la, dando acesso a textos te\u00f3ricos que os levassem a pensar nas pr\u00e1ticas sociais de leitura e em seus diferentes prop\u00f3sitos.<\/p>\n<p><strong>Refletindo sobre nossa pr\u00e1tica de forma\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nPara que serve fazer o levantamento de conhecimentos pr\u00e9vios? Apenas para conhecer as id\u00e9ias dos professores como uma fase inicial de diagn\u00f3stico? Acreditamos que n\u00e3o. As id\u00e9ias pr\u00e9vias referem-se a sistemas de conceitos e significados relativos a um determinado conhecimento e emergem a prop\u00f3sito de situa\u00e7\u00f5es-problema como parte de um processo de interven\u00e7\u00e3o formativa que tenha como objetivo contribuir na reorganiza\u00e7\u00e3o e reconceitualiza\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias pr\u00e9vias.<\/p>\n<div id=\"attachment_1847\" style=\"width: 311px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1847\" class=\"size-full wp-image-1847\" title=\"avisala_12_reflex2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex2.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex2.jpg 301w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex2-300x292.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><p id=\"caption-attachment-1847\" class=\"wp-caption-text\">Prof.a L\u00edrian de Jesus<\/p><\/div>\n<p>A proposta de uma atividade inicial, que colocou os professores em rela\u00e7\u00e3o direta com a realiza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o did\u00e1tica que se desejava analisar, criou um espa\u00e7o de di\u00e1logo entre: os professores e suas concep\u00e7\u00f5es, o formador e sua intencionalidade e a situa\u00e7\u00e3o did\u00e1tica de leitura de hist\u00f3rias pelos professores, favorecendo, assim, desde o princ\u00edpio, uma forma\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica que os incluiu de forma reflexiva em seus processos de constru\u00e7\u00e3o de novos conhecimentos did\u00e1ticos, evitando o risco do formador isolar-se em um mon\u00f3logo normativo e pouco f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que pode parecer paradoxal para os professores, que costumam delegar ao formador o papel de definir o que \u00e9 \u201ccerto\u201d e o que \u00e9 \u201cerrado\u201d na pr\u00e1tica pedag\u00f3gica e, por isso, podem pensar: afinal, ele n\u00e3o vai dizer o que \u00e9 para ser feito, o \u201cjeito\u201d certo? Ao inv\u00e9s disso, nesse caso, lhes foi pedido que realizassem uma atividade, levando-os a imaginar: o que ele quer com isso? Quer saber se nossos alunos sabem interpretar um texto?<\/p>\n<p>Quer valorizar a import\u00e2ncia da leitura porque considera que lemos pouco para as crian\u00e7as? Quer verificar se sabemos explorar a leitura realizando outras atividades a partir dela? Se nossos alunos prestam aten\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria? Deseja conhecer o modo como lemos hist\u00f3rias para eles?<\/p>\n<p>Entretanto, essa ruptura de contrato na rela\u00e7\u00e3o formativa, isto \u00e9, a diferen\u00e7a entre a expectativa dos professores e a proposta feita pelo formador, fez com que tentassem entender o sentido da proposta, buscassem seu significado e, portanto, j\u00e1 adotassem uma conduta de aprendizagem ativa que tornou mais significativo o que p\u00f4de ser aprendido na continuidade do processo de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es nas quais os professores possam p\u00f4r em jogo tudo o que sabem para realiz\u00e1-las, seguida da problematiza\u00e7\u00e3o, permite que os professores avancem tanto a partir da ajuda dos colegas, do confronto entre pontos de vista diferentes, quanto da ajuda do formador que tem por fun\u00e7\u00e3o criar condi\u00e7\u00f5es para a integra\u00e7\u00e3o de outras vari\u00e1veis \u00e0 an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o did\u00e1tica.