{"id":12726,"date":"2013-08-19T15:58:31","date_gmt":"2013-08-19T18:58:31","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=12726"},"modified":"2023-04-12T09:09:06","modified_gmt":"2023-04-12T12:09:06","slug":"atelies-invadem-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-55\/atelies-invadem-a-escola\/","title":{"rendered":"Ateli\u00eas invadem a escola"},"content":{"rendered":"<p>DENISE NALINI\u00b9<\/p>\n<hr>\n<p>A CONSTRU\u00c7\u00c3O DE UMA PROPOSTA COM V\u00c1RIAS LINGUAGENS ENVOLVENDO TODA A ESCOLA PERMITE COMPARTILHAR EXPERI\u00caNCIAS EM ARTES, AMPLIANDO O OLHAR DE PROFESSORES E ALUNOS<\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12727 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-16-266x300.png\" alt=\"\" width=\"266\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-16-266x300.png 266w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-16.png 552w\" sizes=\"auto, (max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/><\/p>\n<p>A proposta dos ateli\u00eas integrados surgiu para garantir um trabalho com Artes para al\u00e9m da sala de aula, promovendo trocas entre as crian\u00e7as de diferentes grupos et\u00e1rios, como tamb\u00e9m entre os professores dos diversos grupos. Ao propor um ateli\u00ea nesse formato, sab\u00edamos que as situa\u00e7\u00f5es interativas ampliariam as possibilidades de aprendizagem e permitiriam que as crian\u00e7as circulassem por todo o espa\u00e7o da escola.<\/p>\n<p>Perceb\u00edamos que o trabalho com a alfabetiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava, mas os desenhos e as possibilidades criativas estavam aqu\u00e9m do potencial dos alunos. Acredit\u00e1vamos que as crian\u00e7as seriam capazes de construir procedimentos de uso de diversos materiais e de cria\u00e7\u00e3o. Apesar de no planejamento semanal constarem momentos em que cada grupo se dedica a desenhar, recortar e colar, pintar e modelar, parecia ainda insuficiente em rela\u00e7\u00e3o ao que entendemos ser importante, tanto para o desenvolvimento como para a expressividade das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Partimos de duas grandes preocupa\u00e7\u00f5es: integrar as crian\u00e7as de diferentes turmas e aprofundar o trabalho com Artes Visuais. Ao refletir sobre elas, constru\u00edmos um repert\u00f3rio comum de pr\u00e1ticas no espa\u00e7o do Pr\u00f3-Saber\u00b2 que passa pelo conhecimento de v\u00e1rias linguagens, suportes, materiais e instrumentos para o trabalho com Artes.<\/p>\n<hr>\n<h6>1 Formadora do Instituto Avisa L\u00e1 e coordenadora pedag\u00f3gica do Centro de Estudos Psicopedag\u00f3gicos Pr\u00f3-Saber \u2013 Unidade S\u00e3o Paulo.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12728 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-16-300x183.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"183\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-16-300x183.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-16-1024x624.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-16-768x468.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-16.png 1282w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Assim, decidimos que todas as turmas ficariam divididas em diferentes tipos de ateli\u00ea pelo menos uma vez por semana.<\/p>\n<p>Isso mesmo, ateli\u00eas espalhados pela escola inteira!<\/p>\n<p>V\u00e1rias op\u00e7\u00f5es de trabalho para todas as crian\u00e7as em um hor\u00e1rio simult\u00e2neo em que trabalham com as diferentes linguagens em Artes. Ateli\u00eas integrados que propiciam \u00e0s crian\u00e7as de diferentes grupos realizarem atividades conjuntas.<\/p>\n<p>Apesar da preocupa\u00e7\u00e3o com a poss\u00edvel desordem causada por essa mudan\u00e7a, a equipe resolveu investir na proposta e, para isso, organizou-se para tornar essa possibilidade real, enfrentando as resist\u00eancias e os conflitos naturais nos processos de constru\u00e7\u00e3o do novo. Foi a clareza de nossos objetivos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s aprendizagens das crian\u00e7as que nos levou a trabalhar com uma cultura escolar que investe na implementa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e no acompanhamento desse percurso.<\/p>\n<p>Dessa forma, dois desafios importantes nortearam nosso trabalho: a proposi\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o entre diferentes turmas e idades e o aprofundamento do trabalho com Artes para as crian\u00e7as. Dois assuntos complexos, enfrentados simultaneamente.