{"id":13941,"date":"2015-11-17T14:03:36","date_gmt":"2015-11-17T16:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=13941"},"modified":"2024-10-28T15:56:42","modified_gmt":"2024-10-28T18:56:42","slug":"com-leitura-e-afeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-64\/com-leitura-e-afeto\/","title":{"rendered":"Com leitura e afeto"},"content":{"rendered":"<p>EDI FONSECA\u00b9<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00c9 POSS\u00cdVEL LER PARA BEB\u00caS. O QUE CRIAN\u00c7AS E PROFESSORES APRENDEM COM ESTA A\u00c7\u00c3O?<\/p>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13942 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/1-4-269x300.png\" alt=\"\" width=\"269\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/1-4-269x300.png 269w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/1-4.png 591w\" sizes=\"auto, (max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/p>\n<p>Temos que ler para os beb\u00eas, para sustentar uma rela\u00e7\u00e3o afetiva e amorosa com os pequenos, para criar oportunidades e saberes promovidos pela leitura liter\u00e1ria e para deixar uma refer\u00eancia fundamental de vida para eles. Embora para muitas fam\u00edlias e escolas essa a\u00e7\u00e3o seja \u00f3bvia e desenvolvida diariamente, ainda para outras tantas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 necess\u00e1rio um trabalho efetivo.<\/p>\n<p>A fim de levar essa concep\u00e7\u00e3o aos professores de crian\u00e7as de zero a tr\u00eas anos para uma rede p\u00fablica de educa\u00e7\u00e3o em uma cidade no estado de S\u00e3o Paulo, mergulhamos em um processo formativo durante um ano focado apenas no \u00e2mbito da leitura para os pequenos. Foram realizados 20 encontros com dura\u00e7\u00e3o de duas horas, distribu\u00eddos ao longo do ano, tratando de diferentes conte\u00fados, como a constru\u00e7\u00e3o do problema da forma\u00e7\u00e3o; significado, sentido e contexto de leitura; especificidades da leitura para crian\u00e7as de zero a tr\u00eas anos; leitura pelo professor; diferen\u00e7a entre ler e contar; comportamentos e prop\u00f3sitos leitores; as compet\u00eancias do professor: o que fazer antes, durante e depois da leitura em voz alta; crit\u00e9rios de escolha de livros; livro ilustrado; leitura em voz alta como atividade permanente\u00b2 da rotina; e pr\u00e1ticas de leitura e modalidades organizativas\u00b3 \u2013 biblioteca circulante, cantos de leitura, mar de hist\u00f3rias.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Formadora e coordenadora de projetos de forma\u00e7\u00e3o de professores de Educa\u00e7\u00e3o Infantil pelo Instituto Avisa L\u00e1; \u00e9 tamb\u00e9m narradora oral. Esse texto \u00e9 parte de seu trabalho de conclus\u00e3o do curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o A Arte de contar hist\u00f3rias, abordagens po\u00e9tica, liter\u00e1ria e perform\u00e1tica, Faculdade<br \/>\nde Conchas \u2013 Facon, Conchas (SP).<\/h6>\n<p>Como estrat\u00e9gias formativas, priorizamos a tematiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica<sup>4\u00a0<\/sup>e a dupla conceitualiza\u00e7\u00e3o<sup>5 <\/sup>\u2013 a leitura pelo professor, que muito contribuiu para as reflex\u00f5es dos professores e avan\u00e7os em seus fazeres.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13943 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/2-4-300x210.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/2-4-300x210.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/2-4.png 662w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Ler em todos os encontros para os professores foi um modo de criarmos oportunidades para vivenciarem a leitura, se aproximarem dos livros e se encantarem por eles. Como falar com entusiasmo sobre algo que n\u00e3o se t\u00eam muito conhecimento, aproxima\u00e7\u00e3o, intimidade? Precisariam passar por boas situa\u00e7\u00f5es como leitores, j\u00e1 que a maioria n\u00e3o pode experiment\u00e1-las em sua trajet\u00f3ria de vida. Infelizmente encontramos essa realidade em muitos munic\u00edpios de nosso Pa\u00eds com os quais trabalhamos nos projetos de forma\u00e7\u00e3o. Os professores da rede apresentada tamb\u00e9m n\u00e3o fugiram \u00e0 regra ao relatarem sua trajet\u00f3ria com a leitura liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para que a leitura pudesse ser feita de forma envolvente, cada formadora teve a liberdade de selecionar os textos que mais apreciava e que interessassem mais \u00e0s suas turmas.<\/p>\n<p>Durante o ano, foi necess\u00e1rio observar e ouvir o que os professores apresentavam de mudan\u00e7as em suas pr\u00e1ticas e apontavam em cada etapa da trajet\u00f3ria formativa, validando suas d\u00favidas e a constru\u00e7\u00e3o de conhecimentos. Aos poucos algumas ideias enraizadas puderam ser modificadas, como a cren\u00e7a de que crian\u00e7as pequenas s\u00f3 se interessam por livros coloridos, com figuras grandes, textos bem curtos e a escolha dos professores por exemplares com conte\u00fados moralizantes ou pertencentes \u00e0s \u00e1reas do conhecimento. Durante o ano, foi necess\u00e1rio observar e ouvir o que os professores apresentavam de mudan\u00e7as em suas pr\u00e1ticas e apontavam em cada etapa da trajet\u00f3ria formativa, validando suas d\u00favidas e a constru\u00e7\u00e3o de conhecimentos. Aos poucos algumas ideias enraizadas puderam ser modificadas, como a cren\u00e7a de que crian\u00e7as pequenas s\u00f3 se interessam por livros coloridos, com figuras grandes, textos bem curtos e a escolha dos professores por exemplares com conte\u00fados moralizantes ou pertencentes \u00e0s \u00e1reas do conhecimento.