{"id":12661,"date":"2013-05-07T16:17:22","date_gmt":"2013-05-07T19:17:22","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=12661"},"modified":"2023-02-03T10:32:02","modified_gmt":"2023-02-03T13:32:02","slug":"para-gostar-de-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-54\/para-gostar-de-escrever\/","title":{"rendered":"Para gostar de escrever"},"content":{"rendered":"<p>SILVANA AUGUSTO\u00b9<\/p>\n<hr>\n<p>QUEM DISSE QUE PROFESSOR N\u00c3O GOSTA DE ESCREVER? A EXPERI\u00caNCIA COM UM GRUPO DE PROFESSORES DE EDUCA\u00c7\u00c3O INFANTIL E DE ENSINO FUNDAMENTAL MOSTROU COMO A ESCRITA LITER\u00c1RIA PODE SER UM EXERC\u00cdCIO POSS\u00cdVEL E PRAZEROSO PARA QUALQUER UM, AT\u00c9 PARA OS QUE ACHAM QUE A ESCRITA \u00c9 UMA PEDRA NO SAPATO<\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12662 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-13-287x300.png\" alt=\"\" width=\"287\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-13-287x300.png 287w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-13.png 585w\" sizes=\"auto, (max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/p>\n<p>O est\u00edmulo \u00e0 leitura e \u00e0 escrita tem sido a marca de in\u00fameros programas de forma\u00e7\u00e3o nos dias de hoje. Logo nos primeiros encontros perguntamos sobre o h\u00e1bito de leitura de cada um por meio de um question\u00e1rio de estudo de perfil. Ao longo da forma\u00e7\u00e3o procuramos ampliar esse repert\u00f3rio, oferecendo refer\u00eancias nos momentos de leitura compartilhada. A experi\u00eancia com a forma\u00e7\u00e3o de professores leitores me levou a pensar mais profundamente na forma\u00e7\u00e3o dos professores como escritores.<\/p>\n<p>Em 2007, eu era formadora de um grupo de educadores na zona sul de s\u00e3o Paulo quando tive acesso \u00e0s pesquisas sobre leitura no Brasil. Marisa Lajolo, pesquisadora e ensa\u00edsta, citava estudos que desvelavam o papel que livros, como os romances de banca de jornal, as hist\u00f3rias de detetive, dentre outros que n\u00e3o s\u00e3o cl\u00e1ssicos da literatura, ocupavam na forma\u00e7\u00e3o do leitor brasileiro.<\/p>\n<p>Intrigada com o que tinha aprendido com essa pesquisadora, resolvi investigar essa quest\u00e3o com o meu grupo de professoras. Nas respostas ao question\u00e1rio inicial de estudo de perfil, a maioria do grupo dizia que n\u00e3o tinha h\u00e1bito de ler, n\u00e3o citava nenhum t\u00edtulo lido no \u00faltimo ano. Retomando as respostas iniciais e insistindo um pouco mais, presencialmente, eu descobri que todas elas liam, sim, muitos romances esp\u00edritas. Mesmo as professoras cat\u00f3licas ou de outras religi\u00f5es. E quando eu perguntei por que elas n\u00e3o tinham me dito isso quando eu perguntei sobre o que elas liam, disseram que n\u00e3o achavam que aquilo \u201cvalesse\u201d como leitura. E foi uma surpresa descobrir que havia um repert\u00f3rio enorme de obras dos mesmos autores compartilhado naquele grupo. Elas sabiam todos os t\u00edtulos de um e de outro autor e v\u00e1rias j\u00e1 tinham lido todos. Quando n\u00e3o, j\u00e1 tinham inscrito para emprestar de uma colega, assim que ela acabasse. Um troca-troca de romances passando de m\u00e3o em m\u00e3o, toda semana, desde sempre, s\u00f3 eu n\u00e3o sabia.<\/p>\n<hr>\n<h6>1 Coordenadora pedag\u00f3gica dos cursos a dist\u00e2ncia do Instituto Avisa L\u00e1 e professora do Instituto Superior de Educa\u00e7\u00e3o Vera<br \/>\nCruz, em S\u00e3o Paulo (SP).<\/h6>\n<p>Naquele dia, elas passaram a recontar os enredos favoritos. Aquilo me fez pensar o quanto eu havia sido preconceituosa ao aceitar que as professores n\u00e3o liam. Elas liam e tinham suas prefer\u00eancias: narrativas her\u00f3icas, hist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o, relatos do sofrimento humano cheios de esperan\u00e7a e chances de reviravoltas para reparar os erros. Validar essas prefer\u00eancias ajudou a fazer escolhas de textos como formadora e mudou meu modo de abordar cada novo grupo e seu conhecimento sobre determinado<br \/>\nassunto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12663 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-13-300x260.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-13-300x260.