{"id":13757,"date":"2015-08-28T18:21:21","date_gmt":"2015-08-28T21:21:21","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=13757"},"modified":"2024-10-28T15:33:05","modified_gmt":"2024-10-28T18:33:05","slug":"observar-para-ver-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-63\/observar-para-ver-3\/","title":{"rendered":"Observar para ver"},"content":{"rendered":"<p>LINO DE MACEDO\u00b9<\/p>\n<hr \/>\n<p>CONTINUANDO AS REFLEX\u00d5ES SOBRE A OBSERVA\u00c7\u00c3O DO BRINCAR, DAS DUAS \u00daLTIMAS EDI\u00c7\u00d5ES, DESTACAMOS AQUI A COLABORA\u00c7\u00c3O DO PROFESSOR LINO DE MACEDO.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13758 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-7-300x232.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"232\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-7-300x232.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-7.png 604w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Por que brincar \u00e9 importante para a crian\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>A crian\u00e7a interage com o mundo, entende a sua rela\u00e7\u00e3o com ele com recursos que come\u00e7am com o reflexo inato e s\u00e3o aperfei\u00e7oados na rela\u00e7\u00e3o com o meio. Al\u00e9m disso, os recursos sensoriais e motores s\u00e3o base para o nascimento da forma\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo. Jean Piaget divide a intelig\u00eancia em sens\u00f3rio-motora e simb\u00f3lica. A intelig\u00eancia simb\u00f3lica \u00e9 aquela que preside a nossa vida, a aprendizagem, o desenvolvimento, desde os dois anos at\u00e9 a morte. Tudo \u00e9 mediado pelo s\u00edmbolo. Ent\u00e3o, qual \u00e9 a import\u00e2ncia do brincar na forma\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo? A crian\u00e7a brinca imitando os adultos com os quais convive, as a\u00e7\u00f5es que presenciam, ou imitam as coisas, os animais etc. O imitar \u00e9 esse desafio da crian\u00e7a fazer o mesmo que fazem com ela ou com os que es t\u00e3o pr\u00f3ximos. Por exemplo, vi no youtube uma crian\u00e7a de um ano e meio fazendo nananenem com a boneca, batendo na bundinha, cantando, embalando. Voc\u00ea v\u00ea que ela mal sabe falar, e ela canta, tem uma melodia. Na imita\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a tem como refer\u00eancia aquilo que ela observa das pessoas e coisas importantes para ela. O jogo tem a ver com prazer funcional. Do prazer de repetir aquilo que a crian\u00e7a sabe fazer. Sabe bater, fazer sons, \u00e9 aquele prazer de manter, repetir coisas que ela gosta, que acha interessante. No per\u00edodo simb\u00f3lico, o jogo se caracteriza exatamente pelo faz de conta. Por que o brincar \u00e9 importante? Brincar de imitar \u00e9 uma forma de voc\u00ea incorporar o mundo. \u00c9 brincando de imitar que ela assimila, p\u00f5e para dentro dela as caracter\u00edsticas do objeto, e, das pessoas e das coisas. Imitar \u00e9 muito importante.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Professor de Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, membro da Academia Paulista de Psicologia, participante do Instituto de Pesquisa Pensi, Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Luiz Egydio Set\u00fabal.<\/h6>\n<p>O jogo simb\u00f3lico \u00e9 essa brincadeira de fazer de conta, imaginar, fingir que tal coisa \u00e9 tal coisa. Agora, uma coisa que Piaget d\u00e1 muita import\u00e2ncia \u00e9 o que ele chama de imagem.<\/p>\n<p>Hoje, na neuroci\u00eancia, eles chamam de mem\u00f3ria n\u00e3o verbal. Aquilo que era o sens\u00f3rio-motor, por exemplo, o visual, o t\u00e1til, o cenest\u00e9sico, o cheiro, todas essas coisas que as crian\u00e7as, na experi\u00eancia, sentiam pelos \u00f3rg\u00e3os do sentido diretamente, na forma\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo permite visualiza\u00e7\u00e3o, ou seja, imaginar com o olho da mente. A imagem \u00e9 muito importante, pois permite a percep\u00e7\u00e3o interna dos objetos, a sensa\u00e7\u00e3o interna do gosto das coisas, da motricidade etc. Permite, por exemplo, a crian\u00e7a ver um sapato e pensar na m\u00e3e. E a representa\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, a nomea\u00e7\u00e3o das coisas, dos objetos, das a\u00e7\u00f5es, das pessoas etc.