{"id":13513,"date":"2014-10-14T16:15:39","date_gmt":"2014-10-14T19:15:39","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=13513"},"modified":"2024-06-11T10:56:12","modified_gmt":"2024-06-11T13:56:12","slug":"sistema-apostilado-na-educacao-infantil-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-60\/sistema-apostilado-na-educacao-infantil-e-agora\/","title":{"rendered":"Sistema apostilado na Educa\u00e7\u00e3o Infantil? E agora?"},"content":{"rendered":"<p>MARIA TERESA ALVES VIANA MONTEIRO\u00b9<\/p>\n<hr \/>\n<p>O TRABALHO COM CRIAN\u00c7AS PEQUENAS DEVE PRIORIZAR A AUTORIA, A LIBERDADE DE EXPRESS\u00c3O E A SINGULARIDADE. O QUE FAZER QUANDO O EXERC\u00cdCIO DAS APOSTILAS PROP\u00d5E EXATAMENTE O CONTR\u00c1RIO?<\/p>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13514 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1-300x211.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1-300x211.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1-768x539.jpg 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/1-1.jpg 818w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Uma sala de aula, vinte e quatro alunos e uma professora. O que \u00e9 poss\u00edvel ser encontrado nesse contexto? Heterogeneidade. Esta \u00e9 a mais comum e a melhor caracter\u00edstica de um grupo, mas \u00e9 tamb\u00e9m o maior desafio do professor, especialmente na Educa\u00e7\u00e3o Infantil.<\/p>\n<p>Caracter\u00edsticas, desejos e necessidades diferentes fazem parte da rotina do professor, mas qual a melhor maneira de lidar com eles? Conhecendo como as crian\u00e7as aprendem, respeitando o jeito como compreendem o mundo que as cerca e a forma como se expressam. Posteriormente, levantando quais os conhecimentos pr\u00e9vios da sua turma, quais suas caracter\u00edsticas mais marcantes e quais os temas lhe despertam maior interesse. Ter sempre em mente que conhecimento n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo de maneira homog\u00eanea, ou seja, as crian\u00e7as n\u00e3o aprendem todas do mesmo modo nem ao mesmo tempo.<\/p>\n<h4>Um caminho percorrido<\/h4>\n<p>H\u00e1 doze anos iniciei minha carreira como professora da Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Durante esse tempo tive muitas oportunidades de aprendizagem atrav\u00e9s de forma\u00e7\u00f5es, encontros reflexivos e leituras, mas n\u00e3o h\u00e1 nada que se compare ao aprendizado que se obt\u00e9m na pr\u00e1tica com os alunos. Aprendi muito sobre as crian\u00e7as nos diferentes momentos que precisei olhar para cada uma delas de maneira singular: nos momentos de prepara\u00e7\u00e3o das minhas aulas, quando foi necess\u00e1rio pensar naqueles que precisavam de maior apoio para participar das atividades propostas, ou quando precisei pensar em diferentes objetivos para a mesma proposta de trabalho, pois n\u00e3o tenho a inten\u00e7\u00e3o de obter as mesmas respostas.<\/p>\n<p>J\u00e1 trabalhei com salas de trinta alunos, com crian\u00e7as ditas hiperativas, sem limites, carentes, mal educadas e muitos outros adjetivos atribu\u00eddos a elas, muitas vezes pela pr\u00f3pria fam\u00edlia. Nunca acabei um ano com a sensa\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ter tentado v\u00e1rias possibilidades at\u00e9 auxiliar os alunos em seu desenvolvimento. Por\u00e9m, acredito que as conquistas que considero ter alcan\u00e7ado s\u00f3 foram poss\u00edveis pela condi\u00e7\u00e3o que at\u00e9 pouco tempo sustentavam meu trabalho: a autonomia do professor.<\/p>\n<p>Quando penso em autonomia, n\u00e3o penso em cada um fazendo o que quer da maneira que deseja, mas sim em profissionais capacitados, que fundamentam sua pr\u00e1tica seguindo as diretrizes municipais, que por sua vez seguem as nacionais, pensando e planejando aulas que permitam \u00e0s crian\u00e7as produzir seu pr\u00f3prio conhecimento.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1Professora, pedagoga, psicopedagoga, especialista em Atendimento Educacional Especializado (AEE).