{"id":18184,"date":"2026-01-22T17:35:29","date_gmt":"2026-01-22T20:35:29","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=18184"},"modified":"2026-01-22T17:41:02","modified_gmt":"2026-01-22T20:41:02","slug":"resistir-tambem-e-aprender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/noticias\/resistir-tambem-e-aprender\/","title":{"rendered":"Resistir tamb\u00e9m \u00e9 aprender"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18185 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2025-07-16-142709.jpg\" alt=\"\" width=\"188\" height=\"274\" \/>Lucila Silva de Almeida<\/p>\n<p>Falar sobre aprendizagem \u00e9, inevitavelmente, tocar em algo que nos desestabiliza.<\/p>\n<p>Aprender implica movimento, deslocamento, abertura para o novo, e tudo isso, por vezes, causa desconforto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de receber um conte\u00fado ou experimentar uma t\u00e9cnica, mas de se deixar atravessar por algo que nos exige rever o que pensamos, sentimos e fazemos. E \u00e9 justamente nesse atravessamento que, muitas vezes, surge a <strong>resist\u00eancia<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que um obst\u00e1culo, a resist\u00eancia pode ser compreendida como parte do pr\u00f3prio processo de transforma\u00e7\u00e3o, seja no plano individual ou coletivo.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia sinaliza tens\u00f5es, limites, conflitos, mas tamb\u00e9m <strong>desejos, buscas e presen\u00e7as<\/strong>, em vez de paralisar, pode ser um ponto de partida.<\/p>\n<p>Quantas vezes eu mesma resisti a um texto compartilhado nas disciplinas do mestrado, a interven\u00e7\u00f5es feitas por um editor nos materiais que produzo, ou at\u00e9 mesmo ao revisitar minha trajet\u00f3ria e lembrar da minha primeira experi\u00eancia formativa na creche onde trabalhei.<\/p>\n<p>Cada possibilidade de desestruturar aquilo que acredito me desloca profundamente. J\u00e1 tive vontade de desistir muitas vezes diante de trabalhos excessivamente normativos, de forma\u00e7\u00f5es em que sentia que n\u00e3o daria conta. E,<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18186 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2026-01-22-163923.jpg\" alt=\"\" width=\"31\" height=\"273\" \/> ainda assim, persisti.<\/p>\n<p>Ficar, para mim, tem sido uma forma de aprender mais, de acessar outras camadas de saberes, e de reconhecer, com humildade, o quanto ainda n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Com o tempo, venho compreendendo que a resist\u00eancia nem sempre \u00e9 sinal de recusa ou de bloqueio.<\/p>\n<p>Muitas vezes, ela \u00e9 uma forma leg\u00edtima de dizer que algo <strong>n\u00e3o faz sentido naquele momento<\/strong><strong>,<\/strong> que o <strong>ritmo precisa ser outro<\/strong>, que o <strong>modo de fazer precisa mudar<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>A resist\u00eancia pode ser uma forma de marcar territ\u00f3rio, de dizer &#8220;estou aqui&#8221;, de buscar outro caminho poss\u00edvel. Ela carrega, em si, uma for\u00e7a que convoca deslocamentos, em quem resiste e em quem se disp\u00f5e a escutar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18187 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2026-01-22-163839.jpg\" alt=\"\" width=\"26\" height=\"272\" \/>Nas rela\u00e7\u00f5es educativas, a resist\u00eancia aparece o tempo todo. Quando uma crian\u00e7a se recusa a participar de uma proposta, quando insiste em repetir um gesto j\u00e1 desencorajado, quando n\u00e3o responde da forma esperada, tudo isso pode ser lido como resist\u00eancia. Mas, se olharmos com mais cuidado, talvez a crian\u00e7a esteja dizendo que <strong>o convite n\u00e3o a alcan\u00e7ou<\/strong>, que <strong>o tempo dela \u00e9 outro<\/strong>, que h\u00e1 <strong>algo ali que precisa ser revisto<\/strong>.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia, nesse caso, se torna um convite para que o adulto tamb\u00e9m se mova, repense suas escolhas, reveja suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o de professores, a resist\u00eancia tamb\u00e9m se anuncia nos corpos. Ela aparece em um olhar atravessado, em um sil\u00eancio prolongado, em um franzir de testa que revela inc\u00f4modo. Gestos pequenos, quase impercept\u00edveis, mas carregados de pensamento.<\/p>\n<p>Nem sempre quem franze a testa est\u00e1 recusando; muitas vezes, est\u00e1 tentando compreender, elaborando, tensionando aquilo que foi proposto. H\u00e1 ali um pensamento em curso, um corpo que pensa antes de consentir.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro, quem diz \u201cn\u00e3o\u201d ou nem chega a diz\u00ea-lo franze a testa, silencia, demora. H\u00e1 ali um pensamento em curso, por vezes mais atento ao que est\u00e1 sendo proposto do que no \u201csim\u201d que responde r\u00e1pido demais.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente nesse ponto que mora a pot\u00eancia: <strong>quando algo nos incomoda, somos tirados do lugar comum e obrigados a pensar de outro jeito<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Resistir pode ser, portanto, <strong>um gesto de constru\u00e7\u00e3o<\/strong>, de abertura ao novo, de aprendizagem profunda.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio da escuta. Pelo contr\u00e1rio: ela exige que a escuta se amplie, se aprofunde. Ela nos<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18188 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2026-01-22-163905.jpg\" alt=\"\" width=\"24\" height=\"271\" \/> obriga a sair do piloto autom\u00e1tico e a estar, de fato, com o outro.<\/p>\n<p>Reconhecer a resist\u00eancia como parte do processo educativo \u00e9 compreender que aprender envolve tensionar, duvidar, insistir, experimentar outras formas.