<\/p>\n<p>na do gosto das coisas, da motricidade etc. Permite, por exemplo, a crian\u00e7a ver um sapato e pensar na m\u00e3e. E a representa\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, a nomea\u00e7\u00e3o das coisas, dos objetos, das a\u00e7\u00f5es, das pessoas etc.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13759 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-6-300x153.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"153\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-6-300x153.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-6-1024x521.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-6-768x391.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-6.png 1186w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre jogar e brincar?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o te\u00f3rica e uma quest\u00e3o de tema, de \u00e1rea. Na teoria de Piaget, tudo \u00e9 jogo. Usa para tudo: jogo sens\u00f3rio-motor, jogo simb\u00f3lico, jogo de exerc\u00edcio, jogo de regras, de constru\u00e7\u00e3o; ele sempre usa a palavra jogo. Para Piaget, o jogo de regra \u00e9 o jogo simb\u00f3lico que evoluiu, o jogo simb\u00f3lico \u00e9 o jogo de exerc\u00edcio que evoluiu para o simb\u00f3lico. Ele mant\u00e9m as caracter\u00edsticas do jogo anterior, a estrutura do jogo anterior; por exemplo, o jogo simb\u00f3lico guarda as caracter\u00edsticas do jogo de exerc\u00edcio. Ou seja, o prazer funcional, acrescentando a isso uma novidade pr\u00f3pria da intelig\u00eancia simb\u00f3lica que \u00e9 o faz de conta.<\/p>\n<p>O jogo de regra guarda dentro dele o prazer funcional. Mesmo perdendo ou ganhando, as pessoas continuam a jogar.<\/p>\n<p>O prazer funcional continua, a repeti\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, por isso o jogo \u00e9 aditivo; voc\u00ea termina um jogo [e logo] quer fazer outro. E ele guarda tamb\u00e9m as caracter\u00edsticas simb\u00f3licas, pois o jogo \u00e9 um artif\u00edcio, uma encena\u00e7\u00e3o. Acrescentando a isso a problem\u00e1tica das regras, do desafio, da oposi\u00e7\u00e3o, do competir, do ganhar ou perder que, n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas do jogo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Outras teorias pensam o jogo simb\u00f3lico como uma estrutura em si, diferente do jogo. Nelas, o brincar \u00e9 uma qualidade de rela\u00e7\u00e3o l\u00fadica que n\u00e3o importa tanto as regras.<\/p>\n<p>Para Piaget, o jogo de regras seria uma estrutura superior que engloba as anteriores. Toda brincadeira desemboca no jogo de regras. Al\u00e9m disso, os adultos gostam de brincar. Hoje est\u00e1 na moda pintar, colorir. Tem o quebra-cabe\u00e7a, montar objetos sofisticados como hobby, navios, ou quebra-cabe\u00e7a gigante. O humor, as piadas e as goza\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria literatura de entretenimento, ler pelo prazer de ler. \u00c9 um \u00f3cio agrad\u00e1vel, l\u00fadico. No computador, tem os RPGs. O brincar tem a ver com a ideia de distrair. Estar num contexto em que o preponderante \u00e9 a distra\u00e7\u00e3o. Suspender aquilo que caracteriza o trabalho fazendo coisas que voc\u00ea gosta, que d\u00e3o prazer.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13760 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-6-266x300.png\" alt=\"\" width=\"266\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-6-266x300.png 266w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-6.png 427w\" sizes=\"auto, (max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/><\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea essa brincadeira de faz de conta hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Fazer de conta \u00e9 a brincadeira caracter\u00edstica da segunda fase do desenvolvimento da crian\u00e7a, prevalecendo dos dois aos sete anos, e expressa jogo simb\u00f3lico. Como j\u00e1 disse, nela a imita\u00e7\u00e3o, o jogo, a imagem e representa\u00e7\u00e3o articulam-se em uma realiza\u00e7\u00e3o sens\u00f3rio-motora, possibilitando \u00e0 crian\u00e7a fazer de conta. Compor cenas, criar situa\u00e7\u00f5es em que a leitura de sua experi\u00eancia sobre a realidade e os sonhos pode ser combinada ou atualizada de muitos modos.