{"id":14186,"date":"2016-04-18T20:46:28","date_gmt":"2016-04-18T23:46:28","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=14186"},"modified":"2024-10-28T16:01:03","modified_gmt":"2024-10-28T19:01:03","slug":"jogo-simbolico-na-africa-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-66\/jogo-simbolico-na-africa-do-sul\/","title":{"rendered":"Jogo simb\u00f3lico na \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<p>Sandra Eckschmidt\u00b9<\/p>\n<hr \/>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o em uma cultura com uma l\u00edngua diferente da nossa faz da observa\u00e7\u00e3o silenciosa um instrumento importante para confirmar que a brincadeira \u00e9 fundamental em qualquer cultura e que o papel do educador \u00e9 promover condi\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am esse ambiente brincante.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Minha experi\u00eancia de \u00c1frica foi um pedacinho de um pedacinho desse continente. Trabalhei durante seis meses, de janeiro a julho de 2015, na Zenzeleni School for Creative Education, ou simplesmente Escola Zenzeleni, como todos a chamam\u00b2.<\/p>\n<p>Durante toda a minha participa\u00e7\u00e3o na Escola Zenzeleni, mantive um di\u00e1rio. Embora um novo universo t\u00e3o diferente apresentasse muitos aspectos relevantes, eu tinha um foco principal: o registro do brincar livre das crian\u00e7as no contexto escolar. O fato de a pr\u00e1tica da Escola Zenzeleni se inspirar na Pedagogia Waldorf favoreceu muito minhas observa\u00e7\u00f5es, porque sua proposta pedag\u00f3gica defende e oferece o espa\u00e7o do brincar livre e espont\u00e2neo dentro da escola.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Santa Catarina,\u00e9 coordenadora da Escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil Casa Amarela e da Forma\u00e7\u00e3o em Pedagogia Waldorf de Florian\u00f3polis; consultora do Projeto Territ\u00f3rio do Brincar; autora dos livros A arte de lembrar e esquecer: narrativas autobiogr\u00e1ficas de professores sobre sua inf\u00e2ncia e Ndihilile: eu estou viva!; e coautora do livro Bola e boneca. Foi professora convidada do Centre for Creative Education (CFCE) da Cidade do Cabo, na \u00c1frica do Sul (2015).<br \/>\n2 O contato com a Escola Zenzeleni foi realizado por meio do CFCE (http:\/\/www.cfce.org.za\/cfce\/), uma institui\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de professores e artistas inspirada na Pedagogia Waldorf. Localizada no bairro de Khayelitsha, periferia da elegante Cidade do Cabo, a escola nasceu durante o regime separatista do apartheid, como assentamento de negros expulsos da regi\u00e3o mais central da cidade. Atualmente, acolhe migrantes de todo o continente, que buscam na \u00c1frica do Sul melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. . A escola \u00e9 em grande parte subsidiada pelo governo, mas tamb\u00e9m recebe financiamento de empresas, al\u00e9m de contar com a contribui\u00e7\u00e3o de uma pequena taxa mensal de cada fam\u00edlia.<\/h6>\n<p>Para a Pedagogia Waldorf, a crian\u00e7a tem uma forma de se relacionar no mundo a cada fase de seu crescimento. No caso da primeira inf\u00e2ncia, essa rela\u00e7\u00e3o acontece predominantemente por meio do movimento, da sensorialidade e da imagina\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, a express\u00e3o mais plena da crian\u00e7a acontece quando ela brinca de forma livre. O papel do educador \u00e9 promover condi\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am esse ambiente brincante. Um ambiente composto por brinquedos pouco estruturados, como materiais da natureza, troncos, sementes, conchas, mas tamb\u00e9m caixotes, t\u00e1buas, tecidos, entre outros, com os quais<br \/>\na crian\u00e7a precisa usar a imagina\u00e7\u00e3o para o brincar acontecer; em espa\u00e7os onde a natureza propicie m\u00faltiplas possibilidades sensoriais; com tempo para que o brincar n\u00e3o ser submetido a uma rotina fragmentada; com v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia social, oferecidas por meio de mistura de idades.