{"id":1774,"date":"2002-07-05T00:15:16","date_gmt":"2002-07-05T03:15:16","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1774"},"modified":"2023-03-27T16:56:12","modified_gmt":"2023-03-27T19:56:12","slug":"a-voz-de-stefania-memorias-e-reflexoes-sobre-o-percurso-profissional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/a-voz-de-stefania-memorias-e-reflexoes-sobre-o-percurso-profissional\/","title":{"rendered":"A Voz de Stef\u00e2nia &#8211; Mem\u00f3rias e reflex\u00f5es sobre o percurso profissional"},"content":{"rendered":"<h5>Stef\u00e2nia, professora h\u00e1 mais de 20 anos, relata, num congresso em Bras\u00edlia, uma experi\u00eancia real, sens\u00edvel, comprometida: a sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Suas inquieta\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises pessoais alertam para a complexidade da atua\u00e7\u00e3o profissional e para o compromisso que os projetos de forma\u00e7\u00e3o devem ter com as viv\u00eancias pessoais dos professores<\/h5>\n<div id=\"attachment_1782\" style=\"width: 604px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1782\" class=\"size-full wp-image-1782\" title=\"avisala_11_stef3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef3.jpg\" alt=\"\" width=\"594\" height=\"457\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef3.jpg 594w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef3-300x230.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 594px) 100vw, 594px\" \/><p id=\"caption-attachment-1782\" class=\"wp-caption-text\">Uma professora e seus alunos em 1940<\/p><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Sou uma professora que est\u00e1 h\u00e1 20 anos em sala de aula, sentindo o peso da responsabilidade de cuidar da forma\u00e7\u00e3o de muitas crian\u00e7as. O que poderia dizer sobre mim e minha forma\u00e7\u00e3o?<!--more--><\/p>\n<p>Pensei muito sobre o que privilegiar. Poderia repetir aqui as discuss\u00f5es mais atuais sobre forma\u00e7\u00e3o, reafirmar que n\u00f3s, professores, temos um saber que precisa ser considerado. Mas n\u00e3o foi essa a minha op\u00e7\u00e3o. Quis trazer a voz da professora. N\u00e3o das milhares desse Brasil, porque n\u00e3o poderia: n\u00e3o somos uma massa homog\u00eanea, cada uma de n\u00f3s \u00e9 constitu\u00edda por uma hist\u00f3ria muito singular, e isso deveria ser considerado nas pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de personificar minha abordagem na pessoa que sou pretende real\u00e7ar minha cren\u00e7a em pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o que nos considerem como sujeitos concretos, temporais. Tentarei desenhar uma Stef\u00e2nia que \u00e9 professora, discutindo o porqu\u00ea e por onde passa o meu sonho e as necessidades relativas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o continuada. Privilegiei alguns aspectos:<\/p>\n<ol>\n<li>A percep\u00e7\u00e3o que tenho da trajet\u00f3ria da minha profiss\u00e3o e quais os tra\u00e7os dessa trajet\u00f3ria que identifico como constituintes da professora que sou.<\/li>\n<li>O meu ponto de vista sobre a articula\u00e7\u00e3o entre a velha discuss\u00e3o\u2013compromisso pol\u00edtico versus compet\u00eancia t\u00e9cnica \u2013 e a nova discuss\u00e3o: o professor como sujeito sociocultural, respons\u00e1vel por seu processo de forma\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o como direito.