<\/p>\n<p>Hoje o grande ateli\u00ea proporciona um momento bom para observar as a\u00e7\u00f5es individuais e coletivas. Analisar o desenvolvimento dos trabalhos, a quest\u00e3o das prefer\u00eancias, o conhecimento de cada crian\u00e7a sobre o uso dos materiais, como elas se organizam para fazer uma pintura ou escultura, entre outras quest\u00f5es. Essa integra\u00e7\u00e3o gera diferentes situa\u00e7\u00f5es de estudo e de pesquisa em Arte.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da mudan\u00e7a na forma de organiza\u00e7\u00e3o dos grupos, esse fazer proporciona desafios interessantes. Por exemplo: Como discutir as escolhas dos ateli\u00eas?<\/p>\n<hr>\n<h6>2 Projeto de Educa\u00e7\u00e3o Integral, em parceria com a EMEF Paulo Freire (SP), cujas crian\u00e7as de 6 a 8 anos frequentam o espa\u00e7o, no contraturno, para realizar atividades complementares.<\/h6>\n<h4>Conhecer para poder negociar<\/h4>\n<p>\u00c9 preciso muito trabalho relativo aos combinados sobre as regras e \u00e9 importante esclarecer as possibilidades de crit\u00e9rios para essa escolha.<\/p>\n<p>\u00c9 apoiar a constru\u00e7\u00e3o de uma autonomia real e, para isso, a sele\u00e7\u00e3o e a escolha requer muita argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12729 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-16-300x161.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"161\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-16-300x161.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-16-1024x549.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-16-768x412.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-16.png 1156w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui tivemos diferentes momentos e experi\u00eancias. Decidimos, ent\u00e3o, que essa primeira fase, em 2013, seria para todas as crian\u00e7as conhecerem as diversas possibilidades, passando pelos diferentes ateli\u00eas. Ainda \u00e9 uma proposta nova, o que nos leva constantemente a avaliar prefer\u00eancias, vagas e propostas de constru\u00e7\u00e3o de um trabalho pessoal.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s linguagens selecionadas, trabalhamos com modelagem em argila, recorte e colagem, pintura, constru\u00e7\u00f5es tridimensionais, corpo, constru\u00e7\u00f5es de brinquedos e pesquisa de materiais.<\/p>\n<p>Assim, garantimos que a pot\u00eancia criadora de cada um seja revelada, oferecendo para cada crian\u00e7a espa\u00e7os para apreciar e poder mergulhar mais profundamente em uma determinada forma do fazer.<\/p>\n<p>Sabemos, como dizia Paulo Freire, que para a forma\u00e7\u00e3o de alunos cr\u00edticos \u00e9 fundamental uma educa\u00e7\u00e3o que integre a forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica e est\u00e9tica. Segundo ele, \u201cdec\u00eancia e boniteza de m\u00e3os dadas\u201d.\u00b3 Esse princ\u00edpio filos\u00f3fico, aliado ao conceito de \u201cpartilhar o sens\u00edvel\u201d<sup>4<\/sup>, \u00e9 o que nos move nas discuss\u00f5es de como destinar espa\u00e7o e tempo para o trabalho com Artes Visuais.<\/p>\n<hr>\n<h6>3 Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.<br \/>\n4 Conceito proposto por Jaques Ranci\u00e8re em A partilha do sens\u00edvel. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2005.<\/h6>\n<h4>A experi\u00eancia do sens\u00edvel<\/h4>\n<p>Esse \u00e9 um conceito que fundamenta a realiza\u00e7\u00e3o dessa proposta. Entendemos esse sens\u00edvel como as refer\u00eancias que cada um constr\u00f3i durante sua experi\u00eancia de olhar, fazer e conhecer Arte. Essas s\u00e3o experi\u00eancias individuais que formam a maneira pela qual sentimos e estamos no mundo. \u00c9, portanto, uma constru\u00e7\u00e3o que nasce do encontro entre a singularidade de cada um para se constituir num modo de funcionamento social. Ao trabalharmos com educa\u00e7\u00e3o esse deve ser um dos nossos principais objetivos: construir um olhar \u00e9tico e est\u00e9tico sobre o contexto no qual vivemos. Al\u00e9m disso, sabemos que o trabalho educativo decorre de uma tentativa constante de supera\u00e7\u00e3o da dist\u00e2ncia entre desejo e realidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12730 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-17-213x300.png\" alt=\"\" width=\"213\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-17-213x300.png 213w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-17.png 578w\" sizes=\"auto, (max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/><\/p>\n<h4>Organizando a a\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>S\u00e3o esses argumentos que levam a equipe a buscar formas de integrar as singularidades da crian\u00e7a e do professor, acreditando que, pelo conhecimento de diferentes manifesta\u00e7\u00f5es e linguagens art\u00edsticas, estamos oferecendo uma forma\u00e7\u00e3o integral para as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Como viabilizar e manter uma proposta como essa?