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14187 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-5-300x209.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-5-300x209.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-5-1024x715.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-5-768x536.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-5.png 1145w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Minha proposta de observa\u00e7\u00e3o do brincar livre como express\u00e3o da crian\u00e7a foi poss\u00edvel na Escola Zenzeleni porque os educadores ali n\u00e3o reduzem o potencial brincante da crian\u00e7a ao aprendizado de conte\u00fados escolares, uma pr\u00e1tica t\u00e3o frequente nos contextos escolares, que torna o brincar uma ferramenta pedag\u00f3gica do professor, em vez de consider\u00e1-lo uma express\u00e3o da crian\u00e7a.<\/p>\n<p><em><strong>19 de janeiro de 2015<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Constru\u00e7\u00e3o de um caminho de observa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Primeiro dia&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Cheguei \u00e0 escola em cima da hora. Embora tivesse feito o trajeto no domingo, hoje, segunda-feira, tudo parecia muito diferente.<\/em><\/p>\n<p><em>Entrei na sala correndo e a professora estava sentada com v\u00e1rios pap\u00e9is sobre a mesa, enquanto os pais esperavam em fila com seus filhos. Embora aos meus olhos tudo parecesse tumultuado e desorganizado, ningu\u00e9m parecia incomodado, porque as pessoas conversavam e riam durante toda a espera. Ali\u00e1s, esta \u00e9 uma das tantas qualidades da cultura Xhosa: o bom humor acima de tudo!<\/em><\/p>\n<p><em>A professora estava sozinha para dar conta daquela demanda toda. Ao sentar ao seu lado, ofereci ajuda e, sem tempo para explicar nada, ela me deu v\u00e1rias fichas escritas em ingl\u00eas e preenchidas em isiXhosa \u2013 pelo menos ficou claro que eram fichas de matr\u00edcula. A professora recebia a fam\u00edlia e me falava o nome da crian\u00e7a, para que eu confirmasse nas fichas se ela estava matriculada.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu olhava os nomes nas fichas e escutava o som do nome da crian\u00e7a, mas n\u00e3o conseguia identificar o nome falado, nem pronunciar o nome escrito. Para ser bem sincera, eu n\u00e3o conseguia nem saber com que letra o nome come\u00e7ava. <\/em><em>Observava atentamente como a professora falava, para tentar identificar algum som reconhec\u00edvel, mas era muito dif\u00edcil. Assim, em um exerc\u00edcio de adivinha\u00e7\u00e3o e contando com muita paci\u00eancia da professora, fui tentando encontrar os nomes. <\/em><em>Quando finalmente demos conta de toda a fila de pais, eu j\u00e1 estava exausta \u2013 era apenas a primeira hora do meu trabalho novo.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14188 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-5-193x300.png\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-5-193x300.png 193w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-5.png 490w\" sizes=\"auto, (max-width: 193px) 100vw, 193px\" \/><\/p>\n<p>E foi assim que fui apresentada \u00e0 l\u00edngua isiXhosa, falada na escola e na comunidade em que eu estava inserida, uma das l\u00ednguas oficiais da \u00c1frica do Sul. Eu sabia que a escola trabalhava com crian\u00e7as da cultura Xhosa, e que elas usavam sua l\u00edngua materna, mas tamb\u00e9m haviam me dito que na escola falariam ingl\u00eas. Mas n\u00e3o foi bem assim que aconteceu. Todos falavam isiXhosa e, \u00e0s vezes, a professora falava ingl\u00eas, para introduzir esta l\u00edngua no cotidiano.