{"id":13682,"date":"2015-05-22T13:00:58","date_gmt":"2015-05-22T16:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=13682"},"modified":"2024-10-28T15:29:14","modified_gmt":"2024-10-28T18:29:14","slug":"observar-para-ver-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-62\/observar-para-ver-2\/","title":{"rendered":"Observar para ver"},"content":{"rendered":"<p>ZILMA DE MORAES RAMOS DE OLIVEIRA\u00b9<\/p>\n<hr \/>\n<p>VAMOS DAR CONTINUIDADE \u00c0 REFLEX\u00c3O SOBRE A OBSERVA\u00c7\u00c3O DO BRINCAR, INICIADA NA EDI\u00c7\u00c3O ANTERIOR, AGORA NA PERSPECTIVA DA PROFESSORA ZILMA DE MORAES RAMOS DE OLIVEIRA, PESQUISADORA DA EDUCA\u00c7\u00c3O INFANTIL E ESPECIALISTA EM INTERA\u00c7\u00d5ES DE CRIAN\u00c7AS<\/p>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13684 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1-300x205.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"205\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1-300x205.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1.png 507w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Por que as crian\u00e7as brincam de faz de conta?<\/strong><\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o tem sido investigada na Psicologia do Desenvolvimento por considerar que tais brincadeiras est\u00e3o ligadas ao desenvolvimento da imagina\u00e7\u00e3o pela crian\u00e7a. Esta, quando beb\u00ea, apoia-se na motricidade e na percep\u00e7\u00e3o para agir sobre o meio. Por exemplo, primeiro o beb\u00ea olha para um copo pl\u00e1stico vazio e o leva \u00e0 boca, como se o utilizasse para beber algo. Perto dos dois anos, ele come\u00e7a a dar mostras de se distanciar da percep\u00e7\u00e3o do real e a se utilizar de objetos de modo simb\u00f3lico, em substitui\u00e7\u00e3o a objetos reais, usando um toquinho de madeira, por exemplo, como sabonete, criando uma cena de dar banho, ou utilizando o copo vazio como chap\u00e9u para uma boneca, o que a leva a assumir personagens com base em imita\u00e7\u00f5es de cenas cotidianas por ela ressignificadas.<\/p>\n<p>Usar objetos de um modo simb\u00f3lico, ou seja, atribuir-lhes a fun\u00e7\u00e3o de ser signo de algo, reproduzir posturas e falas de adultos e dirigi-las a bonecos, por exemplo, representam modos de a\u00e7\u00e3o humanos historicamente desenvolvidos que provocam mudan\u00e7as na forma humana de consci\u00eancia, gerando a amplia\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio simbolismo.<\/p>\n<p>Enfim, brincar de faz de conta cria condi\u00e7\u00f5es para a transforma\u00e7\u00e3o marcante da forma de a crian\u00e7a ter consci\u00eancia do mundo e de si mesma, por exigir formas mais complexas de a\u00e7\u00e3o. A brincadeira de faz de conta \u00e9 um instrumento de express\u00e3o que possibilita a cria\u00e7\u00e3o da novidade, um meio pelo qual a crian\u00e7a \u00e9 capaz de mais ativamente ser produtora de sua pr\u00f3pria atividade.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Pedagoga com forma\u00e7\u00e3o voltada para a \u00e1rea de Desenvolvimento Infantil, trabalhando com a Dra. Maria Clotilde Rossetti Ferreira<br \/>\nno Centro de Investiga\u00e7\u00e3o sobre o Desenvolvimento e Educa\u00e7\u00e3o (Cindedi) da Faculdade de Filosofi a, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o<br \/>\nPreto \u2013 Universidade de S\u00e3o Paulo. Nesse Centro, realizou pesquisa sobre intera\u00e7\u00f5es crian\u00e7a-crian\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o de brincadeiras<br \/>\nem creche e suas orientandas ampliaram essas investiga\u00e7\u00f5es para incluir a pr\u00e9-escola.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13685 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-300x143.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"143\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-300x143.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-1024x487.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-768x365.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2.png 1426w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre jogo simb\u00f3lico, brincadeiras dirigidas e jogo de regras?