{"id":14467,"date":"2016-11-03T20:21:29","date_gmt":"2016-11-03T22:21:29","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=14467"},"modified":"2024-10-28T16:07:12","modified_gmt":"2024-10-28T19:07:12","slug":"socializacao-de-conhecimentos-locais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-68\/socializacao-de-conhecimentos-locais\/","title":{"rendered":"Socializa\u00e7\u00e3o de conhecimentos locais"},"content":{"rendered":"<p>Elaborar um livro com as crian\u00e7as permite conhecer mais a pr\u00f3pria comunidade, socializar conhecimentos locais e produzir com qualidade em um projeto colaborativo<\/p>\n<hr \/>\n<p>Entrevista com Marie Ange Bordas<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14468 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1-228x300.jpg 228w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1.jpg 373w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><\/p>\n<p>Revista avisa l\u00e1: Conte um pouco sobre a ideia desse projeto dos livros e seu processo colaborativo.<\/p>\n<p><strong>Marie Ange Bordas:<\/strong> O Projeto Tecendo Saberes \u00e9 uma extens\u00e3o natural de diversos outros projetos colaborativos de arte e m\u00eddia que desenvolvi a partir de 2001 em diferentes pa\u00edses, principalmente com comunidades afetadas por deslocamentos for\u00e7ados e conflitos no continente africano, na Europa e no Sri Lanka. A base de todos os projetos \u00e9 sempre a conviv\u00eancia, o estar junto no cotidiano, propondo espa\u00e7os de respiro, escuta e reflex\u00e3o atrav\u00e9s da pr\u00e1xis art\u00edstica.<\/p>\n<p>Como artista, o que move meu estar no mundo \u00e9 exatamente a subvers\u00e3o, a possibilidade de mediar encontros e promover narrativas menos hegem\u00f4nicas. Na conviv\u00eancia, entender os desejos de cada lugar e compartilhar as ferramentas que domino para construirmos juntos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14469 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/2-300x155.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"155\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/2-300x155.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/2-1024x528.jpg 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/2-768x396.jpg 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/2.jpg 1186w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Marie Ange Bordas Projeto Tecendo Saberes<\/strong><\/p>\n<p>Artista multim\u00eddia, escritora, jornalista e educadora, desenvolve projetos colaborativos de arte, literatura e m\u00eddia com jovens e crian\u00e7as do mundo todo.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias da Cazumbinha (Cia. das Letras), Manual da crian\u00e7a cai\u00e7ara (Peir\u00f3polis), Manual das crian\u00e7as do Baixo Amazonas e Manual das crian\u00e7as Huni (Projeto Tecendo Saberes), livros fotoilustrados voltados ao p\u00fablico infanto-juvenil, s\u00e3o uma parte desses projetos por ela idealizados e desenvolvidos.<\/p>\n<p>O Projeto Tecendo Saberes tem por objetivo promover a valoriza\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o das culturas tradicionais brasileiras atrav\u00e9s do olhar das crian\u00e7as e de seus saberes e fazeres. Com uma estrutura de manual l\u00fadico e cient\u00edfico, os livros abordam o patrim\u00f4nio imaterial \u2013 l\u00edngua, culin\u00e1ria, arte, lendas, cren\u00e7as, contos, brincadeiras etc. \u2013 de cada comunidade, al\u00e9m de estabelecer rela\u00e7\u00f5es com quest\u00f5es ambientais, geogr\u00e1ficas e hist\u00f3ricas destacadas.<\/p>\n<p>Por meio de um processo dial\u00f3gico, o conhecimento \u00e9 tecido atrav\u00e9s de atividades l\u00fadicas, muita conversa e troca, estimulando as crian\u00e7as e jovens dessas comunidades a protagonizar o processo de levantamento, produ\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o dos aspectos de seu cotidiano. Saberes que levam em considera\u00e7\u00e3o as tradi\u00e7\u00f5es dos mais velhos, mas agregam a elas os saberes, fazeres e viv\u00eancias dessa nova gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6>Fonte: www.tecendosaberes.com<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14470 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/3-300x268.