<\/p>\n<p><em>Voltei de meu primeiro dia de aula me perguntando como faria para estar em um lugar em que n\u00e3o conseguia entender a l\u00edngua que falam&#8230;<\/em><\/p>\n<p>\u00c1frica do Sul: a quest\u00e3o dos idiomas tem uma hist\u00f3ria muito mais profunda. Depois das primeiras elei\u00e7\u00f5es p\u00f3s-apartheid, no mandato do presidente Nelson Mandela \u2013 ou, como \u00e9 carinhosamente chamado por aqui, Madiba \u2013, foi elaborada a Constitui\u00e7\u00e3o atual da \u00c1frica do Sul, que marca o fim do apartheid e o in\u00edcio da democracia, politicamente falando. Nesse documento, definiram-se onze l\u00ednguas oficiais. S\u00e3o elas: afric\u00e2ner, ingl\u00eas, isiNdebele, seSotho asleboa (Sotho do Norte), Sesotho (Sotho do Sul), siSwati, Xitsonga, Setswana, Tshivenda, isiXhosa e isiZulu. Muito mais do que querer complicar a vida de visitantes desavisados na \u00c1frica do Sul, essa lei vem suprir um direito b\u00e1sico do ser humano, que \u00e9 reconhecer-se parte de uma comunidade e expressar-se em sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>Em cada regi\u00e3o do pa\u00eds, a concentra\u00e7\u00e3o de idiomas \u00e9 diferente. Por exemplo, eu nunca ouvi muitas das l\u00ednguas oficiais, porque morei e trabalhei em locais onde as pessoas falavam isiXhosa, afric\u00e2ner e ingl\u00eas. De qualquer modo, o ingl\u00eas \u00e9 a forma de comunica\u00e7\u00e3o entre estrangeiros e locais. Independentemente da l\u00edngua que se fala em determinada comunidade, o ingl\u00eas \u00e9 sempre uma possibilidade para troca de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas como funciona no cotidiano viver em um pa\u00eds com tantas l\u00ednguas? Voc\u00ea para no posto de gasolina, a pessoa que te atende fala uma frase em ingl\u00eas e logo se vira para o amigo falando na pr\u00f3pria l\u00edngua. Meus vizinhos falavam ingl\u00eas comigo e, quando seus filhos chegavam, desatavam a falar em outra l\u00edngua. Na reuni\u00e3o de professores, a pauta era falada em ingl\u00eas, mas a cada dois minutos estavam todos falando isiXhosa, e ent\u00e3o, ao olharem para mim, voltavam a falar ingl\u00eas. O fen\u00f4meno da diversidade lingu\u00edstica n\u00e3o \u00e9 uma viv\u00eancia s\u00f3 para os estrangeiros. Quando circulam entre os diferentes bairros, as pessoas n\u00e3o entendem o que \u00e9 falado, porque nenhum sul-africano fala as onze l\u00ednguas oficiais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14189 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/3-5-300x122.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"122\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/3-5-300x122.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/3-5-1024x416.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/3-5-768x312.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/3-5.png 1148w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Esse aspecto \u00e9 realmente impactante para quem procura conhecer um pouco mais da ess\u00eancia da \u00c1frica do Sul. E foi esse ponto que fez minha pesquisa sobre o brincar na escola tomar outro rumo.<\/p>\n<p>A dificuldade de acompanhar as narrativas das brincadeiras das crian\u00e7as fez com que o sil\u00eancio fosse se fazendo presente. Tal sil\u00eancio n\u00e3o se referia apenas a falar menos. Sim, comecei a falar menos, mas era mais do que isso: era a constru\u00e7\u00e3o de uma postura mais silenciosa ante os fatos externos. Precisei de tempo para sair do papel de falar, de perguntar, de querer<br \/>\nentender, de opinar!