<\/p>\n<p>As necessidades apresentadas pelos professores exigiram a abordagem de quest\u00f5es mais espec\u00edficas para o trabalho de leitura com os beb\u00eas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do processo formativo, utilizei a experi\u00eancia para desenvolver uma pesquisa com seis professoras<sup>6 <\/sup>para integrar meu trabalho. A idade das crian\u00e7as que compunham seus grupos variou de seis meses a um ano e nove meses. Por meio de question\u00e1rios e filmagens foi poss\u00edvel destacar o grau de apropria\u00e7\u00e3o do trabalho formativo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>2 Uma das modalidades organizativas para o tempo did\u00e1tico, a atividade permanente tem o objetivo de criar h\u00e1bitos, por isso aparece com frequ\u00eancia na rotina escolar.<br \/>\n3 S\u00e3o formas de organizar a rotina de acordo com os objetivos do trabalho visando \u00e0 qualidade na utiliza\u00e7\u00e3o do tempo did\u00e1tico. S\u00e3o elas: os projetos, as atividades permanentes ou habituais, as sequ\u00eancias de atividades e as atividades independentes.<br \/>\n4 Segundo Telma Weisz (apud HEIDCH, 2008), a tematiza\u00e7\u00e3o consiste em analisar pr\u00e1ticas que foram registradas \u2013 por escrito ou por grava\u00e7\u00f5es em v\u00eddeo ou \u00e1udio \u2013 permitindo que os docentes compreendam quais as teorias que guiam suas a\u00e7\u00f5es. A ideia n\u00e3o \u00e9 avaliar se a situa\u00e7\u00e3o registrada foi conduzida pelo docente de forma certa ou errada, muito menos oferecer uma ideia transmissiva do que deve ser aplicado em sala de aula, mas sim, de tomar consci\u00eancia das concep\u00e7\u00f5es que apoiam suas escolhas, a\u00e7\u00f5es e modos de encaminhamento.<br \/>\n5 Delia Lerner, em Ler e escrever na escola: o real o poss\u00edvel e o necess\u00e1rio. Porto Alegre: Artmed, 2002, explica que as situa\u00e7\u00f5es de dupla conceitualiza\u00e7\u00e3o t\u00eam como objetivos: fazer que os professores construam conhecimentos sobre o objeto de ensino e que reflitam sobre as condi\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas para que as crian\u00e7as possam aprender sobre esse objeto. Elas visam apoiar o planejamento e envolvem pr\u00e1ticas sociais reais selecionadas pelo formador para tornar evidentes os processos vividos pelos sujeitos durante determinadas a\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m para explicitar a natureza dos objetos de conhecimento. Uma estrat\u00e9gia formativa adequada quando os professores n\u00e3o t\u00eam muita apropria\u00e7\u00e3o do conte\u00fado a ser ensinado.<br \/>\n6 Para preservar a privacidade das professoras que participaram da pesquisa, os nomes foram omitidos neste trabalho.<\/h6>\n<p><strong>Olhos e ouvidos atentos<\/strong><\/p>\n<p>Dos question\u00e1rios analisados faziam parte as seguintes quest\u00f5es:<br \/>\na. Como acontecia o trabalho com a leitura para os beb\u00eas antes da forma\u00e7\u00e3o realizada neste ano?<br \/>\nb. Como o trabalho com a leitura \u00e9 realizado agora?<br \/>\nc. Quais os avan\u00e7os em sua pr\u00e1tica?<br \/>\nd. Quais as mudan\u00e7as que observa nas crian\u00e7as?<br \/>\ne. O que acha que \u00e9 essencial garantir na leitura para os beb\u00eas?<\/p>\n<p>Os subt\u00edtulos seguintes mostram quais os aspectos mais relevantes a forma\u00e7\u00e3o suscitou para as professoras.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>7 Auxiliares de Desenvolvimento Infantil.<\/h6>\n<p><strong>Os beb\u00eas em movimento<\/strong><\/p>\n<p>No come\u00e7o dessa forma\u00e7\u00e3o havia a cren\u00e7a de que a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que garante a aprendizagem e n\u00e3o que o envolvimento na atividade gera aten\u00e7\u00e3o. Os professores esfor\u00e7avam-se para que as crian\u00e7as aprendessem a ficar atentas no momento da roda de leitura e buscavam livros e outros materiais para apoi\u00e1-los nessa tarefa, muitas vezes frustrantes para os professores e desgastantes para os beb\u00eas.<\/p>\n<p>Profa. B \u2013 Bem, comecei a trabalhar em creche neste ano, ent\u00e3o, sem experi\u00eancias anteriores, eu ia bem pela intui\u00e7\u00e3o, pelo que as\u00a0ADIs<sup>7 <\/sup>faziam na sala e pelo que eu via acontecer nas salas ao lado. N\u00e3o deixava as crian\u00e7as pegarem nos livros, e mesmo que a crian\u00e7a chorasse, fazia (com ajuda das ADIs) com que elas permanecessem sentadas. N\u00e3o usava muitas entona\u00e7\u00f5es de voz diferentes, tentava sempre ler aqueles livros com dobraduras e imagens, nos quais acreditava que eles ficavam mais atentos.<\/p>\n<p>Profa. D \u2013 [&#8230;] quando iniciei o trabalho fiquei muito preocupada com o momento da leitura, pois queria que os beb\u00eas ficassem sentados prestando aten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o fazia de tudo para coloc\u00e1-los sentados, e todas as vezes que sa\u00edam eu ia atr\u00e1s e sentava-os novamente, achando que teria que ser assim, pois com muita insist\u00eancia achava que iam adquirindo postura de leitor e pensava que estava fazendo o que era correto. N\u00e3o entregava os livros de \u201cboa qualidade\u201d, pois ficava apreensiva, com medo que os rasgassem.