<\/h6>\n<p>Um professor que tem autonomia busca conhecimento dentro e fora das forma\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, baseia-se em a\u00e7\u00f5es reflexivas e aposta na sensibilidade da observa\u00e7\u00e3o de cada grupo. \u00c9 necess\u00e1rio conhecimento para que o professor tenha clareza da real fun\u00e7\u00e3o socializadora da Educa\u00e7\u00e3o Infantil e para que compreenda a import\u00e2ncia do desenvolvimento de pr\u00e1ticas educacionais mais efetivas. Al\u00e9m disso, s\u00e3o necess\u00e1rias a\u00e7\u00f5es reflexivas para que o professor avalie sempre sua pr\u00e1tica e sua intera\u00e7\u00e3o com os alunos, e sensibilidade para possibilitar a cria\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo com os alunos, conhecendo-os individualmente.<\/p>\n<p>Portanto, quando planejo minhas aulas busco considerar o que ser\u00e1 importante e significativo, levando em conta a hist\u00f3ria dos alunos enquanto grupo, o que aprenderam nos anos anteriores, as din\u00e2micas pr\u00f3prias de cada sala e as caracter\u00edsticas de cada um dos seus componentes. Pois, embora trabalhe em um sistema coletivo, procuro respeitar os processos individuais dos alunos com os quais trabalho.<\/p>\n<h4>Pensando na pr\u00e1tica<\/h4>\n<p>O que fazer quando, em uma mesma sala de aula, est\u00e3o crian\u00e7as em momentos bem diferentes de desenvolvimento e autonomia? Crian\u00e7as que ainda n\u00e3o verbalizam seus desejos, que apresentam extrema dificuldade em se sociabilizar, que ainda n\u00e3o adquiriram no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de higiene e outras, que verbalizam facilmente suas experi\u00eancias, sabem dizer seu nome e sobrenome, agem com independ\u00eancia e guiando-se pela curiosidade para buscar conhecimento.<\/p>\n<p>Podemos seguir dois caminhos: planejar aulas com atividades que conduzam as crian\u00e7as a explorar suas potencialidades e criatividade, dando oportunidades de escolhas diferenciadas, ou, oferecer a elas um material preestabelecido, feito e pensado para o todo e n\u00e3o para as individualidades. Dependendo da escolha, voc\u00ea ter\u00e1 resultados diferentes. No primeiro caso, com certeza, o resultado da atividade final ter\u00e1 formas e cores diferentes, est\u00e9ticas diversificadas, formas inesperadas e surpreendentes. Com certeza, as crian\u00e7as estar\u00e3o felizes com a autoestima elevada, j\u00e1 que puderam expressar seus jeitos pr\u00f3prios de ler o mundo e confrontar com outros. No segundo caso, ao se propor tarefas prontas, limitadas, com lacunas a serem preenchidas, toda uma riqueza se perde. Nesse caso, se dispensa o que as crian\u00e7as t\u00eam de melhor: potencial criativo e individualidade.<\/p>\n<p>No inicio deste ano, durante a terceira semana de aula eu, professora da Etapa II\u00b2, vivi uma dessas situa\u00e7\u00f5es em que a reflex\u00e3o e a observa\u00e7\u00e3o conduzem \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Observando as esperadas dificuldades enfrentadas pela professora da Etapa I\u00b3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o, sociabiliza\u00e7\u00e3o e cumprimento das regras de conv\u00edvio, sugeri a intera\u00e7\u00e3o dos grupos nos cantos do brincar, na expectativa de que, atrav\u00e9s da brincadeira, as crian\u00e7as fossem descobrindo as rela\u00e7\u00f5es com o outro, com os objetos e com o espa\u00e7o do qual ela fazia parte naquele novo momento. Toda crian\u00e7a brinca de faz de conta, recria situa\u00e7\u00f5es boas ou ruins e, atrav\u00e9s dos jogos simb\u00f3licos, propostos nos cantos do brincar, revive situa\u00e7\u00f5es de forma segura e aprende, brincando, novas maneiras de lidar com suas necessidades emocionais.