{"id":17705,"date":"2025-04-09T09:48:57","date_gmt":"2025-04-09T12:48:57","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=17705"},"modified":"2025-04-09T18:20:05","modified_gmt":"2025-04-09T21:20:05","slug":"nossas-escolas-sao-aldeias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/noticias\/nossas-escolas-sao-aldeias\/","title":{"rendered":"Nossas escolas s\u00e3o aldeias?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Lucila Silva de Almeida*<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-17706 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-2025-04-07-114944-280x300.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-2025-04-07-114944-280x300.jpg 280w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-2025-04-07-114944.jpg 448w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>O prov\u00e9rbio africano &#8220;\u00c9 preciso uma aldeia para educar uma crian\u00e7a&#8221; expressa a ideia de que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 responsabilidade exclusiva da fam\u00edlia ou da escola, mas sim de toda a comunidade. Ele ressalta a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es sociais na forma\u00e7\u00e3o dos beb\u00eas e das crian\u00e7as, reconhecendo que o desenvolvimento infantil acontece por meio das intera\u00e7\u00f5es com diferentes pessoas, espa\u00e7os e experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a educa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em uma rede de apoio, onde cada integrante da comunidade \u2014 familiares, vizinhos, professores e demais membros \u2014 contribui para a constru\u00e7\u00e3o dos valores, do conhecimento e do pertencimento cultural da crian\u00e7a. Somos tecidos de todos essas rela\u00e7\u00f5es. Tecidos destas aprendizagens!<\/p>\n<p>Esse olhar coletivo fortalece a ideia de que o cuidado e a aprendizagem s\u00e3o processos compartilhados, que envolvem di\u00e1logo, respeito e corresponsabilidade.<\/p>\n<p>Digo isto porque, morando sozinha com minhas filhas e numa cidade como S\u00e3o Paulo em que pessoas queridas acabam por n\u00e3o morar perto, minha aldeia muitas vezes \u00e9 a escola em que minhas filhas estudam.<\/p>\n<p>Em um tempo em que as redes de apoio das fam\u00edlias est\u00e3o cada vez mais fr\u00e1geis, a escola tem sido um dos poucos espa\u00e7os onde elas podem recorrer para compartilhar d\u00favidas, desafios e esperan\u00e7as sobre a educa\u00e7\u00e3o de suas crian\u00e7as. Muitas vezes, \u00e9 na escola que encontram escuta, orienta\u00e7\u00e3o e parceria.<\/p>\n<p>Se antes a express\u00e3o &#8220;\u00e9 preciso uma aldeia para educar uma crian\u00e7a&#8221; fazia refer\u00eancia a uma comunidade ampla e diversa, hoje, para muitas fam\u00edlias, essa aldeia se resume \u00e0 escola \u2014 um espa\u00e7o que, al\u00e9m de ensinar, acolhe, cuida e constr\u00f3i la\u00e7os. Isso nos convida a refletir sobre o papel social da escola e sobre como podemos fortalecer essa rede de apoio para que ela seja, de fato, um lugar de encontro, trocas e aprendizagens compartilhadas.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 uma pena que muitas escolas ainda sejam \u00e1ridas, com pouco espa\u00e7o para acolher o outro do beb\u00ea e da crian\u00e7a. Em vez de se constitu\u00edrem como aldeias que abra\u00e7am a diversidade, que escutam as singularidades e que reconhecem os diferentes saberes, muitas ainda operam na l\u00f3gica da rigidez, do controle e da normatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a escola se fecha para o di\u00e1logo com as inf\u00e2ncias e suas fam\u00edlias, perde a chance de ser esse territ\u00f3rio vivo de trocas e pertencimento. Transformar essa realidade exige um olhar atento, dispon\u00edvel e disposto a fazer da escola um verdadeiro espa\u00e7o de rela\u00e7\u00f5es, onde todos \u2013 crian\u00e7as, professores e fam\u00edlias \u2013 sejam parte ativa dessa aldeia.