{"id":1644,"date":"2002-04-15T10:03:18","date_gmt":"2002-04-15T13:03:18","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1644"},"modified":"2023-03-27T16:53:20","modified_gmt":"2023-03-27T19:53:20","slug":"encontros-de-supervisao-o-que-o-coordenador-pode-fazer-para-ajudar-os-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/encontros-de-supervisao-o-que-o-coordenador-pode-fazer-para-ajudar-os-professores\/","title":{"rendered":"Encontros de supervis\u00e3o &#8211; O que o coordenador pode fazer para ajudar os professores"},"content":{"rendered":"<h5>Muitas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o contam com o coordenador pedag\u00f3gico no seu quadro funcional e, quando contam, acabam deixando a seu cargo infind\u00e1veis tarefas burocr\u00e1ticas, emerg\u00eancias e toda ordem de problemas do cotidiano. Veja como \u00e9 poss\u00edvel mudar essa cultura e construir uma nova identidade profissional com a experi\u00eancia de Carla Luizato e Cynthia Felipe Noszhese Magalh\u00e3es, as coordenadoras que pararam de \u201capagar inc\u00eandio\u201d e assumiram a forma\u00e7\u00e3o de professores como principal meta de trabalho<\/h5>\n<p><!--more--><\/p>\n<div id=\"attachment_1648\" style=\"width: 380px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1648\" class=\"size-full wp-image-1648\" title=\"avisala_10_supervisao11\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao11.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao11.jpg 370w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao11-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><p id=\"caption-attachment-1648\" class=\"wp-caption-text\">Espa\u00e7o do ber\u00e7\u00e1rio reorganizado para expor produ\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as. No centro uma roda aconchegante para ouvir hist\u00f3rias<\/p><\/div>\n<p>Muitos profissionais que exercem a fun\u00e7\u00e3o de coordenador pedag\u00f3gico reclamam da dificuldade de realizar seu trabalho. Parte das queixas diz respeito ao desempenho de tarefas e fun\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem parte de seu papel. Tomados por demandas de toda ordem, esses profissionais n\u00e3o conseguem acompanhar os professores, oferecendo ajuda necess\u00e1ria para melhoria da pr\u00e1tica docente e, conseq\u00fcentemente, das aprendizagens das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Tendo sua a\u00e7\u00e3o dificultada por um cotidiano dispersivo, \u00e9 comum coordenadores culparem os professores, alegando que estes n\u00e3o fazem nada, n\u00e3o querem fazer, e que n\u00e3o adianta falar. Enquanto isso, os professores seguem \u00e0 deriva, lidando sozinhos com os desafios e as dificuldades de educar crian\u00e7as pequenas.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nN\u00e3o cabe aqui uma longa an\u00e1lise das causas que levam a esse descompasso, mas \u00e9 poss\u00edvel apontar as principais: indefini\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao papel b\u00e1sico das institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o &#8211; que \u00e9 o de ensinar as crian\u00e7as e possibilitar uma real aprendizagem \u2013, inexist\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o institucional que possibilite uma defini\u00e7\u00e3o clara das compet\u00eancias dos profissionais envolvidos, falta de investimento na constru\u00e7\u00e3o de uma equipe colaborativa e falta de uma forma\u00e7\u00e3o profissional que ajude a redefinir o papel dos coordenadores pedag\u00f3gicos numa institui\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar desse quadro, s\u00e3o muitas as iniciativas para tornar mais eficiente e produtivo o trabalho desses profissionais junto aos professores. Muitos coordenadores procuram encontrar seu verdadeiro papel saindo do lugar da queixa e intervindo para mudar a realidade.