{"id":14169,"date":"2016-04-18T19:32:25","date_gmt":"2016-04-18T22:32:25","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=14169"},"modified":"2024-10-28T16:01:15","modified_gmt":"2024-10-28T19:01:15","slug":"eu-penso-nos-pensamos-e-as-criancas-pensam-muito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-66\/eu-penso-nos-pensamos-e-as-criancas-pensam-muito\/","title":{"rendered":"Eu penso, n\u00f3s pensamos e as crian\u00e7as pensam muito!"},"content":{"rendered":"<p>Genecilda dos Santos\u00b9<\/p>\n<hr \/>\n<p>A escuta paciente do professor possibilita que crian\u00e7as pequenas aprendam a pensar e desenvolvam in\u00fameras estrat\u00e9gias enquanto tentam desvendar o sistema de escrita.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Sabemos, e j\u00e1 faz algum tempo, que a escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u00e9 espa\u00e7o privilegiado para a promo\u00e7\u00e3o de atividades que levem as crian\u00e7as ao encontro da leitura. O que temos de mais novo nos estudos que tratam da forma\u00e7\u00e3o de leitores nos leva a considerar, em nossos planejamentos, a motiva\u00e7\u00e3o para ler, os objetivos da leitura, a fun\u00e7\u00e3o social da leitura, os processos de constru\u00e7\u00e3o de sentido e as estrat\u00e9gias de leitura, ideias j\u00e1 familiares nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Enquanto educadores, o que buscamos compreender e aprimorar constantemente \u00e9 a compreens\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o social da escrita na promo\u00e7\u00e3o de atividades em que seu uso seja significativo, de forma t\u00e3o funcional que se torne um prazeroso desafio e n\u00e3o uma tarefa imposs\u00edvel para os pequenos.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1Professora da Rede Municipal de Ensino de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto \u2013 SP<\/h6>\n<p>O relato a seguir exp\u00f5e atividades com listas de culin\u00e1ria realizadas no projeto institucional \u201cAlimenta\u00e7\u00e3o Saud\u00e1vel\u201d, desenvolvido por toda a escola, e pretende demonstrar como elas favorecem a reflex\u00e3o sobre como se l\u00ea.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14170 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-3-225x300.png\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-3-225x300.png 225w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/1-3.png 589w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p><strong>Planejamento e gest\u00e3o de atividade<\/strong><\/p>\n<p>As crian\u00e7as j\u00e1 estavam, desde o in\u00edcio do ano, envolvidas com o projeto, que visa apresentar e incentivar h\u00e1bitos alimentares saud\u00e1veis mediante a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas do dia a dia: construir horta, card\u00e1pios, desenvolver pesquisas, conhecer e experimentar diversas receitas. Como professora da turma, aproveitei as oportunidades que o projeto criou para contextualizar eventos de comunica\u00e7\u00e3o por escrito, envolvendo as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A turma \u00e9 formada por 25 crian\u00e7as de 4 a 5 anos, algumas das quais nunca haviam frequentado a escola, vindas de fam\u00edlias simples, de comunidades da periferia da cidade.<\/p>\n<p>A atividade proposta era coletiva, mediada por mim no contexto de produ\u00e7\u00e3o de uma lista para a compra dos ingredientes necess\u00e1rios para o preparo de uma torta de legumes. Para efeito da atividade culin\u00e1ria, eu poderia simplesmente ter dado a lista de ingredientes. Mas meu prop\u00f3sito era ir al\u00e9m: queria proporcionar \u00e0s crian\u00e7as a reflex\u00e3o sobre como se l\u00ea, por meio do levantamento de hip\u00f3teses de leitura a partir de pistas claras.<\/p>\n<p>A atividade se deu ao longo dos dias, sendo dividida por etapas e considerando os objetivos did\u00e1ticos e as necessidades das crian\u00e7as, pois, como diz Delia Lerner, \u201cPara dar sentido \u00e0 leitura s\u00e3o necess\u00e1rios projetos que n\u00e3o acabem em um dia\u201d.