<\/p>\n<p>No caso descrito o formador, construiu questionamentos e interpreta\u00e7\u00f5es, forneceu informa\u00e7\u00f5es, ajudou na constru\u00e7\u00e3o de novos observ\u00e1veis, integrando ao planejamento das situa\u00e7\u00f5es de leitura a import\u00e2ncia de se considerar o que se l\u00ea, para qu\u00ea se l\u00ea e o como se l\u00ea, vari\u00e1veis que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o apareciam no horizonte das preocupa\u00e7\u00f5es dos professores.<\/p>\n<div id=\"attachment_1848\" style=\"width: 153px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1848\" class=\"size-full wp-image-1848\" title=\"reflex10\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/reflex10.jpg\" alt=\"\" width=\"143\" height=\"143\" \/><p id=\"caption-attachment-1848\" class=\"wp-caption-text\">Prof.a Rog\u00e9ria Alves<\/p><\/div>\n<p>Assim, a dif\u00edcil tarefa de elei\u00e7\u00e3o de prioridades e de sele\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados pelo formador \u00e9 orientada pela perspectiva did\u00e1tica que se quer construir a partir do que os professores sabem, n\u00e3o sabem, do que pensam, de suas concep\u00e7\u00f5es, o que permite antecipar o que \u00e9 poss\u00edvel ensinar e o que ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a cada momento.<\/p>\n<p>Dessa forma, se inclui a l\u00f3gica dos sujeitos da aprendizagem no planejamento dos encontros de forma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas a l\u00f3gica dos conte\u00fados.<\/p>\n<p>Para concluir, podemos sintetizar o que foi dito anteriormente ressaltando que a maneira de trazer novas informa\u00e7\u00f5es determina suas possibilidades de assimila\u00e7\u00e3o. Para ser assimilada, a informa\u00e7\u00e3o deve ser integrada a um sistema de conhecimentos elaborado previamente (ou em processo de elabora\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o como tal que cria conhecimento. O conhecimento \u00e9 resultado da constru\u00e7\u00e3o do sujeito. Conhecid\u00edssimos pressupostos que parecem novos quando lidos sob o ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o de professores.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Programa de Desenvolvimento Social e Econ\u00f4mico de Serra Pelada, que abrange tamb\u00e9m a\u00e7\u00f5es na \u00e1rea social e de sa\u00fade implementadas com recursos do BNDES \u2013 Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social \u2013 e da CVRD \u2013 Companhia Vale do Rio Doce.<br \/>\n<sup>2<\/sup>Distrito de Curion\u00f3polis, sul do Par\u00e1.<\/p>\n<p>(Paula Stella<sup>3<\/sup> e Regina Scarpa<sup>4<\/sup>)<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>Formadora do CEDAC \u2013 Centro de Educa\u00e7\u00e3o e Documenta\u00e7\u00e3o para A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria, atua como Coordenadora Regional de Serra Pelada, sendo respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de professores e diretores.<br \/>\n<sup>2<\/sup> Coordenadora de Projetos do CEDAC e do Instituto Avisa L\u00e1, respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o dos formadores. Prof.o Nilton Cesar<\/p>\n<h4>Depoimentos das professoras<\/h4>\n<p><strong>Depoimento da professora Francisca \u2013 3a s\u00e9rie<\/strong><br \/>\nEu tamb\u00e9m li aquele livro do Portinari, o da Velhinha que dava nome \u00e0s coisas, Imagine o quanto eu te amo. E disse para eles o seguinte, para que ficassem mais atentos: \u2013 Vai vir uma pedagoga aqui e vai perguntar a voc\u00eas o que foi que a professora fez, o que ela leu, vai pedir explica\u00e7\u00e3o e voc\u00eas ter\u00e3o que aprender, ent\u00e3o prestem aten\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, na propor\u00e7\u00e3o que eu ia lendo, eu ia fazendo perguntas e eu via eles com aquela experi\u00eancia, n\u00e9? &#8230; No momento que estava lendo, eu ia fazendo perguntas e eles respondendo adequadamente dentro da pr\u00f3pria leitura. Quando terminaram eu apenas disse: vou fazer um question\u00e1rio. Eu sempre gosto assim: quando eu fa\u00e7o uma leitura, eu fa\u00e7o um question\u00e1rio para verificar se realmente eles aprenderam com respeito \u00e0quela leitura que foi feita. Eu li estes quatro livros e eles gostaram. De vez em quando, eles cobram:<br \/>\n\u2013 Professora, que horas voc\u00ea vai ler pra gente?