<\/p>\n<p>Carla Luizato e Cynthia Felipe Noszhese Magalh\u00e3es, coordenadoras da institui\u00e7\u00e3o Gota de Leite, creche e escola de educa\u00e7\u00e3o infantil de Santos, SP, s\u00e3o exemplos disso. Durante dois anos investigaram, insistiram, tentaram e arriscaram iniciativas que muito contri-bu\u00edram para a melhor defini\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias das duas mostram como \u00e9 poss\u00edvel mudar pr\u00e1ticas arraigadas utilizando um espa\u00e7o leg\u00edtimo de forma\u00e7\u00e3o de professores: a supervis\u00e3o pedag\u00f3gica. Vida de coordenador A Gota de Leite viveu intensamente um processo de forma\u00e7\u00e3o continuada por dois anos. Como formadora de equipe, reunia-me com as coordenadoras duas vezes por m\u00eas e destinava parte de meu tempo \u00e0 supervis\u00e3o com as professoras da pr\u00e9-escola e da creche.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos objetivos de forma\u00e7\u00e3o dos educadores, esses encontros tamb\u00e9m serviam como ponto de partida para a discuss\u00e3o do trabalho do coordenador pedag\u00f3gico. Carla e Cynthia assistiam atentamente \u00e0s minhas interven\u00e7\u00f5es com as professoras. Propus que fossem se arriscando progressivamente nesse novo papel, organizando um cronograma de reuni\u00f5es individuais com os professores.<\/p>\n<p>Minha meta era criar espa\u00e7o para que, at\u00e9 o final do projeto, elas pudessem me substituir completamente. Durante esse tempo acompanhei-as em suas reflex\u00f5es, levantando quest\u00f5es, problematizando situa\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas propostas \u00e0s crian\u00e7as, lendo e analisando os registros que elas me enviavam semanalmente.<\/p>\n<p>Foi num desses escritos que encontrei o primeiro desabafo de Carla: \u201cConfesso, estou completamente perdida. N\u00e3o sei nem o que falar e o que fazer. Isto \u00e9, n\u00e3o planejei. Melhor, n\u00e3o consegui planejar, n\u00e3o parei para pensar, n\u00e3o consegui pensar\u201d \u2013 dizia ela em seu di\u00e1rio de campo, no primeiro m\u00eas de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cSei que posso fazer melhor, mas nem sei ao certo o qu\u00ea as professoras est\u00e3o fazendo nos projetos. \u00c0s vezes fico me perguntando: Ser\u00e1 que eu estou realmente na profiss\u00e3o certa? Se eu acredito na proposta da escola e gosto realmente do que fa\u00e7o, por que n\u00e3o consigo desenvolver bem a minha fun\u00e7\u00e3o? Quero uma resposta.\u201d<\/p>\n<p>Assim como muitos coordenadores iniciantes, Carla havia sido tomada pela incerteza e sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia. Mas, na entrelinha do des\u00e2nimo, apareceu uma pista importante que podia ajudar a reverter a situa\u00e7\u00e3o. Diante de tanto \u201cn\u00e3o saber\u201d havia um saber fundamental: conhecer e acreditar numa proposta n\u00e3o era suficiente para conseguir mudan\u00e7as na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Era preciso acompanhar mais de perto o que os professores pensavam e faziam, entrar no cotidiano da sala de aula com seus problemas reais e \u00e0s vezes t\u00e3o particulares.<\/p>\n<p>Conhecer as dificuldades do dia-a-dia foi o primeiro passo de Carla para contribuir para a forma\u00e7\u00e3o dos professores. A decis\u00e3o de atrelar \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de coordenar a de formar educadores ganhou, nos meses seguintes, desdobramentos que levaram a uma nova configura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de supervis\u00e3o pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o como espa\u00e7o de queixa<\/strong><br \/>\nNos primeiros encontros, Carla e Cynthia passaram a discutir com as professoras as quest\u00f5es que o grupo trazia. Essa decis\u00e3o foi bem aceita pelas professoras, que encontraram um espa\u00e7o para suas queixas. Parecia muito bom ter com quem conversar sobre os in\u00fameros problemas e outras tantas d\u00favidas que os professores t\u00eam no cotidiano de seu trabalho.