{"id":1543,"date":"2002-01-28T23:10:25","date_gmt":"2002-01-29T01:10:25","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=1543"},"modified":"2023-03-27T11:45:19","modified_gmt":"2023-03-27T14:45:19","slug":"sao-paulo-danca-equilibrio-coordenacao-e-expressividade-num-trabalho-coletivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/tempo-didadico\/sao-paulo-danca-equilibrio-coordenacao-e-expressividade-num-trabalho-coletivo\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Paulo, dan\u00e7a! Equil\u00edbrio, coordena\u00e7\u00e3o e expressividade num trabalho coletivo"},"content":{"rendered":"<h5>S\u00e3o Paulo dan\u00e7a ao som de muitas tribos: funk, samba e pagode.A esses ritmos mais conhecidos se misturam outros, do coco e do forr\u00f3, trazidos de v\u00e1rios Estados do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, teatros da cidade tamb\u00e9m oferecem temporadas de dan\u00e7a, desde o bal\u00e9 cl\u00e1ssico at\u00e9 as manifesta\u00e7\u00f5es mais contempor\u00e2neas.Tudo pode estar ao alcance das crian\u00e7as: veja, a seguir, um projeto que ajuda a ampliar o conhecimento sobre a hist\u00f3ria e a express\u00e3o do movimento<\/h5>\n<p><!--more--><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1546\" title=\"avisala_09_danca2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca2.jpg\" alt=\"\" width=\"173\" height=\"184\" \/>Dan\u00e7ar \u00e9 t\u00e3o importante para a crian\u00e7a quanto falar, contar ou aprender geografia (Maurice B\u00e9jart, 1973). Desde sempre a dan\u00e7a fez parte da vida do ser humano. A dan\u00e7a proporciona \u00e0s crian\u00e7as a descoberta do equil\u00edbrio, a consci\u00eancia corporal, a experimenta\u00e7\u00e3o de novos ritmos, de gestos e movimentos assimilados por meio da sensibiliza\u00e7\u00e3o corporal, da observa\u00e7\u00e3o do outro, da leitura sobre o assunto e do registro das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m isso, expressa a hist\u00f3ria e a cultura de um povo (veja box) e tamb\u00e9m pode dar \u00e0s crian\u00e7as a oportunidade de conhecer mais sobre as hist\u00f3rias de suas fam\u00edlias e suas rela\u00e7\u00f5es com o mundo que as cerca.<\/p>\n<p>Por esses motivos, levei a dan\u00e7a ao EGJ \u2013 Espa\u00e7o Gente Jovem, programa de a\u00e7\u00e3o complementar \u00e0 escola para crian\u00e7as de 6 a 10 anos, das Obras Sociais Santa Rita. Enfoquei, no projeto, a linguagem do movimento e o conhecimento da cultura musical. Iniciei uma conversa com o grupo a fim de saber que informa\u00e7\u00f5es tinham sobre a dan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Dan\u00e7a \u00e9 remexer o corpo \u2013 disse Ricardo.<br \/>\n\u2013 \u00c9 rebolar, \u00e9 fazer assim \u00f3 \u2013 completou Jaqueline, levantando-se para mostrar o rebolado com os quadris.<br \/>\n\u2013 \u00c9 a Dan\u00e7a do Coco que eu vi na televis\u00e3o! \u2013 lembrou Anderson.<br \/>\n\u2013 \u00c9 RAP, \u00e9 forr\u00f3 tamb\u00e9m! \u2013 completou Erinaldo.<\/p>\n<p>E assim fomos listando <!--more-->na lousa os tipos de dan\u00e7a que conheciam: samba, RAP, forr\u00f3, \u201cDan\u00e7a da Bundinha\u201d, do grupo \u00c9 o Tchan, que estava no auge do sucesso, \u201cRemelexo\u201d, coco, valsa, pagode.<\/p>\n<p><strong>Bal\u00e9 amplia o repert\u00f3rio do grupo<\/strong><br \/>\nPara contrapor e ampliar os conhecimentos que as crian\u00e7as tinham, apresentei um bal\u00e9 cl\u00e1ssico, muito diferente do que estavam acostumadas.