<\/li>\n<li>O cotidiano da pessoa Stef\u00e2nia no papel de professora e a rela\u00e7\u00e3o entre essa realidade e os limites e as necessidades de um processo de forma\u00e7\u00e3o. As origens da professora que sou<\/li>\n<\/ol>\n<p>Nesse primeiro ponto quero retomar influ\u00eancias em minha trajet\u00f3ria na profiss\u00e3o, para identificar o que penso que permanece em mim desses outros distantes no tempo. Do professor dos primeiros tempos, cuja origem esteve ligada \u00e0s demandas particulares das fam\u00edlias poderosas, n\u00e3o poderia identificar tra\u00e7os de identidade.<\/p>\n<p>Do professor com um projeto de educa\u00e7\u00e3o mais coletiva, relacionado \u00e0 igreja, dando \u00e0 profiss\u00e3o caracter\u00edsticas de dom, voca\u00e7\u00e3o, sacerd\u00f3cio, esse sim reconhe\u00e7o em mim: penso que trago dele uma certa viv\u00eancia idealizada da profiss\u00e3o e algumas culpas.<\/p>\n<p>Culpa da crian\u00e7a n\u00e3o atingir os tais padr\u00f5es desejados, culpa por uma interven\u00e7\u00e3o desajeitada, do tempo n\u00e3o render, de n\u00e3o ter todas as solu\u00e7\u00f5es nas minhas m\u00e3os, de fazer greve.Mas a figura de professor mais pr\u00f3xima de mim \u00e9 o que representa a atua\u00e7\u00e3o das minhas irm\u00e3s, Dona Yara, Dona Sara, Dona Iraci, que misturavam um pouco caracter\u00edsticas dos anteriores.<\/p>\n<p>Tiveram status, reconhecimento social e foram equivocadamente \u201csegundas m\u00e3es\u201d de muitas crian\u00e7as. Esse tempo, mesmo com seus limites e equ\u00edvocos, marcou, na minha opini\u00e3o, o nosso papel, carregando-o de respeito, que nos impunha orgulho e compromisso.<\/p>\n<p>Lembro que minhas irm\u00e3s levavam seus alunos para passear na nossa casa e no s\u00edtio do meu pai. Eu visitava suas salas de aula e nas duas situa\u00e7\u00f5es pude testemunhar uma rela\u00e7\u00e3o de afetividade e de severidade, que tanto a disciplina como a aprendizagem de cada um dos alunos era levada muito a s\u00e9rio, mas o mais vis\u00edvel era o orgulho que se tinha da turma e da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Minhas irm\u00e3s, durante o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o, n\u00e3o tiveram treinamentos, atualiza\u00e7\u00f5es, nem tempo para encontros pedag\u00f3gicos. A forma\u00e7\u00e3o inicial era considerada como suficiente para 25 anos de servi\u00e7o. No entanto, as minhas irm\u00e3s pelo menos, j\u00e1 que eram tr\u00eas na mesma casa, viviam conversando sobre o trabalho, planejando e corrigindo atividades de maneira comentada, o que certamente devia possibilitar reflex\u00f5es e trocas entre elas.<\/p>\n<p>Quero destacar tamb\u00e9m que, por vivenciar tudo isso e at\u00e9 ajudar nas corre\u00e7\u00f5es das atividades, a minha forma\u00e7\u00e3o profissional se inicia aos 8, 9 anos de idade. Essa experi\u00eancia familiar foi marcante e est\u00e1 presente na professora que sou.<\/p>\n<p><strong>A influ\u00eancia da politiza\u00e7\u00e3o dos anos 80 <\/strong><br \/>\nAgora chego aos tempos atuais e constato que nossa profiss\u00e3o \u00e9 vista de diferentes formas. Somos as \u201ctias\u201d, com todo desprest\u00edgio social desse t\u00edtulo. Aquela boazinha que faz as vontades, que pode ser \u00fatil para v\u00e1rias tarefas, mas que n\u00e3o decide quest\u00f5es importantes, estas a cargo da m\u00e3e. Aquela que, n\u00e3o sendo a dona, a grande respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, n\u00e3o define nada, mas ganha a recompensa da \u201cflexibilidade\u201d. N\u00e3o precisa de muito preparo, n\u00e3o precisa ser muito competente para ganhar um t\u00edtulo que carrega doses de afetividade.