<\/p>\n<p>Profa. F \u2013 Para os momentos de leitura eu escolhia aqueles livros Pop-up porque achava que chamava mais aten\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e era adequado \u00e0 faixa et\u00e1ria, ou seja, para os beb\u00eas. No momento da leitura, eu insistia para que todas as crian\u00e7as ficassem sentadas, atentas \u00e0 hist\u00f3ria, mas sempre uns dois ou tr\u00eas levantavam e ficavam andando, ou at\u00e9 mesmo a maioria levantava, chegando a ficar apenas um sentadinho, olhando fixamente, parecia encantado, confesso que era dif\u00edcil entender essa movimenta\u00e7\u00e3o e isso me frustrava muito, me sentia incompetente, incapaz de prender a aten\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13944 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/3-4-300x221.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"221\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/3-4-300x221.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/3-4.png 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>O estudo e a discuss\u00e3o de textos te\u00f3ricos sobre a crian\u00e7a e o movimento, as tematiza\u00e7\u00f5es da pr\u00e1tica, com enfoque nas a\u00e7\u00f5es dos beb\u00eas durante as situa\u00e7\u00f5es de leitura, bem como a observa\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es da educadora de apoio, ajudaram a mudar o olhar e a a\u00e7\u00e3o dos educadores. Passaram a respeitar a movimenta\u00e7\u00e3o durante as atividades e compreenderam que o movimento \u00e9 o pensamento em a\u00e7\u00e3o e tem papel importante para expressar emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nos v\u00eddeos de suas pr\u00e1ticas, vimos cenas em que esse aspecto fica muito evidenciado. Em um deles a professora A l\u00ea para seu grupo formado por doze crian\u00e7as. Algumas ouvem a hist\u00f3ria em p\u00e9 enquanto outras se sentam mais afastadas, mas todas demonstram acompanhar a leitura. Em determinado momento uma crian\u00e7a que est\u00e1 de p\u00e9 dobra o corpo ao meio, levando as m\u00e3os e a cabe\u00e7a ao ch\u00e3o \u2013 imitando a figura do beb\u00ea que aparece na hist\u00f3ria. Uma delas ajuda a professora a segurar o livro. Duas crian\u00e7as escutam a leitura deitadas enquanto uma terceira, de costas para a turma, acompanha as ilustra\u00e7\u00f5es pelo espelho que h\u00e1 na sala. Outra olha e mexe no bra\u00e7o e duas mais se olham e brincam com as m\u00e3os. Parecem estar dispersas. Quando a professora l\u00ea: Surpresa! Era anivers\u00e1rio do papai!, todos voltam os olhares para ela novamente. Durante a leitura repetem sons e palavras como trim, trim, tanto, tanto e papai.<\/p>\n<p>A professora se mostra \u00e0 vontade, l\u00ea, interage com as crian\u00e7as por meio do olhar, d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o para as repeti\u00e7\u00f5es das palavras e aceita o fato de alguns estarem em p\u00e9, afastadas ou se movimentando. Assim que termina a leitura, v\u00e1rias querem pegar o livro.<\/p>\n<p>Profa. A \u2013 A quest\u00e3o do movimento foi a mais relevante, o que proporcionou momentos mais tranquilos e agrad\u00e1veis. Conhecer as especificidades da faixa et\u00e1ria e respeit\u00e1-las \u00e9 fundamental para que o ambiente seja agrad\u00e1vel e a aprendizagem aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>Profa. E \u2013 Entendi que para ler uma hist\u00f3ria n\u00e3o precisa necessariamente todos estarem sentados \u00e0 minha frente e ao mesmo tempo, pois devemos respeitar o movimento nesta faixa et\u00e1ria n\u00e3o exigindo que todos permane\u00e7am sentados. Sendo assim, hoje a leitura acontece em v\u00e1rios momentos da rotina e de diferentes maneiras: leituras individuais, em pequenos grupos ou em grupos maiores.<\/p>\n<p>Profa. F \u2013 Mas, frequentando a forma\u00e7\u00e3o, que me instigava a ir \u00e0 busca, pesquisar e realizar leituras espec\u00edficas sobre a leitura para beb\u00eas, fui compreendendo a raz\u00e3o pela qual tudo aquilo acontecia, o porqu\u00ea daquela movimenta\u00e7\u00e3o, e fui ent\u00e3o refletindo sobre minha pr\u00e1tica. [&#8230;] Ter claro o quanto os beb\u00eas est\u00e3o se desenvolvendo, o quanto est\u00e3o se movimentando, e que esse movimento est\u00e1 diretamente ligado a descobertas que permitir\u00e3o a esse beb\u00ea o conhecimento do mundo no qual est\u00e1 inserido, acreditar tamb\u00e9m que o movimento nem sempre permeia bagun\u00e7a, que quando direcionado e visto com olhar positivo, pode nos revelar momentos muito significativos, e foi exatamente isso que aprendi na forma\u00e7\u00e3o e levei para minha pr\u00e1tica profissional.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13945 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/4-4-300x192.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/4-4-300x192.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/4-4.png 623w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Acesso livre dos beb\u00eas aos livros<\/strong><\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o a n\u00e3o oferta de livros, verificamos em v\u00e1rias escolas que eles s\u00e3o guardados fora do alcance das crian\u00e7as. Muitas vezes o acervo n\u00e3o possui uma quantidade razo\u00e1vel de exemplares e h\u00e1 receio de que eles sejam estragados. Por tr\u00e1s dessa postura tamb\u00e9m pode existir a concep\u00e7\u00e3o de que primeiro a crian\u00e7a precisa \u201ctreinar\u201d nas revistas e gibis, para depois, quando souberem manuse\u00e1-los, possam lidar com as obras de boa qualidade. Em in\u00fameras escolas com as mais diferentes realidades do Pa\u00eds, os professores relatam que no canto de leitura de sua sala s\u00f3 h\u00e1 revistas antigas, amassadas e livros com textos curtos e empobrecidos, com imagens estereotipadas.