{"id":1688,"date":"2002-07-02T16:25:06","date_gmt":"2002-07-02T19:25:06","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1688"},"modified":"2023-03-27T16:56:39","modified_gmt":"2023-03-27T19:56:39","slug":"inclusao-na-escola-uma-questao-de-conhecimento-sensibilidade-e-responsabilidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/inclusao-na-escola-uma-questao-de-conhecimento-sensibilidade-e-responsabilidade-social\/","title":{"rendered":"Inclus\u00e3o na escola &#8211; Uma quest\u00e3o de conhecimento, sensibilidade e responsabilidade social"},"content":{"rendered":"<h5>A inclus\u00e3o de crian\u00e7as com necessidades especiais em classes regulares \u00e9, ao mesmo tempo, uma realidade e um desafio. Nem toda professora se sente em condi\u00e7\u00f5es de abra\u00e7ar a id\u00e9ia. Este relato mostra como professoras sens\u00edveis e uma escola respons\u00e1vel podem ser de grande ajuda no processo da inclus\u00e3o<\/h5>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Vou contar para voc\u00eas o que aprendi, como professora de educa\u00e7\u00e3o infantil, sobre a inclus\u00e3o de crian\u00e7as com necessidades especiais. N\u00e3o sou uma especialista, nem psic\u00f3loga, e minha forma\u00e7\u00e3o se deu na \u00e1rea da pedagogia; portanto falo do lugar da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 quinze dias ouvi a dra. Cristina Kupfer<sup>1<\/sup> falando sobre inclus\u00e3o aqui, no Espa\u00e7o Trap\u00e9zio, e fui me identificando com o que ela dizia. Fiquei encantada com o \u201cLugar de Vida\u201d, escola terap\u00eautica da USP, em que psic\u00f3logos fazem ponte com as escolas acompanhando os estudantes e formando professores.<\/p>\n<p>Isso possibilita o enriquecimento da reflex\u00e3o e do trabalho do educador e proporciona uma transforma\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o escolar, tornando-a realmente inclusiva.<\/p>\n<p><strong>Meus alunos especiais<\/strong><br \/>\nNo ano passado minha parceira e eu t\u00ednhamos dois alunos com necessidades especiais. <!--more-->Uma das crian\u00e7as, que vou chamar de Henrique, teve alguns problemas<sup>2<\/sup> que o deixaram com atraso no desenvolvimento motor e problemas globais de desenvolvimento. Era uma crian\u00e7a t\u00edmida mas muito afetiva.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome da outra crian\u00e7a, um menino que passarei a chamar de Jo\u00e3o Pedro, fez com que ele se tornasse bastante disperso e tivesse dificuldades de estabelecer v\u00ednculos. Por outro lado apresentava ouvido absoluto, isto \u00e9, 100% de audi\u00e7\u00e3o. Ele era supermusical, muito soci\u00e1vel, conversava com todos na escola.<\/p>\n<p>Quando ficamos sabendo que assumir\u00edamos essa classe onde estavam esses dois alunos, decidimos j\u00e1 no planejamento, que essas crian\u00e7as necessitariam um acompanhamento diferenciado. Elas precisariam ser aceitas pelo grupo e por n\u00f3s professoras. Ter\u00edamos de refletir sobre os desafios individuais que iriam enfrentar.<\/p>\n<p>Os conselhos de outros profissionais que as acompanhavam tamb\u00e9m contribu\u00edram com a nossa pr\u00e1tica. E constru\u00edmos juntos as seguintes diretrizes:<\/p>\n<ul>\n<li>apostar nas crian\u00e7as, tendo expectativas fact\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o a seus aprendizados;<\/li>\n<li>acreditar que as crian\u00e7as podiam se desenvolver e deixar expl\u00edcito nosso desejo de que participassem das propostas feitas a toda a classe, para avan\u00e7arem construindo conhecimento;<\/li>\n<li>dar suporte para que realizassem as atividades de forma a conseguir vencer os desafios;<\/li>\n<li>valorizar suas conquistas auxiliando seu desenvolvimento motor.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Fomos colocando essas diretrizes em pr\u00e1tica como, por exemplo, em uma situa\u00e7\u00e3o de desafio motor, em que criamos um percurso com bancos, mesas, cordas, trepa-trepa e tronco de \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Eu e a professora Mirtes combinamos que cada uma se posicionaria em um ponto estrat\u00e9gico, para ajudar a crian\u00e7a com maior dificuldade motora a percorrer todo o percurso.