<\/p>\n<p>At\u00e9 agora foi esse o grande desafio para a equipe, que durante as reuni\u00f5es de planejamento precisou destinar tempo para discutir como seriam os ateli\u00eas e quais linguagens iriam ser trabalhadas. Nesse planejamento inicial ficou n\u00edtida a necessidade de pensar em uma reorganiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os do Pr\u00f3 Saber e em tempos necess\u00e1rios para a execu\u00e7\u00e3o dessa proposta. Definimos que a pintura ficaria pr\u00f3xima das \u00e1reas com torneiras e que utilizar\u00edamos mais o ch\u00e3o em vez de mesas, o recorte e a colagem ocuparam a quadra, e o ateli\u00ea tridimensional ficou numa sala com v\u00e1rias tomadas para poder usar cola quente e outros instrumentos e, assim, fomos reorganizando o espa\u00e7o e o tempo. Come\u00e7amos no hor\u00e1rio depois do almo\u00e7o; nesse ano, mudamos para o hor\u00e1rio da entrada. Pode parecer pouco uma hora e meia de atividades voltadas ao fazer art\u00edstico, uma vez por semana, mas essa proposta, se bem organizada e<br \/>\ncontinuada, muda a perspectiva e a aprendizagem das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Os professores trabalharam em duplas na cria\u00e7\u00e3o de propostas diferentes: pintura, modelagem, desenho, recorte e colagem, constru\u00e7\u00f5es tridimensionais.<\/p>\n<p>Nessa primeira etapa, um dos professores organizava a proposta enquanto outro ficava com a turma, de modo que as crian\u00e7as pudessem escolher um dos cantos de ateli\u00eas oferecidos. Temos assim um momento no qual se constitui uma nova turma com grupos de crian\u00e7as de diferentes faixas et\u00e1rias e com outros professores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12731 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-16-300x229.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-16-300x229.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-16.png 751w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>No primeiro ano, a sexta-feira foi o dia escolhido para essa atividade. Experimentamos cada proposta por aproximadamente um m\u00eas e, posteriormente, na reuni\u00e3o de grupo, discut\u00edamos e modific\u00e1vamos<br \/>\no que cada dupla levantava como quest\u00e3o e necessidade de modifica\u00e7\u00e3o. Atualmente os ateli\u00eas acontecem toda quinta-feira, dia em que a equipe tem mais disponibilidade para organizar os tempos e espa\u00e7os da escola.<\/p>\n<p>Nesse primeiro m\u00eas, a inten\u00e7\u00e3o era de que todas as crian\u00e7as pudessem conhecer os ateli\u00eas. Seria uma rodada inicial na qual nenhuma crian\u00e7a poderia ainda fazer escolha. Essa decis\u00e3o foi tomada a partir de uma avalia\u00e7\u00e3o feita em reuni\u00f5es de equipe que revelou o pouco conhecimento das crian\u00e7as sobre materiais e suas proposi\u00e7\u00f5es muito estereotipadas. Para n\u00f3s, essa seria uma etapa de conhecimento e de socializa\u00e7\u00e3o com os procedimentos e seus resultados. Por exemplo: um ateli\u00ea onde pud\u00e9ssemos explorar o uso de diferentes tipos de riscadores, desde l\u00e1pis pastel at\u00e9 giz de cera. Na pintura a guache, a diferen\u00e7a do efeito do rolinho, do pincel e da m\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse tempo foi bem maior, pois pudemos observar que as crian\u00e7as precisavam de um segundo olhar para escolher. A viv\u00eancia \u00e9 que permite avan\u00e7os. \u00c9 preciso confrontar-se com os materiais, com a limpeza deles, com a aprendizagem de forrar os espa\u00e7os, com a observa\u00e7\u00e3o dos resultados. As crian\u00e7as precisam experimentar os materiais e observar seus diferentes efeitos, pois, como diz o ditado: \u201cQuem conhece pode escolher melhor\u201d.