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/3-300x268.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/3-768x687.jpg 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/3.jpg 857w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>De retorno ao Brasil em 2006, fui chamada para participar de projetos com comunidades tradicionais, sobretudo quilombolas, e percebi que as narrativas desses projetos tendiam a representar essas crian\u00e7as a partir de um olhar adulto e ex\u00f3geno, reduzindo-as a uma certa no\u00e7\u00e3o de identidade \u201ctradicional\u201d, que n\u00e3o fazia jus \u00e0 riqueza de tudo que eu aprendia no meu conv\u00edvio com elas. Para essa percep\u00e7\u00e3o convergiu a reclama\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios professores dessas comunidades sobre a falta de materiais did\u00e1ticos que contemplassem suas realidades, nos quais suas crian\u00e7as se sentissem representadas. Levando tudo isso em conta, decidi criar livros que pudessem fazer com que essas crian\u00e7as entrassem nas escolas e livrarias do Brasil atrav\u00e9s de seus saberes e fazeres e n\u00e3o apenas como \u201cobjetos do estudo da diversidade brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Por exemplo, para entender esse processo, vou contar sobre uma experi\u00eancia que se repetiu em diversas comunidades quilombolas pelo interior do Brasil, mas tamb\u00e9m na Col\u00f4mbia. Quando chego para conversar, normalmente os mais velhos reclamam: \u201cAs crian\u00e7as n\u00e3o querem saber de nada, n\u00e3o ligam para nossa tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o querem aprender nosso artesanato, nossas dan\u00e7as&#8230;\u201d. Que \u00e9 o discurso padr\u00e3o folclorista, que percebe a tradi\u00e7\u00e3o como algo estanque que precisa ser repassado de maneira id\u00eantica ao passado. Quando voc\u00ea come\u00e7a a trabalhar com as crian\u00e7as, entende que a identidade cultural delas vai muito al\u00e9m disso: \u201cAh, n\u00e3o dan\u00e7o jongo, nem sei samba de roda, mas eu gosto do ritmo tal e misturo com a m\u00fasica tal\u201d. Essa identidade cultural est\u00e1 impl\u00edcita no conhecimento que elas t\u00eam de seu entorno, nas suas brincadeiras, na sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza ou com as tecnologias locais. Isso tudo surge claramente quando as crian\u00e7as se tornam protagonistas desse resgate do que os mais velhos chamam de tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14471 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4-300x296.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4-300x296.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4-768x759.jpg 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4.jpg 831w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>E como come\u00e7a esse processo de trabalhar com as crian\u00e7as e suas comunidades?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia inicial era criar uma s\u00e9rie contemplando v\u00e1rias comunidades tradicionais de norte a sul do Brasil, mas, na pr\u00e1tica, os livros foram se realizando ao sabor dos encontros pelo caminho.<\/p>\n<p>O Hist\u00f3rias da Cazumbinha nasceu da minha amizade com Meire Cazumb\u00e1, filha do Quilombo do Rio das R\u00e3s na Bahia, e de nossas trocas com as crian\u00e7as de l\u00e1.<\/p>\n<p>O Manual da crian\u00e7a cai\u00e7ara aconteceu a partir da demanda de professores cai\u00e7aras de uma escola p\u00fablica no litoral sul de S\u00e3o Paulo que me conheciam e pediram ajuda para criar uma apostila que contemplasse a cultura cai\u00e7ara. Eles j\u00e1 tinham um hist\u00f3rico de terem criado uma escola cai\u00e7ara, que ficou dois anos funcionando e depois fechou, e s\u00e3o ativistas muito implicados politicamente. Aproveitei o Pr\u00eamio Intera\u00e7\u00f5es Est\u00e9ticas do Minist\u00e9rio da Cultura (MinC) para viabilizar a cria\u00e7\u00e3o de um livro no lugar da apostila.