<\/p>\n<p>Para as coordenadoras tamb\u00e9m era interessante conhecer o universo dos professores e suas inquieta\u00e7\u00f5es e d\u00favidas. Mas, com o tempo, come\u00e7aram a aparecer problemas de outra ordem. \u00c9 o que nos conta Carla no segundo m\u00eas de trabalho:<\/p>\n<p>\u201c N\u00e3o gostei dessa supervis\u00e3o. Elas falam muitas coisas ao mesmo tempo, reclamam da cozinha que n\u00e3o tem copo e faca, pedem coisas imposs\u00edveis, como trazer animadores de festas, almofadas. Eu me perco completamente. E ainda fomos interrompidas tr\u00eas vezes. E agora? Fiquei com uma sensa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>Existem problemas de relacionamento pessoal, reclama\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias, pedidos imposs\u00edveis e problemas insol\u00faveis, mas, do lugar de coordenadora, o que seria poss\u00edvel fazer al\u00e9m de ouvir queixas? A constata\u00e7\u00e3o desse novo problema exigiu a busca de uma nova alternativa que precisou ser pensada e empreendida n\u00e3o s\u00f3 pelas coordenadoras, mas tamb\u00e9m pela equipe de dire\u00e7\u00e3o, cujo apoio, nesse momento, foi imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o como espa\u00e7o de an\u00e1lise e reflex\u00e3o<\/strong><br \/>\nA primeira medida foi elaborar um cronograma de encontros, estabelecendo momentos em que as coordenadoras n\u00e3o poderiam ser interrompidas. Certas de que precisariam atuar sobre as situa\u00e7\u00f5es de ensino planejadas pelos professores, para obter melhores aprendizagens das crian\u00e7as, Carla e Cynthia passaram a se apoiar nos di\u00e1rios de campo dos educadores1 e na tematiza\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es relativas \u00e0s propostas de trabalho, o que lhes exigiu colocar em jogo todo conhecimento que tinham sobre o assunto, ainda que provis\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cA professora do pr\u00e9 veio me mostrar a produ\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as para o dia das m\u00e3es\u201d \u2013 relata Carla. \u201cUm versinho copiado que dizia assim: mam\u00e3e, meiga e paciente. Trabalha para dar conforto \u00e0 gente. Te amo. Ass.: &#8230;E agora, o que fazer? Copiar um verso para mam\u00e3e? \u2013 pensei. Por que n\u00e3o escrever por conta pr\u00f3pria uma carta ou um cart\u00e3o? \u2013 perguntei.<\/p>\n<div id=\"attachment_1649\" style=\"width: 605px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1649\" class=\"size-full wp-image-1649\" title=\"avisala_10_supervisao12\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao12.jpg\" alt=\"\" width=\"595\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao12.jpg 595w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao12-300x234.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 595px) 100vw, 595px\" \/><p id=\"caption-attachment-1649\" class=\"wp-caption-text\">A observa\u00e7\u00e3o de sala passou a fazer parte da rotina da coordenadora Cynthia, trazendo elementos para tematizar nos encontros de supervis\u00e3o com a professora<\/p><\/div>\n<p>A professora respondeu que a turma da tarde escolheu, sim, escrever uma carta, ditando o texto a ela. Pedi ent\u00e3o que trouxesse para a supervis\u00e3o as produ\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as da manh\u00e3 e da tarde, para que pud\u00e9ssemos analis\u00e1-las e discutir por que uma proposta pode ser mais interessante que a outra.\u201d<\/p>\n<p>Os reflexos no cotidiano das crian\u00e7as saltaram aos olhos. As professoras passaram a planejar propostas, observar as crian\u00e7as durante o trabalho, avaliar processos e resultados e fazer ajustes importantes para melhorar futuras propostas. Criou-se uma cultura de observar e analisar o que as crian\u00e7as faziam que resultou em planejamentos melhores que, por sua vez, influenciaram positivamente as aprendizagens das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Essa iniciativa teve sua contrapartida: as coordenadoras ficavam na depend\u00eancia do que aparecia na hora da supervis\u00e3o, das propostas que as professoras levariam para discutir e pouco podiam antecipar para se preparar melhor.<\/p>\n<p>Muitas vezes desperdi\u00e7aram a chance de mostrar um bom texto ou um material que poderia ter ajudado a professora antes de realizar a atividade com as crian\u00e7as. Do jeito como a supervis\u00e3o estava organizada, o foco ficava apenas na an\u00e1lise do que j\u00e1 havia passado.<\/p>\n<p>Isso provocava grande insatisfa\u00e7\u00e3o nos professores, que saiam das reuni\u00f5es amargando a sensa\u00e7\u00e3o de incompet\u00eancia, refor\u00e7ando a id\u00e9ia de que nada estava bom, nunca estava certo, sempre insuficiente. Por outro lado, as professoras levavam apenas aquilo que era observ\u00e1vel para elas. Quem poderia ajud\u00e1-las a enxergar al\u00e9m?