<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que uma leitura antiga voltou a fazer muito sentido, em que o fil\u00f3sofo espanhol Larrosa (2002) diferencia \u201cestar informado\u201d de \u201csaber da experi\u00eancia\u201d. Era a esse caminho que eu queria e precisava me entregar \u2013 ao saber da experi\u00eancia \u2013 e deixar as informa\u00e7\u00f5es de lado.<\/p>\n<p><em>\u201cA informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 experi\u00eancia. E mais, a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa lugar para a experi\u00eancia, ela \u00e9 quase o contr\u00e1rio da experi\u00eancia, quase uma antiexperi\u00eancia\u201d\u00b3.<\/em><\/p>\n<p>Assim, a cada dia que se passava, fui ficando mais e mais silenciosa. Quanto mais silenciosa eu ficava, mais atentos meus olhos, ouvidos, tato, olfato ficavam a tudo o que acontecia. N\u00e3o havia um gesto que passasse despercebido por mim. Dos mais singelos e delicados aos mais\u00a0fortes e brutos.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>3 LARROSA, Jorge. Notas sobre a experi\u00eancia e o saber da experi\u00eancia. Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o, n. 19, p. 21, jan.\/abr. 2002.<\/h6>\n<p><em><strong>26 de fevereiro de 2015<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Rabos de cavalo&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Todos os dias eu prendo o cabelo para trabalhar, mas com o passar da manh\u00e3 meu rabo de cavalo vai se desmanchando e se soltando do el\u00e1stico. Nesse momento, sempre aparece uma crian\u00e7a que passa a m\u00e3o sobre minha face e arruma os fios soltos, voltando a prend\u00ea-los no el\u00e1stico. Ao finalizar a arruma\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a segura meu queixo, dando uma \u00faltima olhada de aprova\u00e7\u00e3o. E quando nossos olhos se encontram, a crian\u00e7a abre um sorris\u00e3o. \u00c9 l\u00f3gico que eu n\u00e3o aguento tanta fofura e lhe dou um abra\u00e7o bem forte e um monte de beijos!!!<\/em><\/p>\n<p>Esse gesto t\u00e3o delicado me acompanhou durante todo o tempo em que estive com as crian\u00e7as. Embora eu gostasse tanto dele, achava-o bem diferente. S\u00f3 aos poucos fui entendendo o grande cuidado que essa cultura tem com o cabelo \u2013 nenhum fiozinho fica fora do lugar com aquelas incr\u00edveis tran\u00e7as.<\/p>\n<p>Os pequenos gestos das m\u00e3os, do olhar, da postura, que \u00e0s vezes ficam encobertos por movimentos maiores \u2013 como pular, correr, dan\u00e7ar \u2013, mostravam-se com mais intensidade aos meus olhos. Mas eu j\u00e1 n\u00e3o perguntava, procurando explica\u00e7\u00f5es imediatas; apenas os percebia.<\/p>\n<p>Silenciar minha vontade de perguntar e compreender tudo ao meu redor fazia os gestos crescerem \u00e0 minha frente. Eles tomavam uma relev\u00e2ncia maior do que as palavras. Por\u00e9m, observar os gestos ainda n\u00e3o me trazia a com preens\u00e3o da brincadeira. Existe todo um aspecto cultural dos gestos, que eu ainda desconhecia. A forma de mostrar o que agrada, de colocar limites, agradecer, comer, at\u00e9 os tipos de brincadeira \u2013 enfim, tantas coisas!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14190 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-5-300x104.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"104\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-5-300x104.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-5-768x267.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-5.png 986w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><em><strong>14 de abril de 2015<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Um, dois, tr\u00eas!<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Ao preparar os pratos para dividir as frutas do lanche, percebi que ainda faltavam tr\u00eas, que, em minha linguagem de gestos, pedi \u00e0 menina que estava mais pr\u00f3xima de mim. Quando mostrei tr\u00eas dedos levantados, ela me olhou de<\/em><br \/>\n<em>forma estranha. Ent\u00e3o, fui mostrando um, dois, tr\u00eas. Ela sorriu, confirmando que havia me compreendido, e \u201carrumou\u201d meus dedos, mostrando em minha m\u00e3o como era o gesto correto para ela. Algo t\u00e3o b\u00e1sico, mostrar quantidades com <\/em><em>os dedos, mas que aqui \u00e9 diferente!