<\/strong><\/p>\n<p>As tr\u00eas modalidades principais do brincar infantil em nossa cultura s\u00e3o processos essenciais no desenvolvimento de sua constitui\u00e7\u00e3o humana: o imagin\u00e1rio, a mem\u00f3ria coletiva, o pensamento estrat\u00e9gico humano.<\/p>\n<p>O jogo simb\u00f3lico se refere a situa\u00e7\u00f5es em que a crian\u00e7a adota uma forma peculiar de comportamento fazendo de conta, ou seja, criando cenas com base nas imagens que formula na a\u00e7\u00e3o. Como a imagem de uma situa\u00e7\u00e3o vivida fica marcada na postura corporal do sujeito, tal como prop\u00f5e Henri Wallon, o jogo de fazer de conta, em que a crian\u00e7a reproduz gestos, posturas, a\u00e7\u00f5es e falas de um personagem, constitui<br \/>\num instrumento fundamental de desenvolvimento da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Brincadeiras dirigidas s\u00e3o parte da tradi\u00e7\u00e3o cultural que se perpetua entre gera\u00e7\u00f5es, podendo envolver crian\u00e7as, adolescentes e adultos em ritos, cantados ou n\u00e3o. Muitas delas continuam presentes ainda hoje: esconde-esconde, cabra-cega, jogo com pi\u00e3o, amarelinha, entre tantas outras, sendo muito apreciadas pelas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>J\u00e1 o jogo de regras se refere a atividades com orienta\u00e7\u00f5es claras que limitam o n\u00famero de parceiros, os objetos que o concretizam (tabuleiro, dados etc.), os pap\u00e9is de cada jogador, o modo como \u00e9 definido o resultado.<\/p>\n<p>Embora o jogo simb\u00f3lico e as brincadeiras dirigidas tenham regras, estas est\u00e3o ligadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de seus enredos e ritos, assim como o jogo de regras pode definir personagens e tarefas ligadas a determinado enredo. Por exemplo, um jogo cuja meta \u00e9 salvar uma princesa, e cada jogador ocupa o papel de pr\u00edncipe, de soldado, cada qual com possibilidades definidas de se locomover no tabuleiro, tal como o jogo de xadrez, mais apreciado por adolescentes e adultos.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre representa\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Se pensarmos em termos de fun\u00e7\u00f5es cognitivo-afetivas, podemos consider\u00e1-los sin\u00f4nimos. O verbo representar \u00e9 usado para identificar uma a\u00e7\u00e3o; por exemplo, representar um personagem no faz de conta ou no teatro, ou representar um tema por um desenho. Tais representa\u00e7\u00f5es pressup\u00f5em uma imagem do que est\u00e1 sendo representado, o uso da imagina\u00e7\u00e3o como capacidade da crian\u00e7a se guiar por imagens, embora essa imagem possa se delinear ao longo do pr\u00f3prio ato de representar no faz de conta, ao<br \/>\ndesenhar, na escuta e reprodu\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, nos sonhos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13686 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-300x261.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"261\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-300x261.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3.png 491w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel das professoras e das institui\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Infantil na promo\u00e7\u00e3o do jogo simb\u00f3lico?<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que promo\u00e7\u00e3o, eu falaria de media\u00e7\u00e3o, de criar condi\u00e7\u00f5es para as crian\u00e7as se envolverem nesse tipo de funcionamento humano cheio de sutilezas e desafios. O que j\u00e1 se sabe a respeito indica que a presen\u00e7a de objetos pode orientar a cria\u00e7\u00e3o de certo enredo. A presen\u00e7a de um cen\u00e1rio tamb\u00e9m atua como mediador poderoso, pois, aliado a objetos, sons, indument\u00e1rias, apoiam a crian\u00e7a a se lan\u00e7ar na fantasia, retomando de sua mem\u00f3ria atos, atitudes e frases originadas de experi\u00eancias anteriores. Isso<br \/>\n\u00e9 observado no brincar de comidinha, se a crian\u00e7a se v\u00ea diante de panelinhas ou de outros