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-13.png 679w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h5>O que voc\u00ea escreve?<\/h5>\n<p>Em 2012, eu tive a oportunidade de trabalhar com um grupo de professores do Tocantins, do munic\u00edpio de Colinas. A proposta era trabalhar com um conte\u00fado de escrita, uma demanda importante nos planejamentos dos professores em discuss\u00e3o naquele momento. Ent\u00e3o, eu me peguei pensando: ser\u00e1 que \u00e9 verdade que os professores n\u00e3o t\u00eam o h\u00e1bito de escrever? Ser\u00e1 que eles t\u00eam tanta dificuldade assim e de fato n\u00e3o gostam de escrever? Pode ser que, tal como j\u00e1 ocorrera da outra vez, eles tivessem, sim, o h\u00e1bito de escrever e at\u00e9 gostassem e, nesse caso, quais seriam as suas reais pr\u00e1ticas escritoras? Para saber disso, n\u00e3o perguntei se elas escreviam, mas sim o que \u00e9 que elas escreviam. E, sondando o grupo, descobri que todas tinham alguma pr\u00e1tica de escrever. As professoras listaram todas, por ordem de prefer\u00eancia ou de prioridade.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas mais comuns, obviamente, eram as profissionais. A professora Silvana, por exemplo, assim como outras colegas de profiss\u00e3o, disseram ter a pr\u00e1tica de escrever relat\u00f3rios de seu trabalho na escola. C\u00edcera, al\u00e9m dos relat\u00f3rios, tamb\u00e9m elaborava pautas de reuni\u00f5es. Joana gostava de escrever para estudar.<\/p>\n<p>Os textos que nos ajudam a organizar o cotidiano tamb\u00e9m apareceram: Elaine, por exemplo, escrevia receitas; Socorro fazia listas para tudo. Solange preparava planilhas para organizar os or\u00e7amentos de tudo o que gastaria em casa. Valdete sempre escrevia bilhetes para o marido, para avisar que tinha sa\u00eddo, para informar onde estava. E Joana D\u2019arc n\u00e3o riscava o dia 31 de dezembro na folhinha sem registrar planos, tudo o que ela planeja fazer no ano-novo. E nos disse que gosta de conferir no final, quando o ano-novo vira o ano velho.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12664 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-13-230x300.png\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-13-230x300.png 230w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-13.png 618w\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/p>\n<p>\u00c0s vezes a escrita tem o papel de apoiar a mem\u00f3ria, serve para preservar ideias ou palavras muito importantes. Maria de Jesus, por exemplo, contou que gosta de escrever um serm\u00e3o quando precisa chamar a aten\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m. Ela acha que as palavras ditas magoam, mas a escrita ajuda a pessoa a refletir sobre o que fez. Cida disse que at\u00e9 hoje coleciona versos e mensagens em um caderno. J\u00e1 Ivonete tem o h\u00e1bito de copiar o hino e anotar serm\u00f5es e palavras fortes que escuta na igreja.<\/p>\n<p>Foi interessante compartilhar o valor que elas atribuem a essas pr\u00e1ticas, um sentido pessoal constru\u00eddo na experi\u00eancia de escrever em situa\u00e7\u00f5es especiais. Keila escreve mensagens SMS (torpedos) quando briga com os filhos. Cl\u00e9lia gosta de surpreender o marido deixando em seu bolso cartas de amor. Lucin\u00e9ia fez uma agenda para acompanhar toda a sua gravidez, m\u00eas a m\u00eas. Maria Jos\u00e9, que tinha muito medo de complica\u00e7\u00f5es no parto, fez um relat\u00f3rio detalhado de tudo o que se passava com ela, incluindo determinados procedimentos, para que n\u00e3o houvesse nenhuma d\u00favida sobre como deveriam cuidar de seu beb\u00ea caso precisasse ficar mais tempo no hospital.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m pr\u00e1ticas de escrita liter\u00e1ria. Leonina gosta de escrever cartas, mesmo que sem destinat\u00e1rio certo. Ela mant\u00e9m um di\u00e1rio desde crian\u00e7a. Maria Beraldina tamb\u00e9m. Ela era a \u00fanica mulher, em um grupo de 53 participantes, que escreve poemas. E gosta muito de escrever. Ela disse, confidente: Tenho uma intui\u00e7\u00e3o, eu acho que um dia eu ainda vou escrever um livro da minha vida.