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano, essa crian\u00e7a costumava dizer que n\u00e3o conseguia fazer muitas coisas, por\u00e9m respond\u00edamos que tinha que tentar e que ir\u00edamos ajud\u00e1-la.<br \/>\nAssim ela foi adquirindo confian\u00e7a em n\u00f3s e nela mesma. Aos poucos, ia se colocando cada vez mais, querendo participar e buscando vencer os desafios. N\u00f3s a incentiv\u00e1vamos e d\u00e1vamos suporte para que constru\u00edsse novos conhecimentos e habilidades. Adequ\u00e1vamos as atividades para que, no fim do ano conseguisse realiz\u00e1-las com menos ajuda ou sozinha.<\/p>\n<p><strong>Apoio para a socializa\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nDurante nossas rodas de conversa, valoriz\u00e1vamos a participa\u00e7\u00e3o dessas duas crian\u00e7as, auxiliando-as a desenvolver suas id\u00e9ias. Faz\u00edamos assim com todas as crian\u00e7as, mas a ajuda a essas duas era um pouco maior.<\/p>\n<p>Nas rodas em que v\u00edamos as li\u00e7\u00f5es de casa, que geralmente eram desenho, t\u00ednhamos uma enorme diversidade de produ\u00e7\u00e3o, e a\u00ed tamb\u00e9m se evidenciava que nossos dois meninos tinham um desempenho distante dos demais.<\/p>\n<p>Procur\u00e1vamos valorizar cada li\u00e7\u00e3o, apontando para todos os avan\u00e7os conseguidos pelos dois e pelos demais. O objetivo era respeitar a produ\u00e7\u00e3o de todos. As outras crian\u00e7as identificavam quando um deles j\u00e1 havia aprendido a escrever o nome e\/ou estava iniciando a figura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi importante vivermos esse processo de valoriza\u00e7\u00e3o e respeito para com as diferentes produ\u00e7\u00f5es, pois assim todos puderam se expressar com naturalidade e tiveram espa\u00e7o para construir seus percursos individuais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de possibilitar o desenvolvimento de suas habilidades e conhecimentos, tamb\u00e9m t\u00ednhamos a preocupa\u00e7\u00e3o de que formassem v\u00ednculos de amizade.<\/p>\n<p>Para isso, prop\u00fanhamos trabalhos em pequenos grupos ou duplas e muitas brincadeiras, como, por exemplo, m\u00e3e-da-rua, macaquinho macac\u00e3o, duro-mole, trepa-trepa, pol\u00edcia e ladr\u00e3o, que propiciavam a coopera\u00e7\u00e3o entre os colegas.<\/p>\n<p>No projeto de circo, desenvolvido com o prop\u00f3sito de estimular a coopera\u00e7\u00e3o, brinc\u00e1vamos e faz\u00edamos pequenas apresenta\u00e7\u00f5es para as outras turmas.<\/p>\n<p>Aos poucos, Henrique foi perdendo a timidez, e a cada apresenta\u00e7\u00e3o se mostrava mais \u00e0 vontade; O Jo\u00e3o Pedro, por ser bastante desinibido, era nossa grande estrela: fazia o apresentador, o palha\u00e7o e o m\u00fasico que tocava pandeiro, acompanhando as m\u00fasicas do Cirque du Soleil<sup>3<\/sup>, demonstrando sua excelente compet\u00eancia musical. Nas atividades de m\u00fasica, ele se sa\u00eda muito bem, seus conhecimentos eram muito acima da m\u00e9dia.<\/p>\n<p>O Henrique, por sua vez, tinha uma caracter\u00edstica marcante, era muito determinado. Quando se propunha a aprender algo, exercitava todos os dias at\u00e9 conquistar seu objetivo. Era assim com os jogos da classe.<\/p>\n<p>Na brincadeira da corda pendurada em uma \u00e1rvore, ele treinou tanto que no fim do ano se lan\u00e7ava com muita firmeza e executava movimentos dif\u00edceis. No trepa-trepa tamb\u00e9m enfrentava seus desafios com empenho. No fim do dia fazia brincadeiras ritmadas acompanhadas de palmas.<\/p>\n<p>Escrever seu nome era tamb\u00e9m algo que desejava muito aprender. Nas li\u00e7\u00f5es, via-se claramente sua preocupa\u00e7\u00e3o em acertar a escrita. Seus focos de aten\u00e7\u00e3o e sua determina\u00e7\u00e3o eram importantes, por isso n\u00f3s permit\u00edamos que exercitasse tanto quanto quisesse e pontu\u00e1vamos suas conquistas, valorizando-as.