<\/p>\n<p>As \u201ctias\u201d s\u00e3o boazinhas, como se o t\u00edtulo desse a priori e de gra\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o afetiva que, na verdade, deveria ser constru\u00edda no dia a dia. M\u00e3e \u00e9 uma s\u00f3 e tias podem ser muitas. Passamos assim a ser entendidas no plural. Com o tempo passei a negar o papel de tia nas a\u00e7\u00f5es e atitudes individuais, mas sei que a carrego comigo, principalmente no olhar do outro sobre minha profiss\u00e3o. Comecei a descobrir-me como sujeito da hist\u00f3ria e das mudan\u00e7as negando antigas imagens.<\/p>\n<p>Talvez como instinto de sobreviv\u00eancia, passamos a ser categoria, nos organizamos em sindicatos e tentamos levantar nossa voz, defender nossos direitos. Com o sujeito sociopol\u00edtico pertencente a uma categoria, tento me colocar a servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o dessa identidade numa constante e do\u00edda articula\u00e7\u00e3o entre o individual e o coletivo.<\/p>\n<p>Mas, com toda a certeza, participar da abertura pol\u00edtica de nosso pa\u00eds em 79, ir para as ruas abrindo a caixapreta da educa\u00e7\u00e3o e presenciar o surgimento de uma nova concep\u00e7\u00e3o de sindicato, mesmo ainda sendo uma aluna do normal, foi e \u00e9 uma marca determinante na professora que sou.<\/p>\n<div id=\"attachment_1783\" style=\"width: 216px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1783\" class=\"size-full wp-image-1783 \" title=\"avisala_11_stef\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef.jpg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef.jpg 206w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef-165x300.jpg 165w\" sizes=\"auto, (max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/><p id=\"caption-attachment-1783\" class=\"wp-caption-text\">Professora Stef\u00e2nia e um de seus alunos<\/p><\/div>\n<p>Vivendo todo aquele fervilhamento das greves de professores nas ruas, tive de jogar fora a imagem cor-de-rosa constru\u00edda sobre o magist\u00e9rio, perdida no jogo das diferentes imagens que nos eram impostas: mission\u00e1ria, professora como um ser delicado, fr\u00e1gil, espera marido, op\u00e7\u00e3o segura para mo\u00e7a de fam\u00edlia por ser tarefa f\u00e1cil, de meio hor\u00e1rio, possibilitando a dedica\u00e7\u00e3o ao lar.<\/p>\n<p>Nas ruas, eu via companheiras fortes, determinadas, que corriam por tr\u00eas turnos de trabalho e, na sala de aula, eu n\u00e3o estava achando nada f\u00e1cil ser professora. Alguma coisa estava errada comigo?<\/p>\n<p><strong>Compromisso pol\u00edtico ou compet\u00eancia t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\nToda aquela discuss\u00e3o da d\u00e9cada de 80 sobre compet\u00eancia t\u00e9cnica e compromisso pol\u00edtico tamb\u00e9m influenciou minha forma\u00e7\u00e3o. Pela primeira vez estive em um debate, diante de pontos de vista diferentes, me sentindo tentada a fazer a pergunta que desde ent\u00e3o n\u00e3o me abandonou mais: E voc\u00ea, Stef\u00e2nia, o que pensa sobre isso, qual sua posi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Lembro que Guiomar Namo de Mello defendia que compet\u00eancia t\u00e9cnica levaria ao compromisso pol\u00edtico. J\u00e1 Paolo Nosella defendia que compet\u00eancia t\u00e9cnica carregava significados diferenciados em diferentes concep\u00e7\u00f5es de cultura e, nesse sentido, o compromisso pol\u00edtico \u00e9 que deveria ser o detonador de uma determinada compet\u00eancia t\u00e9cnica. Dermeval Saviani se auto-elegeu para fazer a s\u00edntese desse debate.Talvez n\u00e3o fosse bem isso que os autores diziam, e com certeza eles diziam muitas outras coisas, mas n\u00e3o \u00e9 meu objetivo deter-me nesse debate.