<\/p>\n<p>Montamos ent\u00e3o cantinhos do brincar na \u00e1rea externa e deixamos que as duas salas interagissem, brincando juntas. Cantos do brincar \u00e9 uma atividade apresentada em um determinado momento da rotina, em que as crian\u00e7as podem escolher o que v\u00e3o fazer a partir de um leque de op\u00e7\u00f5es oferecido e organizado pelo professor. Muitas vezes, as crian\u00e7as ajudam a mont\u00e1-los nos v\u00e1rios cantos da sala ou em outro espa\u00e7o, como no p\u00e1tio da escola. Os espa\u00e7os s\u00e3o montados, equipados de acordo com cada proposta e as crian\u00e7as podem escolher, por exemplo, entre desenhar, ler livros, brincar de casinha, m\u00e9dico, lanchonete, animais etc.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>2Grupo de crian\u00e7as de cinco anos.<br \/>\n3Grupo de crian\u00e7as de quatro anos.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13515 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-1-218x300.jpg\" alt=\"\" width=\"218\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-1-218x300.jpg 218w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/2-1.jpg 339w\" sizes=\"auto, (max-width: 218px) 100vw, 218px\" \/><\/p>\n<p>Confirmei, assim, mais uma vez, a import\u00e2ncia do brincar, do criar, da espontaneidade e da autonomia na Educa\u00e7\u00e3o Infantil. As crian\u00e7as da Etapa I, que apresentavam mais dificuldades, participaram com autonomia dos jogos simb\u00f3licos quando as crian\u00e7as da Etapa II as chamavam e as introduziam em um dos cantos. Dessa forma auxiliavam no desenvolvimento da fala, da formula\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o dos combinados e da autonomia. Foi refor\u00e7ada, assim, nas crian\u00e7as maiores, sua condi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a: sabiam mais e mesmo aquelas com mais dificuldade puderam ensinar os menos experientes.<\/p>\n<p>O professor bem formado e capacitado se utiliza de materiais diversificados e l\u00fadicos para despertar na crian\u00e7a seu potencial de aprendizagem, respeitando, assim, o que deve ser a verdadeira fun\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Al\u00e9m de que, esse modo de trabalhar instiga a pesquisa, o estudo e o olhar atento, cr\u00edtico e reflexivo, se constituindo num processo rico, din\u00e2mico e vivo de aprendizagem permanente.<\/p>\n<h4>Mudan\u00e7a na hist\u00f3ria<\/h4>\n<p>Em mar\u00e7o deste ano, o munic\u00edpio em que trabalha introduziu o uso do material did\u00e1tico para Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Em uma reuni\u00e3o nos foi esclarecido que a nomenclatura correta n\u00e3o era apostila, mas sim, Manual do Professor e Livro do aluno. Por acreditar que o aprendizado, na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, se d\u00e1 estimulando a autonomia e\u00a0 respeitando as vivencias do aluno, fiquei preocupada com o material que trazia atividades preestabelecidas para todos os grupos. Esses manuais adotados pelo munic\u00edpio colocam em cheque meu papel de professor e as concep\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o e aprendizagem que nutri at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13516 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-1-300x216.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-1-300x216.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/3-1.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>O Manual do Professor traz cita\u00e7\u00f5es de autores de refer\u00eancia como Piaget, Vygotsky e outros que v\u00eam ao encontro de minhas concep\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas; no entanto, o Livro do Aluno, que pretende ser a finaliza\u00e7\u00e3o do processo de aprendizagem, n\u00e3o dialoga com essas concep\u00e7\u00f5es. \u00c9 um material que veicula o desenho estereotipado, apresentando, por exemplo, uma \u00fanica forma de representar um carro, uma casa ou o c\u00e9u. Ou seja, o livro n\u00e3o aposta nas compet\u00eancias das crian\u00e7as e em sua maneira particular e original de formular hip\u00f3teses para a representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica sobre o que percebem do mundo que as rodeia. N\u00e3o existe neles a possibilidade do professor complementar