<\/p>\n<p>Hoje essa brincadeira tamb\u00e9m acontece por meio de aplicativos eletr\u00f4nicos ou tablets. A m\u00e1quina \u00e9 um brinquedo que produz brincadeiras. Mas sua simula\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente do faz de conta, ainda que na pr\u00e1tica possam parecer equivalentes. No jogo eletr\u00f4nico, a brincadeira \u00e9 do programa, que utiliza simula\u00e7\u00f5es de movimentos, gestos, prop\u00f5e tarefas e desafios para a crian\u00e7a. \u00c9 uma brincadeira que tem aspectos comuns \u00e0 brincadeira simb\u00f3lica proposta e realizada pela crian\u00e7a. Agora o problema \u00e9 compartilhar uma forma de brincadeira com outra, mas n\u00e3o substituir. H\u00e1 de se diferenciar uma coisa da outra.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel das professoras e das institui\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Infantil na promo\u00e7\u00e3o da brincadeira?<\/strong><\/p>\n<p>No curr\u00edculo da Educa\u00e7\u00e3o Infantil, por que brincar \u00e9 uma palavra-chave? Porque as pessoas que formularam os referenciais entendem, e eu concordo com elas, que o brincar \u00e9 muito importante. \u00c9 pelo brincar que a crian\u00e7a aprende. Ele \u00e9 t\u00e3o importante quanto as disciplinas l\u00e1 para a frente. Agora, isso significa o professor ter repert\u00f3rio de brincadeira, significa saber o que a crian\u00e7a quer brincar, saber diferenciar situa\u00e7\u00f5es cotidianas de brincadeiras propriamente ditas. A crian\u00e7a pode, por exemplo, brincar escovando os dentes, mas precisa diferenciar aquilo que \u00e9 s\u00e9rio e tem que ser feito direito, que tem um compromisso. Na brincadeira, certas coisas s\u00e3o permitidas, e na atividade, dita assim s\u00e9ria, n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13761 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-6-225x300.png\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-6-225x300.png 225w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-6.png 595w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 importante o professor saber diferenciar para a crian\u00e7a quando se trata de uma atividade s\u00e9ria e quando se trata de uma brincadeira, valorizando as duas atividades; \u00e9 isso que \u00e9 importante. \u00c0s vezes se pensa que o adulto s\u00f3 \u00e9 importante no momento s\u00e9rio, de realidade. Um adulto brincalh\u00e3o, um adulto leve; um adulto, por outro lado, consciente do valor da brincadeira, com repert\u00f3rio de brincadeiras, que sabe inventar hist\u00f3rias \u00e9 um grande aliado.<\/p>\n<p>H\u00e1 distin\u00e7\u00f5es que eu sempre fa\u00e7o entre o brincar, a brincadeira, o brincalh\u00e3o e o brinquedo. O professor ensina brincadeiras, ele \u00e9 um brincalh\u00e3o, e ele faz isso utilizando brinquedos e, com isso, a crian\u00e7a aprende a brincar.<\/p>\n<p>Professoras e institui\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Infantil t\u00eam grande participa\u00e7\u00e3o na promo\u00e7\u00e3o do jogo simb\u00f3lico. Essa participa\u00e7\u00e3o inicia-se no per\u00edodo anterior, quando a crian\u00e7a tem de zero a dois anos. Nesse per\u00edodo, o jogo caracteriza-se pela repeti\u00e7\u00e3o e prazer funcional. A crian\u00e7a gosta e precisa ter oportunidades de brincar com tr\u00eas tipos de participantes: 1) ela mesma e os objetos; 2) outras crian\u00e7as de mesma idade ou com pouco mais idade; 3) com os adultos. S\u00e3o os adultos que apresentam, nesse per\u00edodo, a brincadeira simb\u00f3lica para a crian\u00e7a. Eles fazem isso conversando, cantando, lendo hist\u00f3rias, rindo, olhando nos olhos, fazendo palha\u00e7adas, ativando, enfim, formas