<\/p>\n<p>Para as propostas de atividade nos ateli\u00eas prevaleceu a inten\u00e7\u00e3o de oferecer materiais e espa\u00e7os para a cria\u00e7\u00e3o pessoal numa \u00fanica linguagem. A cada organiza\u00e7\u00e3o, manter um material e variar os suportes, discutindo com as crian\u00e7as o que fizeram a partir de cada proposta e pedindo a elas que mostrassem a maneira de fazer para as outras crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Sendo o processo de avalia\u00e7\u00e3o o nosso guia, percebemos nas reuni\u00f5es pedag\u00f3gicas a necessidade de revisar os tempos do ateli\u00ea e, por isso, passamos a incluir uma roda inicial de aprecia\u00e7\u00e3o alimentada pela observa\u00e7\u00e3o das obras de alguns artistas. Olhar as produ\u00e7\u00f5es e conhecer os desafios de cada linguagem demandam investimento e tempo de trabalho. S\u00f3 aprendemos a olhar quando observamos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12732 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-15-300x181.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"181\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-15-300x181.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-15-1024x618.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-15-768x464.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-15.png 1189w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h4>Alimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica<\/h4>\n<p>Tanto para a crian\u00e7a quanto para o professor, percebemos um desafio diferente em cada ateli\u00ea. Por exemplo, no ateli\u00ea de recorte e colagem, a tend\u00eancia era a de recortar uma figura, colar em outro suporte e dizer: \u201cpronto, terminei\u201d. Por considerarmos isso muito pouco, investimos na aprecia\u00e7\u00e3o das obras do franc\u00eas Henry Matisse (1869-1954) e na restri\u00e7\u00e3o de materiais como, por exemplo, trabalhar a partir de pequenos restos de pap\u00e9is. Isso modificou o resultado, possibilitou outras formas e propiciou que as crian\u00e7as pudessem pensar e observar diversas possibilidades. O maranhense Ferreira Gullar (1930- ) tamb\u00e9m foi muito importante ao longo de nosso trabalho com as crian\u00e7as, especialmente com sua produ\u00e7\u00e3o de colagens intitulada Zoologia bizarra. A observa\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos e das obras ajudou a pensar sobre os diferentes tipos de corte de Matisse (1869 -1954), como tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao modo de guardar e usar pedacinhos muito pequenos de papel de Ferreira Gullar. Outro ponto tratado nas reuni\u00f5es dizia respeito ao fato de as diferentes experi\u00eancias se tornarem um espa\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o entre professores e crian\u00e7as, de modo que o assunto referente ao fazer Arte passava a ser comentado. Contar para o outro o que aprenderam \u00e9 um dos temas das conversas entre as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Um resultado muito interessante do ateli\u00ea de recorte e colagem foi a amplia\u00e7\u00e3o de tipos de cortes e o surgimento de formas mais \u201cgordas e redondas\u201d e constru\u00e7\u00f5es com pedacinhos muito pequenos, o que deixava as produ\u00e7\u00f5es bem diferentes das anteriores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12733 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-14-227x300.png\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-14-227x300.png 227w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-14.png 624w\" sizes=\"auto, (max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12734 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-14-233x300.png\" alt=\"\" width=\"233\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-14-233x300.png 233w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-14.png 623w\" sizes=\"auto, (max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/><\/p>\n<h4>Est\u00fadio ou ateli\u00ea<\/h4>\n<p>Lugar de trabalho de pessoas com vontade de criar e onde se pode experimentar, manipular e produzir um ou mais tipos de arte. Incluem-se nesta defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 qualquer sala pequena onde um indiv\u00edduo trabalha com fotografia, v\u00eddeo, ilustra\u00e7\u00e3o, escultura, pintura, anima\u00e7\u00e3o, m\u00fasica, r\u00e1dio etc., inclusive na grande ind\u00fastria fonogr\u00e1fica e cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>A etimologia da palavra \u201cest\u00fadio\u201d deriva do Latim studere, que pode ser traduzido como a \u201c\u00e2nsia de conseguir algo\u201d. Ela tamb\u00e9m deriva de uma adapta\u00e7\u00e3o do termo em ingl\u00eas studio.