<\/p>\n<p>Essa primeira atividade foi fundamental para desmistificar a escrita como algo dif\u00edcil, frio e distante de nossa vida. Reconhecer-se capaz de escrever era o primeiro passo para experimentar a escrita como um exerc\u00edcio l\u00fadico e criativo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12665 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-14-300x157.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-14-300x157.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-14.png 602w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h5>O encontro com o fant\u00e1stico na literatura<\/h5>\n<p>Para a oficina, eu havia escolhido trabalhar com a produ\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio. Tinha como objetivo principal fazer com que as professoras tivessem a experi\u00eancia de se divertir com a escrita criativa, que a vissem como possibilidade de express\u00e3o. Esperava, assim, criar bases para uma reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de conhecer o g\u00eanero e os prop\u00f3sitos como condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias aos alunos para a produ\u00e7\u00e3o de textos.<\/p>\n<h5>O que \u00e9 literatura fant\u00e1stica<\/h5>\n<p>Um anjo que machuca as asas cai em um quintal e se esconde junto \u00e0s galinhas. Um homem malvado que aparece sorrateiramente \u00e0 noite para jogar areia nos olhos das crian\u00e7as que n\u00e3o querem dormir. Algu\u00e9m que, em um certo dia, descobre ao acordar que virou uma barata. Nada disso existe na vida real. Mas, quando bem narrados, seguindo uma l\u00f3gica interna pr\u00f3pria da magia ou do estranho, faz com que qualquer um entenda e aceite. Isso \u00e9 literatura fant\u00e1stica, um g\u00eanero marcado pela magia, pelo estranho, surreal, fantasioso, inveross\u00edmil e at\u00e9 mesmo absurdo.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico liter\u00e1rio Todorov\u00b2 classificou a literatura fant\u00e1stica em quatro tipos. O primeiro deles \u00e9 o fant\u00e1stico-estranho, caracterizado por narrativas sobrenaturais desvendadas ao final por uma explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica. Os contos fant\u00e1sticos e assustadores de Ernst Theodor A. Hoffmann (Alemanha, 1776-1822), como o Homem de areia, \u00e9 um bom exemplo desse tipo. S\u00e3o tra\u00e7os dos personagens e dos fatos da narrativa fant\u00e1stica-estranha as coincid\u00eancias, a ilus\u00e3o, a loucura. O segundo tipo \u00e9 o fant\u00e1stico-maravilhoso. Ele marca as hist\u00f3rias que s\u00e3o inteiramente fant\u00e1sticas do in\u00edcio ao fim, que n\u00e3o aceitam explica\u00e7\u00f5es racionais, ao contr\u00e1rio, s\u00f3 faz sentido em sua pr\u00f3pria l\u00f3gica sobrenatural. Alice no Pa\u00eds das Maravilhas talvez seja a hist\u00f3ria mais conhecida desse g\u00eanero. H\u00e1 ainda o estranho&nbsp; puro, caracterizado por hist\u00f3rias que, embora surpreendentes, ainda podem ser explicadas pela raz\u00e3o. Isso \u00e9 muito diferente do maravilhoso puro em que os acontecimentos m\u00e1gicos se justificam em si, como acontecem, por exemplo, nos contos de fadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos escritores fant\u00e1sticos: Hoffmann, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (Col\u00f4mbia, 1927) e Jorge Luis Borges (Argentina, 1899-1986) s\u00e3o importantes autores de literatura fant\u00e1stica. No Brasil, Murilo Rubi\u00e3o \u00e9 o mais representativo autor do g\u00eanero.<\/p>\n<hr>\n<h6>2 Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura fant\u00e1stica, de Tzvetan Todorov. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1998 (Cole\u00e7\u00e3o Debates).<\/h6>\n<p>Queria criar um contexto em que escrever fosse uma experi\u00eancia interessante em si, independente de qualquer mensagem que se pudesse transmitir. Por isso, escolhi referenciar o grupo com um conto t\u00edpico da literatura fant\u00e1stica de Murilo Rubi\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12666 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-13-300x256.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-13-300x256.