<\/em><\/p>\n<p>As semanas foram se seguindo e, de repente, comecei a me dar conta desse caminho de observa\u00e7\u00e3o dos gestos, ao qual minha falta de comunica\u00e7\u00e3o verbal me conduziu. Todos os gestos eram importantes e eu os acompanhava durante dias, at\u00e9 que, devagarzinho, uma narrativa foi se construindo.<\/p>\n<p>A possibilidade de tirar fotos tamb\u00e9m me ajudou a observar os gestos de cada crian\u00e7a nas brincadeiras. Por isso, \u00e0s vezes durante uma semana inteira, a escrita do meu di\u00e1rio tratou da descri\u00e7\u00e3o gestual de uma mesma brincadeira. Depois desse per\u00edodo fazendo o exerc\u00edcio, eu descobria o enredo da hist\u00f3ria que estava sendo brincada. Esse processo de observa\u00e7\u00e3o durou em torno de uma semana para cada brincadeira. Em seguida, eu descrevia para a professora o enredo que lia na narrativa gestual. Ela confirmava e se alegrava com todos os detalhes percebidos, que para ela, por estarem em um lugar t\u00e3o comum, j\u00e1 n\u00e3o eram mais vistos. As observa\u00e7\u00f5es me levaram a perguntas mais essenciais. Com essa abertura silenciosa, a crian\u00e7a e seus gestos se mostravam \u00e0 minha frente.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>4 NATIONAL WALDORF TEACHERS CONFERENCE 2015 \u2013 The art of balance: working in the unfolding of human potential (A arte do equil\u00edbrio: trabalhar no desdobramento do potencial humano).<\/h6>\n<p><strong>Observa\u00e7\u00e3o e referencias culturais<\/strong><\/p>\n<p>Percebi que, quando estava no Brasil, por conhecer t\u00e3o bem os h\u00e1bitos culturais e recorrer \u00e0 minha pr\u00f3pria mem\u00f3ria de inf\u00e2ncia, muitas vezes eu me contava a brincadeira antes de a crian\u00e7a apresent\u00e1-la. Aconteceu algo muito similar aqui na \u00c1frica do Sul. Em abril, fui convidada a dar um workshop de tr\u00eas dias sobre o brincar da crian\u00e7a para professoras de Escolas Waldorf da\u00a0\u00c1frica do Sul<sup>4<\/sup>. No \u00faltimo dia, resolvi apresentar minha experi\u00eancia de observa\u00e7\u00e3o na Escola Zenzeleni. Levei muitas imagens das crian\u00e7as brincando e pedi a elas que descrevessem, da forma mais objetiva poss\u00edvel, o que estavam observando. Eu anotei tr\u00eas frases, mas infelizmente n\u00e3o consegui anotar os nomes das professoras:<\/p>\n<p>\u201cElas est\u00e3o brincando de casinha, como eu brincava de casinha.\u201d<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Est\u00e1 com beb\u00ea amarrado nas costas, passando roupa, balan\u00e7ando e cantando para o beb\u00ea dormir.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, sim&#8230; devem estar cantando Tula Tula!\u201d<\/p>\n<p>Foi muito interessante, pois muito do que elas relatavam n\u00e3o era poss\u00edvel descrever apenas olhando para a imagem. Por\u00e9m, como elas fazem parte do contexto cultural das crian\u00e7as, podem ir al\u00e9m e imaginar a situa\u00e7\u00e3o, colocando em jogo suas experi\u00eancias de vida.<\/p>\n<p>O que quero frisar \u00e9 que existe uma antecipa\u00e7\u00e3o do adulto em sua observa\u00e7\u00e3o, e isso pode se tornar um h\u00e1bito. Pensamos estar atentos, observando, mas estamos antecipando a a\u00e7\u00e3o e, assim, deixando de ver. Isso acontece em todos os \u00e2mbitos da nossa vida, mas, em especial para o educador, pode se tornar um empecilho. A crian\u00e7a merece de n\u00f3s, educadores, o olhar aberto para a express\u00e3o de sua individualidade!