{"id":12607,"date":"2013-05-07T13:23:23","date_gmt":"2013-05-07T16:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=12607"},"modified":"2023-02-03T10:36:46","modified_gmt":"2023-02-03T13:36:46","slug":"formar-o-leitor-literario1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-54\/formar-o-leitor-literario1\/","title":{"rendered":"Formar o leitor liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>ANA CL\u00c1UDIA SANTOS NICOLAU\u00b2<\/p>\n<hr>\n<p>ESCOLHA DE UM TEXTO CURIOSO FAZ AS CRIAN\u00c7AS SE INTERESSAREM PELA LEITURA E AVAN\u00c7AREM EM SEU CONHECIMENTO SOBRE LEITURA<\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12608 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-9-196x300.png\" alt=\"\" width=\"196\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-9-196x300.png 196w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-9.png 395w\" sizes=\"auto, (max-width: 196px) 100vw, 196px\" \/><\/p>\n<p>O fant\u00e1stico est\u00e1 presente de maneira muito marcante no cotidiano de crian\u00e7as entre seis e sete anos, seja em suas brincadeiras, seja em sua peculiar maneira de enxergar<br \/>\no mundo. Esta \u00e9 a fase da vida em que os pequenos come\u00e7am a se questionar acerca da<br \/>\nexist\u00eancia de seres extraordin\u00e1rios \u2013 fadas, monstros, bruxas, Papai-Noel&#8230; E, nesse \u00e2mbito, encaixam-se os vampiros, monstros sanguin\u00e1rios e cru\u00e9is, que tanto apavoram em filmes, desenhos animados e pesadelos.<\/p>\n<p>O Pequeno Vampiro, obra da alem\u00e3 Angela Sommer-Bodenburg, de 1979, traz uma vis\u00e3o nada convencional desse monstro, por meio de um personagem, um vampiro-crian\u00e7a que deseja fazer amigos, adora ler hist\u00f3rias sobre sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie e que, em sua extensa \u00e1rvore geneal\u00f3gica vampiresca, tem uma irm\u00e3 ca\u00e7ula, de seis anos, que \u00e9 banguela e se alimenta apenas de leite. Para as crian\u00e7as de idade aproximada, a identifica\u00e7\u00e3o com todos os personagens \u2013 vampiros e humanos \u2013 \u00e9 imediata. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, a forma como a narrativa \u00e9 conduzida, em sua quase totalidade, deixa no ar uma ambiguidade: afinal, o vampiro vai ou n\u00e3o morder seu amiguinho de sangue quente?<\/p>\n<hr>\n<h6>1 Artigo publicado no documento interno da Escola da Vila (SP), Conversa de professor, 2011.<br \/>\n2 Jornalista e pedagoga, p\u00f3s-graduada em Alfabetiza\u00e7\u00e3o; professora das s\u00e9ries iniciais do Ensino Fundamental I e formadora do N\u00facleo de Pr\u00e1ticas de Linguagem do Centro de Forma\u00e7\u00e3o da Escola da Vila, em S\u00e3o Paulo (SP).<\/h6>\n<p>Por isso, escolhi essa obra para uma proposta de leitura em cap\u00edtulos, considerando que a turma j\u00e1 estava bastante acostumada a acompanhar hist\u00f3rias contadas dessa forma. Minha hip\u00f3tese era a de que uma extens\u00e3o maior de tempo para a leitura propiciaria mais momentos de discuss\u00e3o, refinando possibilidades de antecipa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lises de personagens, al\u00e9m de ajustes aos coment\u00e1rios e interpreta\u00e7\u00f5es realizadas nas sess\u00f5es dos dias anteriores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12609 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-9-300x126.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"126\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-9-300x126.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-9-768x322.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-9.png 940w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>As previs\u00f5es podem ser suscitadas ante qualquer texto. Quando nos deparamos com uma narra\u00e7\u00e3o (&#8230;), pode ser mais dif\u00edcil ajust\u00e1-las ao conte\u00fado real e, por isso, \u00e9 importante ajudar as crian\u00e7as a utilizar simultaneamente diversos indicadores \u2013 t\u00edtulos, ilustra\u00e7\u00f5es, o que se conhece sobre o autor etc. \u2013 assim como os elementos que a comp\u00f5em: cen\u00e1rio, personagens, problema, a\u00e7\u00e3o, resolu\u00e7\u00e3o.