\u00b2<\/p>\n<p>\u00c9 importante que o professor tenha esses objetivos muito claros e que compreenda que a crian\u00e7a apenas ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de fazer infer\u00eancias se possuir uma refer\u00eancia, um modelo de leitor ao qual possa recorrer e \u201cimitar\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>2 \u00c9 preciso dar sentido \u00e0 leitura, de Delia Lerner. Entrevista \u00e0 revista Nova Escola, S\u00e3o Paulo, n. 195, p. 13-16, set. 2006.<\/h6>\n<p><strong>Dia 1: Constru\u00e7\u00e3o do contexto<\/strong><\/p>\n<p>Sentei em roda com as crian\u00e7as e iniciamos a conversa sobre a receita que ir\u00edamos experimentar naquela semana. As crian\u00e7as expuseram seus conhecimentos sobre o alimento principal da receita \u2013 abobrinha \u2013 e sobre como nos organizar\u00edamos para prepar\u00e1-la. Ap\u00f3s muita conversa, apontei que precis\u00e1vamos comprar os ingredientes e que eram muitos. As crian\u00e7as, por familiaridade com o jeito de trabalhar na escola, rapidamente sugeriram uma lista de compras.<\/p>\n<p>Partimos para o cartaz: fui dizendo e escrevendo os ingredientes despretensiosamente, enquanto as crian\u00e7as observavam letras iniciais, intermedi\u00e1rias, finais etc., fazendo compara\u00e7\u00f5es com os pr\u00f3prios nomes ou com outras palavras que j\u00e1 conheciam de mem\u00f3ria. Elas permaneceram animadas e atentas. Encerramos esse dia com o levantamento dos ingredientes. E isso foi tudo! Parece pouco, mas trata-se de um procedimento muito significativo, por dar \u00e0s crian\u00e7as informa\u00e7\u00f5es importantes sobre comportamentos do adulto lidando com a escrita, sobre a fun\u00e7\u00e3o social da escrita e sobre como se organiza esse tipo de texto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14171 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-3-300x86.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"86\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-3-300x86.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-3-1024x295.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-3-768x221.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/2-3.png 1046w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Dias 2 e 3: Problematiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O segundo e o terceiro dias se constitu\u00edram no que costumo chamar de desconstru\u00e7\u00e3o\/problematiza\u00e7\u00e3o. No caso dessa atividade, o que fiz foi retirar a lista anterior do campo de vis\u00e3o das crian\u00e7as e convid\u00e1-las a me ajudar a organizar uma nova lista, com os ingredientes em grandes tarjetas divididas em duas partes: os ingredientes necess\u00e1rios para a massa e os pr\u00f3prios para o recheio. Eis que ent\u00e3o surgiu o grande problema:<\/p>\n<p>P\u00e9ricles: Tia, n\u00e3o temos a lista do outro dia!<br \/>\nComo vamos te ajudar a separar?<br \/>\nEu: Ora! Vamos pensar e tentar descobrir juntos!<\/p>\n<p>Tornou-se percept\u00edvel nesse momento que seria uma experi\u00eancia desafiadora, o que ficou estampado nos olhos e nas express\u00f5es apreensivas e curiosas das crian\u00e7as acerca de como resolveriam o desafio. Estava dado o problema!<\/p>\n<p>A cada lista, eu informei sobre quais palavras est\u00e1vamos procurando, de forma a delimitar o campo sem\u00e2ntico e a direcionar a reflex\u00e3o das crian\u00e7as a um grupo espec\u00edfico de palavras. Isso foi importante para que soubessem que n\u00e3o se tratava de uma situa\u00e7\u00e3o de adivinha ou de apelo \u00e0 mem\u00f3ria. Ao contr\u00e1rio: todos sabiam \u2013 porque eu at\u00e9 os ajudei a lembrar \u2013 os ingredientes de cada etapa da receita. O desafio era pensar sobre qual, naquele conjunto de palavras, era a escrita convencional de determinado ingrediente.<\/p>\n<p>Repeti tamb\u00e9m os motivos pelos quais est\u00e1vamos reunidos na atividade e os combinados para os momentos de constru\u00e7\u00e3o de palavras.