o material com aspectos da cultura local de cada regi\u00e3o e realidade escolar. Um exemplo disso \u00e9 quando uma atividade apresenta imagens de alimentos consumidos no caf\u00e9 da manh\u00e3, que n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a realidade do que \u00e9 consumido diariamente, na parte da manh\u00e3, pelas crian\u00e7as na unidade escolar que frequentam; outro exemplo \u00e9 quando se sugere um passeio pelo zool\u00f3gico, sendo que para isto ocorrer as crian\u00e7as teriam que se locomover no m\u00ednimo 150 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1, no material, uma sequ\u00eancia multidisciplinar, os assuntos tratados em um eixo de trabalho n\u00e3o se relacionam com os outros eixos. Al\u00e9m disso, as propostas de trabalho para os eixos de Arte e Movimento, fundamentais nessa faixa et\u00e1ria, ocupam pouco espa\u00e7o no material, que traz em sua maioria atividades de matem\u00e1tica, linguagem oral e escrita. Esta, como se sabe, deve fazer parte do curr\u00edculo da Educa\u00e7\u00e3o Infantil, mas n\u00e3o propondo c\u00f3pias ou situa\u00e7\u00f5es problema pouco adaptadas \u00e0 crian\u00e7a pequena e que ainda se utiliza de materiais concretos para pensar. Penso, como diversos te\u00f3ricos da educa\u00e7\u00e3o, que o professor \u00e9 um mediador das aprendizagens da crian\u00e7a. Nesse sentido, ele deve conectar seus alunos \u00e0s experi\u00eancias de qualidade produzidas em diferentes contextos culturais de nossa sociedade.<\/p>\n<p>Pode haver quem diga: \u201cMas o material adotado \u00e9 apenas para sistematizar tudo o que o professor do munic\u00edpio j\u00e1 trabalha, n\u00e3o impede que ele desenvolva seu trabalho como sempre fez!\u201d. Impedir talvez n\u00e3o impe\u00e7a, mas emperra o processo criativo, que deve ser estabelecido entre o professor e a crian\u00e7a. O material tende a ser um indutor da rotina, dificultando a autoria tanto do professor na elabora\u00e7\u00e3o de atividades mais ajustadas \u00e0s suas crian\u00e7as, como da crian\u00e7a, que fica amarrada em sua criatividade. No ano passado, trabalhei com uma sala da Etapa I e, como o material ainda n\u00e3o havia sido implantado, fiz no inicio do ano meu plano de ensino. Nele trabalhei com uma sequ\u00eancia que fazia mais sentido para as crian\u00e7as, onde um assunto tinha rela\u00e7\u00e3o com outro. Ent\u00e3o, por exemplo, o tema semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as (de tamanho, peso, cor, ra\u00e7a) foi trabalhado na sequ\u00eancia do tema sobre o corpo e seguido por alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, higiene e educa\u00e7\u00e3o ambiental, sempre propondo atividades que ligassem um assunto ao outro.<\/p>\n<h4>Em defesa da autonomia e cria\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>O que tenho tentado fazer \u00e9 adequar o uso do livro do aluno \u00e0s rotinas de atividades que preparo e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Para isso, n\u00e3o trabalho na sequ\u00eancia das p\u00e1ginas, mas sim, tentando aproximar a sequ\u00eancia de conte\u00fados. Por exemplo, havia uma proposta nas primeiras p\u00e1ginas do livro para se trabalhar com os aniversariantes do m\u00eas, mas naquele momento eu tinha apenas um aluno fazendo anivers\u00e1rio, ent\u00e3o, optei por fazer a atividade em outro m\u00eas, quando haveria mais aniversariantes. Quando quis trabalhar sobre animais e o livro n\u00e3o apresenta esse tema, mas apresenta poemas que falam de animais, utilizei-os trabalhando o tema pretendido. Por\u00e9m, tenho sentido dificuldade, pois o tempo \u00e9 restrito e acabo utilizando o livro mais vezes do que gostaria, oferecendo atividades de pouco significado. H\u00e1 que pensarmos em um novo caminho a partir de tudo isso.