<\/p>\n<p>Talvez seja justamente nesse movimento de dizer \u201cn\u00e3o\u201d a algo que um novo \u201csim\u201d comece a se formar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou especialista em din\u00e2micas de grupo, mas h\u00e1 um autor que sempre me atravessa quando penso nisso: <strong>Enrique Pichon-Rivi\u00e8re<\/strong>. Um de seus trechos que mais me comove diz: <em>\u201cEu n\u00e3o sou voc\u00ea, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 eu, mas sei muito de mim vivendo com voc\u00ea.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Essa frase, para mim, \u00e9 a s\u00edntese do quanto o outro nos provoca, nos tira das certezas, e do quanto esse outro nos oferece o <strong>privil\u00e9gio da d\u00favida<\/strong><strong>. <\/strong>Porque, se somos resistentes a algo, \u00e9 porque <strong>pensamos sobre esse algo<\/strong>.<\/p>\n<p>E a d\u00favida j\u00e1 nos tirou do lugar. Para Pichon-Rivi\u00e8re, a resist\u00eancia n\u00e3o deve ser vista como algo a ser superado ou combatido, mas sim <strong>compreendida como linguagem<\/strong>.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia aparece como um gesto. \u00c0s vezes silencioso, \u00e0s vezes expl\u00edcito. Um modo de dizer que o novo desorganiza, desloca, amea\u00e7a aquilo que parecia conhecido. Ela n\u00e3o nasce do acaso: traz inscritas as marcas de hist\u00f3rias pessoais e coletivas, cren\u00e7as aprendidas, modos de existir que foram sendo tecidos ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Resistir \u00e9, muitas vezes, tentar preservar sentidos j\u00e1 constru\u00eddos diante daquilo que nos convoca a mudar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18186 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2026-01-22-163923.jpg\" alt=\"\" width=\"31\" height=\"273\" \/>Em seus textos Pichon nos lembra tamb\u00e9m que <strong>toda tarefa grupal convoca o coletivo a se reorganizar diante de algo novo<\/strong>, e que, quando isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, emerge a anti-tarefa.<\/p>\n<p>Um movimento que n\u00e3o \u00e9 exatamente nega\u00e7\u00e3o, mas express\u00e3o: a anti-tarefa revela aquilo que ainda <strong>n\u00e3o pode ser elaborado<\/strong>, que ainda exige media\u00e7\u00e3o, tempo, escuta.<\/p>\n<p>Ela aponta as zonas de tens\u00e3o e revela os pontos que precisam ser lidos com aten\u00e7\u00e3o e cuidado.<\/p>\n<p>Trabalhar com grupos de professores, crian\u00e7as ou qualquer coletivo em movimento exige <strong>disponibilidade para escutar aquilo que ainda n\u00e3o virou palavra<\/strong>, mas que j\u00e1 se anuncia em forma de sil\u00eancio, desvio, repeti\u00e7\u00e3o ou recusa.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia, ent\u00e3o, <strong>n\u00e3o \u00e9 barreira<\/strong>. \u00c9 possibilidade. E \u00e9 nesse lugar \u00e9tico e implicado que se faz poss\u00edvel sustentar uma escuta genu\u00edna aquela que n\u00e3o busca controlar o outro, mas <strong>reconhec\u00ea-lo em sua inteireza<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Talvez a grande for\u00e7a da resist\u00eancia seja essa: nos lembrar que <strong>nada que vale a pena aprender vem sem movimento<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Talvez por isso, falar de resist\u00eancia no in\u00edcio de um novo ano seja t\u00e3o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O calend\u00e1rio nos convoca a recome\u00e7os, metas, projetos, como se mudar fosse simples e linear. Mas aprender e transformar-se raramente acompanha a pressa do tempo cronol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia aparece, ent\u00e3o, como um pedido de pausa, de cuidado com os processos, de respeito aos ritmos que n\u00e3o cabem em planejamentos fechados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Escut\u00e1-la \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de sustentar come\u00e7os menos apressados e mais verdadeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">17\/04\/2025<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">________________________________________________________________________<\/p>\n<p><u>Lucila Silva de Almeida<\/u> \u2013 Mestranda na p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em \u201cEduca\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as de 0 a 3 anos\u201d pelo Instituto Singularidades \u2013 SP. \u00c9 autora do livro \u201cIntera\u00e7\u00f5es: Crian\u00e7as, brincadeiras brasileiras e escola\u201d \u2013 Editora Blucher e coautora do livro \u201cParlendas para Brincar\u201d , \u201cAdivinhas para Brincar\u201d e &#8220;Receitas para brincar&#8221; Editora Panda Books e \u201cPr\u00e1ticas comentadas para Inspirar\u201d Editora do Brasil . Formadora de professoras da rede p\u00fablica e privada desde 2002, atualmente trabalha em projetos e programas de forma\u00e7\u00e3o de professores pelo Instituto Avisa L\u00e1, Vivace e Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-18189\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2026--rotated.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"24\" \/>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-18189\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Captura-de-tela-2026--rotated.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"24\" \/><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p>PICHON-RIVI\u00c8RE, Enrique. <em>O processo grupal<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucila Silva de Almeida Falar sobre aprendizagem \u00e9, inevitavelmente, tocar em algo que nos desestabiliza. Aprender implica movimento, deslocamento, abertura para o novo, e tudo isso, por vezes, causa desconforto. 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