<\/p>\n<p>S\u00f3 pretendo chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, naquele momento, eu tomei a primeira posi\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha profiss\u00e3o e defendi apaixonadamente que primeiro vinha o compromisso pol\u00edtico e do resto a gente corre atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Hoje, revisitando esse momento, \u00e0 luz das discuss\u00f5es atuais sobre forma\u00e7\u00e3o, principalmente as de autoria do professor Ant\u00f4nio N\u00f3voa, percebo que nem era um posicionamento bem fundamentado.<\/p>\n<p>Diante da clareza de que a minha forma\u00e7\u00e3o inicial era insuficiente para os desafios que enfrentava, de que a imagem que tinha da profiss\u00e3o era irreal, n\u00e3o me senti sem ch\u00e3o: constru\u00eda uma outra vis\u00e3o de mundo. O compromisso pol\u00edtico tornou-se impulsionador para a compet\u00eancia t\u00e9cnica. O fundamental \u00e9 que compromisso pol\u00edtico e compet\u00eancia t\u00e9cnica estejam presentes em cada a\u00e7\u00e3o do professor.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que hoje me identifico, me posiciono e me transformo com as contribui\u00e7\u00f5es de Antonio N\u00f3voa e In\u00eas Teixeira (1996): \u201cOs professores exercem sua atividade e se constituem como tal em contextos sociais e hist\u00f3ricos, dimensionados em estruturas, institui\u00e7\u00f5es e processos resultantes das escolhas e conting\u00eancias da a\u00e7\u00e3o humana.\u201d<\/p>\n<p><strong>Priorizo a rela\u00e7\u00e3o com as cran\u00e7as<\/strong><br \/>\nFiquei, por muito tempo, angustiada, pensando que, como professora, me torno mais competente em muitas coisas, mas a toler\u00e2ncia, com certeza, vai diminuindo. Isso come\u00e7a a se expressar no pr\u00f3prio corpo. Voc\u00eas j\u00e1 imaginaram o quanto o nosso corpo fica exposto nessa profiss\u00e3o? Sabem o que significa pegar piolho, custar a acabar com eles e, no outro dia, aceitar aquele abra\u00e7o agarrado, grudado no pesco\u00e7o da Aninha e at\u00e9 sentir a transfus\u00e3o de piolhos?<\/p>\n<p>Qual forma\u00e7\u00e3o, ainda mais a dist\u00e2ncia, daria conta do controle que devo ter quando ganho aquele pis\u00e3o na unha? Nas minhas reflex\u00f5es, \u00e9 dilema, \u00e9 sofrimento pensar: \u201cEfetivamente estou formando-os para a iniciativa, para a independ\u00eancia, para a autonomia quando organizo com eles todo o espa\u00e7o da sala e din\u00e2mica do trabalho? Ou quando, ao reorganizar as mesas para uma atividade, uma crian\u00e7a cheia de iniciativa querendo ajudar empurra a mesa e esmaga os meus dedos e com dor recrimino:\u201cV\u00ea se n\u00e3o me ajuda se eu n\u00e3o pedir !.\u201d<\/p>\n<p>Sem culpas, assumi que nada \u00e9 dado e acabado e hoje priorizo a minha rela\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as. A quest\u00e3o \u00e9 como fortalecer uma rela\u00e7\u00e3o de encantamento com o diferente, se o que \u00e9 padr\u00e3o \u00e9 t\u00e3o c\u00f4modo? Como construir e manter uma postura de alteridade, convivendo e negociando minhas diferen\u00e7as?<\/p>\n<p>Hoje, aos 40 anos, me relacionando com crian\u00e7as de 5 anos, procuro perceber a perspectiva da crian\u00e7a. Talvez aqui o Papai do C\u00e9u tenha falhado: n\u00e3o guardamos na mem\u00f3ria o nosso ser crian\u00e7a e a experi\u00eancia ent\u00e3o vivida n\u00e3o consegue nos ajudar na rela\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as. Ali\u00e1s, acho que elas s\u00e3o muito mais compreensivas com uma fase que ainda n\u00e3o viveram do que n\u00f3s, que j\u00e1 fomos crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Procuro compreend\u00ea-las mesmo assim para ajud\u00e1-las em seus percursos. Mas \u00e9 uma luta para n\u00f3s, coletivo da escola, definirmos at\u00e9 onde a intermin\u00e1vel conta\u00e7\u00e3o de caso das crian\u00e7as nos ajuda a entend\u00ea-las. Ainda mais quando temos de