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-13.png 482w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Iniciei a roda de leitura contando um pouco sobre a vida e a pr\u00e1tica de escrita de Murilo Rubi\u00e3o. Diferente do que se costuma imaginar, o texto liter\u00e1rio n\u00e3o nasce facilmente de uma s\u00f3 vez, como um momento de inspira\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 fruto de muitas reescritas. Murilo Rubi\u00e3o talvez seja um dos mais radicais exemplos disso: sua obra \u00e9 relativamente pequena; no entanto, seus contos possuem v\u00e1rias vers\u00f5es. Algumas reescritas s\u00e3o simples, resultando em mudan\u00e7as de algum vocabul\u00e1rio ou alterando a ordem de algumas frases. Outros, ao contr\u00e1rio, recebem novas vers\u00f5es, completamente diferentes das originais. Essa peculiaridade faz com que a obra desse autor seja t\u00e3o interessante para quem estuda literatura: compreender o que rege o pensamento do escritor nessas suas reescritas pode revelar aspectos interessantes do pr\u00f3prio processo de produzir textos. A reflex\u00e3o sobre esse autor nos leva a ver que a escrita n\u00e3o pode ser vista apenas como resultado final impresso em papel, mas, sim, um complexo processo de planejamento, de m\u00faltiplas revis\u00f5es e de sucessivas reescritas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12667 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-13-280x300.png\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-13-280x300.png 280w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-13.png 570w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/p>\n<h5>Escrita como processo<\/h5>\n<p>Escolhi ler para o grupo o conto B\u00e1rbara. \u201cB\u00e1rbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava.\u201d \u00c9 assim que come\u00e7a essa hist\u00f3ria surpreendente de um rapaz que se casa com uma garota bonita e muito caprichosa. A caracter\u00edstica principal dessa personagem \u00e9 seu incessante desejo soberbo. N\u00e3o havia um s\u00f3 desejo que a mo\u00e7a pronunciasse que seu apaixonado esposo n\u00e3o fosse buscar: um baob\u00e1, um navio, o pr\u00f3prio mar.<\/p>\n<p><em>Pediu o oceano.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o fiz nenhuma obje\u00e7\u00e3o e embarquei no mesmo <\/em><em>dia, iniciando longa viagem ao litoral. Mas, <\/em><em>frente ao mar, atemorizei-me com o seu tamanho. <\/em><em>Tive receio de que minha esposa viesse a <\/em><em>engordar em propor\u00e7\u00e3o ao pedido, e lhe trouxe <\/em><em>apenas uma pequena garrafa contendo \u00e1gua <\/em><em>do oceano.&nbsp; <\/em><em>No regresso, quis desculpar meu procedimento, <\/em><em>por\u00e9m ela n\u00e3o me prestou aten\u00e7\u00e3o. Sofre gamente,<\/em><br \/>\n<em>tomou-me o vidro das m\u00e3os e ficou a <\/em><em>olhar, maravilhada, o l\u00edquido que ela continha. <\/em><em>N\u00e3o mais o largava. Dormia com a garrafinha&nbsp;<\/em><em>entre os bra\u00e7os e, quando acordada, colocava-a <\/em><em>contra a luz, provava um pouco da \u00e1gua. Entrementes, <\/em><em>engordava.<\/em><\/p>\n<p>\u00c0 medida que o absurdo da situa\u00e7\u00e3o aumentava, mais e mais estranhas eram as rea\u00e7\u00f5es das professoras:<\/p>\n<p>\u2013 Ah! N\u00e3o acredito, ele ainda vai fazer isso por ela?<br \/>\n\u2013 Nossa, como ela \u00e9 ego\u00edsta!<br \/>\n\u2013 Essa mulher \u00e9 imensa!<br \/>\n\u2013 Isso \u00e9 s\u00f3 hist\u00f3ria, mesmo, homem assim n\u00e3o existe.<br \/>\n\u2013 Essa hist\u00f3ria \u00e9 um absurdo!<\/p>\n<p>Eu me divertia observando a rea\u00e7\u00e3o delas que nunca tinham conhecido literatura fant\u00e1stica para adultos.<\/p>\n<p>Depois, propus como exerc\u00edcio criativo que cada grupo procurasse uma forma de expressar essa hist\u00f3ria considerando diferentes contextos comunicativos: carta formal; carta informal; not\u00edcia; poema; cr\u00f4nica; conto de fadas. Para cada grupo, ofereci um conjunto de materiais que poderiam ser usados como fonte de informa\u00e7\u00e3o, de estudo, de apoio para conhecer melhor o g\u00eanero eleito. A proposta foi feita em grupo porque gostaria de enfatizar o processo de cria\u00e7\u00e3o. Em cada grupo selecionei uma pessoa que deveria registrar todos os processos de trabalho do grupo. Durante o processo fui ouvinte das primeiras leituras, problematizei algum aspecto que poderia trazer mais clareza ao texto, apontei revis\u00f5es etc.