l\u00fadicas que os objetos, outras crian\u00e7as pequenas e a pr\u00f3pria crian\u00e7a n\u00e3o poderiam ativar. \u00c9 muito importante o papel da estimula\u00e7\u00e3o l\u00fadica do adulto nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>No per\u00edodo seguinte, a crian\u00e7a vai brincar de faz de conta por si mesma, imitando, jogando e representando o que os adultos fizeram com ela. O cotidiano tal como organizado e gerido pelos adultos, seus comportamentos e formas de se relacionar com a crian\u00e7a, com outros adultos e os objetos tamb\u00e9m exercem muita influ\u00eancia. Despertam sentimentos e emo\u00e7\u00f5es (raiva, medo, alegria, confian\u00e7a) na crian\u00e7a. Al\u00e9m disso, os adultos tamb\u00e9m podem prover materiais, brincar juntos, garantir a seguran\u00e7a, criar um contexto em que as brincadeiras s\u00e3o valorizadas. No caso de as brincadeiras serem eletr\u00f4nicas \u00e9 importante a participa\u00e7\u00e3o do adulto na escolha dos programas, na dosagem do quanto a crian\u00e7a pode brincar e, sobretudo, criando alternativas para o brincar de faz de conta realizado pela pr\u00f3pria crian\u00e7a, e n\u00e3o apenas o proposto pelo aplicativo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13762 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-6-293x300.png\" alt=\"\" width=\"293\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-6-293x300.png 293w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-6.png 481w\" sizes=\"auto, (max-width: 293px) 100vw, 293px\" \/><\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 estimula\u00e7\u00e3o l\u00fadica?<\/strong><\/p>\n<p>Estimula\u00e7\u00e3o \u00e9 aquilo que, de algum modo, mobiliza a crian\u00e7a, entendendo por isso algo que interessa, que chama aten\u00e7\u00e3o, que desperta curiosidade. Algo s\u00f3 \u00e9 est\u00edmulo se pedir uma resposta, uma rea\u00e7\u00e3o. O est\u00edmulo l\u00fadico \u00e9 aquele que tem caracter\u00edsticas l\u00fadicas. Uma das caracter\u00edsticas da brincadeira \u00e9 que as consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o n\u00e3o importam. O brincar sup\u00f5e um desapego. Eu estou montando um jogo, a hora que ele terminar eu posso desfazer. O que deixa marcas \u00e9 o que voc\u00ea aprendeu, \u00e9 o que sensibiliza. A atividade em si \u00e9 substitu\u00edda pela pr\u00f3xima. O brincar \u00e9 uma experi\u00eancia de generosidade de dar e de receber s\u00f3 pelo prazer. A brincadeira \u00e9 um fim em si mesmo. A estimula\u00e7\u00e3o l\u00fadica prov\u00ea atividades que tenham fim em si mesmo, no fazer por fazer. Se ele virar meio para ensinar algo, a crian\u00e7a percebe que a brincadeira tem outros motivos, ent\u00e3o ela reage negativamente.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o problema do brincar na escola. Muitas crian\u00e7as n\u00e3o gostam dessas brincadeiras, \u201cmal-intencionadas\u201d. Porque o que importa n\u00e3o \u00e9 o brincar, mas o que justifica o brincar. O professor pode trabalhar conte\u00fados por meio da brincadeira, mas tem que ter muita delicadeza nisso. Se a crian\u00e7a percebe, por exemplo, que n\u00e3o \u00e9 brincar de jogar, mas \u00e9 uma aula de matem\u00e1tica, ela pode reagir como reage a qualquer coisa que lhe \u00e9 imposta de fora para dentro. A forma\u00e7\u00e3o para a estimula\u00e7\u00e3o l\u00fadica do professor \u00e9 muito sofisticada. Atender aos interesses da escola, que s\u00e3o fazer da brincadeira um meio para ensinar, para desenvolver a crian\u00e7a, mas ao mesmo tempo considerar a perspectiva da crian\u00e7a que \u00e9 l\u00fadica. E s\u00f3 lhe interessa se for l\u00fadico.<\/p>\n<p><strong>Falando nessa forma\u00e7\u00e3o, como se d\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o do olhar do professor?<\/strong><\/p>\n<p>O professor precisa aprender a olhar. O que \u00e9 o olhar? Um dos significados do olhar \u00e9 voc\u00ea compartilhar o momento sem intervir, s\u00f3 olhando.