<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a est\u00e1 em ouvir as crian\u00e7as e acolh\u00ea-las em seus pontos de vista \u2013 algo aparentemente despojado, quase ing\u00eanuo; chamo isso a um tipo de atitude de \u201cagachamento\u201d, de modo a ir para perto do ch\u00e3o, onde a crian\u00e7a habita<sup>5<\/sup>. Olhar aberto, \u201cagachamento\u201d, n\u00e3o importa o nome que daremos, mas a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma: convidar todos ao exerc\u00edcio de olhar a crian\u00e7a \u201ca partir dela mesma\u201d e n\u00e3o a partir de teorias sobre ela.<\/p>\n<p>O caminho de observa\u00e7\u00e3o dos gestos das crian\u00e7as foi um grande exerc\u00edcio dessa postura aberta. Eu esperava a manifesta\u00e7\u00e3o dos enredos das brincadeiras, para depois me debru\u00e7ar sobre seus significados. Muito do que estou relatando aqui, tentando ser fiel apenas \u00e0 minha experi\u00eancia, tem grande influ\u00eancia dos exerc\u00edcios de observa\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica de\u00a0Goethe<sup>6<\/sup> e das leituras de obras sobre a pesquisa do fil\u00f3sofo e fenomen\u00f3logo franc\u00eas Merleau-Ponty<sup>7<\/sup>\u00b7 Respeitando a grandiosidade e especificidade de cada teoria, tanto uma como a outra convidam o observador a um primeiro passo: descrever a experi\u00eancia tal como ela \u00e9, sem partir de teorias.<\/p>\n<p>Essas influ\u00eancias s\u00e3o importantes na constru\u00e7\u00e3o do caminho de observa\u00e7\u00e3o que venho trilhando e exercitando h\u00e1 tempos em minha vida de educadora. E em um ambiente t\u00e3o diferente do que eu conhecia, ajudaram-me a ousar e experimentar mais alguns passos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s exercitar por tantos meses essa forma de observa\u00e7\u00e3o mais silenciosa, como a estou chamando aqui, pude perceber gestos que se repetiam; outros que se transformavam; outros, ainda, que eram completamente diferentes. Esse material foi me possibilitando estabelecer rela\u00e7\u00f5es, fazer perguntas e tecer reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>O melhor momento para exercitar a observa\u00e7\u00e3o de um educador \u00e9 o brincar livre da crian\u00e7a, quando ela se expressa em sua inteireza. O espa\u00e7o do brincar livre dentro da escola, como um espa\u00e7o de pesquisa para o educador, precisa ser conquistado em nossas escolas.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>5Em Merleau-Ponty e a Educa\u00e7\u00e3o, de Marina Machado. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2010. Pag. 12.<br \/>\n6M\u00e9todo Cognitivo de Goethe, de Rudolf Steiner. S\u00e3o Paulo: Antropos\u00f3fica, 2004.<br \/>\n7Merleau-Ponty &amp; a Educa\u00e7\u00e3o, de Marina M. Machado. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2010.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra Eckschmidt\u00b9 A inser\u00e7\u00e3o em uma cultura com uma l\u00edngua diferente da nossa faz da observa\u00e7\u00e3o silenciosa um instrumento importante para confirmar que a brincadeira \u00e9 fundamental em qualquer cultura e que o papel do educador \u00e9 promover condi\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am esse ambiente brincante. Minha experi\u00eancia de \u00c1frica foi um pedacinho de um pedacinho desse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":227,"featured_media":17139,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1526],"tags":[],"class_list":{"0":"post-14186","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisa-la-66","9":"post-with-thumbnail","10":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/227"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14186"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17140,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14186\/revisions\/17140"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}