\u00b3<\/p>\n<p>Nesse sentido, foram definidos como objetivos de trabalho:<br \/>\n\u2666 ajustar as antecipa\u00e7\u00f5es ao conte\u00fado real do texto, levando em conta os indicadores mencionados por Isabel Sol\u00e9;<br \/>\n\u2666 refinar as possibilidades de an\u00e1lise por parte das crian\u00e7as, especialmente focadas nos personagens, observando a descri\u00e7\u00e3o de seus sentimentos e personalidades, com base em seus atos e detalhes de seus atos;<br \/>\n\u2666 iniciar experi\u00eancias de interpreta\u00e7\u00f5es advindas da leitura da obra, levando as discuss\u00f5es para al\u00e9m da tradicional troca de coment\u00e1rios, t\u00e3o peculiar \u00e0s atividades de leitura guiada com crian\u00e7as dessa faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p>Devo dizer que esta foi uma proposta experimental para alunos de 1o ano, seguindo preceitos te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos utilizados na escola, com alunos a partir de fins do 2o ano. Nossa hip\u00f3tese era de que, antecipando esse tipo de trabalho com turmas mais novas, as an\u00e1lises seriam potencializadas e aprofundadas \u2013 bem como interpreta\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios \u2013 nas s\u00e9ries subsequentes, favorecendo, assim, a constru\u00e7\u00e3o de um programa de leituras e atividades que vise \u00e0 forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria inicial.<\/p>\n<p>A escolha por uma obra integral, com 152 p\u00e1ginas, possibilitaria o acesso dos alunos a um t\u00edtulo que, por si mesmos, n\u00e3o poderiam ler com aprofundamento nem analisar as nuances de comportamento dos personagens.<\/p>\n<p><em>[&#8230;] a ideia principal \u00e9 que, precisamente para <\/em><em>aprofundar sua leitura, as crian\u00e7as necessitam <\/em><em>da ajuda de leitores experimentados que lhe <\/em><em>deem pistas e caminhos para construir um sentido <\/em><em>mais satisfat\u00f3rio do significado dos&nbsp;<\/em><em>livros.<sup>4<\/sup><\/em><\/p>\n<hr>\n<h6>3 Estrat\u00e9gias de leitura, de Isabel Sol\u00e9. Porto Alegre: Artmed, 1998, p.109.<br \/>\n4 Andar entre livros \u2013 a leitura liter\u00e1ria na escola, de Teresa Colomer. S\u00e3o Paulo: Global, 2007, p.185.<br \/>\n5 Dispostos em roda, os alunos ouviram a leitura feita pela professora. Tendo em vista sua curta extens\u00e3o, foram lidos dois cap\u00edtulos por dia (com dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 30 minutos, entre a leitura propriamente dita e os coment\u00e1rios\/an\u00e1lises).<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12610 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-9-236x300.png\" alt=\"\" width=\"236\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-9-236x300.png 236w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-9.png 615w\" sizes=\"auto, (max-width: 236px) 100vw, 236px\" \/><\/p>\n<h5>Aquecendo a conversa: primeiras impress\u00f5es<\/h5>\n<p>Em novembro de 2010, minha turma de 1o ano, com 29 alunos entre seis e sete anos, ouviu a leitura em cap\u00edtulos do livro O Pequeno Vampiro, de Angela Sommer-Bodenburg, entremeada por discuss\u00f5es e atividade escrita, envolvendo alguns aspectos da narrativa. As interven\u00e7\u00f5es planejadas criaram condi\u00e7\u00f5es para que as crian\u00e7as inferissem e antecipassem acontecimentos, discorressem acerca dos personagens (atitudes, inten\u00e7\u00f5es) e de alguns fatos da hist\u00f3ria, ampliando, assim, suas possibilidades de coment\u00e1rios, an\u00e1lises e&nbsp;interpreta\u00e7\u00f5es.<sup>5<\/sup><\/p>\n<p>No momento da apresenta\u00e7\u00e3o da obra, incentivei as crian\u00e7as a expressarem suas primeiras impress\u00f5es a partir do t\u00edtulo, das ilustra\u00e7\u00f5es da capa e de informa\u00e7\u00f5es sobre a autora, contidas numa breve biografia publicada em uma das orelhas da publica\u00e7\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o era de que esses coment\u00e1rios fossem retomados e ajustados, \u00e0 medida que se familiarizassem com a narrativa, personagens e&nbsp;acontecimentos.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Uma ressalva importante: n\u00e3o esper\u00e1vamos respostas corretas ou fechadas desses leitores e ouvintes pouco experientes e, ainda, consideramos que a diversidade e poss\u00edvel diverg\u00eancia de opini\u00f5es certamente enriqueceriam discuss\u00f5es e guiariam o desencadeamento das interven\u00e7\u00f5es e dos encaminhamentos.<\/p>\n<p>Durante os dias em que a leitura ocorreu, as quest\u00f5es que norteavam as conversas foram planejadas de modo a favorecer ajustes entre antecipa\u00e7\u00f5es\/desenrolar factual da trama, possibilitar rela\u00e7\u00f5es entre os t\u00edtulos dos cap\u00edtulos e o que vem depois e, tamb\u00e9m, direcionar o foco das crian\u00e7as para determinadas a\u00e7\u00f5es de personagens e acontecimentos que contribu\u00edssem para o desvendamento de personagens e a descoberta do que aconteceria ao final da trama.<\/p>\n<p><em>O guia deve servir para mostrar o modo de vencer <\/em><em>as dificuldades de sentido da obra, oferecer <\/em><em>informa\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para entender determinados <\/em><em>aspectos obscuros e chamar a aten\u00e7\u00e3o <\/em><em>sobre outros aspectos, que suscitem interroga\u00e7\u00f5es <\/em><em>inadvertidas ou que estimulem novas interpreta\u00e7\u00f5es <\/em><em>mais complexas. \u00c9 esse, propriamente, <\/em><em>o campo de trabalho da escola obrigat\u00f3ria.