<\/p>\n<p>Outro pr\u00eamio do MinC, Circula\u00e7\u00e3o Liter\u00e1ria, permitiu levar o Hist\u00f3rias da Cazumbinha e o Manual da crian\u00e7a cai\u00e7ara para v\u00e1rias escolas, sobretudo em comunidades cai\u00e7aras e quilombolas, na Bahia, Par\u00e1, Goi\u00e1s, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Nessa viagem ao Par\u00e1, a semente dos pr\u00f3ximos livros foi plantada no encontro com professoras de comunidades quilombolas extrativistas no munic\u00edpio de \u00d3bidos, que vieram com a mesma demanda: \u201cTemos v\u00e1rios projetos locais, mas todo o material que vem para a escola \u00e9 de fora\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que nesses \u00faltimos 12 anos v\u00e1rios programas do governo federal na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o e da Cultura, como o Mais Educa\u00e7\u00e3o\u00b9, possibilitaram que professores Brasil afora desenvolvessem in\u00fameros projetos. Ent\u00e3o gosto de frisar que os livros nasceram de uma demanda de professores que no \u00e2mbito local j\u00e1 realizavam coisas incr\u00edveis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14472 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/5-251x300.jpg\" alt=\"\" width=\"251\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/5-251x300.jpg 251w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/5.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 251px) 100vw, 251px\" \/><\/p>\n<p>Pensando no meu papel de artista como mediadora-articuladora entre mundos, o projeto tamb\u00e9m nasceu da vontade de trazer essas culturas para o dia a dia das crian\u00e7as das grandes cidades pela \u201cporta da frente\u201d. Quer dizer, a partir de materiais de alta qualidade \u201c\u00e9tica e est\u00e9tica\u201d, que trouxessem de fato a voz das crian\u00e7as envolvidas e entrassem nas livrarias e escolas n\u00e3o apenas para suprir cotas de \u201cfalar da diversidade\u201d, mas tamb\u00e9m pela qualidade e capacidade de comunicar com as crian\u00e7as. Apesar dos grandes avan\u00e7os que vieram com a Lei 10.639\/032, ainda vejo que muitas escolas e o pr\u00f3prio mercado editorial continuam a tratar das quest\u00f5es das culturas tradicionais de forma generalizante (calcada num olhar ainda etnoc\u00eantrico e redutor): \u201cVamos estudar os \u00edndios\u201d ou \u201cVamos estudar os negros\u201d, como se fossem \u201ccategorias\u201d \u00fanicas, recortadas de suas especificidades e do contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 O Programa Mais Educa\u00e7\u00e3o (Decreto 7.083\/10) constitui-se em estrat\u00e9gia do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para induzir a amplia\u00e7\u00e3o da jornada escolar e a organiza\u00e7\u00e3o curricular na perspectiva da educa\u00e7\u00e3o integral.<br \/>\n2 Torna obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria e da cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, p\u00fablicas e particulares, do Ensino Fundamental at\u00e9 o Ensino M\u00e9dio.<\/h6>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a real, singular, que pertence a uma comunidade espec\u00edfica.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, exatamente, n\u00e3o \u00e9 aquela crian\u00e7a de carne e osso, detentora de toda uma subjetividade e cultura; \u00e9, simplesmente, \u201co \u00edndio\u201d, \u201co negro\u201d.<\/p>\n<p>Meu princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 de que o preconceito nasce da ignor\u00e2ncia, e a ignor\u00e2ncia \u00e9 n\u00e3o conhecer ou conhecer j\u00e1 de forma deturpada. Temos de questionar ainda na inf\u00e2ncia essas din\u00e2micas redutoras que revelam tanto a cultura da exclus\u00e3o que marca a sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Essa \u00e9 a ideia da crian\u00e7a e sua comunidade como protagonistas?