<\/p>\n<p>A escola sempre diz que quer a participa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, mas ser\u00e1 que, na pr\u00e1tica, estamos realmente criando espa\u00e7os de encontro ou s\u00f3 refor\u00e7ando dist\u00e2ncias?<\/p>\n<p>Muitas vezes, sem perceber, a escola adota posturas que afastam em vez de aproximar. Reuni\u00f5es longas e pouco acolhedoras, bilhetes que s\u00f3 cobram, falta de escuta e de momentos reais de troca fazem com que as fam\u00edlias se sintam mais como espectadoras do que como parceiras. Al\u00e9m disso, quando a escola olha para as fam\u00edlias apenas pelo que \u201cfalta\u201d \u2013 o que n\u00e3o sabem, o que n\u00e3o fazem, o que n\u00e3o conseguem \u2013 em vez de reconhecer seus saberes e realidades, ela cria um muro invis\u00edvel que impede o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Certa vez, conversando com uma gestora, perguntei qual era seu maior desafio na escola. Sem hesitar, ela respondeu: \u201c<em>As fam\u00edlias. Os pais n\u00e3o entendem o desenvolvimento das crian\u00e7as\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Fiquei em sil\u00eancio por um instante, mas essa resposta ecoou em mim de um jeito inquietante. Afinal, <strong>e n\u00f3s, entendemos?<\/strong><\/p>\n<p>Entendemos que crescer n\u00e3o \u00e9 um processo linear? Que cada crian\u00e7a tem seu tempo e seu jeito pr\u00f3prio de aprender? Entendemos que a inf\u00e2ncia n\u00e3o cabe em checklists e tabelas? Que brincar n\u00e3o \u00e9 perda de tempo? Que o choro \u00e9 uma forma leg\u00edtima de comunica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E mais do que isso: entendemos as fam\u00edlias? Suas hist\u00f3rias, seus desafios, suas pot\u00eancias? Ou seguimos esperando delas um modelo idealizado, sem considerar suas realidades?<\/p>\n<p>Muitas vezes, a escola se queixa da aus\u00eancia das fam\u00edlias, mas ser\u00e1 que nos perguntamos por que algumas delas se afastam? Ser\u00e1 que estamos, de fato, criando espa\u00e7os de acolhimento, escuta e di\u00e1logo? Ou s\u00f3 comunicamos regras, exig\u00eancias e cobran\u00e7as?<\/p>\n<p>Se queremos construir uma escola que seja, de fato, uma aldeia, onde crian\u00e7as, professores e fam\u00edlias possam caminhar juntos, precisamos come\u00e7ar pelo b\u00e1sico: olhar para o outro com disponibilidade, abandonar certezas r\u00edgidas e abrir caminhos para o encontro. Talvez, assim, possamos sair da l\u00f3gica de quem &#8220;n\u00e3o entende&#8221; para a constru\u00e7\u00e3o de uma comunidade que aprende junta.<\/p>\n<p>Como podemos cobrar das fam\u00edlias sendo que muitas vezes, n\u00f3s professores n\u00e3o entendemos e compreendemos beb\u00eas e crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Nesta mesma conversa, que poderia ser com in\u00fameras outras gestoras, tamb\u00e9m perguntei sobre a participa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias na escola. Ela me respondeu que, embora as reuni\u00f5es sejam realizadas em hor\u00e1rios como o de HTPC (hor\u00e1rio de trabalho pedag\u00f3gico coletivo) e \u00e0 noite, com o intuito de facilitar a presen\u00e7a das fam\u00edlias, ainda assim a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada. \u201cDe 100%, apenas 30% aparecem\u201d.<\/p>\n<p>Ao ser questionada por que isso acontecia, a resposta foi direta: \u201c<em>Porque n\u00e3o querem estar presentes, n\u00e3o querem saber da vida do filho\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Isso me fez refletir profundamente sobre a rela\u00e7\u00e3o que estamos construindo com as fam\u00edlias. Elas s\u00e3o de fato reconhecidas como sujeitos da educa\u00e7\u00e3o? Ou continuamos tratando-as como simples expectadoras do processo escolar, sem considerar suas realidades e necessidades?<\/p>\n<p>Penso nisto, tamb\u00e9m a partir da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia como m\u00e3e, algo que sempre me provoca a pensar sobre esse tema. As reuni\u00f5es que tive a oportunidade de participar foram sempre muito r\u00edgidas e previs\u00edveis, com um roteiro claro do que se esperava de n\u00f3s. Um checklist quase impositivo: prender o cabelo da crian\u00e7a, n\u00e3o mandar de roupa curta, olhar os piolhos.