<br \/>\n\u2013 Um momentinho!<\/p>\n<p>Porque eu sempre falo alto e minha garganta irrita. Eu leio um dia e passo uns dois dias sem ler. Pretendo continuar lendo porque eu gosto. Sempre uso livro com hist\u00f3rias, porque ficar s\u00f3 escrevendo, o menino se cansa e, de vez em quando, eu uso uma parte para que o menino descanse um pouco. Eu sempre gostei, n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que eu fa\u00e7o leitura de hist\u00f3rias&#8230;At\u00e9 mesmo assim, por exemplo, ontem eu fiz uma leitura em grupo.<br \/>\n<strong><br \/>\nDepoimento da professora Cristiane \u2013 4a s\u00e9rie<\/strong><br \/>\nEu tinha costume de ler, n\u00e3o diretamente aqueles livros, mas eu sempre trabalho assim com texto, at\u00e9 porque n\u00e3o tinha os livros. Mas quando eles chegaram, eu comecei a ler.No primeiro dia, eu comecei a ler e eles ficaram curiosos.<\/p>\n<p>No dia seguinte, todos eles queriam. Eu gosto de ler no final da aula. A\u00ed, eu leio o livro com eles e a gente faz um tipo de um debate, sabe? Tem muitos que n\u00e3o agradam a todos. Tem uns que n\u00e3o gostaram do final da hist\u00f3ria, a\u00ed, eles preferiram criar outro final da hist\u00f3ria. Eles v\u00e3o dando as id\u00e9ias deles. No caso do livro da velhinha que gostava de dar nome \u00e0s coisas eles tamb\u00e9m deram nomes \u00e0s coisas.<\/p>\n<p>Tinha outro tamb\u00e9m&#8230; uma hist\u00f3ria que falava sobre a amizade de um garoto com um idoso. Eu achei aquela muito importante e eles tamb\u00e9m gostaram. Inclusive tem alguns alunos que ficaram emocionados no final da hist\u00f3ria. Criava um elo de amizade entre eu e eles e entre os colegas. Criava mais um la\u00e7o afetivo, n\u00e9? Sempre eu pedia pra eles fazerem uma reda\u00e7\u00e3o contando o que eles mais gostaram de ouvir na hist\u00f3ria.(&#8230;) Quando eu peguei o primeiro livro pra ler, eles ficaram assim um pouco estranhos&#8230;<\/p>\n<p>A\u00ed, teve uma aluna minha que trouxe uma cole\u00e7\u00e3o de Bela Adormecida, Cinderela e Branca de Neve para eu ler.<br \/>\n\u2013 Professora, por que a senhora n\u00e3o l\u00ea?<br \/>\nEu fui ler. Eu fui conversar.<\/p>\n<div id=\"attachment_1849\" style=\"width: 288px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1849\" class=\"size-full wp-image-1849\" title=\"avisala_12_reflex4\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/10\/avisala_12_reflex4.jpg\" alt=\"\" width=\"278\" height=\"194\" \/><p id=\"caption-attachment-1849\" class=\"wp-caption-text\">Professores atentos nos encontros de forma\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>Depoimento da professora Keila \u2013 4a s\u00e9rie<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o cheguei a ler todos os livros, mas li uma boa parte deles. Inclusive, eu escolhi dois livros que tem uma coisa em comum: relatam que cada pessoa \u00e9 diferente da outra, que nem todas s\u00e3o iguais.Tenho vinte alunos.<\/p>\n<p>Dividi a turma em duas equipes e dei um livro para eles lerem e pedi que cada um lesse em voz alta um par\u00e1grafo, uma parte do texto. Era para ouvir o que o outro estava lendo para aprender o que estava escrito naqueles livros. Depois, eu falei que eles sabiam o que estava escrito no livro s\u00f3 que a outra equipe, n\u00e3o. Eu disse que todos iriam comentar para a outra equipe escutar. Eu vou continuar na outra aula, vou dar seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Depoimento da professora Rog\u00e9ria \u2013 4a s\u00e9rie<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o contava hist\u00f3ria antes desses livros chegarem aqui. Eu contava dos livros did\u00e1ticos, mas parece que n\u00e3o despertava o interesse deles.