<\/p>\n<p>Parece repetitivo, mas n\u00e3o \u00e9. O modo como escolhi sentar em roda, os combinados para que cada um falasse, o lembrete para que pensassem em palavras que j\u00e1 conheciam ou para que consultassem outras fontes dispon\u00edveis e cada vez que repeti em voz alta a fala de uma crian\u00e7a que considerei muito construtiva para a turma foram medidas de extrema funcionalidade. Previstas desde o planejamento, s\u00e3o atividades totalmente intencionais, sabendo eu pela pr\u00e1tica que proporcionar um momento acolhedor em grupo, no qual todos possam falar e se expressar livremente, muito contribui para o avan\u00e7o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o das falas das crian\u00e7as em voz alta pelo professor \u00e9 uma forma delicada e consciente de dizer: Sua opini\u00e3o \u00e9 importante, seu pensar \u00e9 significativo e suas hip\u00f3teses s\u00e3o v\u00e1lidas. Muitas crian\u00e7as, ali\u00e1s, compreendem melhor quando a explica\u00e7\u00e3o parte de outra crian\u00e7a, como se aquela coloca\u00e7\u00e3o fosse mais plaus\u00edvel simplesmente por ser o pensamento de um igual.<\/p>\n<p><strong>As crian\u00e7as pensam! E muito!<\/strong><\/p>\n<p>Durante a constru\u00e7\u00e3o das listas de ingredientes, eu dizia para a turma quais eram as palavras expostas. Essa leitura n\u00e3o foi na sequ\u00eancia em que as palavras estavam e serviu de apoio para que as crian\u00e7as pudessem se ater apenas \u00e0s palavras que estavam ali e n\u00e3o a uma infinidade de palavras que conheciam. Nesses dias, elas fizeram descobertas e apontamentos interessantes:<\/p>\n<p>Eu: Pessoal, o primeiro ingrediente que quero p\u00f4r aqui na lista \u00e9 o ovo. Qual palavra voc\u00eas acham que est\u00e1 escrito \u201covo\u201d?<\/p>\n<p>Gabriel: Esta! (apontando a tarjeta com a palavra \u201covo\u201d)<\/p>\n<p>Eu (com a tarjeta levantada): Pessoal, o Gabriel acha que aqui est\u00e1 escrito \u201covo\u201d. Por que voc\u00ea acha que aqui est\u00e1 escrito \u201covo\u201d, Gabriel?<\/p>\n<p>Gabriel: Porque come\u00e7a com \u201cO\u201d.<\/p>\n<p>Todos concordaram, e uma das crian\u00e7as, indo mais al\u00e9m ainda, declarou que tinha certeza de que era \u201covo\u201d, pelo fato de a palavra come\u00e7ar e terminar com \u201cO\u201d. Ela repetiu para si mesma, fazendo uma verifica\u00e7\u00e3o no som, e confirmou sua resposta.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Estrat\u00e9gias de leitura<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cUma estrat\u00e9gia de leitura \u00e9 um amplo esquema para obter, avaliar e utilizar informa\u00e7\u00e3o. Existem estrat\u00e9gias de sele\u00e7\u00e3o, de antecipa\u00e7\u00e3o, de infer\u00eancia e de verifica\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>Estrat\u00e9gias de sele\u00e7\u00e3o: permitem que o leitor se atenha aos \u00edndices \u00fateis, desprezando os irrelevantes.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Estrat\u00e9gias de antecipa\u00e7\u00e3o:<\/strong> tornam poss\u00edvel prever o que ainda est\u00e1 por vir, com base <\/em><em>em informa\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas e em suposi\u00e7\u00f5es.<\/em><br \/>\n<em>Estrat\u00e9gias de infer\u00eancia: permitem captar <\/em><em>o que n\u00e3o est\u00e1 dito no texto de forma expl\u00edcita. A infer\u00eancia \u00e9 aquilo que \u2018lemos\u2019, mas n\u00e3o <\/em><em>est\u00e1 escrito. S\u00e3o adivinha\u00e7\u00f5es baseadas tanto <\/em><em>em pistas dadas pelo pr\u00f3prio texto como em <\/em><em>conhecimentos que o leitor possui.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Estrat\u00e9gias de verifica\u00e7\u00e3o:<\/strong> tornam poss\u00edvel o controle da efic\u00e1cia ou n\u00e3o das demais estrat\u00e9gias, permitindo confirmar, ou n\u00e3o, as especula\u00e7\u00f5es realizadas. Esse tipo de checagem para confirmar \u2013 ou n\u00e3o \u2013 a compreens\u00e3o \u00e9 inerente \u00e0 leitura. Utilizamos todas as estrat\u00e9gias de leitura mais ou menos ao mesmo tempo, sem ter consci\u00eancia disso.\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u201cPara ensinar a ler\u201d, de Delia Lerner &#8211; Caderno da TV Escola, 1999.