<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o desse novo problema e a discuss\u00e3o que tivemos a partir dessa experi\u00eancia nos permitiu enxergar a necessidade de focar um outro tempo do trabalho do professor, o momento anterior \u00e0 a\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as, na hora em que ele pensa e planeja seutrabalho, n\u00e3o o abandonando mas sim acompanhando antes, durante e depois da sala de aula. Essa foi a orienta\u00e7\u00e3o que Carla e Cynthia seguiram firmemente nos meses seguintes.<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o como espa\u00e7o de interven\u00e7\u00e3o planejada<\/strong><br \/>\nPara ajud\u00e1-las na nova forma de pensar e organizar o trabalho, propus que analis\u00e1ssemos as interven\u00e7\u00f5es que eu mesma fazia nos meus momentos de supervis\u00e3o com as professoras. Pedi que acompanhassem o desenrolar dos encontros anotando suas observa\u00e7\u00f5es naquelas pautas. Depois propus que planejassem pautas de supervis\u00e3o semelhantes \u00e0quelas para as reuni\u00f5es que elas fariam naquela semana.<\/p>\n<p>O entendimento sobre o uso desse instrumento foi fundamental. Carla e Cynthia puderam ver que \u00e9 poss\u00edvel antecipar quest\u00f5es e se preparar para atender \u00e0 professora. Na mesma semana Carla contou: \u201cPeguei minhas pastas, meus materiais e me isolei por duas horas para preparar as pautas para as supervis\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, antecipava os conte\u00fados de seus encontros de supervis\u00e3o apoiando-se em dados trazidos de tr\u00eas fontes:<\/p>\n<ul>\n<li>Observa\u00e7\u00e3o de sala<\/li>\n<li>An\u00e1lise de produ\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as<\/li>\n<li>Leitura de di\u00e1rios de campo<\/li>\n<\/ul>\n<p>Reconhecendo os conte\u00fados mais significativos era poss\u00edvel planejar uma supervis\u00e3o adequada \u00e0s necessidades das professoras. Para organizar seu trabalho ela passou a seguir um roteiro:<\/p>\n<p>Supervis\u00e3o do grupo: ____________ Profa.: _____________ Data: _______<\/p>\n<ol>\n<li>\u00a0 Objetivo da supervis\u00e3o<\/li>\n<li>Expectativas de aprendizagem (com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s professoras)<\/li>\n<li>Estrat\u00e9gia (como problematizar e encaminhar quest\u00f5es)<\/li>\n<li>Recursos (o que usar como apoio: textos, v\u00eddeos, registros etc.)<\/li>\n<li>Tarefa (quando necess\u00e1ria)<\/li>\n<\/ol>\n<p>Semanas depois, mais aliviada, Carla relatou em seu di\u00e1rio: Fiz a supervis\u00e3o com as professoras da turma de 4 anos. O conte\u00fado era planejamento de propostas em linguagem escrita, mais especificamente falando a escrita do nome pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>As professoras relataram in\u00fameros avan\u00e7os das crian\u00e7as, mas tamb\u00e9m comentaram sobre as que n\u00e3o cumprem combinados da turma etc. O tempo inteiro queriam desviar o assunto, mas eu retomava a discuss\u00e3o e assim consegui garantir a pauta que havia planejado. Ajudei na elabora\u00e7\u00e3o de um bom planejamento sem me preocupar com outros assuntos que eu sei que s\u00e3o importantes, mas que podem ficar para outros momentos. Adorei fazer as supervis\u00f5es.<\/p>\n<p>Como \u00e9 bom fazer pauta e saber o que falar! Pela primeira vez acho que n\u00e3o me perdi. Posso n\u00e3o ter feito o mais adequado, mas para o momento foi aquilo que eu sabia e, em nenhum momento, deixei-as sem respostas.<\/p>\n<p><strong>A forma\u00e7\u00e3o em andamento nas supervis\u00f5es<\/strong><br \/>\nTanto Cynthia quanto Carla conseguiram se organizar para me enviar suas reflex\u00f5es com anteced\u00eancia, de forma que eu pudesse ler e levantar quest\u00f5es para discutir com elas. Num desses registros detectei uma dificuldade de Cynthia, que coordena as professoras das turmas de 0 a 3 anos.