<\/strong><\/p>\n<p>O protagonismo dos implicados, sua escolha dos conte\u00fados a partir dos quais querem ser representados est\u00e1 na g\u00eanese de todos os meus projetos. \u00c9 minha maneira de estar no mundo, como mediadora e n\u00e3o como detentora da representa\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s crian\u00e7as, quando elas protagonizam esse processo dentro de suas comunidades, elas tamb\u00e9m renovam o pr\u00f3prio conceito de tradi\u00e7\u00e3o, libertando-o do ran\u00e7o de simplesmente preservar o patrim\u00f4nio dos mais velhos e colocando-o em movimento, ressignificando esse repert\u00f3rio cultural ao sabor de sua contemporaneidade. Essa atua\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as abre espa\u00e7o para um di\u00e1logo intergeracional que acaba fortalecendo toda a comunidade.<\/p>\n<p>No processo de constru\u00e7\u00e3o do Hist\u00f3rias da Cazumbinha\u00b3, isso ficou muito claro. Como o Rio das R\u00e3s \u00e9 uma comunidade pequena, os personagens utilizados nas hist\u00f3rias desse livro eram os av\u00f3s das crian\u00e7as que criaram as ilustra\u00e7\u00f5es comigo. Porque a Meire Cazumb\u00e1, que escreveu, falou de sua inf\u00e2ncia nos anos 60, e os her\u00f3is dela eram os adultos na \u00e9poca e agora s\u00e3o os av\u00f3s e bisav\u00f3s dessas crian\u00e7as e est\u00e3o l\u00e1 velhinhos. E de repente, atrav\u00e9s das hist\u00f3rias, esses \u201cvelhinhos\u201d s\u00e3o redescobertos como \u201co maior vaqueiro da caatinga\u201d ou \u201ca melhor benzedeira do S\u00e3o Francisco\u201d. Depois de quase dois anos, a gente voltou l\u00e1 e essas crian\u00e7as estavam brincando de \u201cSuupeeeervaqueiroo do sert\u00e3o\u201d, \u201csupermandacaru espinhudooo\u201d&#8230;! Elas haviam expandido seu repert\u00f3rio, digamos assim.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14473 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/6-300x239.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/6-300x239.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/6.jpg 426w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Mas mudou com essa fus\u00e3o, com o repert\u00f3rio da modernidade, o s\u00faper, o her\u00f3i&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, vai mudando, s\u00e3o reapropria\u00e7\u00f5es culturais a partir de v\u00e1rias fontes. Esse processo colaborativo funciona de v\u00e1rias maneiras. Nos manuais que elaboramos, mais importante do que \u201ca crian\u00e7a tirou a foto, a crian\u00e7a desenhou\u201d, o fundamental \u00e9 que o conte\u00fado veio dessa conviv\u00eancia e veio delas. As crian\u00e7as querem falar de si e eu posso ser uma ferramenta para (re)despertar esse olhar mais \u201camaravilhador\u201d para as coisas que s\u00e3o do dia a dia, para o reconhecimento de sua pr\u00f3pria riqueza.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>3 O primeiro livro dessa s\u00e9rie, em parceria com Meire Cazumb\u00e1, editado pela Cia. das Letras em 2010 sobre as crian\u00e7as de uma comunidade quilombola.<\/h6>\n<p><strong>Reconhecer sobre qual conte\u00fado se vai falar, contar e desenhar?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo, tudo. Eu tenho uma metodologia de trabalho bastante org\u00e2nica, que come\u00e7a sempre com algumas provoca\u00e7\u00f5es. Come\u00e7a assim: \u201cVamos fazer lista do que \u00e9 que tem aqui. Se viesse um marciano aqui, o que voc\u00eas diriam?\u201d. \u00c9 comum as crian\u00e7as dizerem \u201cN\u00e3o tem nada aqui\u201d. Eu digo: \u201cMas se um marciano chegar aqui, voc\u00eas acham que ele sabe o que \u00e9 mandioca? Ele sabe como voc\u00eas fazem xixi?\u201d. Em cada lugar s\u00e3o grupos diferentes. Por exemplo, o Manual das crian\u00e7as do Baixo Amazonas foi produzido em cinco comunidades \u2013 come\u00e7amos em sala de aula, mas expandimos para a comunidade. Em Cachoeira Porteira (PA), apresentamos o projeto para crian\u00e7as do 5o e 6o anos e do Programa Mais Educa\u00e7\u00e3o e foi feito um grupo com quem queria participar. Para o Manual da crian\u00e7a cai\u00e7ara, houve uma parceria com a Associa\u00e7\u00e3o de Jovens da Jureia. Come\u00e7amos com crian\u00e7as envolvidas nessa associa\u00e7\u00e3o e elas foram chamando os amigos, irm\u00e3os e primos. Ali eu n\u00e3o tive nenhuma entrada pela escola.