<\/p>\n<p>Escolhi a su\u00edte O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Levei at\u00e9 alguns objetos para contextualizar o bal\u00e9, como sapatilhas de ponto, peda\u00e7os de tules, coroas que enfeitam os coques das bailarinas e at\u00e9 mesmo um quebranozes em forma de boneco. Depois assistimos ao v\u00eddeo: as crian\u00e7as trocaram id\u00e9ias e levantaram uma s\u00e9rie de hip\u00f3teses sobre os tipos de movimentos caracter\u00edsticos da dan\u00e7a cl\u00e1ssica e os pa\u00edses de alguns personagens. Era poss\u00edvel observar caracter\u00edsticas como roupas e gestos t\u00edpicos como, por exemplo, os representados pelos chineses, \u00e1rabes, cossacos e espanh\u00f3is que aparecem no Pa\u00eds dos Doces, na segunda parte do bal\u00e9.<\/p>\n<div id=\"attachment_1547\" style=\"width: 202px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1547\" class=\"size-full wp-image-1547\" title=\"avisala_09_danca3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca3.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"148\" \/><p id=\"caption-attachment-1547\" class=\"wp-caption-text\">No Parque Figueira Grande as crian\u00e7as aprenderam o frevo<\/p><\/div>\n<p>Essas quest\u00f5es confirmaram algumas hip\u00f3teses levantadas sobre a cultura de alguns pa\u00edses, como o jeito de se vestir (ex\u00f3tico como o dos \u00e1rabes), de falar, de cantar e de ser fisicamente (como os chineses), de se movimentar enlouquecidamente (como os cossacos), de festejar alegremente (como os espanh\u00f3is) e de \u201candar muito s\u00e9rio\u201d (como os ingleses).<\/p>\n<p>\u2013 Nossa! Eles voam tanto que merecem palmas! \u2013 comentou Talita.<br \/>\n\u2013 Essa dan\u00e7a \u00e9 leve e n\u00e3o rebola tanto! \u2013 observou Ana Paula.<br \/>\n\u2013 Essa dan\u00e7a \u00e9 que nem um Conto de Fadas.Tem anjos, princesas e pr\u00edncipes que viram gente \u2013 disse Paulo Henrique.<br \/>\n\u2013 As roupas s\u00e3o tudo de rei e rainha \u2013 completou Cintia.<br \/>\n\u2013 Mas eles n\u00e3o falam! \u00c9 m\u00edmica! \u2013 disse Ana Paula, levantando uma quest\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Por que eles n\u00e3o falam? \u2013 quis saber William.<br \/>\n\u2013 Ah, sei l\u00e1! Eles j\u00e1 t\u00e3o dan\u00e7ando! \u2013 arriscou Talita.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, \u00e9 que essa m\u00fasica n\u00e3o canta! \u2013 retomou Paulo Henrique.<br \/>\n\u2013 Eles dan\u00e7am sempre na ponta, rodando \u2013 disse novamente Talita.<br \/>\n\u2013 E o Quebra-Nozes! Virou gente, mesmo! Ele gira, ele luta &#8230; ele namora com a Maria Clara! \u2013 disse Anderson, encantado.<\/p>\n<p>A partir do que conheciam sobre alguns elementos dos contos de fadas e sobre dan\u00e7as como ax\u00e9, samba, pagode etc., as crian\u00e7as puderam perceber grandes diferen\u00e7as entre a dan\u00e7a cl\u00e1ssica da \u00e9poca rom\u00e2ntica e a dan\u00e7a exageradamente er\u00f3tica dos nossos dias. O mesmo aconteceu com a m\u00fasica que est\u00e1 intrinsecamente ligada ao ritmo da dan\u00e7a, sobre a qual pudemos levantar outras quest\u00f5es, j\u00e1 que o bal\u00e9 desse v\u00eddeo foi gravado com a Orquestra Sinf\u00f4nica da Royal Opera House ao vivo, dando-nos a chance de ver a figura do maestro em a\u00e7\u00e3o e alguns instrumentos ac\u00fasticos.<\/p>\n<p><strong>Para experimentar novos movimentos<\/strong><br \/>\nNum outro dia, voltei ao assunto da dan\u00e7a propondo uma pequena dramatiza\u00e7\u00e3o: pedi que as crian\u00e7as inventassem formas de se locomover como se estivessem andando no \u201cch\u00e3o de vidro\u201d do pal\u00e1cio do Imperador Chin\u00eas e no jardim repleto de flores e \u00e1rvores, t\u00e3o bem descritos, no in\u00edcio da hist\u00f3ria O Rouxinol que eu havia lido.<\/p>\n<p>Depois, distribui entre elas peda\u00e7os grandes de tule de cores diversas e orientei-as para a pesquisa e observa\u00e7\u00e3o dos movimentos e efeitos do tule como ritmo, peso, cheiro, tamanho, deslocamento, velocidade etc..