lidar com o tempo, sempre insuficiente para tantas prioridades. Onde buscar fundamentos te\u00f3ricos que ajudariam a entender atitudes t\u00e3o espec\u00edficas de cada crian\u00e7a? \u2013 tem sido nossa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro conflito: minha pessoa \u00e9 autorit\u00e1ria, mas sofro ao pensar que a professora tamb\u00e9m seja. Convenhamos, posso n\u00e3o ser autorit\u00e1ria como professora se a pessoa que sou \u00e9?! Mas fico me enganando, pensando que com as crian\u00e7as construo uma rela\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1tica, ou pelo menos aut\u00eantica.<\/p>\n<p>No papel de informadora, tenho dificuldades porque \u00e9 bastante fr\u00e1gil a minha pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o, tenho defasagens grandes em v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento, mas sou esfor\u00e7ada, corro atr\u00e1s o tempo todo e penso que acabo cumprindo o papel de sistematizador do conhecimento universal.<\/p>\n<p>Nisso sou ajudada pelo coletivo da escola, pois essa quest\u00e3o \u00e9 sempre discutida e valorizada por todos. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 est\u00e9tica e \u00e0 tecnologia sou analfabeta, mas a consci\u00eancia disso me fez organizar o trabalho do ano investindo nessa dificuldade. T\u00eam sido satisfat\u00f3rias as possibilidades que venho oferecendo \u00e0s crian\u00e7as na quest\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p>Na escola tamb\u00e9m t\u00eam sido muito pautadas as dimens\u00f5es est\u00e9tica e ecol\u00f3gica no nosso trabalho, o que \u00e9 importante para mim. Mas h\u00e1 algo que \u00e9 uma conquista minha: tenho dinamismo e habilidade de leitura das crian\u00e7as e tenho a compet\u00eancia de intervir de forma diferenciada com cada crian\u00e7a.<\/p>\n<div id=\"attachment_1784\" style=\"width: 283px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1784\" class=\"size-full wp-image-1784\" title=\"avisala_11_stef2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/07\/avisala_11_stef2.jpg\" alt=\"\" width=\"273\" height=\"183\" \/><p id=\"caption-attachment-1784\" class=\"wp-caption-text\">Uma sala de aula em 1958<\/p><\/div>\n<p>Isso eleva minha auto-estima como professora, o que \u00e9 fundamental para eu me aventurar, como dona de meu percurso, no que diz respeito ao meu fazer, \u00e0 reflex\u00e3o sobre ele e \u00e0 capacidade de transform\u00e1-lo. No coletivo da escola, cada uma de minhas colegas, ao se colocar, tamb\u00e9m traz a marca de suas hist\u00f3rias de vida, percursos profissionais, suas caracter\u00edsticas pessoais, o que implica em constantes trocas, negocia\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00e3o de acordos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Assim, o projeto pol\u00edtico-pedag\u00f3gico vai se constituindo e o seu registro vai tendo o lugar vivido, alcan\u00e7ando em conjunto metas desejadas dos acordos vislumbrados.<\/p>\n<p>Como podem perceber, s\u00e3o muitos os fatores que constituem o meu fazer, inserido no fazer pol\u00edtico-pedag\u00f3gico da escola. O autoconhecimento, a constru\u00e7\u00e3o de identidade, o reconhecimento dos desafios e limites s\u00e3o tarefas muito complexas, mas cada professor \u00e9 quem deve assumi-las.