<\/p>\n<p>Outra possibilidade para n\u00e3o permitir o manuseio dos livros, pode basear-se em uma educa\u00e7\u00e3o mais transmissiva, na qual a crian\u00e7a aprende apenas observando o educador, sem proporcionar aos beb\u00eas a experi\u00eancia com o objeto livro para aprender a folhe\u00e1-lo, apreci\u00e1-lo, mord\u00ea-lo etc.<\/p>\n<p>Foi importante promover situa\u00e7\u00f5es de dupla conceitualiza\u00e7\u00e3o aos professores, como no momento em que eles se colocaram numa situa\u00e7\u00e3o real de frui\u00e7\u00e3o de diferentes obras liter\u00e1rias. Isso possibilitou que percebessem o que se ganha ao ter a oportunidade de manipular os livros, tudo o que se pode fazer nessa a\u00e7\u00e3o sozinho ou na companhia do outro, se divertindo, conversando, tendo a chance de trocar opini\u00f5es sobre o que foi observado, reencontrando uma obra que havia sido apresentada pela formadora e, em seguida, pensar como essa atividade poderia ser realizada com os beb\u00eas. A reflex\u00e3o sobre o acesso dos pequenos aos livros suscitou novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e uso do acervo nas salas e em outros espa\u00e7os da escola.<\/p>\n<p>O beb\u00ea inicia essa \u201cpesquisa\u201d, como em todas as novas coisas que encontra, a partir de um contato f\u00edsico e sensorial. Ele explora o objeto livro colocando-o na boca, brincando com ele. Explora suas formas, suas cores, seu odor, sua diagrama\u00e7\u00e3o, suas ilustra\u00e7\u00f5es, \u201cchupa\u201d, \u201ccome\u201d! S\u00e3o as primeiras apropria\u00e7\u00f5es da l\u00edngua escrita que fazemos com o corpo inteiro, com os gestos, primeiro tentando pegar a imagem, para depois toc\u00e1-la, tendo tanto o prazer de escutar de perto quanto de longe, do outro lado da sala, enquanto fazemos outras coisas. Essas explora\u00e7\u00f5es abrem um caminho que parte do corpo de quem l\u00ea e se desenvolve em dire\u00e7\u00e3o ao imagin\u00e1rio da crian\u00e7a<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>Na filmagem da professora E, apresenta-se inicialmente uma sala sem crian\u00e7as. H\u00e1 no ch\u00e3o um tecido com muitos livros sobre ele e algumas almofadas. Um expositor de livros de tecido e pl\u00e1stico transparente na parede exp\u00f5e outros t\u00edtulos. A professora entra na sala com os alunos e os convida para a atividade. Eles fazem suas escolhas e a professora l\u00ea para os que pedem a ela. A educadora l\u00ea baixo, faz coment\u00e1rios \u00e0 medida que a crian\u00e7a aponta uma imagem, fala algo sobre o personagem:<\/p>\n<p>Crian\u00e7a \u2013 \u00d3 o gato!<br \/>\nProfa. \u2013 Que boc\u00e3o!<br \/>\n(Crian\u00e7a imita a boca aberta do gato).<\/p>\n<p>Profa. A \u2013 Deixar que as crian\u00e7as brinquem com os livros, que os tenham pr\u00f3ximos a elas e que posteriormente sejam convidadas \u00e0 leitura. E respeitar seus movimentos, pr\u00f3prios da faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p>Profa. E \u2013 Que os livros sejam de boa qualidade, que possam estar dispon\u00edveis para os pequenos manusearem em diferentes momentos. Que o ambiente seja aconchegante, favorecendo a leitura. Que haja um planejamento para que esses momentos sejam bem aproveitados.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>8 Ler hist\u00f3rias para os beb\u00eas: Que hist\u00f3ria \u00e9 essa?, de Patr\u00edcia Pereira Leite. Revista Em\u00edlia, novembro de 2014.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13946 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/5-3-300x205.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"205\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/5-3-300x205.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/5-3.png 560w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Obras de qualidade<\/strong><\/p>\n<p>Profa. C \u2013 Acredito que, como a maioria das professoras de creche, eu tinha como pr\u00e1tica constante usar um livro como apoio (escolhia os mais coloridos poss\u00edveis, cheios de \u201cimagens fofinhas\u201d) e contava a hist\u00f3ria, pois nem todos os livros com essa caracter\u00edstica t\u00eam um texto de qualidade, e quando tinha eu considerava muito longo e achava que os beb\u00eas n\u00e3o tinham um tempo de concentra\u00e7\u00e3o sufi ciente para esperar a leitura do texto antes de ver as figuras.<\/p>\n<p>De modo geral, o mercado voltado ao p\u00fablico infantil oferece produtos com desenhos de personagens conhecidos de filmes ou de programas de TV ou ilustra\u00e7\u00f5es estereotipadas com desenhos infantilizados. Realmente livros com esse tipo de ilustra\u00e7\u00e3o s\u00e3o os mais f\u00e1ceis de encontrar e os que muitas vezes s\u00e3o mais baratos. \u00c9 preciso lembrar que a escola deve trabalhar com a ideia de amplia\u00e7\u00e3o e troca de conhecimentos e acreditar que as boas ilustra\u00e7\u00f5es s\u00e3o, em v\u00e1rios casos, as primeiras aproxima\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a pequena com as artes pl\u00e1sticas, e elas s\u00e3o capazes de apreci\u00e1-las. V\u00e1rias crian\u00e7as, adultos hoje (e isso inclui os professores) n\u00e3o receberam uma educa\u00e7\u00e3o para as artes visuais, o que gera receio por tudo o que \u00e9 diferente do que est\u00e3o acostumados a olhar. Na hora da aquisi\u00e7\u00e3o de livros, as escolas acabam adquirindo os que possuem ilustra\u00e7\u00f5es muito parecidas, livros com sons, pop-ups, que brilham etc.