objetos pr\u00f3ximos disso. Ou, por exemplo, na dramatiza\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio onde se extrai venenos de uma cobra, situa\u00e7\u00e3o vivenciada pelas crian\u00e7as na visita a um serpent\u00e1rio com a professora na semana anterior e retomada da mem\u00f3ria das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Por que e como observar as crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e interessada por parte do professor pode captar o processo das crian\u00e7as de n\u00e3o se deixarem levar pelo que veem ou ouvem, mas a recriarem algo com base no que foi visto ou ouvido. No caso do jogo simb\u00f3lico, observar o processo de se integrar na brincadeira dirigida, evidenciando sua participa\u00e7\u00e3o, seu n\u00edvel de entusiasmo, as parcerias que estabelece etc. Ou perceber ainda suas estrat\u00e9gias obedecerem \u00e0s regras dos jogos de tabuleiro, reagirem quando perdem ou ganham uma partida. Ou seja, por ser um campo predominantemente da iniciativa infantil, a observa\u00e7\u00e3o dessas situa\u00e7\u00f5es de jogo oferece valiosos informes sobre a socializa\u00e7\u00e3o, a aprendizagem e o desenvolvimento das crian\u00e7as. Por exemplo, registrar que Martina de 20 meses estende uma colher em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 boca de Ana de 13 meses e diz: \u201cCome tudo para ficar forte!\u201d, ou que F\u00e1bio, pela s\u00e9tima vez, toma o brinquedo de outra crian\u00e7a dizendo \u201c\u00c9 meu!\u201d e o coloca no carrinho que puxa, ou que Rodrigo n\u00e3o conta as casas do tabuleiro e coloca seu pi\u00e3o em qualquer lugar, toda vez que joga o dado, s\u00e3o recortes que pedem novas observa\u00e7\u00f5es e registros para acompanhar o modo como cada crian\u00e7a vivencia as intera\u00e7\u00f5es que estabelece com os companheiros.<\/p>\n<p>Cada vez mais se reconhece a capacidade que a crian\u00e7a tem de dar sentido \u00e0s situa\u00e7\u00f5es (primeiro de um modo sensorial e corporal e, depois, vai incluindo tamb\u00e9m a fala como meio de significa\u00e7\u00e3o) e de agir de modo ativo, desde seu nascimento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13687 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-225x300.png\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-225x300.png 225w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4.png 619w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p>O desafio hoje \u00e9 alimentar o olhar dos professores com elementos para eles criarem um novo paradigma de coordena\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de aprendizagem por meio de atividades de observa\u00e7\u00e3o minuciosa, registro e an\u00e1lise da emerg\u00eancia das intera\u00e7\u00f5es infantis. Essa linha de trabalho pode ocorrer nas reuni\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o continuada na creche ou pr\u00e9-escola, momento em que os professores discutem registros de profissionais mais experientes nessa tarefa e as an\u00e1lises que eles fizeram, assim como trazem seus pr\u00f3prios registros para serem analisados com os colegas.<\/p>\n<p><strong>Como se desenvolve a compet\u00eancia do olhar?<\/strong><\/p>\n<p>Aprende-se a olhar&#8230; olhando, registrando o que foi observado e discutindo os registros com outros colegas. Pode ser algo de in\u00edcio trabalhoso, mas logo o observador se v\u00ea fascinado com o que apreende na situa\u00e7\u00e3o. Na constru\u00e7\u00e3o desse olhar, \u00e9 fundamental n\u00e3o atribuir determinada intencionalidade \u00e0s crian\u00e7as, quase sempre marcada pelo preconceito do observador, mas descrever o desenrolar de suas a\u00e7\u00f5es, na busca de identificar processos, iniciativas, conflitos, acordos.