<\/p>\n<p>Paulo Freire, em A\u00e7\u00e3o cultural para liberdade<sup>4<\/sup>, afirma que:<\/p>\n<p>O uso de apostilas guiando o todo do ensino n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para o aluno produzir seu pr\u00f3prio conhecimento; (\u2026) as apostilas industrializadas proporcionam um ensino falsamente enciclop\u00e9dico, compartimentalizado esquem\u00e1tico, resumido e sint\u00e9tico. (\u2026) O aluno termina tendo que memorizar tais conte\u00fados de modo banc\u00e1rio. (&#8230;) Estudar \u00e9, realmente, um trabalho dif\u00edcil. Exige de quem o faz uma postura cr\u00edtica, sistem\u00e1tica. Exige uma disciplina intelectual que n\u00e3o se ganha a n\u00e3o ser praticando-a. Isto \u00e9, precisamente, o que a educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria n\u00e3o estimula. Pelo contr\u00e1rio, sua t\u00f4nica reside fundamentalmente em matar nos educandos a curiosidade, o esp\u00edrito investigador, a criatividade.<\/p>\n<p>Nesse momento, \u00e9 isso que tenho observado. Os conte\u00fados do material s\u00e3o resumidos, descont\u00ednuos e muitas vezes distantes da realidade dos alunos, exigindo muitas adapta\u00e7\u00f5es, e o tempo direcionado \u00e0s atividades de cria\u00e7\u00e3o do aluno fica cada vez menor.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13517 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-1-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/4-1.jpg 478w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Interessante fazer o exerc\u00edcio de confrontar algumas concep\u00e7\u00f5es de ensino-aprendizagem presentes nas Diretrizes Curriculares Nacionais (MEC 2009) no texto Eixos do Curr\u00edculo, que remetem ao papel do professor e as limita\u00e7\u00f5es da atua\u00e7\u00e3o desse quando ocorre a ado\u00e7\u00e3o do sistema apostilado:<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas que comp\u00f5em a proposta curricular da Educa\u00e7\u00e3o Infantil devem ter como eixos norteadores as intera\u00e7\u00f5es e a brincadeira [e leiamos: o professor deve] garantir experi\u00eancias que [entre outras&#8230;]:<\/p>\n<p>\u2666 Promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da amplia\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias sensoriais, expressivas, corporais que possibilitem movimenta\u00e7\u00e3o ampla, express\u00e3o da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da crian\u00e7a;<\/p>\n<p>\u2666 Incentivem a curiosidade, a explora\u00e7\u00e3o, o encantamento, o questionamento, a indaga\u00e7\u00e3o e o conhecimento das crian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao mundo f\u00edsico e social, ao tempo e \u00e0 natureza;<\/p>\n<p>\u2666 Promovam o relacionamento e a intera\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com diversificadas manifesta\u00e7\u00f5es de m\u00fasica, artes pl\u00e1sticas e gr\u00e1ficas, cinema, fotografia, dan\u00e7a, teatro, poesia e literatura;<\/p>\n<p>\u2666 Propiciem a intera\u00e7\u00e3o e o conhecimento pelas crian\u00e7as das manifesta\u00e7\u00f5es e tradi\u00f5es culturais brasileiras.<\/p>\n<p>Trata-se de um grande dilema: de que forma irei compor um cotidiano de atividades l\u00fadicas e cheias de sentido para meus alunos em uma p\u00e1gina de tarefa empobrecida na qual cabe apenas, \u00e0 crian\u00e7a, completar mecanicamente espa\u00e7os e palavras j\u00e1 estabelecidas? Como justificar para o grupo, de forma coerente, uma mudan\u00e7a brusca de proposta e forma de atuar do professor?<\/p>\n<h4>Lidando com a realidade poss\u00edvel<\/h4>\n<p>Ainda n\u00e3o sei que resultados terei, mas tenho tentado ir al\u00e9m de atividades estereotipadas que n\u00e3o convergem para um dia de brincadeiras e atividades significativas. Outro dia uma aluna me trouxe como presente um quebra-cabe\u00e7a que ela mesma havia feito. Eram desenhos em uma folha de papel alma\u00e7o que ela havia pintado, recortado e montado. Aquilo me fez lembrar que, algumas vezes, propus uma atividade assim, para que as crian\u00e7as montassem seus pr\u00f3prios quebra-cabe\u00e7as ou criassem uma obra desenhando, recortando e colando em pap\u00e9is coloridos. O resultado sempre foi positivo, mas minha aten\u00e7\u00e3o s\u00f3 se voltou para essa lembran\u00e7a quando essa aluna me presenteou.