<\/p>\n<p>Ao som da composi\u00e7\u00e3o de Rimsky-Korsakof, The Young Prince and the Young Princess, do bal\u00e9 Sherazade (o jovem pr\u00edncipe e a jovem princesa), as crian\u00e7as continuaram a pesquisa, agora experimentando movimentos corporais inspirados nos efeitos do tule. Tanto as meninas quanto os meninos pareciam estar seduzidos pelo seu peda\u00e7o de pano t\u00e3o leve.<\/p>\n<p>Os olhares pareciam brilhar mais ao ver aqueles \u201cpanos de pr\u00edncipes e princesas\u201d, como disse Caio (7 anos). Puderam toc\u00e1-los, amass\u00e1-los, arrum\u00e1-los e transform\u00e1-los em nuvens, capas de her\u00f3is, sai\u00f5es, len\u00e7os de tartarugas ninjas para a testa, pulseiras e golas chiques.<\/p>\n<p>Apesar da excita\u00e7\u00e3o e das constantes provoca\u00e7\u00f5es entre eles, avalio que foi uma pesquisa proveitosa, pois a autonomia com que conversaram sobre a dan\u00e7a cl\u00e1ssica no \u00faltimo encontro revelou o quanto essas crian\u00e7as est\u00e3o em busca de novas id\u00e9ias e sonhos.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1549\" title=\"avisala_09_danca6\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca6.jpg\" alt=\"\" width=\"176\" height=\"185\" \/><\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o de nota\u00e7\u00f5es coreogr\u00e1ficas<\/strong><br \/>\nDando continuidade ao trabalho, propus a nota\u00e7\u00e3o de uma coreografia escolhida por mim. Ao colocar a curta e delicada interpreta\u00e7\u00e3o do violinista Sthepane Grappelli, de Green Leaves, as crian\u00e7as criaram movimentos no ritmo dessa nova m\u00fasica, enquanto uma delas anotava com marca\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, retratando os movimentos observados. A cada trecho da m\u00fasica eu trocava o \u201cmarcador\u201d, para que todas tivessem a experi\u00eancia de escutar, sentir e registrar o ritmo daqueles signos criados e observar os movimentos que neles estavam sendo representados.<\/p>\n<p>No encontro seguinte, retomei essa nota\u00e7\u00e3o e pedi que as crian\u00e7as que participaram daquela atividade contassem para as demais como fizeram o registro dos movimentos.Tive uma boa surpresa: elas assimilaram o que foi pedido e descreveram, com clareza, como produziram aquela marca\u00e7\u00e3o. Pedi ao grupo, ent\u00e3o, que acompanhasse com palmas o ritmo das tr\u00eas primeiras s\u00e9ries das marca\u00e7\u00f5es e depois inventassem e se decidissem por um \u00fanico movimento para cada s\u00e9rie e os realizasse conforme a seq\u00fc\u00eancia e as varia\u00e7\u00f5es pedidas na nota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado desse processo foi animador e bastante criativo. As crian\u00e7as envolveram-se com a descoberta da leitura e do importante uso daquele registro t\u00e3o diferente que haviam feito. Ficou combinado que ir\u00edamos memorizar esses tr\u00eas movimentos e ensaiar\u00edamos a seq\u00fc\u00eancia, em todos os encontros, at\u00e9 a nossa apresenta\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>A partir desses tr\u00eas movimentos criados, pedi \u00e0s crian\u00e7as que os adaptassem em um novo ritmo, conforme a m\u00fasica Green Leaves e depois nas m\u00fasicas Angel\u2019s Robot List e Pandeiro-deiro de Carlinhos Brown. Elas experimentaram movimentos muito mais elaborados, distinguindo com muita propriedade os leves e delicados dos opostos, pesados e fortes.<\/p>\n<p><strong>Diferen\u00e7as entre as dan\u00e7as Cl\u00e1ssica e a da Cordinha<\/strong><br \/>\n\u00c0quela altura, com um repert\u00f3rio bem maior do que aquele que se ouve diariamente nas r\u00e1dios, propus ao grupo uma compara\u00e7\u00e3o. Para tanto, pedi que improvisassem uma dan\u00e7a para dois estilos de m\u00fasica completamente diferentes: uma cl\u00e1ssica e a outra ax\u00e9.<\/p>\n<p>Durante a primeira m\u00fasica, a cl\u00e1ssica Valsa das Flores, da Suite Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, as crian\u00e7as produziram movimentos como piruetas \u2013 muito mais soltas que no in\u00edcio do projeto \u2013, giros leves e tranq\u00fcilos pela sala, bra\u00e7os flutuantes e bichos voando pelos ares.