<\/p>\n<p>Em franc\u00eas, a palavra atelier, al\u00e9m de designar um est\u00fadio art\u00edstico, caracteriza tamb\u00e9m o est\u00fadio de um designer de moda ou mesmo artes\u00e3o. Nesta \u00faltima acep\u00e7\u00e3o, \u00e9 frequente a presen\u00e7a de cavaletes, mesas de desenho, suportes para escultura etc. nos ateli\u00eas. Conotativamente, atelier tamb\u00e9m pode ser a casa de um alquimista ou de um feiticeiro.<\/p>\n<p>Fonte:<em> Dicion\u00e1rio de termos art\u00edsticos<\/em>, de Luiz Fernando Marcondes. S\u00e2o Paulo: Editora Pinakotheke, 1988.<\/p>\n<h4>Resultados diversificados<\/h4>\n<p>J\u00e1 no ateli\u00ea de pintura, os desafios eram totalmente diferentes, pois aprender procedimentos de trabalho com tinta, aprender a mistur\u00e1-las, usar diferentes tipos de pinc\u00e9is, explorando o mais poss\u00edvel seus efeitos, precisa de ensino. Um dos desafios para as crian\u00e7as era o manuseio do guache. Como elas pr\u00f3prias diziam: <em>Nossa, essa tinta a gente nunca viu; N\u00e3o \u00e9 que pode usar a m\u00e3o?; Veja, com esse pincel (fino) fica mais bonito; Professora, acho que eu botei muita \u00e1gua, a tinta sujou tudo; A\u00ed, eu quero fazer um verde diferente.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12735 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-11-300x232.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"232\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-11-300x232.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-11.png 739w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Nesse ateli\u00ea de pintura temos, em geral, pouca pr\u00e1tica de uso de diferentes instrumentos, pois o tempo que demanda, a necessidade de um espa\u00e7o amplo e a sujeira que produz dificultam o uso de tinta com as crian\u00e7as. Isso \u00e9 uma pena, pois a tinta n\u00e3o serve apenas para desenhar. O pincel pode se transformar em caneta, mas pintar mesmo \u00e9 construir texturas, profundidades, atentar para a produ\u00e7\u00e3o e complementa\u00e7\u00e3o de cores. Na pintura, as crian\u00e7as t\u00eam de pensar em como garantir que uma cor n\u00e3o cubra a outra, ou como chegar a cores diferentes e espec\u00edficas. As descobertas e o trabalho com paleta de cores (bandejinha de isopor para confeccionar uma nova cor) tornaram-se hit em v\u00e1rios ateli\u00eas. A textura foi outra quest\u00e3o, pois ao propor um palito para riscar sobre uma pintura criou-se outra forma e estabeleceu-se outra rela\u00e7\u00e3o entre a figura e o fundo, e a produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ganhar profundidade e for\u00e7a.<\/p>\n<p>Na modelagem, os desafios foram conseguir que as pe\u00e7as secassem sem se romperem e aprender como preparar a argila antes da chegada das crian\u00e7as, um trabalho grande e imprescind\u00edvel do professor. Aprender a fazer cola com argila, aprender a usar um palito para uma figura ficar de p\u00e9, tirar o ar da argila s\u00e3o aprendizagens complexas que nem sempre d\u00e3o o resultado esperado.<\/p>\n<p>Nas avalia\u00e7\u00f5es, pudemos entender que o aprofundamento de cada linguagem revela um desafio espec\u00edfico, que requer, sobretudo, um olhar cuidadoso sobre o percurso das crian\u00e7as. Al\u00e9m disso, cada encontro com uma linguagem traz problemas para o criador. \u00c9 preciso conhecer o que se sabe e ter espa\u00e7os para compartilhar os resultados. \u00c9 uma pr\u00e1tica que exige um olhar constante, uma aprendizagem que demanda tempo e sistematiza\u00e7\u00e3o. Nos ateli\u00eas, o foco s\u00e3o os problemas encontrados, o caminho para a busca de conte\u00fados a serem estudados pelos professores e, depois, recolocados para as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12736 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-5-204x300.png\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-5-204x300.png 204w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-5.png 493w\" sizes=\"auto, (max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/><\/p>\n<h4>O planejamento como suporte<\/h4>\n<p>Assuntos diferentes permearam o trabalho nessa primeira etapa de implanta\u00e7\u00e3o do ateli\u00ea: pesquisar os artistas mais interessantes para a aprecia\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, rever a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, modificar o