<\/p>\n<p>Todo mundo conseguiu escrever, refletir bastante sobre o uso das palavras, sobre como expressar melhor uma ideia. E isso aconteceu, em primeiro lugar, porque partimos de um dado enredo. Assim, o exerc\u00edcio criativo pode ser concentrado no modo de expressar, o que, em si, \u00e9 um grande desafio e, por que n\u00e3o dizer, muito prazeroso.<\/p>\n<p>Na hora de compartilhar o que havia ocorrido em cada subgrupo, vimos como o texto se iniciou muito antes de se escrever a primeira linha, nas ideias que circulavam. Como as sucessivas discuss\u00f5es e sugest\u00f5es v\u00e3o compondo pouco a pouco a voz do narrador, os detalhes das narrativas etc.<\/p>\n<p>Um dos textos mais facilmente resolvidos foi a convers\u00e3o da historia de B\u00e1rbara em um conto de fadas. Isso ocorreu porque aquele p\u00fablico conhecia&nbsp; bem esse g\u00eanero de texto, o que facilitou a escrita.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12668 aligncenter\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-12-300x191.png\" alt=\"\" width=\"394\" height=\"251\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-12-300x191.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-12-1024x651.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-12-768x488.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-12.png 1294w\" sizes=\"auto, (max-width: 394px) 100vw, 394px\" \/><\/p>\n<p>O mais dif\u00edcil, por outro lado, foi a elabora\u00e7\u00e3o da cr\u00f4nica, isso porque justamente era o texto mais desconhecido: o que, afinal, diferencia uma cr\u00f4nica de um conto?, perguntaram as professoras. Portanto, para que pudessem de fato produzir boas cr\u00f4nicas, era preciso muito mais tempo para explorar outras cr\u00f4nicas, permitindo assim a generaliza\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas desse g\u00eanero. As outras quatro propostas permitiram o surgimento de solu\u00e7\u00f5es bem interessantes:<\/p>\n<p>Vimos que a principal condi\u00e7\u00e3o para esse texto era conhecer a linguagem de um jornalista. Para isso, as professoras recorreram ao conhecimento da imprensa sensacionalista.<\/p>\n<p>Para o poema, recorreu-se \u00e0 rima, uma das caracter\u00edsticas de certo tipo de poema. \u00c9 claro que existem outras formas, inclusive sem rimas. Se essas outras formas de poesia fossem exploradas pelo grupo, provavelmente as professoras teriam avan\u00e7ado bastante. Conhecer o g\u00eanero, portanto, amplia muito as possibilidades de express\u00e3o de quem escreve.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12669 aligncenter\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-12-300x187.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-12-300x187.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-12-1024x638.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-12-768x479.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-12-436x272.png 436w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-12.png 1308w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<hr>\n<h6>3 Autoras: Cleia, Eliciene, Elza, Luiza, Maria de Jesus, Maria Raimunda, Nuria, Silvana, Vanilza e Zilma.<br \/>\n4 Autoras: Creuslene, Dinalva, Lene, Leonice, Maria da Concei\u00e7\u00e3o, Maria de Jesus, Silv\u00e2nia, Solange, Suely, Thylla e Viviane.<\/h6>\n<p>O grupo que escreveu a carta para a presidente da Rep\u00fablica inspirou-se no conceito que sustentava o absurdo da hist\u00f3ria, o exagero da personagem. E foi a partir da explora\u00e7\u00e3o desse recurso est\u00e9tico que as professoras criaram uma carta inusitada, construindo um sentido novo para B\u00e1rbara, no caso, as professoras b\u00e1rbaras. O texto ficou ainda mais engra\u00e7ado pelo recurso da verossimilhan\u00e7a, procurando utilizar, nesse caso, a mesma diagrama\u00e7\u00e3o de uma carta oficial com todos os itens listados dessa reivindica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12670 aligncenter\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-9-300x149.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"149\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-9-300x149.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-9-1024x510.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-9-768x382.