<\/p>\n<p>Ao ouvirem os primeiros acordes da Dan\u00e7a da Cordinha, do grupo \u00c9 o Tchan, logo soltaram os quadris, o bumbum e os ombros e imediatamente William e Andr\u00e9 deram as m\u00e3os, imitando uma cordinha para que os outros passassem sem encostar!<\/p>\n<p>Esse conhecimento pr\u00e9vio das crian\u00e7as sobre a dan\u00e7a ax\u00e9, em especial do grupo \u00c9 o Tchan!, amplamente divulgado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pela ind\u00fastria cultural, foi, nesse contexto, a melhor fonte para compara\u00e7\u00e3o entre a dan\u00e7a dos anos 90 e a dan\u00e7a cl\u00e1ssica europ\u00e9ia, vinda de uma realidade muito diferente da nossa. Foi importante avaliar que as crian\u00e7as j\u00e1 conseguiam reconhecer alguns elementos importantes desses dois tipos de dan\u00e7a: em primeiro lugar, que tinham ritmos muito diferentes, uma sons de instrumentos de uma orquestra e outra instrumentos el\u00e9tricos e de percuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as coreografias produzidas individualmente ou em grupo apareceram como criativas combina\u00e7\u00f5es de movimentos claramente pesquisados durante o processo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s caracter\u00edsticas de cada tipo de dan\u00e7a e seu contexto, as crian\u00e7as recorreram \u00e0 dan\u00e7a do grupo \u00c9 o Tchan para avaliar, por exemplo, as pequenas roupas usadas pelos dan\u00e7arinos do ax\u00e9, pr\u00f3prias de um pa\u00eds quente como o nosso, com as roupas do bal\u00e9 O Quebra-Nozes, compridas e quentes, t\u00edpicas de um pa\u00eds frio, onde h\u00e1 neve.<\/p>\n<p>As botinhas usadas pelos dan\u00e7arinos de ax\u00e9 servem para dan\u00e7ar tanto na rua quanto no palco, e s\u00e3o resistentes o bastante para ag\u00fcentar pulos e movimentos agitados. J\u00e1 as sapatilhas de ponta do bal\u00e9 s\u00e3o leves para ajudar nas piruetas e nos movimentos mais saltitantes, pr\u00f3prios dos personagens rom\u00e2nticos, que rodopiavam sobre um ch\u00e3o especial, palco de madeira coberto com um tipo de emborrachado grosso o lin\u00f3leo.<\/p>\n<p>Ao passarmos para as entrevistas com os pais, para saber sobre outros tipos de dan\u00e7a que eles conheciam, descobrimos uma grande variedade de ritmos e jeitos de dan\u00e7ar, t\u00edpicos das regi\u00f5es de onde suas fam\u00edlias descendiam: forr\u00f3, valsa, rock etc. Seus pais lhes mostravam de diferentes maneiras: ou dan\u00e7avam aos pares em casa ou mostravam fotos ou descreviam os passos oralmente para que as crian\u00e7as pudessem depois contar aos colegas.<\/p>\n<p><strong>Os movim<\/strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1550\" title=\"avisala_09_danca4\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca4.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca4.jpg 212w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca4-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><strong>entos do Bal\u00e9 Stagium e de Camille Claudel<\/strong><br \/>\nMas ainda faltava ver um espet\u00e1culo de dan\u00e7a ao vivo. Por isso nos organizamos \u2013 eu e a equipe do EGJ com o apoio do Instituto C&amp;A de Desenvolvimento \u2013 para levar o grupo para assistir ao espet\u00e1culo Coisas do Brasil, com o Bal\u00e9 Stagium, no espa\u00e7o da Pinacoteca, no Ibirapuera, e visitar a exposi\u00e7\u00e3o das esculturas de Camille Claudel. Depois do espet\u00e1culo procuramos a core\u00f3grafa M\u00e1rika Gidali para uma conversa. As crian\u00e7as fizeram perguntas interessantes, como:<\/p>\n<p>\u2013 O seu filho dan\u00e7a a\u00ed?<br \/>\n\u2013 Voc\u00ea tamb\u00e9m faz isso?