<\/p>\n<p>Tudo depende do lugar. O importante \u00e9 n\u00e3o cair de paraquedas num lugar j\u00e1 tendo predefinido que vou trabalhar na escola tal. Para ser de fato colaborativo, o processo tem de se adaptar \u00e0s din\u00e2micas de cada lugar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14474 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/7-300x193.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/7-300x193.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/7-768x495.jpg 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/7.jpg 819w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Podemos dizer que uma das consequ\u00eancias desse trabalho \u00e9 que as crian\u00e7as mudam tamb\u00e9m seu senso est\u00e9tico?<\/strong><\/p>\n<p>Mudar n\u00e3o, mas expandir. Por isso que trabalho com a sensibiliza\u00e7\u00e3o art\u00edstica e com a alfabetiza\u00e7\u00e3o visual. A linguagem visual tem a pr\u00f3pria escrita, seu l\u00e9xico, seus c\u00f3digos, que precisam ser aprendidos para pelo menos se entender criticamente como as imagens dominantes no mundo s\u00e3o constru\u00eddas.<\/p>\n<p>Eu tenho o dom\u00ednio de algumas ferramentas \u2013 a escrita jornal\u00edstica, o uso de m\u00eddia, do som, da linguagem fotogr\u00e1fica, da linguagem do v\u00eddeo \u2013 e partilho com as pessoas implicadas nos projetos esses meus saberes, para que elas tamb\u00e9m possam utiliz\u00e1-los para se representar. Acho que o importante \u00e9 menos a quest\u00e3o t\u00e9cnica, que est\u00e1 cada vez mais facilitada, e mais o desenvolvimento do olhar cr\u00edtico e da observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 observar? \u00c9, de fato, perceber o que estamos vendo, seus detalhes, formas. Os desenhos das crian\u00e7as acostumadas a observar a natureza s\u00e3o geralmente impressionantes, porque t\u00eam perspectiva, t\u00eam singularidade&#8230; Uma \u00e1rvore n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rvore estereotipada, um s\u00edmbolo que serve para todas; ela \u00e9 uma palmeira, um p\u00e9 de cupua\u00e7u, uma mangueira.<\/p>\n<p><strong>Uma coisa muito interessante que voc\u00ea faz nos livros \u00e9 essa composi\u00e7\u00e3o das imagens, os desenhos com as fotos compondo uma ilustra\u00e7\u00e3o. Tem uma valoriza\u00e7\u00e3o desse desenho.<\/strong><\/p>\n<p>Como artista audiovisual, h\u00e1 muito tempo trabalho no cruzamento de v\u00e1rias m\u00eddias e com alfabetiza\u00e7\u00e3o visual, buscando criar uma \u201cl\u00edngua franca\u201d que ultrapasse as barreiras da escrita \u2013 por isso a escolha das fotoilustra\u00e7\u00f5es. Consciente de que no Brasil \u00e9 raro que crian\u00e7as ind\u00edgenas ou negras se reconhe\u00e7am nos livros aos quais t\u00eam acesso, n\u00e3o queria, nesses manuais, restringir a ilustra\u00e7\u00e3o \u00e0 minha representa\u00e7\u00e3o ex\u00f3gena dessas crian\u00e7as ou desses lugares, fosse ela em foto ou em desenho. Por isso optei por trabalhar com as crian\u00e7as na constru\u00e7\u00e3o da maior parte das imagens do livro de diversas formas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14475 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/8-300x282.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/8-300x282.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/8.jpg 388w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Conta um pouco como \u00e9 esse processo com a fotografia.