<\/p>\n<p><strong>O professor \u00e9 sujeito de seu processo<\/strong><br \/>\nUm processo de forma\u00e7\u00e3o que considerasse a professora que sou precisaria entender o significado do sacrif\u00edcio dos meus pais para garantir o diploma de professora para todas as suas oito filhas, a excel\u00eancia do trabalho de minhas irm\u00e3s, enfim tudo o que determina o valor que dou \u00e0 minha profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, por maior que seja o compromisso pol\u00edtico e a compet\u00eancia t\u00e9cnica dos elaboradores de pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o, acho imposs\u00edvel alcan\u00e7ar todas as nuances do fazer pol\u00edtico-pedag\u00f3gico de um professor. Nesse sentido, depois de aceitar o convite de N\u00f3voa, tamb\u00e9m fa\u00e7o o meu convite, principalmente aos senhores que t\u00eam o poder e a responsabilidade de elaborar pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cToda a\u00e7\u00e3o encerra um projeto de a\u00e7\u00e3o. E de transforma\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o h\u00e1 projetos sem op\u00e7\u00f5es, as minhas passam pela valoriza\u00e7\u00e3o das pessoas e dos grupos que t\u00eam lutado pela inova\u00e7\u00e3o no interior das escolas e do sistema educativo.\u201d (Ant\u00f4nio N\u00f3voa, 1992)<\/p>\n<p>Nada mais precisa ser dito. \u00e9 hora de a\u00e7\u00f5es que concretizem a forma\u00e7\u00e3o de um professor que \u00e9 sujeito de seu processo na escola, espa\u00e7o privilegiado dessa forma\u00e7\u00e3o. Tenho pensado que n\u00e3o podemos mais participar das discuss\u00f5es ou a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o como pobre em festa de rico, nem como um penduricalho para compor com um modismo politicamente correto.<\/p>\n<p>\u00c9 no nosso habitat que as discuss\u00f5es t\u00eam contexto, cheiro, cor, sabor e at\u00e9 dor. Fora de l\u00e1, \u00e9 sempre um \u201cestar se expondo com recortes\u201d, podendo ocorrer constrangimentos, malentendidos, superficialidade, al\u00e9m de sentirmos nossa contribui\u00e7\u00e3o como prato menor do banquete. Para mim, hoje, o prato principal no banquete de forma\u00e7\u00e3o continuada de professores n\u00e3o s\u00e3o os relatos imaginados, nem pesquisados pontualmente, esporadicamente e por amostragens.<\/p>\n<p>S\u00e3o as caminhadas das professoras Stef\u00e2nia, Maria, Ana, seus companheiros, trajet\u00f3rias impregnadas de ang\u00fastias, desafios, naquela escola, l\u00e1 nos cafund\u00f3s do Amazonas ou em outro lugar do pa\u00eds. Como est\u00e3o construindo suas identidades de professores de educa\u00e7\u00e3o infantil do Amazonas? Como vem se constituindo, no dia-a-dia, sua rela\u00e7\u00e3o com o aluno, ao cuidar de sua forma\u00e7\u00e3o? Quando essas quest\u00f5es forem consideradas, mais que grandes banquetes espor\u00e1dicos, haver\u00e1 uma permanente refei\u00e7\u00e3o de qualidade, com as del\u00edcias e adequa\u00e7\u00e3o da comida caseira.<\/p>\n<p>(Stef\u00e2nia Padilha Costa)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Stef\u00e2nia, professora h\u00e1 mais de 20 anos, relata, num congresso em Bras\u00edlia, uma experi\u00eancia real, sens\u00edvel, comprometida: a sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Por Stef\u00e2nia Padilha Costa<\/p>\n","protected":false},"author":66,"featured_media":3189,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22,372],"tags":[1103,493,490,489,294,191,488,487,492,491],"class_list":{"0":"post-1774","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-reflexoes-do-professor","8":"category-revista-avisala-11","9":"tag-revista-avisa-la-2002","10":"tag-amazonas","11":"tag-compromisso","12":"tag-conflitos","13":"tag-educacao-infantil-2","14":"tag-professora","15":"tag-profissao","16":"tag-stefania-padilha-costa","17":"tag-trajetoria","18":"tag-vivencia","20":"post-with-thumbnail","21":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/66"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1774\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}