<sup>7<\/sup><\/em><\/p>\n<hr>\n<h6>6 Joy Moss, em A arte de fazer perguntas, de 2002, prop\u00f5e esse tipo de questionamento como favor\u00e1vel para o percurso leitor das crian\u00e7as.<br \/>\n7 COLOMER, Ibidem, p. 183.<br \/>\n8 Transcri\u00e7\u00f5es pessoais de trechos de discuss\u00e3o em aula do 1o ano C, em 5 e 22\/10\/2010, da Escola da Vila \u2013 Unidade Butant\u00e3, em<br \/>\nS\u00e3o Paulo (SP).<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12611 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-10-114x300.png\" alt=\"\" width=\"114\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-10-114x300.png 114w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-10.png 244w\" sizes=\"auto, (max-width: 114px) 100vw, 114px\" \/><\/p>\n<h5>O vampiro morde ou n\u00e3o morde?<\/h5>\n<p>A roda inicial, de apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00e0 sala, deixou os alunos muito animados, e algumas crian\u00e7as ficaram visivelmente assustadas. Rec\u00e9m-vindas de alguns meses de leitura de mitos gregos, ainda processavam a conviv\u00eancia com Medusa, Minotauro, Tif\u00e3o e outros monstros assustadores. Relatos de algumas m\u00e3es acerca de pesadelos recorrentes com tais seres fant\u00e1sticos trouxeram preocupa\u00e7\u00e3o sobre o qu\u00e3o angustiante seria, para os alunos, lidar com a ambiguidade de R\u00fcdiger, o pequeno vampiro do t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Depois de observar a capa e o t\u00edtulo, a grande maioria afirmou que se tratava de uma hist\u00f3ria de terror, ou de aventuras \u201cque d\u00e3o medo\u201d. Houve ligeira discuss\u00e3o acerca da exist\u00eancia de vampiros \u201cna vida real\u201d e, questionados sobre quais personagens acreditavam haver naquela narrativa, disseram:<sup>8<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Crian\u00e7a 1 \u2013 Tem esse vampiro, o da capa. Acho que ele \u00e9 o personagem principal.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 2 \u2013 \u00c9 isso mesmo! S\u00f3 aparece ele na capa, a hist\u00f3ria \u00e9 sobre ele.&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Professora \u2013 Pela imagem da capa, como voc\u00eas acreditam que \u00e9 esse vampiro?<\/em><br \/>\n<em>Algumas crian\u00e7as \u2013 Feio!!!<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 3 \u2013 Ele \u00e9 crian\u00e7a, tem cara de crian\u00e7a&#8230;<\/em><br \/>\n<em>E no t\u00edtulo diz que \u00e9 pequeno&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 4 \u2013 E se for um vampiro an\u00e3o?<\/em><br \/>\n<em>(Muitos risos)<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Crian\u00e7a 3 disse que ele tem cara de crian\u00e7a. Algu\u00e9m mais tem essa opini\u00e3o?<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 5 \u2013 Eu acho que \u00e9, tamb\u00e9m.<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 E por que voc\u00ea pensa assim?<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 5 \u2013 Porque ele est\u00e1 fazendo pose de malvado, mas n\u00e3o parece assim t\u00e3o malvado.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 6 \u2013 Os vampiros s\u00e3o malvados, esse deve ser tamb\u00e9m.<\/em><br \/>\n<em>Algumas crian\u00e7as \u2013 \u00c9 malvado, sim!<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 5 \u2013 Mas a Cl\u00e1udia falou que a autora era professora e que escreveu esse livro pra crian\u00e7as&#8230; N\u00e3o deve ser assim, t\u00e3o assustador&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 7 \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o lembra da (sic) Chapeuzinho Vermelho, que o lobo comeu e n\u00e3o voltou mais? Tem hist\u00f3ria assustadora, tamb\u00e9m!<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Bom, esse \u00e9 um ponto pra gente conferir durante a hist\u00f3ria&#8230; E voc\u00eas acham que h\u00e1 outros personagens?<\/em><br \/>\n<em>Todos \u2013 Sim!<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 4 \u2013 Eu acho que tem outros monstros, tipo (sic) lobisomem, por exemplo.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 8 \u2013 Se ele \u00e9 pequeno, deve aparecer o pai e a m\u00e3e dele tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12612 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-8-126x300.