<br \/>\nMostrar a eles e a todos da classe o quanto estavam avan\u00e7ando e tinham seus saberes tamb\u00e9m era nossa preocupa\u00e7\u00e3o, pois quer\u00edamos que eles ocupassem um lugar positivo dentro do grupo, quer\u00edamos valoriz\u00e1-los.<\/p>\n<p>Sabemos que as crian\u00e7as reconhecem as diferen\u00e7as, sabem quem \u00e9 o bom do futebol, do desenho, de brincar junto, por isso trabalh\u00e1vamos para que todos no grupo fossem vistos positivamente.<\/p>\n<p>Em todos os encontros com nossa orientadora, os dois faziam parte da pauta: analis\u00e1vamos suas conquistas, a rela\u00e7\u00e3o com as outras crian\u00e7as do grupo e o que poder\u00edamos fazer para ajud\u00e1-los mais.<\/p>\n<p><strong>Avalia\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os<\/strong><br \/>\nNo fim do ano, avaliamos que os dois tiveram muitos avan\u00e7os, mas decidimos que o Henrique seguiria com o grupo para o pr\u00e9 e o Jo\u00e3o Pedro permaneceria na s\u00e9rie em que estava. Isso foi motivo de muita reflex\u00e3o, pois sab\u00edamos que o pr\u00e9, que daria \u00eanfase \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o, ia exigir do Jo\u00e3o Pedro habilidades ainda n\u00e3o consolidadas.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o da psic\u00f3loga apontava para a necessidade de preservarmos mais espa\u00e7o para ele brincar e desenvolver a linguagem simb\u00f3lica, a imagina\u00e7\u00e3o, o racioc\u00ednio e a linguagem oral. Mas n\u00f3s nos preocup\u00e1vamos pensando que, ao ret\u00ea-lo, poder\u00edamos estar passando a mensagem impl\u00edcita de que ele n\u00e3o havia sido capaz. Ele tinha realizado tantas conquistas, isso n\u00e3o iria desanim\u00e1-lo? Mirtes e eu ficamos angustiadas.<\/p>\n<p>Reflet\u00edamos, ouv\u00edamos os argumentos, pens\u00e1vamos no grupo que j\u00e1 o acolhia, no desafio que enfrentaria de formar novos v\u00ednculos de amizade etc. Nosso desejo inicial era que ele fosse para o pr\u00e9. Depois de muita conversa, chegamos a um consenso e ele ficou na s\u00e9rie em que estava.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma de n\u00f3s queria continuar como sua professora \u2013 afinal hav\u00edamos sido capturadas por ele. Mas, infelizmente, isso n\u00e3o aconteceu. Atualmente n\u00f3s trabalhamos em classes diferentes com crian\u00e7as mais novas e mantemos uma rela\u00e7\u00e3o muito carinhosa com ele.<\/p>\n<p>No recreio, temos contato e \u00e0s vezes ele brinca com alguns alunos meus. J\u00e1 est\u00e1 entrosado com o novo grupo de crian\u00e7as, tem l\u00e1 uma amiga muita querida e se relaciona bem com as professoras que continuam a pensar nos desafios, ajudando-o a super\u00e1-los.<\/p>\n<p>Quando reflito sobre o trabalho do ano passado e sobre a fun\u00e7\u00e3o da escola como o lugar de socializa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u2013 onde ela cria seu c\u00edrculo de amizades, desenvolve atitudes, valores, aprende a respeitar as diferen\u00e7as e atuar cooperativamente \u2013, vejo como fundamental a interven\u00e7\u00e3o do professor ao criar situa\u00e7\u00f5es em que isso tudo possa ser desenvolvido. As crian\u00e7as, \u00e0s vezes, s\u00e3o cru\u00e9is com aquele que \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Se o professor e a escola n\u00e3o atuarem de forma a inclu\u00ed-los, com certeza ser\u00e3o \u201cgozados\u201d e passar\u00e3o por situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis, constrangedoras, que em nada favorecem a constru\u00e7\u00e3o da auto-estima e dificultam o desenvolvimento de todo o seu potencial.<\/p>\n<p>O professor tem de ter olhos para observar cada crian\u00e7a e refletir sobre o percurso de cada uma, dosando a expectativa sem se balizar por uma crian\u00e7a idealizada. Para os alunos com necessidades especiais, \u00e9 preciso ler nos m\u00ednimos sinais um sorriso, uma inten\u00e7\u00e3o. Devemos mostrar a eles que acreditamos que podem vencer seus desafios e que daremos suporte para que consigam.