<\/strong><\/p>\n<p>A escolha pela fotografia \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o art\u00edstica, mas sobretudo pol\u00edtica, assim como a proposta de que as crian\u00e7as se desenhem. Simplificando bastante, eu quero que as crian\u00e7as se reconhe\u00e7am da forma mais direta poss\u00edvel, que uma crian\u00e7a negra esteja na capa de um livro de circula\u00e7\u00e3o nacional e que outras crian\u00e7as se reconhe\u00e7am nela. Aqui, nem vou entrar na quest\u00e3o da subjetividade da fotografia e suas implica\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, cada lugar \u00e9 um lugar. Ensinamos sempre no\u00e7\u00f5es de fotografia, mas depende muito do equipamento dispon\u00edvel, do n\u00famero de crian\u00e7as. A primeira coisa \u00e9 formar o grupo, sentar junto, conversar, come\u00e7ar a pensar o conte\u00fado a partir de v\u00e1rios jogos e brincadeiras para come\u00e7ar a pensar nos temas e delinear o projeto. As crian\u00e7as dizem: \u201cOlha, a tia tal sabe das ervas; o v\u00f4 sabe do artesanato tal; tem que fotografar o peixe do fulano&#8230;\u201d. Come\u00e7amos assim, fazendo um mapeamento do lugar com as crian\u00e7as. No momento em que come\u00e7amos a levantar esses conte\u00fados, elas v\u00e3o desenhando e fotografando. Por exemplo, no Manual das crian\u00e7as Huni Kui4, a maioria das fotos \u00e9 das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Algumas fotos s\u00e3o da Gabriela Romeu, jornalista, que tamb\u00e9m fez o texto do livro. Mas como l\u00e1 o grupo era menor, mais crian\u00e7as puderam fotografar.<\/p>\n<p>Muito do conte\u00fado dos livros nasceu de situa\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas com as crian\u00e7as. Por exemplo, voc\u00ea est\u00e1 na rede \u00e0s oito da noite e chega uma crian\u00e7a com uma arraia morta: \u201cOlha tia, achei uma arraia. Tu n\u00e3o tinha entendido o que \u00e9 o espor\u00e3o, vou te mostrar o que \u00e9 o espor\u00e3o da arraia\u201d. Vem um bando junto; ali, fotografamos, juntamos hist\u00f3rias de arraia e dali surgiu uma p\u00e1gina nova sobre \u201cperigos aqu\u00e1ticos\u201d. De repente uma crian\u00e7a me acorda com um desenho: \u201cTia, eu desenhei tal coisa\u201d. Eu digo: \u201cGente, que desenho bacana, como vou deixar isso fora do livro?\u201d.<\/p>\n<p>Funciona de v\u00e1rias maneiras, esse lado org\u00e2nico das coisas que v\u00e3o vindo e vamos editando in loco. \u00c0s vezes as crian\u00e7as \u00e9 que v\u00e3o orientando: \u201cPoxa, tem a hist\u00f3ria do bezerro, vamos l\u00e1 fotografar o bezerro!\u201d, \u201cAh, a gente tem a hist\u00f3ria das meninas que se perdem na caatinga, onde \u00e9 que voc\u00eas acham que tem uma paisagem assim que representa a caatinga&#8230;\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>4 O quarto livro da s\u00e9rie, sobre as crian\u00e7as de uma comunidade ind\u00edgena do Acre, publicado pelo Projeto Tecendo Saberes em 2015.<\/h6>\n<p><strong>Desde que voc\u00ea come\u00e7ou esse tipo de trabalho, agora sente diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao uso da tecnologia e ao resultado do produto?<\/strong><\/p>\n<p>Agora tem mudado muito; hoje em dia as pessoas usam o celular, querem ver a foto na hora. S\u00e3o 20 anos trabalhando com fotografia e no in\u00edcio me deparei com pessoas que nunca tinham se visto em uma fotografia. Isso mudou bastante. Mas o impacto da sua imagem impressa em um livro ou registrada num v\u00eddeo ainda \u00e9 grande, pois essas m\u00eddias s\u00e3o vistas como espa\u00e7os de privil\u00e9gio. O livro? O livro \u00e9 uma coisa que \u00e9 da escola, que n\u00e3o pode sujar, meio sagrado. Assim como o filme, que mostra aquelas pessoas \u201cda televis\u00e3o\u201d. Uma das coisas que deixam as pessoas mais impressionadas nas comunidades \u00e9 que eu realmente volto para mostrar o resultado \u2013 editado, publicado, tornado produto midi\u00e1tico para o mundo. Infelizmente elas est\u00e3o acostumadas com pesquisadores, artistas e jornalistas que passam, pesquisam, documentam e tal e nunca d\u00e3o algum retorno.<\/p>\n<p>Nesses processos, atuo como um mediador que oferece ferramentas para ajudar as pessoas a perceber melhor seu entorno e talvez a questionar um pouco as imagens que o mundo do consumo lhes oferece. Acho que isso \u00e9 muito importante; isso \u00e9 uma postura de vida quase libert\u00e1ria atualmente \u2013 conhecer, observar e valorizar melhor o local onde se vive para construir a pr\u00f3pria leitura de mundo (e viva Paulo Freire!). \u00c9 uma metodologia que posso levar para qualquer lugar, de uma escola particular num bairro privilegiado de S\u00e3o Paulo a um convento na \u00c1frica do Sul!