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-8-126x300.png 126w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-8.png 261w\" sizes=\"auto, (max-width: 126px) 100vw, 126px\" \/><\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s essa discuss\u00e3o, optei por ler apenas o primeiro cap\u00edtulo da obra, sobre a vida cotidiana<br \/>\nde Anton, o menino de oito anos que conhece o pequeno vampiro numa noite em que est\u00e1 sozinho Logo ap\u00f3s essa discuss\u00e3o, optei por ler apenas o primeiro cap\u00edtulo da obra, sobre a vida cotidiana de Anton, o menino de oito anos que conhece o pequeno vampiro numa noite em que est\u00e1 sozinho em casa. V\u00e1rios alunos ficaram surpresos pelo fato de a narrativa n\u00e3o se iniciar logo com a entrada do personagem que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra, o que possibilitou discutirmos sobre quem era o real protagonista da hist\u00f3ria. Uma conversa bastante interessante, na qual as opini\u00f5es se dividiram de maneira bem expl\u00edcita. Alguns argumentavam que o personagem principal era, de fato, o menino Anton, pois a hist\u00f3ria, at\u00e9 ali, tratava mais dele e de seus pais do que do vampiro em si. Outros defendiam que, se o t\u00edtulo era O Pequeno Vampiro, o protagonista s\u00f3 poderia ser R\u00fcdiger. Nenhum deles cogitou a hip\u00f3tese de que ambos poderiam ser os personagens centrais, mesmo quando foram provocados a isso.<\/p>\n<p>No decorrer das quatro rodas de hist\u00f3ria que se seguiram, foram lidos mais oito cap\u00edtulos. As crian\u00e7as ainda tendiam a fazer coment\u00e1rios simples, que diziam respeito apenas aos seus personagens prediletos, ou se estavam gostando da hist\u00f3ria, ou, ainda, antecipavam os pr\u00f3ximos acontecimentos, levando em considera\u00e7\u00e3o os t\u00edtulos dos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12613 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-9-300x56.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"56\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-9-300x56.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-9-1024x193.png 1024w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-9-768x144.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-9.png 1026w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Pensando em como poderia, de fato, ampliar as possibilidades das crian\u00e7as, propus uma atividade escrita, individual, realizada assim que ficou mais claro que R\u00fcdiger e Anton (o vampiro e o menino) realmente se tornariam amigos, e que este n\u00e3o seria, de fato, mordido. Como perguntas gen\u00e9ricas<br \/>\nlevariam a respostas igualmente gen\u00e9ricas, vi a necessidade de pensar num foco espec\u00edfico de trabalho<br \/>\ne elaborar quest\u00f5es precisas, cujas respostas pudessem suscitar diferentes an\u00e1lises por parte das crian\u00e7as e, conforme o desejado, levassem-nas mais al\u00e9m em suas possibilidades de discuss\u00e3o liter\u00e1ria. Assim, de acordo com alguns preceitos formulados por Joy Moss<sup>9 <\/sup>e considerando a faixa et\u00e1ria do grupo e suas possibilidades de resposta, foram formuladas tr\u00eas perguntas:<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> No decorrer da hist\u00f3ria, voc\u00ea mudou de opini\u00e3o sobre algum personagem? Por qu\u00ea? (centrada na an\u00e1lise da narrativa)<br \/>\n<strong>2.<\/strong> Como voc\u00ea se sentiria se fosse Anton e se deparasse com um vampiro na janela de seu quarto? (centrada em coment\u00e1rios pessoais a partir de fatos da hist\u00f3ria)<br \/>\n<strong>3.<\/strong> Por que voc\u00ea acha que Anton continua visitando R\u00fcdiger em sua cripta, mesmo com o risco de encontrar algu\u00e9m da fam\u00edlia dele? (centrada em interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, levando em considera\u00e7\u00e3o acontecimentos da trama e personalidade dos personagens)<\/p>\n<hr>\n<h6>9 \u201cEm uma discuss\u00e3o liter\u00e1ria os estudantes n\u00e3o s\u00f3 compartilham e defendem suas ideias, mas tamb\u00e9m descobrem e refletem a respeito dos pontos de vista e interpreta\u00e7\u00f5es dos outros. Esse tipo de interc\u00e2mbio faz com que, muitas vezes, os estudantes voltem a pensar e a aprofundar os contatos iniciais que como leitores tiveram com o texto\u201d. Joy Moss. Literary Discussion in Elementary Classroom, Urban: NCTE (2002).<\/h6>\n<p>Algumas das respostas mais interessantes das crian\u00e7as podem ser conferidas a&nbsp;seguir.<sup>10<\/sup><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12614 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-9-300x247.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-9-300x247.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-9.png 690w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> No decorrer da hist\u00f3ria, voc\u00ea mudou de opini\u00e3o sobre algum personagem? Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2013 Eu achei que os vampiros fossem maus, mas na hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Eu achava que o vampiro era mau, porque geralmente os vampiros s\u00e3o maus. Quando R\u00fcdiger levou Anton \u00e0 cripta, eu achei que ele fosse ser mordido.<br \/>\n\u2013 Eu achei que o pai e a m\u00e3e de Anton iam descobrir que ele tinha um amigo vampiro.<br \/>\n\u2013 Pensei que R\u00fcdiger era mau. Mudei de ideia porque percebi que ele era um vampiro amig\u00e1vel.<br \/>\n\u2013 Eu percebi que o R\u00fcdiger \u00e9 do bem.<br \/>\n\u2013 Eu achava que o Anton era corajoso, mas eu descobri que ele era medroso.<br \/>\n\u2013 Eu achava que o vampirinho era do mal, porque ele apareceu do nada. N\u00e3o acho mais, porque ele n\u00e3o chupou sangue do Anton.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> Como voc\u00ea se sentiria se fosse Anton e se deparasse com um vampiro na janela de seu quarto?<br \/>\n\u2013 Eu n\u00e3o acharia nem um pouco normal.<br \/>\n\u2013 Com um pouco de medo.<br \/>\n\u2013 Com muito medo. Mas, se fosse um vampiro legal, eu gostaria.<br \/>\n\u2013 Com medo, porque \u00e9 um vampiro!<br \/>\n\u2013 Eu n\u00e3o queria me deparar com um vampiro na janela do meu quarto&#8230;<br \/>\n\u2013 Eu acendia a luz ou iria \u00e0 cozinha e pegaria um alho.<br \/>\n\u2013 Eu ia me assustar, porque um vampiro de verdade \u00e9 assustador.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Por que voc\u00ea acha que Anton continua visitando R\u00fcdiger em sua cripta, mesmo com o risco de encontrar algu\u00e9m da fam\u00edlia dele?<br \/>\n\u2013 Porque, como o R\u00fcdiger ficou doente, achei que ele queria cuidar do vampiro.<br \/>\n\u2013 Porque eles eram amigos.<br \/>\n\u2013 Porque ele gosta de R\u00fcdiger.<br \/>\n\u2013 Porque ele virou meu amigo. (Evidencia o quanto este aluno \u201cmergulhou\u201d no ponto de vista do personagem, a ponto de responder como se fosse ele.)<br \/>\n\u2013 Porque ele n\u00e3o tem medo.<br \/>\n\u2013 Porque o Anton \u00e9 muito amigo de R\u00fcdiger.<br \/>\n\u2013 Para ver se ele est\u00e1 bem e para ver a irm\u00e3 de R\u00fcdiger.<br \/>\n\u2013 Porque R\u00fcdiger \u00e9 o melhor amigo de Anton.<\/p>\n<hr>\n<h6>10 Para garantir a compreens\u00e3o, foram corrigidos os deslizes ortogr\u00e1ficos e de pontua\u00e7\u00e3o (com a ressalva de que, no 1o ano do Ensino Fundamental, tais conte\u00fados das pr\u00e1ticas de linguagem n\u00e3o s\u00e3o foco de trabalho).<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12615 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-9-178x300.png\" alt=\"\" width=\"178\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-9-178x300.png 178w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-9.png 451w\" sizes=\"auto, (max-width: 178px) 100vw, 178px\" \/><\/p>\n<p>As respostas formuladas pela classe transformaram-se em focos de discuss\u00e3o. Foi solicitado a eles que indicassem quais partes\/acontecimentos da narrativa haviam sido determinantes para que chegassem \u00e0quelas conclus\u00f5es. Tal movimento \u2013 de voltar ao que j\u00e1 havia sido lido\/ouvido com vistas a justificar as opini\u00f5es obtidas \u2013 permitiu que a maioria dos alunos adotasse uma posi\u00e7\u00e3o mais anal\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria que tanto gostavam de ouvir, sem se limitarem a coment\u00e1rios unicamente relacionados \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o ou ao simples relato do enredo \u2013 o que, indubitavelmente, tornaria as discuss\u00f5es mais vazias.<\/p>\n<p><em>Se fizermos perguntas sobre o \u201cconte\u00fado\u201d <\/em><em>ou \u201csignificado\u201d de um texto, <\/em><em>parece que estamos apenas testando <\/em><em>a compet\u00eancia social de uma <\/em><em>crian\u00e7a (&#8230;). Dessa maneira, tudo o <\/em><em>que as crian\u00e7as que se saem bem <\/em><em>nos testes de compreens\u00e3o demonstram <\/em><em>\u00e9 que podem encontrar a resposta <\/em><em>impl\u00edcita na pergunta. O significado <\/em><em>\u201creal\u201d do texto para o indiv\u00edduo <\/em><em>continua oculto; as crian\u00e7as (talvez para sempre <\/em><em>depois disso) desenvolvem a habilidade de <\/em><em>dizer aquilo que se espera que digam, e bem <\/em><em>podem supor que seus entendimentos pessoais <\/em><em>est\u00e3o, de algum modo, \u201cerrados\u201d \u2013 tal <\/em><em>como aqueles que definem as quest\u00f5es da <\/em><em>prova devem supor que a pr\u00f3pria leitura do <\/em><em>texto \u00e9, de algum modo,&nbsp;<\/em><em>\u201ccorreta\u201d.