<\/p>\n<p>Em nosso caso este trabalho tamb\u00e9m foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es entre escola, fam\u00edlia e profissionais de suporte (psic\u00f3logos, neurologistas, fonoaudi\u00f3logos, terapeutas e outros), e quando isso n\u00e3o acontece devemos trabalhar para que essas condi\u00e7\u00f5es sejam viabilizadas.<\/p>\n<p>Aprendi muito com a experi\u00eancia e por isso estou receptiva a trabalhar com outras crian\u00e7as com necessidades especiais. \u00c9 algo que me instiga, e d\u00e1 prazer poder ajud\u00e1-las a se desenvolver a partir da consci\u00eancia de suas limita\u00e7\u00f5es e potencialidades. As outras crian\u00e7as aprendem a respeitar as diferen\u00e7as, a acolher, certas de que tamb\u00e9m ser\u00e3o acolhidas por seus companheiros sempre que precisarem. Todos ganham!<\/p>\n<p>(Heloisa Pacheco, professora da Escola Vera Cruz, SP . Este texto foi extra\u00eddo da palestra que ela proferiu no Espa\u00e7o Trap\u00e9zio \u2013 Grupo de apoio \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Maria Cristina M. Kupfer \u2013 profa. associada do Instituto de Psicologia da USP.Tel.: (11)3091- 4185<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> As professoras tiveram acesso aos diagn\u00f3sticos que n\u00e3o est\u00e3o explicitados, a pedido da escola, para preservar as crian\u00e7as<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>Companhia circense contempor\u00e2nea.<\/p>\n<h4>Desafios da escola inclusiva<\/h4>\n<p>A Escola Inclusiva \u00e9 uma tend\u00eancia internacional deste final de s\u00e9culo. \u00c9 considerada Escola Inclusiva aquela que abre espa\u00e7o para todas as crian\u00e7as, abrangendo aquelas com necessidades especiais.<\/p>\n<p>O principal desafio da Escola Inclusiva \u00e9 desenvolver uma pedagogia centrada na crian\u00e7a, capaz de educar a todas, sem discrimina\u00e7\u00e3o, respeitando suas diferen\u00e7as; uma escola que d\u00ea conta da diversidade das crian\u00e7as e ofere\u00e7a respostas adequadas \u00e0s suas caracter\u00edsticas e necessidades, solicitando apoio de institui\u00e7\u00f5es e especialistas quando isso se fizer necess\u00e1rio. \u00c9 uma meta a ser perseguida por todos aqueles comprometidos com o fortalecimento de uma sociedade democr\u00e1tica, justa e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>As alternativas de atendimento educacional \u00e0s crian\u00e7as que apresentam necessidades educativas especiais, no Brasil, v\u00e3o desde o atendimento em institui\u00e7\u00f5es especializadas at\u00e9 a completa integra\u00e7\u00e3o nas v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A qualidade do processo de integra\u00e7\u00e3o depende da estrutura organizacional da institui\u00e7\u00e3o, pressupondo propostas que considerem:<\/p>\n<ul>\n<li>grau de defici\u00eancia e as potencialidades de cada crian\u00e7a;<\/li>\n<li>idade cronol\u00f3gica;<\/li>\n<li>disponibilidade de recursos humanos e materiais existentes na comunidade;<\/li>\n<li>condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas e culturais da regi\u00e3o;<\/li>\n<li>est\u00e1gio de desenvolvimento dos servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o especial j\u00e1 implantados nas unidades federadas.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para que o processo de integra\u00e7\u00e3o dessas crian\u00e7as possa acontecer de fato, h\u00e1 que se envolver toda a comunidade, de forma a que o trabalho desenvolvido tenha sustenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso considerar este trabalho como parte do projeto educativo da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Referencial Curricular Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, MEC, 1998)<\/p>\n<h4>Palavra de especialista<\/h4>\n<p>Marta Gil, da Rede Saci<sup>4<\/sup>, \u00e9 nossa conselheira para assuntos relativos \u00e0 inclus\u00e3o, leu o texto da professora Hel\u00f4 e gentilmente contribuiu com sugest\u00f5es e enviou-nos essas considera\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Os assuntos principais da Rede Saci s\u00e3o: Educa\u00e7\u00e3o e Trabalho, \u00e1reas fundamentais na vida de qualquer pessoa, tenha ou n\u00e3o defici\u00eancia. Coincidentemente, esses dois