\u00b3<\/p>\n<hr \/>\n<h6>3Dispon\u00edvel em: http:\/\/portal.mec.gov.br\/seb\/arquivos\/pdf\/Profa\/col_2.pdf<\/h6>\n<p>Era um desafio f\u00e1cil! Fui al\u00e9m! Queria muito mais deles!<\/p>\n<p>Quando pedi para que encontrassem \u201cleite\u201d e uma das crian\u00e7as apontou \u201cfermento\u201d, n\u00e3o descartei sua escolha; ao contr\u00e1rio, esperei que outra crian\u00e7a se opusesse e confrontei as duas opini\u00f5es:<\/p>\n<p>Eu: Agora preciso encontrar o leite para colocar na lista. Qual voc\u00eas acham que \u00e9 \u201cleite\u201d?<\/p>\n<p>Brenda: Esta. (apontando para \u201cfermento\u201d)<\/p>\n<p>P\u00e9ricles: Esta. (apontando para \u201cleite\u201d)<\/p>\n<p>Eu: A Brenda acha que este \u00e9 leite, mas o P\u00e9ricles acha que \u00e9 este! Por que voc\u00ea acha que este \u00e9 leite, Brenda?<\/p>\n<p>Brenda: Porque tem o \u201cO\u201d.<\/p>\n<p>Eu (passando o dedo sobre a palavra \u201cfermento\u201d e lendo): Leite!<\/p>\n<p>P\u00e9ricles: N\u00e3o, n\u00e3o, tia, \u00e9 o outro, porque come\u00e7a com \u201cL\u201d e termina com \u201cE\u201d. Oh&#8230; LE-I-TE.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14173 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-3-300x202.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-3-300x202.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-3-768x518.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-3-272x182.png 272w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/4-3.png 929w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>O confronto de hip\u00f3teses \u00e9 fundamental para o avan\u00e7o das crian\u00e7as. P\u00e9ricles j\u00e1 compreendia o valor sonoro das palavras, enquanto Brenda ainda tinha essa quest\u00e3o a resolver. Mesmo P\u00e9ricles tendo acertado, podendo dar continuidade, pacientemente permaneci questionando-os, pois considerei justo continuar os apontamentos, tendo em vista que havia crian\u00e7as que ainda precisavam refletir um pouco mais, podendo aproveitar, assim, as ricas contribui\u00e7\u00f5es de cada um. Entre essas duas palavras, surgiram levantamentos quanto \u00e0s letras intermedi\u00e1rias, ao som e ao tamanho de cada uma. Somente ap\u00f3s esgotar os questionamentos segui adiante.<\/p>\n<p>Ao final da lista da massa, restaram \u201cfarinha\u201d e \u201csal\u201d. Disse que ali havia essas duas palavras e que eu precisava descobrir qual era \u201csal\u201d. Esse momento rendeu longas discuss\u00f5es entre as crian\u00e7as, com hip\u00f3teses completamente diferentes.<\/p>\n<p>Enquanto Geovana e Lorena ainda n\u00e3o atentavam ao som das palavras e nomeavam pouqu\u00edssimas letras do alfabeto, dizendo que a palavra maior era SAL, outras crian\u00e7as j\u00e1 sabiam quase com certeza, pelo tamanho, pelo som e por compara\u00e7\u00e3o com o nome do amiguinho \u201cSamuel\u201d, que SAL era a palavra menor!<\/p>\n<p>Quando se lida com crian\u00e7as pequenas, nem sempre o acerto imediato indica uma reflex\u00e3o. Creio que o pensar \u00e9 mais importante que o acerto. Poderia ter encerrado a discuss\u00e3o rapidamente, mas me recolhi ao sil\u00eancio, fazendo interven\u00e7\u00f5es pontuais e permitindo que as crian\u00e7as colocassem em jogo todos os seus conhecimentos por muito, muito tempo. Isso porque o principal objetivo dessa proposta n\u00e3o \u00e9 fazer com que as crian\u00e7as leiam; a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que elas se arrisquem, que pensem como se l\u00ea e que construam boas estrat\u00e9gias para tentar ler mesmo sem saber. O desafio n\u00e3o \u00e9 resolver a situa\u00e7\u00e3o; \u00e9, sim, tomar consci\u00eancia sobre como resolver problemas desse tipo toda vez que surgirem. Por isso \u00e9 t\u00e3o importante que elas falem em voz alta e que o professor socialize no grupo essas ideias t\u00e3o preciosas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rios apontamentos, uma crian\u00e7a disse: Tia, se o menor fosse \u201cfarinha\u201d, tinha que come\u00e7ar com \u201cF\u201d, ent\u00e3o este s\u00f3 pode ser \u201csal\u201d.