<\/p>\n<p>Olhar j\u00e1 \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o. \u00c9 gra\u00e7as a esse olhar \u201corganizado\u201d que o professor decide interven\u00e7\u00f5es, manejos pedag\u00f3gicos a partir disso. Mas primeiro eu olho, eu observo.<\/p>\n<p>Aprende-se a olhar. Como o psic\u00f3logo que tem que aprender a escutar. \u00c9 um tipo de escuta que n\u00e3o compete com a fala do outro. \u00c9 um olho que n\u00e3o compete com o que o outro est\u00e1 fazendo. \u00c9 um olhar a crian\u00e7a. A atividade \u00e9 olhar.<\/p>\n<p>A atividade da crian\u00e7a \u00e9 brincar, a minha \u00e9 olhar, e elas se complementam. Se elas competem entre si, n\u00e3o d\u00e1. O olhar \u00e9 uma atividade para o professor que tem uma fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, porque confirma, porque regula, ajuda ele a decidir interven\u00e7\u00f5es; ele avalia, ele verifica se o material que ele proporcionou est\u00e1 bem usado, o tema proposto, ele observa as crian\u00e7as; enfim, \u00e9 uma ferramenta de observa\u00e7\u00e3o. \u00c9 apreciar no sentido de conferir valor ao olhar. N\u00e3o \u00e9 que ele esteja fazendo nada. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que, para alguns professores, apenas olhar \u00e9 n\u00e3o estar fazendo nada.<\/p>\n<p>S\u00f3 olhar \u00e9 t\u00e3o nobre quanto falar. \u00c9 t\u00e3o nobre quanto ele fazer coisas com a m\u00e3o ou com a boca.<\/p>\n<p>Por exemplo, em situa\u00e7\u00f5es de casa ou de escola. Enquanto a crian\u00e7a est\u00e1 brincando, a m\u00e3e ou a professora est\u00e1 fazendo outras coisas, o que \u00e9 completamente diferente do olhar. O olhar tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser aquele olhar julgador, curioso, intrometido. \u00c9 um olhar que olha, mas n\u00e3o se intromete no sentido ruim do termo. \u00c9 um olhar que est\u00e1 presente, que d\u00e1 presen\u00e7a. Uma coisa \u00e9 eu estar olhando corrigindo, criticando, um olhar j\u00e1 desaprovando. Mas \u00e9 um olhar que olha, que n\u00e3o \u00e9 nem displicente nem ausente, de que enquanto est\u00e1 brincando o adulto est\u00e1 fazendo outras coisas, mas \u00e9 o olhar da<br \/>\npresen\u00e7a. \u201cEu estou aqui, eu estou junto, eu estou compartilhando\u201d. Eu estou fazendo isso pelo olhar. Eu posso fazer isso de outro jeito. Na roda de conversa, na hora em que o professor est\u00e1 distribuindo o material, entrando na brincadeira. Tem a ver com a forma\u00e7\u00e3o, que possibilita que ele reconhe\u00e7a o valor e a complexidade dessa a\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o \u00e9 o olhar intrometido, fiscalizador, nem negligente, ausente, indiferente. \u00c9 um olhar que compartilha de uma forma gostosa, sim\u00e9trica, n\u00e3o intrusiva.<\/p>\n<p><strong>Por que e como observar as crian\u00e7as brincando? E como se desenvolve essa compet\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Observar uma crian\u00e7a brincando \u00e9, em si mesmo, um grande aprendizado para o adulto. A crian\u00e7a pequena comunica como sente e compreende o mundo, as pessoas e a si mesma pelas brincadeiras. Pela observa\u00e7\u00e3o, ele pode verificar o quanto a crian\u00e7a se desenvolveu e est\u00e1 se desenvolvendo em rela\u00e7\u00e3o aos quatro componentes da forma\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo, segundo Piaget: imita\u00e7\u00e3o, jogo, imagem e representa\u00e7\u00e3o. Observando, ele pode definir quais os melhores procedimentos em favor da promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da crian\u00e7a. Ele observa seus sofrimentos e alegrias, suas preocupa\u00e7\u00f5es, enfim, sua leitura de mundo.<\/p>\n<p>Como aprender a observar? [Por meio de] fotos, v\u00eddeos, registros das brincadeiras realizadas, do modo como a crian\u00e7a utiliza os objetos, sua gestualidade, os temas das brincadeiras. A roda de conversa pode ser tamb\u00e9m um precioso recurso para conversar com a crian\u00e7a sobre suas brincadeiras de faz de conta.