<sup>11<\/sup><\/em><\/p>\n<p>Exatamente por esse motivo, as escolhas reca\u00edram sobre perguntas mais abertas e discuss\u00f5es que n\u00e3o traziam o car\u00e1ter de certo ou errado. Naquele momento, interessavam as raz\u00f5es nas quais se pautavam para elaborar suas respostas \u2013 se haviam sido, de fato, pensadas com aten\u00e7\u00e3o, ou se as crian\u00e7as estavam encarando apenas como um exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Pude observar que as crian\u00e7as demonstraram uma aproxima\u00e7\u00e3o maior de an\u00e1lises liter\u00e1rias que n\u00e3o estavam evidentes na obra. A amizade entre o menino e o vampiro \u00e9 constantemente mencionada pelas crian\u00e7as, embora o narrador deixe evidente que Anton desconfie da bondade de R\u00fcdiger. Durante a discuss\u00e3o, elas relacionaram diversas situa\u00e7\u00f5es que eram, de fato, demonstra\u00e7\u00e3o de amizade \u2013 mas que, para crian\u00e7as pequenas, n\u00e3o seriam t\u00e3o obviamente mencionadas.<\/p>\n<p>Acredito que, numa pr\u00f3xima oportunidade, a discuss\u00e3o tamb\u00e9m poder\u00e1 ser levada para a an\u00e1lise de outros personagens \u2013 os pais de Anton, por exemplo, e as atitudes do menino em rela\u00e7\u00e3o a eles; pois, mesmo pequenos, poderiam formular hip\u00f3teses sobre suas atitudes \u2013 a descren\u00e7a do pai, a desobedi\u00eancia recorrente do menino, a insist\u00eancia da m\u00e3e em conhecer os amigos do filho&#8230; S\u00e3o os temas presentes no cotidiano das crian\u00e7as que tornam a interpreta\u00e7\u00e3o mais pass\u00edvel de acontecer, mesmo para crian\u00e7as de seis anos.<\/p>\n<hr>\n<h6>11 Cr\u00edtica, teoria e literatura infantil, de Peter Hunt. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2010. p. 135-6.<\/h6>\n<p>Em contrapartida, cremos que uma an\u00e1lise mais aprofundada do narrador, que, apesar de onisciente, conta a hist\u00f3ria do ponto de vista do personagem Anton, n\u00e3o seria t\u00e3o poss\u00edvel, justamente por se tratar de crian\u00e7as de seis anos.<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es mais profundas levaram a turma, tamb\u00e9m, a embarcar na hist\u00f3ria de uma maneira que n\u00e3o havia sido presenciada nas rodas anteriores desse ano. As crian\u00e7as traziam capas de vampiro, dentes e morcegos de pl\u00e1stico para a roda, na tentativa de fazer parte do que estava sendo contado. Brincadeiras no parque sobre a trama eram frequentes. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da leitura na roda, mais de dez meninos e meninas come\u00e7aram a perseguir a cole\u00e7\u00e3o, pedindo aos pais que comprassem ou retirassem na biblioteca outros livros da saga do pequeno vampiro. A roda, assim, transcendeu o espa\u00e7o escolar, fazendo parte tamb\u00e9m do \u00e2mbito familiar, \u00e0 medida que pediam aos pais e av\u00f3s que lessem a hist\u00f3ria com eles. Nas rodas de in\u00edcio do dia, muitos trocavam impress\u00f5es acerca de suas leituras livres, do quanto os personagens se modificavam conforme a saga avan\u00e7ava&#8230; Sentiam-se, de fato, integrantes de uma comunidade leitora. N\u00e3o era um objetivo inicial, mas fomentar essa incurs\u00e3o no universo liter\u00e1rio \u2013 ainda que inicialmente por meio de uma cole\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica \u2013 \u00e9 plantar uma sementinha para que se tornem leitores de literatura por prazer.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12616 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-7-300x69.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"69\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-7-300x69.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-7-768x177.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-7.png 940w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Demos prosseguimento \u00e0 leitura e, no \u00faltimo dia, procurei focar a aten\u00e7\u00e3o da turma para o papel que o narrador teve durante a hist\u00f3ria \u2013 algo poss\u00edvel para esses alunos, que j\u00e1 tiveram contato com narradores em primeira pessoa (no livro-\u00e1lbum O di\u00e1rio do lobo) e com narradores que conversam com os personagens e leitores (no livro A estranha Madame Mizu). Transcrevo, a seguir, um trecho dessa conversa.<\/p>\n<p><em>Professora \u2013 E quem contou essa hist\u00f3ria?<\/em><br \/>\n<em>Poucas crian\u00e7as \u2013 Voc\u00ea!<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 1 \u2013 N\u00e3o! N\u00e3o foi a Clau que (sic) escreveu <\/em><em>o livro, foi aquela alem\u00e3, a Angela&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 2 \u2013 \u00c9, foi ela quem contou a hist\u00f3ria.<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Ser\u00e1 que ela conheceu, de fato, o <\/em><em>Anton e a fam\u00edlia dele?<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 3 \u2013 Ela inventou o Anton, o R\u00fcdiger, a <\/em><em>Ana&#8230; Eles sa\u00edram da cabe\u00e7a dela.