<\/p>\n<p>Ela estava muito preocupada com a rotina pedag\u00f3gica, sobretudo no ber\u00e7\u00e1rio, que, segundo sua avalia\u00e7\u00e3o, deixava muito a desejar: horas de espera, muito choro, poucos momentos de atividades etc. Ent\u00e3o, planejou uma supervis\u00e3o com as professoras do ber\u00e7\u00e1rio pensando em tematizar esse conte\u00fado.A pauta que ela me enviou era digna de uma boa an\u00e1lise e nos deu uma excelente oportunidade de forma\u00e7\u00e3o, ajudando a aprofundar nosso olhar sobre as reais necessidades de aprendizagem dos professores:<\/p>\n<p>Supervis\u00e3o do grupo: B1___Data:<\/p>\n<ol>\n<li>Objetivo da supervis\u00e3o: Organizar melhor a rotina, de forma a garantir um bom desenvolvimento das atividades.<\/li>\n<li>Expectativas de aprendizagem (com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s professoras): Espero que as professoras possam estruturar melhor a rotina nas salas, compreendendo o que \u00e9 essencial para as crian\u00e7as.<\/li>\n<li>Estrat\u00e9gia (como problematizar e encaminhar quest\u00f5es)<\/li>\n<li>Recursos (o que usar como apoio: textos, v\u00eddeos, registros etc.)<\/li>\n<li>Tarefa (quando necess\u00e1ria)<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>Avalia\u00e7\u00e3o da pauta e novo planejamento<\/strong><br \/>\nPude ver o quanto fora perspicaz ao escolher um ponto estruturante: a rotina pedag\u00f3gica. Fosse em outros tempos, teria listado mil afli\u00e7\u00f5es e mais um milh\u00e3o de faltas: \u201cfalta brincar, leitura, m\u00fasica, massinha, lavar as m\u00e3os, resolver o problema dos piolhos, alimenta\u00e7\u00e3o adequada, recortar e colar &#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Agora, mais experiente, escolheu o que realmente podia atender \u00e0s necessidades das crian\u00e7as menores, de at\u00e9 3 anos, que n\u00e3o vivenciam muitas propostas pedag\u00f3gica e passavam muito tempo esperando entre uma e outra situa\u00e7\u00e3o de cuidado: trocar fralda, tomar mamadeira, banho etc.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m notei que ela fora competente na busca de boas refer\u00eancias, de textos, v\u00eddeos e imagens que podiam ajudar as professoras. Mas, por outro lado, sua pauta deixava transparecer a dificuldade de encontrar um foco principal de interven\u00e7\u00e3o. De fato, quando se tem tantas coisas a fazer, e todas fundamentais, fica dif\u00edcil decidir por um aspecto.<\/p>\n<p>Ainda que dif\u00edcil, esse novo recorte \u00e9 necess\u00e1rio pois ele permite sair da generalidade e clarificar e pontuar as ques-t\u00f5es que podem estar ligadas a uma pr\u00e1tica que se deseja mudar. O conte\u00fado da rotina \u00e9 enorme. E, a rigor, tudo o que fazemos no plano pedag\u00f3gico reflete na rotina.<\/p>\n<p>Como tratar de um assunto t\u00e3o amplo em uma hora de supervis\u00e3o? O tempo curto acaba por exigir uma certa objetividade e o objetivo, \u201corganizar melhor a rotina, de forma a garantir um bom desenvolvimento das atividades\u201d, certamente ocuparia mais de uma supervis\u00e3o, talvez at\u00e9 mesmo o semestre inteiro. N\u00e3o bastasse isso, ela ainda colocou, com rela\u00e7\u00e3o a esse objetivo, uma expectativa bastante audaciosa: queria que \u201cas professoras pudessem estruturar melhor a rotina nas salas, compreendendo o que \u00e9 essencial para as crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_1650\" style=\"width: 223px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1650\" class=\" wp-image-1650 \" title=\"avisala_10_supervisao13\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2002\/04\/avisala_10_supervisao13.jpg\" alt=\"\" width=\"213\" height=\"202\" \/><p id=\"caption-attachment-1650\" class=\"wp-caption-text\">Cynthia (\u00e0 esquerda) e Carla dividem a coordena\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da creche e escola de educa\u00e7\u00e3o infantil Gota de Leite<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 uma expectativa de totalidade, de 100% de aprendizagem. Imposs\u00edvel numa \u00fanica supervis\u00e3o. Por tr\u00e1s da reorganiza\u00e7\u00e3o da rotina existem muitos conhecimentos que os professores precisariam dominar para realizar as tais mudan\u00e7as. \u00c9 importan te ter claro, ao planejar, quais s\u00e3o as\u00a0 aprendizagens em que queremos investir com a professora e o que podemos esperar que elas de fato aprendam.