<\/p>\n<p>Observar significa guardar e conter. Guardar o que viu, ouviu, sentiu, cheirou, apreciou. Conter dentro de si, pensando, refletindo sobre o que observou, coordenando essa atividade da crian\u00e7a com as outras que comp\u00f5em sua vida. Observar o brincar ensina sobre quem \u00e9 a crian\u00e7a, sobre o que lhe faz falta e como se sente nessa fase de vida. Observar, nesse caso, \u00e9 aprender a olhar, desenvolver um olhar que recebe informa\u00e7\u00f5es, que \u00e9 generoso em sua forma de ver o que acontece, que suspende cr\u00edticas, julgamentos. Um olhar que recebe e aprende com o que a crian\u00e7a expressa em suas brincadeiras.<\/p>\n<p>A compet\u00eancia do olhar sup\u00f5e o desenvolvimento de muitas habilidades: registrar, reconhecer, identificar, comparar semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as, acompanhar sequ\u00eancias, compor narrativas, estabelecer rela\u00e7\u00f5es, orientar-se, isto \u00e9, considerar o que se v\u00ea em diferentes perspectivas, considerar posi\u00e7\u00f5es e deslocamentos no desenrolar da trama l\u00fadica para, com isso, entender, pouco a pouco, o que a crian\u00e7a est\u00e1 fazendo e as significa\u00e7\u00f5es do seu fazer que se sustentam pelo seu brincar. \u00c9 importante termos em conta que, ao contr\u00e1rio do adulto, que diferencia fantasia e realidade, para a crian\u00e7a realidade e fantasia, na hora do brincar, s\u00e3o uma coisa s\u00f3. Como diferenciar o que, na pr\u00e1tica, \u00e9 indiferenciado? Eis uma quest\u00e3o importante para quem quer observar crian\u00e7as brincando.<\/p>\n<p><strong>Quais seus \u00faltimos aprendizados sobre a brincadeira decorrente das suas observa\u00e7\u00f5es e estudos?<\/strong><\/p>\n<p>Trabalho duas tardes por semana no Instituto de Pesquisa Pensi\u00b2 \u2013 SP, que realiza estudos e faz forma\u00e7\u00e3o de profi ssionais que cuidam da sa\u00fade infantil de crian\u00e7as internadas no Hospital Infantil Sabar\u00e1, ou que recorrem a ele para algum tratamento emergencial. Represento esse instituto no N\u00facleo Ci\u00eancia pela Inf\u00e2ncia (NCPI)\u00b3. Nesse contexto, tenho estudado o tema das brincadeiras de crian\u00e7as de zero a seis anos (80% das crian\u00e7as que v\u00e3o ao Hospital Infantil Sabar\u00e1 est\u00e3o nessa faixa et\u00e1ria). \u00c9 impressionante a import\u00e2ncia que se atribui ao brincar da crian\u00e7a hospitalizada. No hospital, o tempo livre da crian\u00e7a, isto \u00e9, aquele tempo em que n\u00e3o est\u00e1 sendo atendida por m\u00e9dicos ou enfermeiros, \u00e9 muito grande. Preencher esse tempo \u00e9 responsabilidade dos pais ou respons\u00e1veis, uma responsabilidade compartilhada pelo hospital que prov\u00ea \u201cbrinquedistas\u201d, psic\u00f3logos, volunt\u00e1rios, m\u00fasicos, palha\u00e7os, contadores de hist\u00f3rias, c\u00e3es, desenhos para colorir e brinquedos, de modo a fazer do brincar e das brincadeiras uma forma humanizada e respeitosa de receber e tratar a crian\u00e7a doente. Um modo de permitir a ela que se comunique pela sua rela\u00e7\u00e3o com esses recursos, aquilo que ela n\u00e3o saberia dizer com palavras. Nesse contexto, tenho tido a oportunidade de ler, discutir, orientar, escrever e, principalmente, aprender sobre a rela\u00e7\u00e3o do brincar com a sa\u00fade, e o valor das brincadeiras para as crian\u00e7as pequenas e seu direito a uma vida digna, saud\u00e1vel, feliz e l\u00fadica.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>2 Instituto de ensino e pesquisa em sa\u00fade infantil.<br \/>\n3 Composto pela Funda\u00e7\u00e3o Maria Cec\u00edlia Souto Vidigal, Insper, Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo, Center on the Developing Child da Universidade de Harvard (EUA) e Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Luiz Egydio Set\u00fabal, ao qual pertence o Instituto Pensi.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LINO DE MACEDO\u00b9 CONTINUANDO AS REFLEX\u00d5ES SOBRE A OBSERVA\u00c7\u00c3O DO BRINCAR, DAS DUAS \u00daLTIMAS EDI\u00c7\u00d5ES, DESTACAMOS AQUI A COLABORA\u00c7\u00c3O DO PROFESSOR LINO DE MACEDO. Por que brincar \u00e9 importante para a crian\u00e7a? 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