<\/p>\n<p>As leituras e discuss\u00f5es sobre os crit\u00e9rios de escolha, bem como as atividades para an\u00e1lise de texto e imagem nos livros infantis, jogaram luz sobre a preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade do acervo apresentado aos beb\u00eas. Com base nisso, outras quest\u00f5es e coment\u00e1rios foram surgindo: Eu n\u00e3o leio, apenas conto as hist\u00f3rias com o livro na m\u00e3o, sen\u00e3o eles se cansam. \/ Se o beb\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 escrito, qual o problema de contar com o livro, ao inv\u00e9s de ler a hist\u00f3ria? \/ Por que n\u00e3o ler algumas partes e contar outras? \/ Os livros com hist\u00f3rias reduzidas e simplificadas s\u00e3o os que mais temos na escola, pois s\u00e3o esses que os pais podem comprar.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da qualidade textual e narrativa j\u00e1 estava vislumbrada. Mas o grupo docente ainda ficava com d\u00favidas, pensando que os beb\u00eas precisariam compreender integralmente o texto das hist\u00f3rias para prestar aten\u00e7\u00e3o nelas, ou ainda que os livros mais interessantes fossem tamb\u00e9m os que tinham hist\u00f3rias mais bem escritas, mais complexas e talvez mais dif\u00edceis para as crian\u00e7as pequenas.<\/p>\n<p>Os professores j\u00e1 tinham como pr\u00e1tica contar hist\u00f3rias para os pequenos, o que sempre foi muito valorizado. Costumavam fazer as narrativas orais com os livros em m\u00e3os. Como as crian\u00e7as s\u00e3o grandes observadoras, aprendem muito observando cada gesto do adulto: o modo como manuseia o livro, se passa o dedo sobre o texto para marcar o que \u00e9 lido etc. Nossa tematiza\u00e7\u00e3o dessa vez teve como foco pensar quais informa\u00e7\u00f5es os beb\u00eas podem observar quando lemos e narramos oralmente, e o que as crian\u00e7as aprendem em cada uma das situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Profa. B \u2013 Os livros que escolho t\u00eam hist\u00f3rias de fato e n\u00e3o s\u00f3 nomea\u00e7\u00e3o de objetos e pequenas frases.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13947 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/6-2-300x172.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"172\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/6-2-300x172.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/6-2.png 573w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Profa. C \u2013 Confesso que relutei no in\u00edcio \u00e0 ideia de ler na \u00edntegra os textos. Comecei a procurar hist\u00f3rias com pouco texto (mas de boa qualidade) e muita imagem. N\u00e3o vou dizer que foi instant\u00e2neo, mas a pr\u00e1tica me mostrou que cada vez mais os beb\u00eas est\u00e3o entendendo esse momento da leitura e, o que \u00e9 melhor, est\u00e3o gostando e aproveitando essa atividade da nossa rotina. Claro que tamb\u00e9m h\u00e1 o fato de que eles est\u00e3o crescendo, mas acredito que n\u00e3o conseguiria o mesmo resultado que tenho hoje se continuasse com a minha pr\u00e1tica de \u201cmeio conta\u00e7\u00e3o, meio leitura\u201d. Minha turma hoje \u00e9 muito falante, gosta de \u201cler\u201d hist\u00f3rias para mim, ficam muito tempo folheando livros e contando suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>A organiza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as para a leitura<\/strong><\/p>\n<p>Profa. E \u2013 A leitura sempre foi realizada diariamente. Lia-se o livro com anteced\u00eancia para verificar quais pontos poderiam ser levantados no antes, durante e depois. N\u00e3o havia crit\u00e9rios para a escolha do livro, simplesmente era pego aleatoriamente da biblioteca da escola e lido para as crian\u00e7as. As Rodas de Hist\u00f3ria sempre aconteceram com as crian\u00e7as de frente para a professora, sempre segurando o livro e lendo para todos. O manuseio de livros era realizado duas vezes na semana; era estendido um tecido e colocados os livros em cima. Em meu plano de ensino, o objetivo principal desta viv\u00eancia era desenvolver o comportamento leitor. Ora eu permanecia apenas manuseando os livros, lendo para eu mesma, ora incentivando para que eles pegassem e folheassem. Em nossa sala tamb\u00e9m havia um espa\u00e7o onde os livros ficavam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as o dia todo. Tamb\u00e9m sem crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Profa. F \u2013 Tenho que dizer que, no in\u00edcio do ano, foi um pouco dif\u00edcil, cheguei a me sentir frustrada, pois eu acreditava que deveria ler para todos do grupo de uma s\u00f3 vez, assim como acontecia no Ensino Fundamental, minha experi\u00eancia anterior, mas a\u00ed estava o problema.<\/p>\n<p>Ler diariamente para as crian\u00e7as \u00e9, sem d\u00favida, algo que precisa ser valorizado, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o sufi ciente. Preparar a leitura com anteced\u00eancia \u00e9 o que se espera dos professores. Mas a quest\u00e3o aqui era outra. Ser\u00e1 que deveria ser considerado no planejamento para essa faixa et\u00e1ria o mesmo que se garante com os maiores? Por exemplo, para as crian\u00e7as de tr\u00eas anos, planeja-se o que pode ser conversado ap\u00f3s a leitura. Com os beb\u00eas ser\u00e1 proposto o mesmo encaminhamento e de igual modo? Os maiores j\u00e1 conseguem fazer uma roda para a hora da hist\u00f3ria. Como organizar o espa\u00e7o e o grupo de beb\u00eas para as situa\u00e7\u00f5es de leitura?