<br \/>\n\u2013 O que voc\u00ea fez nas pernas? \u2013 referindo-se \u00e0 dificuldade de M\u00e1rika para se locomover devido aos problemas causados pela dan\u00e7a.<br \/>\n\u2013 Como os bailarinos decoram tudo isso?<br \/>\n\u2013 Eu gostei mais dos \u00edndios. N\u00e3o vai ter mais?<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que as perguntas tratavam mais da vida pessoal do bailarino. Isso \u00e9 muito pertinente, pois a dan\u00e7a e a vida dos dan\u00e7arinos s\u00e3o pouco conhecidas pelo p\u00fablico em geral por serem espet\u00e1culos caros e quase nunca apresentados na periferia. E, para enriquecer o trabalho do grupo, pedi a M\u00e1rika para que contasse um pouco do processo de constru\u00e7\u00e3o de uma coreografia e da confec\u00e7\u00e3o dos figurinos.<\/p>\n<p>Ao finalizar sua fala, sugeriu \u00e0s crian\u00e7as que observassem com cuidado, ali na sala ao lado, o \u201cmovimento\u201d das esculturas de Camille Claudel, o que foi muito bom para a nossa discuss\u00e3o, na finaliza\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de assistirem a um espet\u00e1culo que envolvia passos de bal\u00e9 cl\u00e1ssico sobre pontos, que j\u00e1 conheciam pelo v\u00eddeo, tiveram a oportunidade de assistir tamb\u00e9m a trechos de bal\u00e9 moderno, dan\u00e7ado com os p\u00e9s descal\u00e7os, que \u00e9 um outro jeito de dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Quando passaram para a sala de exposi\u00e7\u00e3o, tiveram um olhar mais diferenciado sobre as esculturas de Camille Claudel. Ao mesmo tempo estavam encantadas com o acesso a tanta cultura e tanta arte, Falavam com mais autoridade sobre movimento, ali\u00e1s a principal caracter\u00edstica do trabalho dessa escultora. Comentavam, sobre os bra\u00e7os, as pernas, a cabe\u00e7a e tamb\u00e9m tor\u00e7\u00f5es e posi\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria guia do museu lembrou-lhes que Camille Claudel observou muito o movimento das pessoas para produzir suas obras, um processo de cria\u00e7\u00e3o similar ao que as crian\u00e7as estavam passando: observa\u00e7\u00e3o, pesquisa, experimenta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A finaliza\u00e7\u00e3o de quatro meses de trabalho<\/strong><br \/>\nDepois de termos passado por todas as etapas que aproximaram as crian\u00e7as do mundo da dan\u00e7a, fizemos uma pequena apresenta\u00e7\u00e3o da coreografia criada por elas, que p\u00f4de ser apreciada pelas fam\u00edlias e demais crian\u00e7as das institui\u00e7\u00f5es. As pesquisas e entrevistas foram sistematizadas na forma de um livro.<\/p>\n<p>(Simone M. de Alc\u00e2ntara Pinto, Formadora do Instituto Avisa l\u00e1)<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1551\" title=\"avisala_09_danca\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca.jpg 333w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca-300x242.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<h4>Hist\u00f3rias que a dan\u00e7a conta<\/h4>\n<p>Conseguimos compreender o porqu\u00ea de muitas quest\u00f5es da nossa hist\u00f3ria por meio de nossas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. A partir da dan\u00e7a, por exemplo, podemos investigar tra\u00e7os culturais de um povo ou de uma \u00e9poca. Ritmos e composi\u00e7\u00f5es, poemas ou cantorias, tipos de instrumentos musicais, figurinos, acess\u00f3rios e objetos utilizados, coreografias dos gestos, dos movimentos, contextos nos quais acontecem suas evolu\u00e7\u00f5es, nas ruas ou em espa\u00e7os fechados: todos esses detalhes nos levam a aspectos interessantes sobre a hist\u00f3ria de um povo.<\/p>\n<p>Por exemplo, se voltarmos na hist\u00f3ria do Brasil e lembrarmos das manifesta\u00e7\u00f5es de m\u00fasica e de dan\u00e7a dos escravos africanos, nas suas tristes senzalas, poderemos refletir sobre v\u00e1rias quest\u00f5es: a explora\u00e7\u00e3o do homem, o uso da tortura, a estrutura econ\u00f4mica da \u00e9poca, as misturas de ra\u00e7as, a import\u00e2ncia das express\u00f5es art\u00edsticas, os mecanismos de defesa dos escravos, os novos ritmos introduzidos no pa\u00eds etc.