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-9-960x480.png 960w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-9.png 1248w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>E as professoras que escreveram a carta informal usaram bem o conhecimento sobre o prop\u00f3sito comunicativo desse texto: criar a oportunidade para uma boa fofoca com uma pitada de inveja, caracter\u00edsticas que podem ser exploradas para criar o efeito do humor.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12671 aligncenter\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-3-300x165.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-3-300x165.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-3-1024x564.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-3-768x423.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-3.png 1439w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<hr>\n<h6>5 Autoras: Ariolina, Domingas, Elisabete, Eva, Gilcy, Jussandra, L\u00facia de F\u00e1tima, Maria Aparecida, Maria Jos\u00e9 e Ros\u00e2ngela.<br \/>\n6 Autoras: Dan\u00edzia, Jomara, K\u00e1cia, Lucil\u00e9ia, Maria de Jesus, Maria Jos\u00e9, Maria Socorro, Marly, Rejane, Ros\u00e2nia e Thallita.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12672 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-3-300x146.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"146\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-3-300x146.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-3-1024x500.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-3-768x375.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/11-3.png 1129w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h4>O prazer de escrever<\/h4>\n<p>A oficina resultou em uma experi\u00eancia significativa para as professoras que se surpreenderam com os textos que os colegas foram capazes de produzir, segundo elas, muito criativos. Analisando mais profundamente, vimos que para ser criativo, escrever melhor e com compet\u00eancia \u00e9 preciso, por exemplo:<\/p>\n<p>\u2013 trocar ideias para a elabora\u00e7\u00e3o de enredos, mesmo que partam de hist\u00f3rias conhecidas;<br \/>\n\u2013 pesquisar a linguagem empregada de acordo com o personagem e seu contexto comunicativo;<br \/>\n\u2013 pesquisar as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias para cada g\u00eanero;<br \/>\n\u2013 refletir sobre a interlocu\u00e7\u00e3o do texto, ou seja, quem deve ser o leitor real;<br \/>\n\u2013 ter tempo para sucessivas revis\u00f5es em muitos n\u00edveis, desde a de ortografia e gram\u00e1tica, at\u00e9, principalmente, a reescrita de vers\u00f5es que melhoram a linguagem.<\/p>\n<p>Com isso, as professoras podem refletir com o coordenador pedag\u00f3gico da escola sobre como ensinar os alunos a gostarem de escrever e o que considerar no planejamento da produ\u00e7\u00e3o de textos, assegurando que o aspecto criativo, pr\u00f3prio da literatura, n\u00e3o seja depreciado em fun\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es do dom\u00ednio do sistema de escrita. Afinal, escrever bem significa dominar as regras do sistema escrito de sua l\u00edngua e, ao mesmo tempo, dominar as possibilidades expressivas da linguagem escrita. E por que n\u00e3o dizer desafiar-se e divertir-se?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SILVANA AUGUSTO\u00b9 QUEM DISSE QUE PROFESSOR N\u00c3O GOSTA DE ESCREVER? A EXPERI\u00caNCIA COM UM GRUPO DE PROFESSORES DE EDUCA\u00c7\u00c3O INFANTIL E DE ENSINO FUNDAMENTAL MOSTROU COMO A ESCRITA LITER\u00c1RIA PODE SER UM EXERC\u00cdCIO POSS\u00cdVEL E PRAZEROSO PARA QUALQUER UM, AT\u00c9 PARA OS QUE ACHAM QUE A ESCRITA \u00c9 UMA PEDRA NO SAPATO O est\u00edmulo \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":227,"featured_media":14667,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1514],"tags":[],"class_list":{"0":"post-12661","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisa-la-54","9":"post-with-thumbnail","10":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/227"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12661"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12661\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}