<\/p>\n<p>Assistindo aos v\u00eddeos da professora de apoio e tematizando suas pr\u00e1ticas foi poss\u00edvel pensar que se os beb\u00eas engatinham e se movimentam pela sala, organizar v\u00e1rios cantos com livros possibilitam a movimenta\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o. Outra sugest\u00e3o foi pensar em leitura para pequenos grupos: o professor ou Auxiliar de Desenvolvimento Infantil pega um livro, mostra para uma ou mais crian\u00e7as que est\u00e3o pr\u00f3ximas a ele, faz o convite para a leitura, e os que estiverem interessados podem usufruir desse momento. A leitura individualizada tamb\u00e9m foi uma proposta que gerou in\u00fameras interroga\u00e7\u00f5es. A preocupa\u00e7\u00e3o dos docentes era se estou lendo apenas para uma crian\u00e7a, o que estar\u00e3o fazendo as outras? Muitas vezes os primeiros coment\u00e1rios que faziam estavam sempre ligados ao receio das mudan\u00e7as de espa\u00e7o, de organiza\u00e7\u00e3o do grupo, de materiais \u2013 algo aparentemente mais voltado para o externo.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m foi muito bom poder contar com aqueles que, de acordo com as orienta\u00e7\u00f5es dadas, se disponibilizaram a tentar e depois relataram aos colegas o planejamento e o desenvolvimento da atividade. Como no caso da professora F, que fez cantos diversificados: um com brinquedos de encaixe, outro com caixas, um terceiro com livros. As duas ADIs e ela se dividiram para ficar pr\u00f3ximas dos beb\u00eas. A educadora ficou perto do canto de leitura e foi mostrando os livros, lendo para aqueles que quisessem. Contou que foi bem tranquilo, porque os que n\u00e3o quiseram ler puderam escolher e se envolver em outras atividades.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter momentos coletivos e individualizados. As crian\u00e7as, desde pequenas, precisam de momentos para ficar consigo mesmas. Necessitam tamb\u00e9m ter o direito de escolha. Assim como um adulto, as crian\u00e7as t\u00eam prefer\u00eancias, oscila\u00e7\u00f5es de humor, e cabe ao professor ter flexibilidade para abrir esse espa\u00e7o, respeitando as individualidades e promovendo outras atividades.<\/p>\n<p>Profa. A \u2013 Os beb\u00eas se apropriam do objeto livro de forma diferente, pois querem pegar, rasgar, morder. Os momentos de intera\u00e7\u00e3o entre o beb\u00ea e o professor precisam acontecer de forma mais intensa para ser constru\u00eddo o v\u00ednculo afetivo, e a leitura individualizada ou em pequenos grupos propicia essa intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Profa. B \u2013 Fa\u00e7o momentos em que eu leio pra eles e deixo que peguem no livro depois; fa\u00e7o outros momentos em que distribuo livros para todos e vou tentando dar aten\u00e7\u00e3o individualmente para auxili\u00e1-los na leitura; tamb\u00e9m fa\u00e7o momentos de conta\u00e7\u00e3o (antes n\u00e3o fazia, me sentia insegura), converso com eles antes da leitura sobre a capa do livro, os personagens; tamb\u00e9m deixo que eles escolham o livro que ser\u00e1 lido.<\/p>\n<p>Profa. D \u2013 Atualmente \u00e9 um momento muito prazeroso, pois no in\u00edcio, \u00e0s vezes, nem lia para eles, pois sentia que n\u00e3o tinha capacidade para isto [&#8230;] Na escola temos um cantinho, inaugurado em abril\/2014, onde h\u00e1 diversos livros colocados em varais na altura dos alunos para que eles manipulem, explorem; \u00e9 um lugar que frequento todas as semanas com os beb\u00eas; os livros expostos s\u00e3o de \u201cboa qualidade\u201d; neste espa\u00e7o h\u00e1 sof\u00e1s feitos de colch\u00f5es, tapete de EVA no ch\u00e3o, objetos pendurados no teto. Na sala, monto um espa\u00e7o de leitura: a Bebeteca (materiais: edredom utilizado como tapete, almofadas e a\u00ed espalho os livros). Neste espa\u00e7o, deixo os beb\u00eas manipularem os livros e vou individualmente conversando, lendo para eles. H\u00e1 momentos que querem ficar virando as p\u00e1ginas e apreciar as figuras. Procuro deix\u00e1-los bem \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Profa. F \u2013 [&#8230;] Assim fui transformando os momentos de leitura, lendo para pequenos grupos, para uma s\u00f3 crian\u00e7a, e tamb\u00e9m oferecendo \u00e0s crian\u00e7as o prazer de presenciar diferentes momentos de leitura em diferentes espa\u00e7os da escola, como no bosque, quadra, \u00e1rvore do parque, casinha, sol\u00e1rio, biblioteca, cantinho da leitura e sala. Mas de todos esses espa\u00e7os e momentos, preciso destacar que os beb\u00eas adoravam o\u00a0MAR DE HIST\u00d3RIAS<sup>9<\/sup>, principalmente quando realizado no bosque e na biblioteca.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>9 Atividade que consiste em colocar muitos livros no ch\u00e3o sobre um tecido grande, permitindo que os leitores fa\u00e7am escolhas.<\/h6>\n<p><strong>Escuta e observa\u00e7\u00e3o \u2013 as aprendizagens dos beb\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>As propostas de organiza\u00e7\u00e3o com diferentes composi\u00e7\u00f5es \u2013 em pequenos grupos ou com a leitura individualizada \u2013 foram mais adequadas \u00e0 faixa et\u00e1ria. Possibilitaram acompanhar ainda mais as rea\u00e7\u00f5es dos beb\u00eas e fazer as interven\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, como validar um coment\u00e1rio, nomear o que \u00e9 apontado no livro pelo beb\u00ea, ler novamente a hist\u00f3ria quando solicitado, perguntar se h\u00e1 interesse por outra leitura, permitir a escolha dos livros etc. Acompanhar os esfor\u00e7os, as solu\u00e7\u00f5es encontradas pelos beb\u00eas para os desafios enfrentados, as mudan\u00e7as em seu desenvolvimento e suas conquistas. Assim nos diz Rinaldi<sup>10<\/sup> sobre a proposta no trabalho em Reggio Emilia<sup>11<\/sup>:<\/p>\n<p>Escuta que tira o indiv\u00edduo do anonimato, que nos legitima, nos d\u00e1 visibilidade, enriquecendo tanto aqueles que escutam quanto aqueles que produzem a mensagem \u2013 e as crian\u00e7as n\u00e3o suportam ser an\u00f4nimas.