<\/p>\n<p>A especificidade desse olhar d\u00e1 ao professor um status de especialista em desenvolvimento infantil. Uma vez, apresentando a grava\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as de dois anos em brincadeiras para um grupo de m\u00e9dicos obstetras, estes mostraram ter muita dificuldade em perceber detalhes das a\u00e7\u00f5es infantis, que n\u00f3s, professores, notamos com facilidade, e conclu\u00edmos que, da mesma forma, os professores (e outros<br \/>\nadultos) t\u00eam muita dificuldade de analisar a imagem do ultrassom de um feto humano. Dessas especificidades constru\u00eddas no fazer profissional e de todo o esfor\u00e7o em aprender a analisar as<br \/>\nintera\u00e7\u00f5es infantis \u00e9 que resulta um professor-investigador maravilhado com a capacidade infantil de ser e de se modificar.<\/p>\n<p><strong>Quais seus \u00faltimos aprendizados sobre a brincadeira decorrente das suas observa\u00e7\u00f5es e estudos?<\/strong><\/p>\n<p>Vou apontar tr\u00eas aprendizados que fiz como pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> No faz de conta, as crian\u00e7as de um a cinco anos se envolvem em um processo de recombina\u00e7\u00e3o de diferentes significados culturais que circulam entre elas e s\u00e3o por elas adotados ou modificados, enquanto as ajudam a fazer diferencia\u00e7\u00f5es em seus pap\u00e9is, atribuindo sentido \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos parceiros e \u00e0s suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Por exemplo, \u00e9 comum uma crian\u00e7a dizer para outra que segura um boneco no colo: \u201cEu \u00e9 que sou a m\u00e3e!\u201d, pegando o boneco para si.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> A viv\u00eancia das brincadeiras pelas crian\u00e7as aos dois e tr\u00eas anos, partindo de suas emo\u00e7\u00f5es, posturas, dos objetos que as apoiam a atribuir um sentido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, faz com que haja no faz de conta sucessivas e r\u00e1pidas tomadas de papel em uma colagem de fragmentos de situa\u00e7\u00f5es que \u00e9 tecida na trama das rela\u00e7\u00f5es interpessoais que a\u00ed se estabelece. Diante disso, alguns professores apontam que as crian\u00e7as s\u00e3o inst\u00e1veis ao brincar, sempre mudando o tema do faz de conta, e n\u00e3o percebem esse processo como positivo e ligado \u00e0 cont\u00ednua negocia\u00e7\u00e3o de sentido envolvida em suas intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Tanto as experi\u00eancias passadas das crian\u00e7as como suas percep\u00e7\u00f5es atuais s\u00e3o carregadas de sentidos que integram partes de suas hist\u00f3rias e o contexto de suas atividades no grupo em um mesmo espa\u00e7o subjetivo. Com isso, as novas respostas dadas pelas crian\u00e7as \u00e0s situa\u00e7\u00f5es vividas ao brincar abrem novas configura\u00e7\u00f5es subjetivas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13688 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-300x253.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-300x253.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5.png 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Mais uma raz\u00e3o para favorecer o jogo simb\u00f3lico\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o minuciosa pode revelar os diferentes significados referidos pelas crian\u00e7as em uma brincadeira assim como refer\u00eancias culturais envolvidas.<\/p>\n<p><strong>Epis\u00f3dio do cinto<\/strong><\/p>\n<p><em>Cinco crian\u00e7as entre 38 e 45 meses de idade est\u00e3o na sala (&#8230;) Cada uma delas brinca sozinha com<\/em><br \/>\n<em>alguns objetos, ocasionalmente trocando alguns coment\u00e1rios. Wellington, em p\u00e9, tenta colocar um cinto ao redor de sua cintura. (&#8230;) Fernando, segurando o chap\u00e9u (de vaqueiro nordestino) com uma m\u00e3o e a ponta da correia do mesmo que havia se soltado com a outra, ergue o chap\u00e9u e o p\u00f5e na cabe\u00e7a, enquanto Wellington sincronicamente faz o mesmo gesto, segurando o cinto pelas pontas com as m\u00e3os, erguendo-o e passando o para tr\u00e1s de sua cabe\u00e7a. Depois Wellington ergue e abaixa rapidamente o cinto, usando-o como gesto para bater em algo, junta-lhe as pontas, sorrindo e, mantendo-o erguido enquanto caminha at\u00e9 o colchonete em que Maristela e Daniel brincam com alguns objetos, diz: \u201cTodo mundo vai apanhar! Vai apanhar, o filho!