<\/p>\n<p>Essas orienta\u00e7\u00f5es, embora importantes em alguns contextos, se transformam em um manual de conduta que desvia do verdadeiro prop\u00f3sito de uma reuni\u00e3o escolar: a troca.<\/p>\n<p>Nunca, em nenhuma dessas reuni\u00f5es, fomos convidadas a nos apresentar, a partilhar um pouco sobre nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias ou perspectivas. Nenhum espa\u00e7o foi aberto para mostrarmos o que tamb\u00e9m est\u00e1 acontecendo nas nossas casas e cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E o que mais me incomoda \u00e9 que, em nenhum momento, nos \u00e9 dado o privil\u00e9gio de, sequer por 5 minutos, ver algumas fotos ou ouvir um relato simples sobre como acontece o processo de aprendizagem das crian\u00e7as na escola. Nada que nos aproximasse do cotidiano da sala de aula, da experi\u00eancia das crian\u00e7as al\u00e9m das notas ou do conte\u00fado curricular.<\/p>\n<p>Se queremos de fato envolver as fam\u00edlias, precisamos repensar essa abordagem r\u00edgida, que mais exclui do que aproxima.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o das reuni\u00f5es precisa ser um lugar de acolhimento, onde as fam\u00edlias possam ser reconhecidas como parceiras, onde possamos compartilhar, aprender e nos conectar.<\/p>\n<p>Precisamos abandonar a ideia de um encontro marcado pela cobran\u00e7a e pela formalidade, para abra\u00e7ar um modelo de escuta m\u00fatua onde, tanto a escola quanto as fam\u00edlias, possam se apresentar, aprender e crescer juntas.<\/p>\n<p>O processo de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um caminho compartilhado e se queremos de fato construir uma rede de apoio, precisamos abrir as portas para que as fam\u00edlias possam entrar, n\u00e3o s\u00f3 fisicamente, mas de cora\u00e7\u00e3o e mente, sem a rigidez do checklist e com o espa\u00e7o de pertencimento que todos merecem.<\/p>\n<p>Se queremos, de fato, construir uma aldeia onde a escola e a fam\u00edlia caminham juntas, precisamos criar espa\u00e7os de encontro de verdade, onde as fam\u00edlias sejam bem-vindas como s\u00e3o e onde a parceria se construa no respeito, na escuta e na troca.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">25\/03\/2025<\/p>\n<p>\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad\u00ad________________________________________________________<\/p>\n<p><u>Lucila Silva de Almeida<\/u> \u2013 Mestranda no Programa Educa\u00e7\u00e3o, Pol\u00edtica, Hist\u00f3ria e Sociedade, na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo, PUC\/SP. Pedagoga com p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em \u201cEduca\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as de 0 a 3 anos\u201d pelo Instituto Singularidades \u2013 SP.<br \/>\nFormadora de professoras da rede p\u00fablica e privada desde 2002. Atualmente trabalha em projetos e programas de forma\u00e7\u00e3o de professores\/coordenadores pelo Instituto Avisa L\u00e1, Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo e Secretaria Municipal de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto.<br \/>\n\u00c9 autora do livro \u201cIntera\u00e7\u00f5es: Crian\u00e7as, brincadeiras brasileiras e escola\u201d \u2013 Editora Blucher e coautora do livro \u201cParlendas para Brincar\u201d , \u201cAdivinhas para Brincar\u201d e &#8220;Receitas para brincar&#8221; Editora Panda Books e \u201cPr\u00e1ticas comentadas para Inspirar\u201d Editora do Brasil .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucila Silva de Almeida* O prov\u00e9rbio africano &#8220;\u00c9 preciso uma aldeia para educar uma crian\u00e7a&#8221; expressa a ideia de que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 responsabilidade exclusiva da fam\u00edlia ou da escola, mas sim de toda a comunidade. 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