<\/p>\n<p>As rodas de Capoeira, mistura de dan\u00e7a, jogo e luta, ao som de forte percuss\u00e3o durante as noites quentes dos negros escravos, trazem \u00e0 tona a cumplicidade, for\u00e7a e uni\u00e3o como forma de defesa e da conquista da liberdade em contrapartida \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o que preenchia seus cotidianos. Jogando e dan\u00e7ando, podiam movimentar-se livremente e fortalecer os resistentes m\u00fasculos. Cantando em dialetos nativos.\u2013 pouco ou nada compreendidos pelos seus senhores brancos \u2013, evocavam boa energia e espantavam os esp\u00edritos do mal. Tocando as graves tumbas e atabaques espalhavam pelos ares inc\u00f3gnitos e misteriosos sons que amedrontavam os seus carrascos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1548\" title=\"avisala_09_danca5\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/avisala_09_danca5.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"260\" \/>Diferentes coreografias folcl\u00f3ricas brasileiras est\u00e3o repletas de pequenos significados para a hist\u00f3ria da nossa cultura. Os ritmos e os passos repetidos de dan\u00e7as como Folia de Reis, Maracatu, Caboclinho, Ciranda de Roda e outros, nos levam a compreender a necess\u00e1ria simplicidade coreogr\u00e1fica para facilitar a passagem de pai para filho que permite a exist\u00eancia de uma tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra fonte interessante de an\u00e1lise \u00e9 a riqueza de figurinos, instrumentos e objetos utilizados nessas manifesta\u00e7\u00f5es, nos quais aparecem cores fortes e estampas mais caracter\u00edsticas de um pa\u00eds tropical. S\u00e3o roupas feitas de algod\u00e3o, em geral, bordadas ou pintadas, lembrando as manifesta\u00e7\u00f5es antigas das classes mais populares, quase sempre realizadas sob o sol quente nordestino. Outros figurinos nos remetem \u00e0 forte lembran\u00e7a de costumes religiosos ou at\u00e9 mesmo de lendas fant\u00e1sticas de diferentes regi\u00f5es do Brasil.<\/p>\n<p>Os instrumentos soam como um arranjo de objetos do cotidiano do grupo ou da regi\u00e3o de onde se originam: tampas de garrafa, pele de bicho (cabra, bode, boi etc.), canos, tocos de madeira, bambus, cascas de \u00e1rvore, sementes, cascas de coco, etc. Objetos como estandartes e bandeiras carregados pelos \u201cpuxadores\u201d representam, muitas vezes, a pr\u00f3pria hierarquia dos personagens envolvidos: seja do poder pol\u00edtico, da Igreja, das fam\u00edlias ou do imagin\u00e1rio de um povo.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, os grupos das Pastorinhas do interior da Para\u00edba s\u00e3o ovacionados com entusiasmo, quando seus estandartes s\u00e3o avistados ao longe, anunciando o Cord\u00e3o Azul ou o Cord\u00e3o Encarnado! Ou ainda, lembrando os famosos blocos carnavalescos de Olinda: o Pitombeira e o Elefante, que s\u00e3o rivais e trazem s\u00edmbolos confeccionados cuidadosamente para serem vistos de longe e provocar as torcidas dos foli\u00f5es do frevo. A cada gesto uma descoberta, um novo conhecimento, uma nova reflex\u00e3o, um prazer e uma comunica\u00e7\u00e3o por meio da express\u00e3o do corpo.<\/p>\n<h4>O Projeto:<\/h4>\n<p><strong>Dan\u00e7a &#8230; que eu conto!<\/strong><\/p>\n<p><strong>Faixa et\u00e1ria:<\/strong> 6 a 10 anos<br \/>\n<strong>Eixo predominante:<\/strong> Movimento<br \/>\n<strong>Tempo previsto:<\/strong> 4 meses<\/p>\n<p><strong>Objetivos partilhados com as crian\u00e7as:<\/strong> Cria\u00e7\u00e3o de uma coreografia de curta dura\u00e7\u00e3o, feita pelas crian\u00e7as, acompanhada de um pequeno livro sobre a pesquisa feita por elas.