<\/p>\n<p>Muitas vezes n\u00e3o conseguimos mudan\u00e7as, apesar de tanta insist\u00eancia, de tanto falar, de tanto sugerir, porque as professoras n\u00e3o sabem como fazer e n\u00f3s lan\u00e7amos expectativas muito al\u00e9m do que elas podem alcan\u00e7ar naquele momento. Para ficar mais satisfeita, Cynthia precisaria regular o que ela esperava da professora, o que a professora, por sua vez, precisaria aprender. Vejamos alguns exemplos, a partir do objetivo \u201corganizar a rotina\u201d: (ver tabela abaixo)<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o seria poss\u00edvel abordar esse conte\u00fado na sua totalidade em um dia! O ideal seria escolher um item, que fosse mais urgente e mais significativo para o grupo de professoras para ent\u00e3o planejar um, dois ou tr\u00eas encontros de supervis\u00e3o. Mudan\u00e7as requerem investimento, esfor\u00e7o e tempo.<\/p>\n<p>Foi o que Cynthia fez. Ao longo do semestre ela perseguiu o objetivo de melhorar a rotina dos ber\u00e7\u00e1rios e, para tanto, estruturou seus encontros de supervis\u00e3o procurando ajustar seus objetivos \u00e0s estrat\u00e9gias e recursos que ela podia oferecer. Por exemplo:<\/p>\n<ol>\n<li>Para tornar observ\u00e1vel \u00e0s professoras o longo tempo de espera das crian\u00e7as, Cynthia filmou momentos dos ber\u00e7\u00e1rios, observou as salas e fez registros precisos. Depois, na supervis\u00e3o, assistiu \u00e0 filmagem com as professoras e juntas analisaram as situa\u00e7\u00f5es que apareciam nas cenas, levantando os problemas.<\/li>\n<li>Para dar outras refer\u00eancias, ela tamb\u00e9m levou, num outro encontro, a filmagem de outra creche, que tinha uma rotina melhor organizada, e pediu \u00e0s professoras que detectassem semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as.<\/li>\n<li>Quando as professoras tomaram consci\u00eancia do desajuste da rotina e da necessidade de oferecer op\u00e7\u00f5es para que as crian\u00e7as tivessem o que fazer em vez de esperar, Cynthia lan\u00e7ou uma expectativa maior: queria que as professoras organizassem cantos de atividades com ofertas diversificadas. Ent\u00e3o planejou novos momentos de supervis\u00e3o com diferentes objetivos, oferecendo ajuda necess\u00e1ria. Para que as professoras conhecessem a proposta dos cantos e analisassem essa pr\u00e1tica, Cynthia levou v\u00eddeos que mostravam as crian\u00e7as em atividade e discutiu com o grupo.<\/li>\n<li>Para que as professoras aprendessem a organizar cantos, ela ofereceu diversas fotografias e outras imagens que podiam inspir\u00e1-las para planejar a nova configura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e as propostas que podiam fazer para as crian\u00e7as.<\/li>\n<li>Por fim, providenciou material e assegurou momentos na pr\u00f3pria supervis\u00e3o para confeccionar coisas para a sala e organizar os espa\u00e7os. Assim, pouco a pouco, Cynthia foi ajudando as professoras a melhorar a rotina pedag\u00f3gica. Regular suas expectativas \u00e0s reais aprendizagens das professoras e ao tipo de ajuda oferecida foi o segredo para obter mais sucesso nas suas interven\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Planejar cada supervis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, mas tem sido o melhor jeito de se comprometer com as professoras e se responsabilizar por suas aprendizagens.<\/p>\n<h4>Dica do Formador<\/h4>\n<p>A tabela pode ajudar a priorizar focos para os encontros de supervis\u00e3o com os professores:<\/p>\n<p><strong>O que a profa. precisa fazer <\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Propor uma grande diversidade de atividades num mesmo dia.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa aprender<\/strong><\/p>\n<p>Conhecer um bom repert\u00f3rio de atividades, nas diversas possibilidades:<\/p>\n<ul>\n<li>atividades pl\u00e1sticas (desenho, pintura etc.)<\/li>\n<li>jogos (jogos de mesa, de montar, quebra-cabe\u00e7as, mem\u00f3ria, percursos etc.)<\/li>\n<li>brinquedos (faz-de-conta diversos, bonecas, bonecos de manipula\u00e7\u00e3o do tipo playmobil, super-her\u00f3is etc.).