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo que mostra a professora E lendo para uma crian\u00e7a de dois anos, pudemos observar o quanto aquele pequenino ser tinha se apropriado de v\u00e1rios conhecimentos. Ap\u00f3s ter lido a hist\u00f3ria uma \u00fanica vez, o beb\u00ea pega o livro das m\u00e3os da professora e come\u00e7a a folhe\u00e1-lo. A cada parte lida da hist\u00f3ria, a crian\u00e7a percebe, por meio do ritmo da leitura, que h\u00e1 continua\u00e7\u00e3o do texto na folha seguinte e vira a p\u00e1gina, no momento exato \u2013 e isso aconteceu at\u00e9 o fim do livro.<\/p>\n<p>Na grava\u00e7\u00e3o de uma leitura individualizada realizada pela professora C, a crian\u00e7a est\u00e1 sentada em seu colo. Observamos que, dessa forma, o beb\u00ea se sente acolhido; o momento \u00e9 de partilha e h\u00e1 o que Yolanda Reyes chama de tri\u00e2ngulo amoroso. A crian\u00e7a olha para o livro na mesma dire\u00e7\u00e3o que o adulto olha. Depois, vira a cabe\u00e7a e olha para o adulto \u2013 para seus l\u00e1bios proferindo as palavras, para seu olhar que d\u00e1 vida \u00e0 hist\u00f3ria \u2013 e volta a mirar o livro, e assim por diante. \u00c9 assim que o objeto livro ganha significado, disse Patricia Pereira Leite em um de seus encontros de assessoria para a nossa equipe. Em uma cena seguinte, a mesma professora l\u00ea um livro de frente para a crian\u00e7a, com o exemplar virado de lado, possibilitando a vis\u00e3o dos dois. Desta vez, a professora consegue perceber que a crian\u00e7a mexe os l\u00e1bios durante a leitura, que arregala os olhos em algumas partes, demonstrando surpresa. N\u00e3o queremos dizer que um encaminhamento \u00e9 melhor do que o outro, pois em cada um deles garantem-se aspectos diferentes, igualmente importantes. O que vale aqui \u00e9 ressaltar como a observa\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es possibilitou n\u00e3o s\u00f3 novas formas de conduzir a atividade como o aprimoramento do pr\u00f3prio olhar.<\/p>\n<p>Profa. A \u2013 Outra mudan\u00e7a \u00e9 a leitura em pequenos grupos e leituras de hist\u00f3rias que as crian\u00e7as demonstram interesse, como no caso do \u201cmar de hist\u00f3rias\u201d. As crian\u00e7as escolhem os livros para a professora realizar a leitura. A rela\u00e7\u00e3o entre a professora e o aluno \u00e9 constru\u00edda e aprofundada com esses momentos; al\u00e9m disso, a professora pode conhecer, observar, OLHAR seu aluno e perceber detalhes que, na leitura coletiva, \u00e9 mais dif\u00edcil.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>10 Di\u00e1logos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender, de Carla Rinalde. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2012. p. 125<br \/>\n11 Escola p\u00fablica em Reggio Emilia, It\u00e1lia, que acredita que a crian\u00e7a \u00e9 protagonista de seu processo de conhecimento, cuja proposta de trabalho \u00e9 usar a linguagem gr\u00e1fica para explorar as formas de aprender das crian\u00e7as.<\/h6>\n<p>Profa. B \u2013 Percebo uma grande evolu\u00e7\u00e3o deles na linguagem oral e acho que a leitura contribuiu nisso, pois os estimulo bastante \u00e0 fala nos momentos de roda. Tamb\u00e9m fico impressionada sobre como alguns deles conseguem j\u00e1 memorizar as hist\u00f3rias e recont\u00e1-las depois. Nessa semana, li pela primeira vez a hist\u00f3ria do \u201cpum \u2013 aquela do cachorro que se chamava pum\u201d e, no dia seguinte, dei os livros que havia lido durante a semana para eles manipularem. Uma aluna recontou partes da hist\u00f3ria. Fiquei muito contente!<\/p>\n<p>Profa. C \u2013 Acho que n\u00e3o s\u00f3 para os beb\u00eas, mas para qualquer idade, o essencial \u00e9 transmitir para seus ouvintes sua paix\u00e3o pela leitura e se conectar com eles atrav\u00e9s do olhar. Assim n\u00e3o tem erro: seus ouvintes v\u00e3o se apaixonar pela leitura tanto quanto voc\u00ea.<\/p>\n<p>Profa. D \u2013 O interesse pelos livros. Eles j\u00e1 escolhem os livros para ler atrav\u00e9s das suas imagens. Gostam muito de manusear, apreciar as imagens. No in\u00edcio do trabalho, os livros, as revistas eram rasgadas com mais frequ\u00eancia, colocavam diretamente na boca, necessitando muito de interven\u00e7\u00f5es dos adultos.<\/p>\n<p>Profa. E \u2013 Os adultos conseguem perceber falas e coloca\u00e7\u00f5es que os pequenos fazem sobre as hist\u00f3rias, e em grupos grandes isso talvez n\u00e3o fosse poss\u00edvel. Identificamos com mais facilidade as prefer\u00eancias, pois os momentos de escolha est\u00e3o mais presentes na rotina. O movimento fica evidente nesses momentos, percebendo um maior envolvimento por parte das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Profa. F \u2013 [&#8230;] meus pequenos revelavam isso quando pediam, \u00e0s vezes at\u00e9 sem ainda fazer uso da linguagem oral, mas atrav\u00e9s de gestos, para eu ler v\u00e1rias vezes um mesmo livro ou um livro escolhido por eles no Mar de hist\u00f3rias, no Cantinho da leitura ou na Biblioteca [&#8230;].