<\/p>\n<p><strong>Objetivos did\u00e1ticos:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Estimular as crian\u00e7as \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o art\u00edstica a partir de dan\u00e7as diversas.<\/li>\n<li>Dar elementos para que elas se apropriem do processo de montagem de uma pequena coreografia.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Conte\u00fados:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>O bal\u00e9 O Quebra-Nozes.<\/li>\n<li>A pesquisa feita pelas crian\u00e7as, baseada nos relatos de seus pais.<\/li>\n<li>Leitura de pequenos textos (descritivos e narrativos) do bal\u00e9 O Quebra Nozes e do Rouxinol.<\/li>\n<li>Percep\u00e7\u00e3o de estruturas r\u00edtmicas para expressar-se corporalmente por meio da dan\u00e7a.<\/li>\n<li>Valoriza\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o das possibilidades est\u00e9ticas do movimento pelo conhecimento e utiliza\u00e7\u00e3o de diferentes modalidades da dan\u00e7a.<\/li>\n<\/ul>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica:<\/h4>\n<p>O projeto foi escrito por Simone M. de Alc\u00e2ntara Pinto, realizado no EGJ. Santa Rita &#8211; Obras Sociais Santa Rita &#8211; Vila Joaniza, entre agosto e dezembro de 1997, e dele participou a professora Maria do Socorro Teixeira Rocha sob coordena\u00e7\u00e3o de Irene da Cruz. Apoio: Instituto C&amp;A.<\/p>\n<h4>Bibliografia<\/h4>\n<p><strong>Sobre dan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Dan\u00e7as Dram\u00e1ticas do Brasil (3 tomos). M\u00e1rio de Andrade. Ed. Itatiaia Limitada \/ Instituto Nacional do Livro.Tel: (11) 3212-4600<\/li>\n<li>O Corpo Humano. Atlas Visuais. Ed. \u00c1tica.Tel: (11) 3346-3000<\/li>\n<li>Hist\u00f3ria da Dan\u00e7a. Luis Ellmerich. Companhia Editora Nacional. Tel: (11) 6692-5256.<\/li>\n<li>Folclore e Mudan\u00e7a Social na Cidade de S\u00e3o Paulo. Florestan Fernandes. Ed.Vozes.Tel: (11) 258-6910<\/li>\n<li>Dan\u00e7ar a Vida. Roger Garaudy. Ed. Nova Fronteira.Tel: (21) 286-7822<\/li>\n<li>Giselle e outras hist\u00f3rias de Ballet. Luiza Lagoas. Ed. N\u00f3rdica. Tel.: (21) 284-8848 &#8211; Rio de Janeiro<\/li>\n<li>A dan\u00e7a. Klauss Vianna em colabora\u00e7\u00e3o com Marco Antonio Carvalho. Edi\u00e7\u00f5es. Siciliano. Tel: (11) 3641-6073<\/li>\n<li>Dan\u00e7a Educativa Moderna. Rudolf Laban. \u00cdcone Ed.Tel: (11) 826-7074<\/li>\n<li>Dan\u00e7a, Brasil! Festas e Dan\u00e7as Populares. Gustavo Cortes. Ed. Leitura.Tel: (31) 3371-4902<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>V\u00eddeo<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>O Quebra- Nozes, com o The Royal Ballet, ao vivo, na Royal Opera House, Londres, 1985. Coreografia de Lev Ivanov e Peter Wright.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta mat\u00e9ria, conhe\u00e7a um projeto que ajuda a ampliar o conhecimento sobre a hist\u00f3ria e a express\u00e3o do movimento. Por: Simone M. de Alc\u00e2ntara Pinto<\/p>\n","protected":false},"author":150,"featured_media":3169,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[327,34],"tags":[1103,446,440,439,447,444,441,443,445,438,442],"class_list":{"0":"post-1543","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisala-09","8":"category-tempo-didadico","9":"tag-revista-avisa-la-2002","10":"tag-axe","11":"tag-bale","12":"tag-danca","13":"tag-forro","14":"tag-pagode","15":"tag-quebra-nozes","16":"tag-rap","17":"tag-sampa","18":"tag-simone-m-de-alcantara-pinto","19":"tag-tchaikovsky","21":"post-with-thumbnail","22":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/150"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1543"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1543\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3169"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}