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 4 \u2013 Da imagina\u00e7\u00e3o dela.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 2 \u2013 Ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o foi ela quem <\/em><em>contou a hist\u00f3ria.<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Por que n\u00e3o?<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 2 \u2013 Porque ela inventou a hist\u00f3ria, ela <\/em><em>escreveu. A gente j\u00e1 conversou sobre quem escreve<\/em><em>&nbsp;quem conta a hist\u00f3ria, que \u00e9 diferente.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 5 \u2013 \u00c9! Na (hist\u00f3ria da) Madame Mizu, <\/em><em>quem escreveu foi o autor, mas tinha uma outra <\/em><em>(sic) pessoa, que o autor inventou, pra contar <\/em><em>a hist\u00f3ria&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 2 \u2013 Como era o nome, mesmo, Clau?<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Narrador.<\/em><br \/>\n<em>Muitas crian\u00e7as \u2013 Eu lembro!!!<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 E esse narrador do Pequeno Vampiro <\/em><em>\u00e9 igual ao da Madame Mizu?<\/em><br \/>\n<em>Muitas crian\u00e7as \u2013 N\u00e3o&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Por que n\u00e3o? Os dois s\u00e3o narradores&#8230; <\/em><em>Tem diferen\u00e7a entre eles?<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 6 \u2013 Eu n\u00e3o me lembro do narrador do<\/em><br \/>\n<em>Pequeno Vampiro falar com o Anton ou com o <\/em><em>R\u00fcdiger.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 1 \u2013 Ele s\u00f3 contou a hist\u00f3ria, o que <\/em><em>aconteceu.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 7 \u2013 \u00c9 como se algu\u00e9m tivesse assistido <\/em><em>um filme (sic) e contado depois.<\/em><br \/>\n<em>Professora \u2013 Como assim?<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 7 \u2013 A pessoa que contou a hist\u00f3ria j\u00e1 <\/em><em>sabia de tudo que ia acontecer.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 8 \u2013 \u00c9, n\u00e3o precisava perguntar nada <\/em><em>pra ningu\u00e9m.<\/em><br \/>\n<em>Crian\u00e7a 2 \u2013 Ent\u00e3o esse narrador \u00e9 f\u00e1cil de <\/em><em>confundir com autor, porque a gente sabe que <\/em><em>foi o autor quem escreveu e inventou, por isso <\/em><em>sabia tudo&#8230; Esse narrador sabe tudo o que o <\/em><em>autor sabe!<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12617 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-2-300x131.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"131\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-2-300x131.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/10-2.png 695w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Optei por n\u00e3o aprofundar essa discuss\u00e3o, considerando que se tratava de uma turma de crian\u00e7as bem pequenas \u2013 e que, apesar de serem capazes de chegar a conclus\u00f5es t\u00e3o elaboradas para a idade, n\u00e3o conseguiriam compreender todas as implica\u00e7\u00f5es de um narrador onisciente. Assim, deixei-os com suas conclus\u00f5es provis\u00f3rias, para que aprofundem seus pontos de vista no decorrer dos pr\u00f3ximos anos de escolaridade.<\/p>\n<h5>Pe\u00e7a-chave: escolher um conto de qualidade<\/h5>\n<p>As discuss\u00f5es transcritas aqui podem dar a dimens\u00e3o do quanto uma parte significativa das crian\u00e7as da turma foi capaz de chegar a conclus\u00f5es sofisticadas, quando se considera que t\u00eam apenas seis ou sete anos.<\/p>\n<p>Penso que, para al\u00e9m das escolhas did\u00e1ticas referidas, parte dessas aprendizagens se deve \u00e0 obra que a proposta envolveu. O Pequeno Vampiro \u00e9 um exemplo de qualidade na literatura destinada especificamente \u00e0s crian\u00e7as, pois atende a algumas caracter\u00edsticas essenciais para ser considerado como um bom conto: \u00e9 tenso, denso e&nbsp;intenso.<sup>12<\/sup><\/p>\n<p>Encontramos, nele, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es peculiares a uma obra voltada ao p\u00fablico infantil, esses tr\u00eas aspectos. \u00c9 tenso no sentido de deixar o leitor num estado de expectativa, de suspens\u00e3o, temor, maravilhamento, curiosidade&#8230; Afinal, R\u00fcdiger \u00e9 mesmo um vampiro fora dos padr\u00f5es convencionais? Anton est\u00e1 seguro voando com seu novo amigo, visitando-o em sua cripta? E os pais do menino, descobrir\u00e3o a verdade sobre as aus\u00eancias noturnas do filho e a origem da capa preta que encontraram em seu quarto?