assuntos est\u00e3o recebendo mais aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, atualmente. Nossa experi\u00eancia tem-nos demonstrado, reiteradas vezes, como \u00e9 importante partilhar experi\u00eancias, informa\u00e7\u00f5es, d\u00favidas e hesita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 pela troca, pela comunica\u00e7\u00e3o, pela partilha que os fantasmas s\u00e3o exorcizados, que as d\u00favidas se dissipam, que o conhecimento \u00e9 constru\u00eddo e, mais do que isso, \u00e9 divulgado.Todos ganham com essa troca. Esta atitude \u00e9 inerente ao ser humano, desde a caverna. Quantas informa\u00e7\u00f5es foram trocadas em volta das fogueiras&#8230;<\/p>\n<p>Na Educa\u00e7\u00e3o, esta partilha \u00e9 ainda mais fundamental. O interc\u00e2mbio de conhecimentos, de viv\u00eancias, de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 natural: \u00e9 assim que nos constru\u00edmos, \u00e9 assim que nos tornamos pessoas e cidad\u00e3os mais participantes, ativos, cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Muitas escolas est\u00e3o se abrindo para incluir crian\u00e7as com algum tipo de defici\u00eancia. Ao fazer assim, ousam quebrar preconceitos e contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e digna.<\/p>\n<p>Este trabalho envolve toda a comunidade escolar: alunos, professores, pais, pessoas do quadro administrativo e auxiliares. Todos devem receber informa\u00e7\u00f5es sobre as necessidades dessas crian\u00e7as, que qualificamos de \u201cnecessidades especiais\u201d, como interagir com elas, o que esperar de seu desempenho e como avali\u00e1-las, realistica e respeitosamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 que as fam\u00edlias optaram por matricul\u00e1-las em uma escola comum, onde ir\u00e3o interagir com outras crian\u00e7as, \u00e9 preciso preparar o ambiente e as pessoas, para que essas crian\u00e7as possam ser acolhidas com generosidade e alegria. Aprender a respeitar a diversidade \u00e9 uma das grandes li\u00e7\u00f5es da vida.Afinal, somos todos diferentes.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das riquezas do ser humano. E a escola pode ser o lugar ideal para aprender tamb\u00e9m esta li\u00e7\u00e3o, desde o in\u00edcio da nossa vida.<\/p>\n<p>Uma das chaves desta prepara\u00e7\u00e3o chama-se \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel, aberta, partilhada entre a fam\u00edlia e a comunidade escolar. \u00c9 preciso saber discernir informa\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter privado da que pode (e deve) ser partilhada, sem se tornar fofoca, maledic\u00eancia, diz-que-diz.<\/p>\n<p>O ocultamento, o segredo, o disfarce, s\u00f3 faz aumentar o preconceito e refor\u00e7ar estere\u00f3tipos e estigmas. \u201cPor que n\u00e3o posso saber o motivo de meu colega ser diferente?\u201d \u201cPor que ele ficou assim?\u201d \u201cO que aconteceu com ele?\u201d.<\/p>\n<p>Essa informa\u00e7\u00e3o deve fluir no ambiente interno da escola e tamb\u00e9m pode ser partilhada com outros educadores, outras escolas, outras fam\u00edlias. Ela \u00e9 fundamental para construirmos este caminho que se chama \u201cinclus\u00e3o\u201d e que tem sido t\u00e3o debatido. N\u00e3o h\u00e1 receita pronta nem modelo acabado.<\/p>\n<p>Como dizia o poeta, Caminhante, N\u00e3o h\u00e1 caminho. Faz-se o caminho ao andar. \u00c9 pela partilha franca, honesta, generosa que iremos aprendendo, com nossos acertos e desacertos. Este \u00e9 um momento de transi\u00e7\u00e3o, de d\u00favidas, de muitas interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00f3 avan\u00e7aremos se pudermos debater, refletir, questionar, propor. Precisamos mapear o caminho percorrido, ter documenta\u00e7\u00e3o, trocar itiner\u00e1rios e ousar falar sobre nossas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>O que resultar\u00e1 deste processo? Escolas que ser\u00e3o, cada vez mais, \u201clugares de vida\u201d e, conseq\u00fcentemente, uma sociedade mais justa e digna para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><sup>4<\/sup>Rede