<\/p>\n<p><strong>Fale mais da observa\u00e7\u00e3o. Esse tema nos interessa. Principalmente no vi\u00e9s do professor que precisa aprender a olhar a crian\u00e7a, por exemplo, na observa\u00e7\u00e3o da brincadeira. O que as crian\u00e7as aprendem, descobrem, veem de novo?<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea fala que os professores t\u00eam dificuldade de olhar as crian\u00e7as, penso que \u00e9 um mal da modernidade. A gente v\u00ea, mas n\u00e3o enxerga; ouve, mas n\u00e3o escuta. Diz que se comunica, mas na verdade se trumbica num mundar\u00e9u de interfaces! Isso independe de idade, classe social, profiss\u00e3o; perpassa tudo.<\/p>\n<p>Tem cada vez mais pessoas desligadas do seu entorno. Saber observar \u00e9 fundamental. Por isso gosto das din\u00e2micas da alfabetiza\u00e7\u00e3o visual. J\u00e1 trabalhei com alguns professores que reclamavam de que \u201cas crian\u00e7as n\u00e3o prestam aten\u00e7\u00e3o\u201d e, quando fizemos exerc\u00edcios de observa\u00e7\u00e3o, mal conseguiam discernir dois ou tr\u00eas elementos de uma imagem.<\/p>\n<p>Vamos dar tempo ao olhar! \u00c9 uma brincadeira que eu fa\u00e7o com as crian\u00e7as: \u201cO que precisa para fotografar?\u201d. E elas respondem: \u201cM\u00e1quina, impressora, luz\u201d. Que mais? Precisa do OLHO, minha gente! Precisa de um olhar atento, precisa dar tempo para enxergar de fato. O processo das sensibiliza\u00e7\u00f5es passa por isso: dar um tempo. As crian\u00e7as ind\u00edgenas ainda sabem olhar e desenham com detalhes, com perspectiva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14476 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/9-269x300.jpg\" alt=\"\" width=\"269\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/9-269x300.jpg 269w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/9.jpg 613w\" sizes=\"auto, (max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/p>\n<p>Quem faz o detalhe \u00e9 quem d\u00e1 tempo ao mundo. Nos desenhos voc\u00ea percebe uma diferen\u00e7a. As crian\u00e7as do meio urbano desenham uma \u00e1rvore quase sempre igual, redonda com ma\u00e7\u00e3s. Na Amaz\u00f4nia, a \u00e1rvore n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma \u00e1rvore qualquer, peixe n\u00e3o \u00e9 peixe qualquer. Peixe \u00e9 pirarucu, ja\u00fa, piranha, \u00e9 outra coisa. A observa\u00e7\u00e3o tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o estabelecida com seu entorno. Eu acho que, antes de falar \u201cas crian\u00e7as isso, as crian\u00e7as aquilo\u201d, os professores t\u00eam de pensar que precisam situ\u00e1-las e contextualiz\u00e1-las no mundo que lhes \u00e9 comum.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a repercuss\u00e3o desses livros entre as crian\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o dessas comunidades?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que me \u00e9 muito cara, pois um de meus objetivos \u00e9 de fato subverter a maneira como as crian\u00e7as da cidade percebem aquela cultura, que normalmente elas aprendem a reconhecer como \u201coutra\u201d, minorit\u00e1ria ou ex\u00f3tica. A crian\u00e7a que elas veem nesses livros e v\u00eddeos \u00e9 uma crian\u00e7a agenciadora da pr\u00f3pria vida, orgulhosa de sua cultura, produtora de saberes, que tem muito a lhes ensinar e que, apesar de viver em situa\u00e7\u00f5es distintas, divide com elas desejos e rotinas comuns a qualquer inf\u00e2ncia. Neste sentido, tenho ficado muito feliz com a repercuss\u00e3o dos livros nas atividades que fazemos em bibliotecas p\u00fablicas ou escolas aqui em S\u00e3o Paulo. Passado um primeiro estranhamento, a maioria das crian\u00e7as fica perplexa com \u201co tanto de coisas que essas crian\u00e7as sabem fazer!\u201d. Em alguns lugares, depois de verem os filmes das crian\u00e7as criando seus brinquedos e artefatos, sa\u00edram correndo para achar pau para fazer arco e flecha. \u201cViu como ele faz? Vamos tentar tamb\u00e9m?