\u201d Ele bate com o cinto tr\u00eas vezes no colchonete. Daniel grita e Maristela olha para Wellington, colocando o bra\u00e7o direito parcialmente sobre o rosto com uma express\u00e3o de medo e afastando o tronco enquanto grita, em tom dram\u00e1tico: \u201cPapai! Papai!\u201d. A seguir ela se volta para os brinquedos que est\u00e3o no ch\u00e3o e recome\u00e7a a manipul\u00e1-los, com rosto sereno. Enquanto isso, Daniel, com uma express\u00e3o perturbada, afasta-se um pouco do colchonete, abra\u00e7ando sua cabe\u00e7a com ambas as m\u00e3os, como que se protegendo, e olha Wellington, que se abaixa e rola no colchonete, indo sentar junto a este, no lado oposto ao de Daniel e Maristela. Wellington bate com o cinto duas vezes no colchonete, sempre erguendo bem alto a m\u00e3o que o segura, olhando alternadamente para Daniel e Maristela. Esta olha para Wellington e exclama: \u201cPa-pai! Papai!\u201d, com voz chorosa e novamente dram\u00e1tica. Wellington pergunta-lhe: \u201cQuem foi que te bateu? Ele?\u201d, apontando, com a m\u00e3o que segura o cinto, para Daniel, que tem uma express\u00e3o assustada, ao mesmo tempo em que Maristela tamb\u00e9m aponta para Daniel com a garrafa pl\u00e1stica vazia de shampoo com a qual brincava. Wellington bate com o cinto duas vezes no colchonete diante de Daniel e depois se afasta, indo com ar sereno manipular alguns brinquedos com outra garota na sala.<\/em><\/p>\n<p>No epis\u00f3dio apresentado, representa\u00e7\u00f5es historicamente constru\u00eddas e relacionadas com a rela\u00e7\u00e3o pai-<br \/>\n-filho sobressaem dos muitos significados circulando nas intera\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as. (&#8230;)<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o parece abrir novas possibilidades para a constru\u00e7\u00e3o de significados no jogo de faz-de-conta elaborado a seguir. Nele, Wellington toma alguns aspectos como sinais emergentes que disparam certos pap\u00e9is relacionados com o enredo impl\u00edcito sendo coletivamente constru\u00eddo. Ele abaixa seu bra\u00e7o, ergue o cinto novamente com uma m\u00e3o, preparando melhor o gesto de bater em algo ou algu\u00e9m, abaixa o bra\u00e7o, pega o cinto unindo suas extremidades enquanto sorri de modo maroto, e passa a desempenhar o papel do pai autorit\u00e1rio, introduzindo a palavra \u201cfilho\u201d em cena. A partir de tais elementos, Maristela rapidamente assume o papel complementar de filho\/filha. Sua amedrontada express\u00e3o dram\u00e1tica \u201cPa-pai!\u201d funciona como uma pista para a continua\u00e7\u00e3o do jogo simb\u00f3lico, enquanto Daniel, ao lado dela, parece estar realmente perturbado pelas a\u00e7\u00f5es de Wellington. Seus gestos de autoprote\u00e7\u00e3o e sua express\u00e3o de medo s\u00e3o suficientes para estimular os parceiros a lhe atribuir o papel de agressor.<\/p>\n<p>Trecho do livro Jogo de pap\u00e9is \u2013 um olhar para as brincadeiras infantis, de Zilma de Moraes Ramos de<br \/>\nOliveira. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2013, p. 110.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ZILMA DE MORAES RAMOS DE OLIVEIRA\u00b9 VAMOS DAR CONTINUIDADE \u00c0 REFLEX\u00c3O SOBRE A OBSERVA\u00c7\u00c3O DO BRINCAR, INICIADA NA EDI\u00c7\u00c3O ANTERIOR, AGORA NA PERSPECTIVA DA PROFESSORA ZILMA DE MORAES RAMOS DE OLIVEIRA, PESQUISADORA DA EDUCA\u00c7\u00c3O INFANTIL E ESPECIALISTA EM INTERA\u00c7\u00d5ES DE CRIAN\u00c7AS Por que as crian\u00e7as brincam de faz de conta? Esta quest\u00e3o tem sido investigada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":227,"featured_media":17109,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1522],"tags":[],"class_list":{"0":"post-13682","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisa-la-62","9":"post-with-thumbnail","10":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/227"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13682"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13682\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17115,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13682\/revisions\/17115"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}