SACI \u2013 Solidariedade, Apoio, Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Marta Gil, Gerente da Rede Saci)<\/p>\n<h4>Educar crian\u00e7as com necessidades especiais<\/h4>\n<p>As pessoas que apresentam necessidades especiais (portadores de defici\u00eancia mental, auditiva, visual, f\u00edsica e defici\u00eancia m\u00faltipla, e portadores de altas habilidades) representam 10% da popula\u00e7\u00e3o brasileira e possuem, em sua grande maioria, uma vasta experi\u00eancia de exclus\u00e3o que se traduz em grandes limita\u00e7\u00f5es nas possibilidades de conv\u00edvio social e usufruto dos equipamentos sociais (menos de 3% t\u00eam acesso a algum tipo de atendimento), al\u00e9m de serem submetidas a diversos tipos de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma a\u00e7\u00e3o educativa comprometida com a cidadania e com a forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade democr\u00e1tica e n\u00e3o excludente deve, necessariamente, promover o conv\u00edvio com a diversidade, que \u00e9 marca da vida social brasileira. Essa diversidade inclui n\u00e3o somente as diversas culturas, os h\u00e1bitos, os costumes, mas tamb\u00e9m as compet\u00eancias, as particularidades de cada um. Aprender a conviver e relacionar-se com pessoas que possuem habilidades e compet\u00eancias diferentes, que possuem express\u00f5es culturais e marcas sociais pr\u00f3prias, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o desenvolvimento de valores \u00e9ticos, como a dignidade do ser humano, o respeito ao outro, a igualdade e a equidade e a solidariedade.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a que conviver com a diversidade nas institui\u00e7\u00f5es educativas poder\u00e1 aprender muito com ela. Pelo lado das crian\u00e7as que apresentam necessidades especiais, o conv\u00edvio com as outras crian\u00e7as se torna ben\u00e9fico na medida em que representa uma inser\u00e7\u00e3o de fato no universo social e favorece o desenvolvimento e a aprendizagem, permitindo a forma\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos estimuladores, o confronto com a diferen\u00e7a e o trabalho com a pr\u00f3pria dificuldade.<\/p>\n<p>Os avan\u00e7os no pensamento sociol\u00f3gico, filos\u00f3fico e legal v\u00eam exigindo, por parte do sistema educacional brasileiro, o abandono de pr\u00e1ticas segregacionistas que, ao longo da hist\u00f3ria, marginalizaram e estigmatizaram pessoas com diferen\u00e7as individuais acentuadas.<\/p>\n<p>A LDB, no seu cap\u00edtulo V, Da educa\u00e7\u00e3o especial, par\u00e1grafo 3\u00ba, determina que: \u201cA oferta de educa\u00e7\u00e3o especial, dever constitucional do Estado, tem in\u00edcio na faixa et\u00e1ria de zero a seis anos, durante a educa\u00e7\u00e3o infantil\u201d.<\/p>\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o Especial, termo cunhado para a educa\u00e7\u00e3o dirigida aos portadores de defici\u00eancia, de condutas t\u00edpicas e de altas habilidades, \u00e9 considerada pela Constitui\u00e7\u00e3o brasileira como parte insepar\u00e1vel do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o da Unesco considera a educa\u00e7\u00e3o especial como uma forma enriquecida de educa\u00e7\u00e3o em geral, que deve contribuir para a integra\u00e7\u00e3o na sociedade dos portadores de defici\u00eancia, de condutas t\u00edpicas e de altas habilidades.<\/p>\n<p>O Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, em seu art. 54, III, afirma que:\u201c\u00c9 dever do estado assegurar \u00e0 crian\u00e7a e ao adolescente (&#8230;) atendimento educacional especializado aos portadores de defici\u00eancia, preferencialmente na rede regular de ensino\u201d. O MEC desenvolve, por interm\u00e9dio de sua Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Especial (SEESP), uma pol\u00edtica visando \u00e0 integra\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as portadoras de necessidades especiais ao sistema de ensino, propondo a inclus\u00e3o destas crian\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o infantil.