<\/p>\n<p><strong>O conhecimento como empoderamento<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 medida que as conversas estimulavam a reflex\u00e3o sobre as aprendizagens das crian\u00e7as e o papel do educador foi poss\u00edvel observar a movimenta\u00e7\u00e3o dos professores, no sentido de conseguir que remexessem suas convic\u00e7\u00f5es e seus modos de atua\u00e7\u00e3o. Legitimar os medos, incentivar os docentes para as tentativas com possibilidade de avalia\u00e7\u00e3o (reavalia\u00e7\u00e3o) e adapta\u00e7\u00f5es e a reafirma\u00e7\u00e3o de seus pap\u00e9is como profissionais da Educa\u00e7\u00e3o \u2013 que precisam dominar o que fazem \u2013 colaboraram demasiadamente para fortalec\u00ea-los e encoraj\u00e1-los para as mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Profa. A \u2013 Na minha pr\u00e1tica foram muitos os avan\u00e7os. A escolha de bons livros, com bons textos e ilustra\u00e7\u00f5es, a organiza\u00e7\u00e3o do ambiente. A quest\u00e3o da motricidade no processo mental da crian\u00e7a, como movimento e manuten\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o. A observa\u00e7\u00e3o do professor para o aluno. As leituras coletivas menos \u201cengessadas\u201d e as leituras para grupos menores, em duplas ou individuais. A intera\u00e7\u00e3o com meus alunos. O manuseio e explora\u00e7\u00e3o dos livros&#8230;. Os avan\u00e7os se estenderam em minha pr\u00e1tica, passei a olhar para as crian\u00e7as considerando a sua faixa et\u00e1ria de forma mais concreta e estendi minhas reflex\u00f5es para todos os eixos de trabalho. Minha pr\u00e1tica se tornou mais leve e produtiva, me tornei mais<br \/>\nsegura e comprometida.<\/p>\n<p>Profa. C \u2013 Aprendi principalmente que n\u00e3o se deve subestimar a capacidade de aprendizagem e compreens\u00e3o de um beb\u00ea!<\/p>\n<p>Profa. D \u2013 Com certeza, hoje estou mais preparada e me sentindo muito segura do trabalho que estou realizando, n\u00e3o fujo dos momentos de leitura, n\u00e3o tenho mais receio em entregar os livros para os beb\u00eas, todos j\u00e1 se interessam pelas<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es de leitura que proponho, a cada dia que passa acredito no que estou fazendo e isto d\u00e1 muito certo.<\/p>\n<p>Profa. E \u2013 Acredito que o principal \u00e9 estar mais segura e entendo que este processo s\u00f3 aconteceu porque foi adquirido um conhecimento relacionado ao assunto. Atrav\u00e9s dos estudos, leituras realizadas, reflex\u00f5es em grupo, troca de experi\u00eancias, entre outras situa\u00e7\u00f5es. Com esse ganho pude embasar teoricamente o trabalho feito em sala, conseguindo envolver mais as ADIs para que elas entendam a import\u00e2ncia desses momentos de leitura.<\/p>\n<p>Profa. F \u2013 E aqui encerro com a certeza de que a leitura para beb\u00eas \u00e9 poss\u00edvel sim, que tenho prazer de ler para beb\u00eas, e acredito que esse prazer \u00e9 rec\u00edproco [&#8230;].<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13948 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/7-2-300x174.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"174\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/7-2-300x174.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/7-2.png 557w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo do ano de forma\u00e7\u00e3o, da tabula\u00e7\u00e3o do question\u00e1rio, da an\u00e1lise dos v\u00eddeos e da elabora\u00e7\u00e3o do artigo foi poss\u00edvel observar o amadurecimento profissional dos grupos de professores. Tanto na apropria\u00e7\u00e3o da teoria quanto nas mudan\u00e7as em suas a\u00e7\u00f5es. O per\u00edodo de um ano para tratar de um mesmo tema permitiu o aprofundamento dos conte\u00fados, com tempo para discuss\u00f5es, reflex\u00e3o, retomada de informa\u00e7\u00f5es e implanta\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas nas creches e escolas.<\/p>\n<p>A escolha da realiza\u00e7\u00e3o da leitura em voz alta pelas formadoras e das outras situa\u00e7\u00f5es de dupla conceitualiza\u00e7\u00e3o mostrou-se acertada e fez que os professores se aproximassem efetivamente do universo liter\u00e1rio e se sentissem confiantes para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho com as crian\u00e7as. Al\u00e9m dos resultados identificados nos v\u00eddeos e question\u00e1rios, o interesse pela literatura tamb\u00e9m pode ser percebido empiricamente por suas falas e atitudes, como a cria\u00e7\u00e3o de um grupo de poesia em um aplicativo de bate-papo por celular, a busca de obras de um autor apresentado pela formadora, a preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade de novos livros adquiridos, o compartilhamento de t\u00edtulos com a fam\u00edlia e coment\u00e1rios sobre as leituras realizadas.<\/p>\n<p>Outro aspecto que merece ser ressaltado foi a descoberta, por parte das professoras, da necessidade de observar atitudes, comportamentos, rea\u00e7\u00f5es, avan\u00e7os e desenvolvimento dos beb\u00eas. N\u00e3o adianta pensar apenas nas atividades, no material, no espa\u00e7o, se n\u00e3o considerarmos os sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem e observarmos seus percursos e transforma\u00e7\u00f5es. Isso tamb\u00e9m contribuiu para as mudan\u00e7as citadas. A tematiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica possibilitou a observa\u00e7\u00e3o mais apurada das professoras.<\/p>\n<p>Um educador que tem consci\u00eancia de sua fun\u00e7\u00e3o no processo educativo, que compreende como se d\u00e1 a aprendizagem dos educandos (sejam eles beb\u00eas ou adultos) e tem oportunidade de repensar sua pr\u00e1tica, compartilhando os saberes com outras vozes (te\u00f3ricos, pesquisadores ou colegas do trabalho) conseguem tamb\u00e9m ter voz e se sentem mais confiantes e autores de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EDI FONSECA\u00b9 \u00c9 POSS\u00cdVEL LER PARA BEB\u00caS. O QUE CRIAN\u00c7AS E PROFESSORES APRENDEM COM ESTA A\u00c7\u00c3O? Temos que ler para os beb\u00eas, para sustentar uma rela\u00e7\u00e3o afetiva e amorosa com os pequenos, para criar oportunidades e saberes promovidos pela leitura liter\u00e1ria e para deixar uma refer\u00eancia fundamental de vida para eles. 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