{"id":160,"date":"1999-09-01T23:08:17","date_gmt":"1999-09-02T02:08:17","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=160"},"modified":"2023-03-27T10:17:48","modified_gmt":"2023-03-27T13:17:48","slug":"bruno-suas-professoras-e-as-outras-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/bruno-suas-professoras-e-as-outras-criancas\/","title":{"rendered":"Bruno, suas professoras e as outras crian\u00e7as\u2026"},"content":{"rendered":"<p>Seu nome \u00e9 Bruno. Eu n\u00e3o era sua professora, mas o via de tempos em tempos devido ao trabalho de forma\u00e7\u00e3o que fazia na creche Casa da Crian\u00e7a. Sei que ele teve um longo processo de adapta\u00e7\u00e3o atrapalhado por muitas faltas, quase sempre por problemas de sa\u00fade. Quase 3 anos, mas n\u00e3o andava nem falava. Para completar, tomava um rem\u00e9dio fort\u00edssimo por causa da epilepsia. Sem firmeza nas pernas e nos bra\u00e7os, n\u00e3o segurava nem o giz de cera. Como n\u00e3o se sentava sozinho, eu o acompanhava nos momentos de atividade, quando l\u00e1 estava. Era preciso apoi\u00e1-lo em meu peito como se eu fosse uma poltroninha, e mesmo assim escorregava.<!--more--><\/p>\n<p>Havia a desconfian\u00e7a de que n\u00e3o enxergasse bem. Uma professora que trabalhara com deficientes visuais disse que um diagn\u00f3stico mais atento poderia confirmar mas, pelos sinais que p\u00f4de observar, existia a possibilidade de problemas de vis\u00e3o. Isso explicaria por que ele se apegava tanto ao colo das pessoas: n\u00e3o queria ficar sozinho. Que solid\u00e3o devia ser! O acompanhamento m\u00e9dico deixava a desejar. As informa\u00e7\u00f5es chegavam \u00e0 creche desencontradas e incompletas.<\/p>\n<p>A m\u00e3e n\u00e3o entendia o que acontecia com o filho e se preocupava. As outras pessoas de seu conv\u00edvio tamb\u00e9m desconheciam suas reais possibilidades. Pouco se fazia por ele, talvez pensando ingenuamente em poup\u00e1-lo. Isso acabava limitando ainda mais suas possibilidades. Dif\u00edcil sair desse lugar, \u00e9 bem poss\u00edvel que seu caso tivesse se agravado justamente por ser exclu\u00eddo de muitas oportunidades que poderiam ajud\u00e1-lo a se desenvolver.<\/p>\n<p>Como saber o quanto e como podia aprender? Nesses princ\u00edpios de inclus\u00e3o de crian\u00e7as com necessidades especiais, nas institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 muito para se fazer. Dora e Linda, as professoras, n\u00e3o sabiam que tipo de atendimento especial precisaria. Mesmo assim apostavam que podia aprender, afinal esse era o trabalho delas.<\/p>\n<p>Observaram at\u00e9 que ele j\u00e1 tinha evolu\u00eddo desde que entrara na creche. Para atend\u00ea-lo e tamb\u00e9m aprender mais sobre ele, encaminhavam o dia a dia do jeito que era poss\u00edvel.<\/p>\n<div id=\"attachment_162\" style=\"width: 191px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-162\" class=\"size-full wp-image-162\" title=\"avisa_01_dia2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisa_01_dia2.jpg\" alt=\"\" width=\"181\" height=\"131\" \/><p id=\"caption-attachment-162\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Em pouco tempo todos passaram a cuidar de Bruno&#8230;&#8221;<\/p><\/div>\n<p>Organizavam tempo e espa\u00e7o para garantir sua participa\u00e7\u00e3o em todas as atividades, respeitando suas possibilidades. Brincadeira de p\u00e1tio, dan\u00e7a, circuitos\u2026, seguravam ele pelas m\u00e3os ou carregavam no colo. Algu\u00e9m sempre ficava com ele ou, em \u00faltimo caso, elas levavam um colchonete para que pudesse ao menos estar no parque como todos, cercado de brinquedos. B\u00e1rbaro! O olhar atento das professoras foi crucial.<\/p>\n<p>Em pouco tempo todo mundo passou a cuidar dele naquela creche, principalmente as crian\u00e7as. Lucas vinha l\u00e1 da outra sala para v\u00ea-lo, dizendo que ia ajudar o Bruninho, como ele o chamava. As meninas da sua sala abra\u00e7avam e deitavam sua cabe\u00e7a no colo delas. Ensaiando os jeitos de cuidar! Bruno aprendia, mas todo mundo tamb\u00e9m teve o que aprender. Isso aconteceu durante poucos meses. Bruno, as crian\u00e7as e suas professoras, convivendo dia ap\u00f3s dia. Pequenos progressos.<\/p>\n<p>Certa vez, chegando mais cedo, o vi ali na entrada. Estava sentado sozinho! Sem cair e n\u00e3o babava! Uma cara muito melhor! Ele estava diferente. Fiz a maior festa, elogios, aplausos\u2026 ele dava risada. Parecia mais feliz . Infelizmente, por motivo de sa\u00fade, Bruno n\u00e3o p\u00f4de continuar na creche.<\/p>\n<p>Hoje eu penso que o investimento das professoras, a coragem de arriscar e a vontade que tinham de conhec\u00ea-lo foram muito importantes. A creche apoiando-o, ajudando-o a participar mais e a se ver como uma pessoa capaz. E acho que foi assim, no seu tempo, dentro de suas possibilidades\u2026Dora e Linda puderam compartilhar dias melhores na vida de Bruno e de sua fam\u00edlia. Pequenos gestos todos os dias, assim tamb\u00e9m \u00e9 o trabalho das professoras.<\/p>\n<p>(Silvana Augusto, 1999)<\/p>\n<p>A inclus\u00e3o de crian\u00e7as com necessidades especiais nas institui\u00e7\u00f5es convencionais de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma conquista importante que deve resultar, nos pr\u00f3ximos anos, um melhor atendimento, al\u00e9m de possibilitar \u00e0s outras crian\u00e7as a oportunidade de aprender desde muito cedo a conviver, entender e respeitar a diferen\u00e7a. Mas ainda h\u00e1 muito o que saber; conhecer essas crian\u00e7as, seu jeito de pensar e reagir diante das experi\u00eancias do mundo ser\u00e1 talvez o maior desafio para o futuro. A ONG Reintegra, sob coordena\u00e7\u00e3o de Marta Gil, \u00e9 uma importante refer\u00eancia. Vale a pena fazer um contato: reintegr@saci.cecae.usp.br<\/p>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por problemas de sa\u00fade, Bruno teve um longo processo de adapta\u00e7\u00e3o e aprendizado prejudicado. Silvana Augusto<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":164,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[51,4,11],"tags":[1100,54,1329,55,53],"class_list":{"0":"post-160","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-dia-a-dia-da-profissao","8":"category-jeitos-de-cuidar","9":"category-revista-avisala-01","10":"tag-revista-avisa-la-1999","11":"tag-cuidados","12":"tag-inclusao","13":"tag-necessidades-especiais","14":"tag-silvana-augusto","16":"post-with-thumbnail","17":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}