<\/li>\n<li>E ainda: m\u00fasica, leitura, atividades de movimentos relacionadas a circuitos<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa fazer<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Propor pequena diversidade de atividades com o intuito de aprofundar o conhecimento das crian\u00e7as em alguma \u00e1rea<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa aprender<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Conhecer as modalidades acima enumeradas.<\/li>\n<li>Escolher um foco de aten\u00e7\u00e3o para organizar uma seq\u00fc\u00eancia.<\/li>\n<li>Conhecer as orienta\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas da \u00e1rea escolhida para planejar uma boa seq\u00fc\u00eancia de atividades que de fato ampliem os conhecimentos das crian\u00e7as.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa fazer<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Diminuir o tempo de espera entre as atividades.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa aprender<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Organizar cantos na sala para que as crian\u00e7as escolham livremente o que v\u00e3o fazer durante o tempo de espera, para que n\u00e3o fiquem sem fazer nada.<\/li>\n<li>Escolher bons materiais e deix\u00e1-los \u00e0 m\u00e3o para que possam rapidamente organizar os cantos no momento necess\u00e1rio.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa fazer<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Intercalar momentos de atividades pedag\u00f3gicas e de cuidados e, ainda, dedicar-se \u00e0s atividades de cuidado da melhor forma poss\u00edvel para que at\u00e9 as crian\u00e7as tenham possibilidade de aprender mais sobre si, sobre o outro e desenvolver h\u00e1bitos saud\u00e1veis.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa aprender<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Conduzir atividades de cuidado \u2013 tais como banho, escova\u00e7\u00e3o de dentes etc. \u2013 de forma a introduzir as crian\u00e7as aos h\u00e1bitos da nossa cultura, assegurando que possam faz\u00ea-las com mais autonomia, ao longo dos anos da educa\u00e7\u00e3o infantil.<\/li>\n<li>Fazer acordos com sua parceira de sala de tal forma que umas crian\u00e7as possam ser cuidadas individualmente enquanto outras ficam na companhia do grupo, dedicando-se a outras atividades, tais como brincar na sala, ouvir hist\u00f3rias etc.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa fazer<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Compartilhar a rotina com as crian\u00e7as para que possam se localizar no tempo e no espa\u00e7o com mais autonomia e propriedade, reconhecendo a diferen\u00e7a entre rotina escolar e rotina dom\u00e9stica.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>O que a profa. precisa aprender<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Organizar agendas ou quadros de rotina para que as crian\u00e7as acompanhem o desenrolar do tempo na creche e possam antecipar os diversos momentos do dia<\/li>\n<\/ul>\n<p>(Silvana Augusto)<\/p>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica:<\/h4>\n<p>Iniciativa: Instituto Credicard. Desenvolvimento: Instituto Avisa-l\u00e1 &#8211; Gota de Leite. Tel.: (13) 3234-5933. &#8211; www.gotadeleite.hpg.com.br &#8211; e-mail: gotadeleite@uol.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja como \u00e9 poss\u00edvel mudar as fun\u00e7\u00f5es do Coordenador Pedag\u00f3gico, lendo sobre a experi\u00eancia de Carla Luizato e Cynthia Felipe  Noszhese Magalh\u00e3es, as coordenadoras que pararam de \u201capagar inc\u00eandio\u201d e assumiram a forma\u00e7\u00e3o de professores como principal meta de trabalho. Por Silvana Augusto<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":3182,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22,371],"tags":[1103,412,466,465,193,468,467,53],"class_list":{"0":"post-1644","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-reflexoes-do-professor","8":"category-revista-avisala-10","9":"tag-revista-avisa-la-2002","10":"tag-carla-luizato","11":"tag-coordenador-pedagogico","12":"tag-cynthia-felipe-noszhese-magalhaes","13":"tag-diario","14":"tag-experiencia","15":"tag-formacao-de-professores","16":"tag-silvana-augusto","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1644\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3182"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}