\u201d<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, outras experi\u00eancias nos mostram o qu\u00e3o longo ainda \u00e9 o caminho que temos de percorrer. Por exemplo, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, mostrei a capa do Manual das crian\u00e7as do Baixo Amazonas e perguntei para as crian\u00e7as o que elas viam na imagem. Primeiro um sil\u00eancio; depois, algumas responderam: \u201cTem rio, floresta e um \u00edndio\u201d, \u201cTem uma pessoa pobre\u201d. Aquelas crian\u00e7as cariocas n\u00e3o reconheciam um menino quilombola pulando em um rio como simplesmente uma outra crian\u00e7a brincando&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14477 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/10-204x300.jpg\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/10-204x300.jpg 204w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/10.jpg 355w\" sizes=\"auto, (max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/><\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o as escolas urbanas tamb\u00e9m podem aproveitar para conhecer como vivem as crian\u00e7as de outras \u00e1reas do Pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza! Os livros s\u00e3o \u00f3timo material para suscitar debates, aprender conte\u00fados em diversas disciplinas e, de quebra, promover a cultura do respeito pela diferen\u00e7a e um olhar menos paternalista sobre a diversidade. Por exemplo, a maior parte dos brasileiros conhece a Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica apenas pela natureza, e n\u00e3o pelo fator humano. Nos livros feitos no Par\u00e1 e no Acre, quebramos alguns estere\u00f3tipos comuns sobre a regi\u00e3o (at\u00e9 mesmo hist\u00f3ricos), criando um material com foco na presen\u00e7a humana, nos conhecimentos e na hist\u00f3ria de vida das pessoas que l\u00e1 habitam.<\/p>\n<p><strong>Quais seriam as fortalezas das crian\u00e7as dessas comunidades?<\/strong><\/p>\n<p>Elas est\u00e3o mais involucradas no dia a dia de suas comunidades, com responsabilidades, mas tamb\u00e9m com maior agenciamento de seu tempo. Essas crian\u00e7as t\u00eam no dia a dia mais possibilidades de escolha \u2013 se eu vou ou n\u00e3o pescar, como vou usar meu tempo, se vou l\u00e1 buscar a faca do meu pai pra gente ca\u00e7ar, comer peixe, nadar no rio&#8230; Claro que sem romantiza\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Elas mesmas reconhecem n\u00e3o ter muitas das oportunidades que as crian\u00e7as urbanas t\u00eam.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou que retorna para mostrar o livro. Essa edi\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 outra forma\u00e7\u00e3o, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a terceira etapa do projeto \u2013 voltar \u00e0s comunidades para lan\u00e7ar e distribuir os livros. Nesse momento, tamb\u00e9m realizo oficinas com professores, n\u00e3o s\u00f3 para discutir o uso do livro em sala de aula, mas tamb\u00e9m para compartilhar as metodologias que podem ser aplicadas a seus projetos locais. Em alguns lugares, os coordenadores pedag\u00f3gicos pedem para reproduzir o conte\u00fado para a rede, e eu rebato instigando-os a criar seus repert\u00f3rios locais.<\/p>\n<p>Quando lan\u00e7amos o livro no Mondongo, a pequena escola encheu-se de gente \u2013 entre tantos, nossa musa, V\u00f3 Luzia, aos 95 anos a matriarca do projeto. Ao ver o livro e os v\u00eddeos, ela chorou e disse: \u201cAgora eu posso morrer, est\u00e1 tudo aqui!\u201d. N\u00e3o sei se tudo, mas de fato l\u00e1 est\u00e3o os netos dela, suas cantigas, seus vizinhos, sua sabedoria, a riqueza de toda uma vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elaborar um livro com as crian\u00e7as permite conhecer mais a pr\u00f3pria comunidade, socializar conhecimentos locais e produzir com qualidade em um projeto colaborativo Entrevista com Marie Ange Bordas Revista avisa l\u00e1: Conte um pouco sobre a ideia desse projeto dos livros e seu processo colaborativo. 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