<\/p>\n<p><strong>Escuta do professor: exerc\u00edcio de paci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Ao propor atividades como essa, torna-se imperativa a escuta das falas das crian\u00e7as. Elas \u00e9 que dar\u00e3o ind\u00edcios para que o professor saiba onde e como deve investir.<\/p>\n<p>Proporcionar tempo para a reflex\u00e3o das crian\u00e7as \u00e9, a meu ver, democratizar o direito delas de pensar e de expor seus pensamentos. \u00c9 tamb\u00e9m motivo para favorecer a autoestima, a postura questionadora, a curiosidade e para fazer nascer o desejo de saber aquilo que o outro j\u00e1 sabe. Nesse ponto, a socializa\u00e7\u00e3o das falas pelo professor \u00e9 uma ferramenta did\u00e1tica indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para as crian\u00e7as que ainda n\u00e3o compreendem determinados aspectos da escrita, o erro \u00e9 motivo de reflex\u00e3o; e o compartilhamento dessas d\u00favidas p\u00f5e em questionamento at\u00e9 mesmo as crian\u00e7as que j\u00e1 solucionaram determinadas quest\u00f5es. Por sua vez, para as crian\u00e7as que j\u00e1 sabem muito, \u00e9 a oportunidade de repensarem e de botarem em pr\u00e1tica estrat\u00e9gias de verifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O contexto de produ\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na entrevista concedida \u00e0 revista Nova Escola<sup>4<\/sup>, Delia Lerner diz que \u201c\u00e9 preciso dar sentido \u00e0 leitura: fora da escola, l\u00ea-se para aprender a fazer certas coisas ou saber algo sobre um assunto de interesse ou inteirar-se sobre os acontecimentos. Na escola costuma-se ler para aprender, e s\u00f3. Pode ser que as crian\u00e7as, sobretudo as que prov\u00eam de meios sociais onde n\u00e3o se produzem leitores, aprendam como se faz, mas n\u00e3o para qu\u00ea. Neste caso, ter\u00e3o dificuldade em ver sentido na leitura\u201d.<\/p>\n<p>Partilho da ideia de que \u00e9 responsabilidade da escola e do professor proporcionar situa\u00e7\u00f5es em que ler seja necess\u00e1rio, sempre atribuindo um sentido real, \u00fatil e social \u00e0 leitura.<\/p>\n<p>Acredito que o sucesso dessa atividade est\u00e1, em sua maioria, relacionado ao fato de que as crian\u00e7as est\u00e3o envolvidas com uma situa\u00e7\u00e3o real, em que a leitura e a escrita das palavras assumem uma fun\u00e7\u00e3o social em um contexto cotidiano e cheio de sentido.<\/p>\n<p>Trata-se n\u00e3o de aprender a ler na Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u2013 e isso seria um absurdo por motivos diversos que n\u00e3o tratarei aqui \u2013, mas de seduzir, de atribuir sentido, de estabelecer uma conex\u00e3o palp\u00e1vel entre o mundo das palavras e a utilidade delas no cotidiano. Trata-se, como no t\u00edtulo deste texto, do pensar no universo escrito, sem perder o encanto da descoberta que s\u00f3 a inf\u00e2ncia tem!<\/p>\n<p>Ah&#8230; J\u00e1 ia me esquecendo de dizer que a torta ficou uma del\u00edcia! Mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>4\u00c9 preciso dar sentido \u00e0 leitura, de Delia Lerner. Entrevista \u00e0 revista Nova Escola, S\u00e3o Paulo, n. 195, p.13-16, set. 2006.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genecilda dos Santos\u00b9 A escuta paciente do professor possibilita que crian\u00e7as pequenas aprendam a pensar e desenvolvam in\u00fameras estrat\u00e9gias enquanto tentam desvendar o sistema de escrita. Sabemos, e j\u00e1 faz algum tempo, que a escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u00e9 espa\u00e7o privilegiado para a promo\u00e7\u00e3o de atividades que levem as crian\u00e7as ao encontro da leitura. O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":227,"featured_media":17139,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1526],"tags":[],"class_list":{"0":"post-14169","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisa-la-66","9":"post-with-thumbnail","10":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/227"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14169"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17142,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14169\/revisions\/17142"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}