tipo de material oferecido, pensar com as crian\u00e7as uma curadoria para a exposi\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es, reservar um tempo para as rodas de aprecia\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es delas. E assim transcorreram seis meses de trabalho intenso, permeados por reuni\u00f5es constantes para avaliar e refazer caminhos e processos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do fazer cotidiano, o ateli\u00ea integrado \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do nosso desejo de proporcionar \u00e0s crian\u00e7as a oportunidade de construir e desconstruir olhares e saberes dados no eixo das Artes. Ao conhecer e experimentar materiais, ao ter reconhecido seu percurso individual, ao observar as produ\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as de outros grupos, cada crian\u00e7a p\u00f4de vivenciar uma mudan\u00e7a em seus paradigmas est\u00e9ticos. Fazer Arte requer disciplina. E isso as crian\u00e7as v\u00e3o percebendo aos poucos.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s que compomos a equipe, essa \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, pois na medida em que o olhar e o fazer individual s\u00e3o constantemente trabalhados e revisados coletivamente, sempre surgir\u00e3o novos desafios.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica desses grandes ateli\u00eas nos ensinou que \u00e9 preciso ampliar o olhar, e que a constru\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o melhor precisa de muito estudo, do trabalho coletivo e de desejo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12737 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-5-300x283.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-5-300x283.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-5.png 597w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h4>Dica de Leitura<\/h4>\n<h5>A inspira\u00e7\u00e3o de Reggio Emilia<\/h5>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser voltado para o Ensino Fundamental, esse livro pode ser considerado uma grande refer\u00eancia para o trabalho com ateli\u00eas. Por meio de entrevistas e relatos das experi\u00eancias vividas no processo de implanta\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o dos ateli\u00eas em Reggio Emilia, It\u00e1lia, os autores suscitam discuss\u00f5es importantes. Enfatizam a concep\u00e7\u00e3o de ateli\u00ea como o lugar da viv\u00eancia dos processos de cria\u00e7\u00e3o, no qual os produtos sempre provis\u00f3rios t\u00eam como objetivo a constru\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias com as diferentes linguagens art\u00edsticas rumo \u00e0 sensibiliza\u00e7\u00e3o do gosto e do sentido est\u00e9tico das crian\u00e7as e dos professores. Espa\u00e7o individual e coletivo que emerge do desejo de um cotidiano que desconstrua a rapidez e o automatismo do nosso tempo, ele \u00e9 o espa\u00e7o no qual a escola se volta para pensar, rever, propor, apreciar, reconectando a vida cotidiana e a cultura. O espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o e da cr\u00edtica, e o papel do atelierista como lugar de encontro no qual as crian\u00e7as e os professores t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o materiais e propostas que lhes permitem interpretar o mundo a partir da observa\u00e7\u00e3o de suas hip\u00f3teses e experi\u00eancias.<\/p>\n<p>O papel do ateli\u00ea na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, de Lella Gandini et al. Porto Alegre: Editora Penso, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DENISE NALINI\u00b9 A CONSTRU\u00c7\u00c3O DE UMA PROPOSTA COM V\u00c1RIAS LINGUAGENS ENVOLVENDO TODA A ESCOLA PERMITE COMPARTILHAR EXPERI\u00caNCIAS EM ARTES, AMPLIANDO O OLHAR DE PROFESSORES E ALUNOS A proposta dos ateli\u00eas integrados surgiu para garantir um trabalho com Artes para al\u00e9m da sala de aula, promovendo trocas entre as crian\u00e7as de diferentes grupos et\u00e1rios, como tamb\u00e9m [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":227,"featured_media":15257,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1515],"tags":[],"class_list":{"0":"post-12726","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisa-la-55","9":"post-with-thumbnail","10":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/227"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12726\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}