<\/p>\n<h4>Para saber Mais<\/h4>\n<p><strong>O Projeto<\/strong><br \/>\nO Programa de Desenvolvimento Social e Econ\u00f4mico de Serra Pelada \u00e9 uma parceria entre a prefeitura de Curion\u00f3polis (PA), a Companhia Vale do Rio Doce e o BNDES. Nesse projeto v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es foram desencadeadas nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, infra-estrutura e agricultura.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao projeto em educa\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 de responsabilidade do CEDAC\/SP (Centro de Educa\u00e7\u00e3o e Documenta\u00e7\u00e3o para a A\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria). As principais a\u00e7\u00f5es s\u00e3o: capacita\u00e7\u00e3o de professores, diretores e supervisores; oferta de oficinas de arte e de l\u00edngua portuguesa; o uso da internet como instrumento de forma\u00e7\u00e3o; o desenvolvimento de um sistema de acompanhamento e avalia\u00e7\u00e3o; a cria\u00e7\u00e3o da Casa do Professor.<br \/>\nSite: www.escolaquevale.org.br<\/p>\n<p>CEDAC \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que atua em prol da melhoria da educa\u00e7\u00e3o brasileira. Desenvolve projetos voltados para o desenvolvimento profissional de professores, diretores e supervisores da rede p\u00fablica de ensino.Tel.: (11) 3097-0573 &#8211; Site:www.cedac.org.br<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Bixio, Cecilia. \u201cConstructivismo: Uma Tesis Epistemol\u00f3gica \u2013 Entrevista a Jose Castorina\u201d. Revista Aulahoy, Buenos Aires, Editora Homo Sapiens.<\/li>\n<li>Ferreiro, Emilia. Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever. S\u00e3o Paulo, Editora Cortez, 2002. Tel.: (11) 3864-0111.<\/li>\n<li>Ferreiro, Emilia. Alfabetiza\u00e7\u00e3o em Processo. S\u00e3o Paulo, Editora Cortez, 2001.<\/li>\n<li>Jonnaert, Philippe e Borght, C\u00e9cile Vander. Criar Condi\u00e7\u00f5es para Aprender: o Socio-construtivismo na Forma\u00e7\u00e3o do Professor. Porto Alegre, Editora Artmed, 2002.Tel.: (11) 3062-3757.<\/li>\n<li>Lerner, Delia. \u201cEl papel del conocimiento did\u00e1ctico en la formaci\u00f3n del maestro\u201d. In Ler y Escribir em la Escuela: lo Real, lo Posible y lo Necesario. Buenos Aires, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 2001.<\/li>\n<li>Perrenoud, Philippe. A Pr\u00e1tica Reflexiva no Of\u00edcio de Professor: Profissionaliza\u00e7\u00e3o e Raz\u00e3o Pedag\u00f3gica. Porto Alegre, Editora Artmed, 2002.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O programa de forma\u00e7\u00e3o de professores de 1\u00aa \u00e0 4\u00aa s\u00e9ries de escolas p\u00fablicas de Serra Pelada consiste em uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es formativas para colaborar com a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem da leitura e escrita. Por Paula Stella e Regina Scarpa<\/p>\n","protected":false},"author":67,"featured_media":3195,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22,373],"tags":[1103,21,467,151,503,502],"class_list":{"0":"post-1836","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-reflexoes-do-professor","8":"category-revista-avisala-12","9":"tag-revista-avisa-la-2002","10":"tag-escrita","11":"tag-formacao-de-professores","12":"tag-leitura","13":"tag-paula-stella-e-regina-scarpa","14":"tag-serra-pelada","16":"post-with-thumbnail","17":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/67"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1836"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1836\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}