<\/p>\n<p>No mundo inteiro tem se observado iniciativas no sentido da inclus\u00e3o cada vez maior das crian\u00e7as com necessidades especiais nos mais diversos espa\u00e7os sociais, o que culmina hoje com a Declara\u00e7\u00e3o de Salamanca, de princ\u00edpios, pol\u00edtica e pr\u00e1tica das necessidades educativas especiais. Este documento se inspira \u201cno princ\u00edpio de integra\u00e7\u00e3o e no reconhecimento da necessidade de a\u00e7\u00e3o para conseguir escola para todos, isto \u00e9, escolas que incluam todo mundo e conhe\u00e7am as diferen\u00e7as promovam a aprendizagem e atendam as necessidades de cada um\u201d.<\/p>\n<p>A realidade brasileira, de uma forma geral, exige que se busque alternativas para a integra\u00e7\u00e3o do portador de defici\u00eancia, de maneira a garantir-lhe uma conviv\u00eancia participativa.<\/p>\n<p>(Referencial Curricular Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, MEC, 1998)<\/p>\n<h4>Para Saber Mais<\/h4>\n<p>Atualmente existem in\u00fameros grupos que oferecem apoio \u00e0s escolas, atendimento \u00e0s crian\u00e7as e assessorias para a inclus\u00e3o escolar. Conhe\u00e7a alguns:<\/p>\n<ul>\n<li>Espa\u00e7o Trap\u00e9zio: atuando junto \u00e0s escolas, fam\u00edlias e professores, visa \u00e0 melhoria da escolariza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as.Tamb\u00e9m presta assessorias e desenvolve projetos de forma\u00e7\u00e3o de professores para a inclus\u00e3o escolar. Tel.: (11) 3032-1660 ou pelo site www.trapezio.org.br<\/li>\n<li>Lugar de Vida: escola terap\u00eautica ligada ao Instituto de Psicologia da USP, recebe crian\u00e7as da comunidade e oferece cursos espec\u00edficos da \u00e1rea cl\u00ednica e outros ligados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para a inclus\u00e3o escolar.Tel.: (11) 3091-4173 ou pelo site www.usp.br<\/li>\n<li>Reintegra: ONG em defesa dos direitos de pessoas que t\u00eam necessidades especiais. E-mail: reintegra@saci.cecae.usp.br<\/li>\n<li>SACI &#8211; Rede de Solidariedade, Apoio, Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 uma rede eletr\u00f4nica que estimula a inclus\u00e3o social e digital da pessoa com defici\u00eancia. Para tanto, disponibiliza informa\u00e7\u00f5es e cria canais de comunica\u00e7\u00e3o sobre essa tem\u00e1tica. Para maiores informa\u00e7\u00f5es, acesse www.saci.org.br<\/li>\n<\/ul>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1695\" title=\"avisala_11_jeitos5\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_11_jeitos5.jpg\" alt=\"\" width=\"86\" height=\"113\" \/><strong>Reynaldo Fonseca<\/strong><br \/>\nArtista de Pernambuco, pintor por voca\u00e7\u00e3o, como gosta de ser definido, trabalha obsessivamente sobre detalhes de suas figuras et\u00e9reas, enigm\u00e1ticas, inusitadas. Esses personagens instigam a fantasia do espectador e evocam a incerteza e o mist\u00e9rio da exist\u00eancia humana. Agradecemos a cess\u00e3o das ilustra\u00e7\u00f5es desta mat\u00e9ria, extra\u00eddas do Livro Brazilian Art Book.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A inclus\u00e3o de crian\u00e7as com necessidades especiais em classes regulares \u00e9, ao mesmo tempo, uma realidade e um desafio. Nem toda professora se sente em condi\u00e7\u00f5es de abra\u00e7ar a id\u00e9ia. Este relato mostra como professoras sens\u00edveis e uma escola respons\u00e1vel podem ser de grande ajuda no processo da inclus\u00e3o. Por Hel\u00f4 Pacheco<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":3189,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,372],"tags":[1103,474,274,1329,55,473],"class_list":{"0":"post-1688","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-jeitos-de-cuidar","8":"category-revista-avisala-11","9":"tag-revista-avisa-la-2002","10":"tag-educacao-especial","11":"tag-helo-pacheco","12":"tag-inclusao","13":"tag-necessidades-especiais","14":"tag-saci","16":"post-with-thumbnail","17":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1688"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1688\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}