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13518 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-1-300x258.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-1-300x258.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/5-1.jpg 307w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Minha maior ang\u00fastia \u00e9 que, utilizando um material limitante e empobrecedor, venha a perder a possibilidade de primeiramente observar, questionar, escutar as crian\u00e7as e a\u00ed pensar sobre os desafios de aprendizagem para o grupo espec\u00edfico de alunos. O que sinto \u00e9 uma dificuldade maior em preparar minhas aulas, j\u00e1 que tenho que acrescentar em minha rotina o uso do livro. No entanto, n\u00e3o quero perder de vista o desenvolvimento de um trabalho significativo, estimulante e criativo. Ent\u00e3o, quando, por exemplo, o livro prop\u00f5e uma atividade de matem\u00e1tica que utilize um animal, tenho tentado aproveitar para trabalhar o tema em todos os eixos. Esse \u00e9 um bom exemplo para se pensar no interesse das crian\u00e7as. As atividades propostas no manual n\u00e3o falam sobre animais como um tema a ser desenvolvido, e esse \u00e9 um assunto de extremo interesse das crian\u00e7as. Acredito que o livro n\u00e3o proponha esse tema, entre outros, por considerar que ele j\u00e1 tenha sido trabalhado na Etapa I, mas ser\u00e1 que eles aprenderam tudo sobre o assunto? Ser\u00e1 que o aprendizado aconteceu inteiramente nessa Etapa a ponto de n\u00e3o precisar mais ser desenvolvido? N\u00e3o acredito nisso, portanto, tenho tentado n\u00e3o trabalhar de forma t\u00e3o resumida, ainda que sem garantir a prioridade no interesse das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Acredito na import\u00e2ncia de um sistema de ensino seguir uma diretriz, mas esta deve ter concep\u00e7\u00f5es que orientem o trabalho educativo, que considerem todos os envolvidos \u2013 escola, crian\u00e7a, fam\u00edlia e sociedade \u2013 no processo educacional.<\/p>\n<h4>Segundo as Diretrizes Pedag\u00f3gicas da Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o:<\/h4>\n<p>O ECA, a LDBEN e os Referenciais Curriculares elucidam o direito da crian\u00e7a a uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade. Para que essa qualidade educacional seja propiciada \u00e9 necess\u00e1ria a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica intencional, o educador precisa saber para onde ir e como realizar o caminho para o progresso no desenvolvimento infantil. O trabalho educativo atrelado \u00e0 pr\u00e1tica pedag\u00f3gica intencional deve ter uma vertente te\u00f3rica que o oriente.<\/p>\n<p>Posso concluir dizendo que, a cada semana de aula preparada, minha ang\u00fastia permanece e que esta condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem me trazido satisfa\u00e7\u00e3o. Sempre preparei atividades onde as crian\u00e7as punham a m\u00e3o na massa, dobrando, recortando, colando e criando com autonomia, e hoje as crian\u00e7as precisam me pedir para fazer um desenho livre! Tenho proposto atividades no livro apenas duas vezes por semana; nos outros dias trabalho com arte, pain\u00e9is coletivos, jogos na roda ou em grupos e atividades na \u00e1rea externa.<\/p>\n<p>Vou continuar tentando encontrar a melhor maneira de trabalhar, esperando n\u00e3o perder de vista minhas concep\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas. Meu temor enquanto educadora \u00e9 que, justamente na fase em que a crian\u00e7a precisa de est\u00edmulos diversos, com brincadeiras e atividades l\u00fadicas, as aulas fiquem limitadas \u00e0s atividades propostas nos livros, o que restringiria a criatividade e a experimenta\u00e7\u00e3o dos pequenos.<\/p>\n<p><strong>Sistema apostilado na educa\u00e7\u00e3o infantil<\/strong><\/p>\n<p>por Maria Aparecida Guedes Mon\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A prolifera\u00e7\u00e3o do uso de apostilas nas institui\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, na rede particular e p\u00fablica, tem sido objeto de preocupa\u00e7\u00e3o de muitos profissionais e pesquisadores da \u00e1rea, al\u00e9m de contrariar, de maneira contundente, a concep\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Infantil e inf\u00e2ncia, expressa nas Diretrizes Curriculares Nacionais.<\/p>\n<p>No lugar de um curr\u00edculo pautado nas intera\u00e7\u00f5es e nas brincadeiras, tal como \u00e9 preconizado nas DCNEI, os sistemas apostilados imprimem uma perspectiva escolarizante que desconsidera as especificidades das crian\u00e7as pequenas. S\u00e3o exerc\u00edcios mec\u00e2nicos e repetitivos que n\u00e3o fazem nenhum sentido para a crian\u00e7a e que negam a singularidade das diversas faixas et\u00e1rias, bem como preceitos importantes da psicologia do desenvolvimento, da sociologia da inf\u00e2ncia e do direito fundamental dessas crian\u00e7as de viverem suas inf\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A crescente ado\u00e7\u00e3o do sistema de ensino privado na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica p\u00fablica incita o enfraquecimento dos momentos coletivos nas institui\u00e7\u00f5es e da autonomia da equipe para elaborar o projeto pedag\u00f3gico, privilegiando o trabalho individual e o controle da pr\u00e1tica docente, negando uma das grandes conquistas educacionais expressas na Constitui\u00e7\u00e3o que se refere \u00e0 gest\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 diferentes motivos que levam as secretarias de educa\u00e7\u00e3o a adotarem os sistemas apostilados. De acordo com a pesquisa realizada por Maria Let\u00edcia B. Nascimento, um desses motivos \u00e9 a justificativa de que as professoras n\u00e3o est\u00e3o devidamente preparadas para atuar na Educa\u00e7\u00e3o Infantil e que os sistemas de ensino tamb\u00e9m promovem capacita\u00e7\u00e3o para utilizar o material. A pesquisadora destaca ainda outros dois motivos assinalados pelos representantes das secretarias municipais para fundamentar a op\u00e7\u00e3o pelo material, s\u00e3o eles: \u201c[&#8230;] papel pol\u00edtico da utiliza\u00e7\u00e3o de um sistema conhecido, que torna a escola p\u00fablica supostamente semelhante \u00e0 privada [&#8230;], al\u00e9m de satisfazer o acompanhamento da fam\u00edlia em rela\u00e7\u00e3o ao desempenho das crian\u00e7as [&#8230;]\u201d.<\/p>\n<p>Tais justificativas desqualificam o papel de suas equipes no processo de forma\u00e7\u00e3o e acompanhamento das escolas e refor\u00e7am a presen\u00e7a do setor privado nas escolas p\u00fablicas, por meio de seus sistemas, imprimindo uma falsa ideia de qualidade.<\/p>\n<p>O sistema apostilado na rede p\u00fablica ou privada \u00e9 a mais evidente express\u00e3o de for\u00e7a da perspectiva educacional transmissiva, que \u00e9 um dos maiores entraves para que a crian\u00e7a se torne o centro do trabalho pedag\u00f3gico e ocorra a efetiva\u00e7\u00e3o do compartilhamento de sua educa\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias.<\/p>\n<h6>In: NASCIMENTO, M.L.B.P. \u201cAs pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o infantil e a utiliza\u00e7\u00e3o de sistemas apostilados no cotidiano de creches e pr\u00e9-escolas p\u00fablicas\u201d. Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o, v. 17, n. 49 jan.-abr. 2012.<br \/>\n[http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/v17n49\/a03v17n49.pdf]<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA TERESA ALVES VIANA MONTEIRO\u00b9 O TRABALHO COM CRIAN\u00c7AS PEQUENAS DEVE PRIORIZAR A AUTORIA, A LIBERDADE DE EXPRESS\u00c3O E A SINGULARIDADE. O QUE FAZER QUANDO O EXERC\u00cdCIO DAS APOSTILAS PROP\u00d5E EXATAMENTE O CONTR\u00c1RIO? Uma sala de aula, vinte e quatro alunos e uma professora. O que \u00e9 poss\u00edvel ser encontrado nesse contexto? Heterogeneidade. 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