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12618 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-9-126x300.png\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-9-126x300.png 126w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-9.png 261w\" sizes=\"auto, (max-width: 126px) 100vw, 126px\" \/><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a obra \u00e9 intensa, por haver muitas coisas acontecendo em pouco espa\u00e7o narrativo \u2013 muito sentimento, muita a\u00e7\u00e3o, muitas ideias&#8230; As emo\u00e7\u00f5es do menino se misturam \u00e0s do leitor, que fica na expectativa de descobrir como Anton se desvencilhar\u00e1 das dificuldades que v\u00e3o aparecendo no decorrer da narrativa. Al\u00e9m disso, \u00e9 densa justamente por esse encontro entre tens\u00e3o e intensidade.<\/p>\n<p>Dentre as v\u00e1rias possibilidades presentes no corpus liter\u00e1rio de literatura infantil um pouco mais extensa \u2013 ou seja, que pudesse ser lida em cap\u00edtulos \u2013, essa obra atende \u00e0s caracter\u00edsticas primordiais de um conto. A tem\u00e1tica tamb\u00e9m \u00e9 bastante pertinente para o trabalho com crian\u00e7as pequenas \u2013 o encontro entre um menino cr\u00edvel, pertencente ao mundo real, e um ser fant\u00e1stico, cujas caracter\u00edsticas principais s\u00e3o avessas ao lugar-comum.<\/p>\n<p>Numa idade em que lidam constantemente com seus medos, questionando a exist\u00eancia e o papel do faz de conta no mundo em que vivem, a escolha de uma trama sobre um vampiro que tamb\u00e9m \u00e9 crian\u00e7a, quer fazer amigos, fica doente e faz birra \u00e9 praticamente certeira \u2013 e isso, de alguma forma, pode ajudar os alunos a se envolverem mais com a proposta, tanto da escuta propriamente dita como das discuss\u00f5es e atividades decorrentes desse momento liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Outro ponto presente no conto, segundo Ricardo Piglia (1987, p.37), \u00e9 a presen\u00e7a de duas hist\u00f3rias sendo contadas simultaneamente. Aqui, podemos ver a hist\u00f3ria expl\u00edcita (o encontro e as aventuras de Anton e seu amigo R\u00fcdiger) e a impl\u00edcita (a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o entre o menino e seus pais, o quanto se sente sozinho e incompreendido&#8230;). Apesar do foco de discuss\u00e3o da proposta relatada ter ficado restrito \u00e0 hist\u00f3ria expl\u00edcita, existe a possibilidade de ampli\u00e1-lo ao impl\u00edcito numa nova situa\u00e7\u00e3o de aprendizagem.<\/p>\n<p><em>A voz do contador, seja oral ou seja escrita, sempre pode interferir no seu discurso. H\u00e1 todo&nbsp; um repert\u00f3rio no modo de contar e nos detalhes do modo como se conta \u2014 entona\u00e7\u00e3o de voz, gestos, olhares, ou mesmo algumas palavras e sugest\u00f5es \u2014, que \u00e9 pass\u00edvel de ser elaborado pelo contador, neste trabalho de conquistar e manter a aten\u00e7\u00e3o do seu&nbsp;audit\u00f3rio.<sup>13<\/sup><\/em><\/p>\n<hr>\n<h6>12 Ideias de Julio Cort\u00e1zar referidas por Noemi Jaffe em aula da disciplina Estudos Liter\u00e1rios, na Especializa\u00e7\u00e3o em Alfabetiza\u00e7\u00e3o, do Centro de Forma\u00e7\u00e3o da Escola da Vila, em S\u00e3o Paulo (SP).<\/h6>\n<p>A forma como Angela Sommer-Bodenburg vai tecendo a narrativa, descrevendo ambientes e emo\u00e7\u00f5es a partir do ponto de vista do personagem-menino, tamb\u00e9m contribui para que as crian\u00e7as se envolvam e realmente consigam sentir a tens\u00e3o e a intensidade presentes nessa obra, ambientada quase exclusivamente em cen\u00e1rios \u00famidos, sombrios ou noturnos. Para crian\u00e7as pequenas, que vivem em uma sociedade extremamente visual, descri\u00e7\u00f5es detalhadas s\u00e3o cruciais no sentido de auxiliar a constru\u00e7\u00e3o mental dos ambientes, partes t\u00e3o importantes dessa narrativa especificamente.<\/p>\n<p>Escolher uma obra com elementos t\u00e3o percept\u00edveis, al\u00e9m de contar com uma narrativa bem escrita e com a possibilidade de as crian\u00e7as continuarem seguindo os personagens que se tornaram muito queridos em outras 14 obras da saga, certamente traz contribui\u00e7\u00f5es ben\u00e9ficas para a forma\u00e7\u00e3o do leitor iniciante de literatura. Para al\u00e9m de todos esses pontos positivos, as possibilidades de discuss\u00e3o s\u00e3o bastante amplas, n\u00e3o apenas para crian\u00e7as de 1o ano, mas at\u00e9 para crian\u00e7as mais velhas (at\u00e9 meados do 4o ano), tendo-se sempre o cuidado de aprofundar mais os focos de an\u00e1lise, coment\u00e1rios e interpreta\u00e7\u00f5es quanto mais sofisticadas forem tamb\u00e9m as possibilidades do grupo com o qual ser\u00e1 realizada a proposta.<\/p>\n<hr>\n<h6>13 A teoria do conto, de Nadia Batella Gotlib. http:\/\/terapiadapalavra.com\/2008\/08\/07\/a-teoria-do-conto-nadia-battella-gotlib\/<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA CL\u00c1UDIA SANTOS NICOLAU\u00b2 ESCOLHA DE UM TEXTO CURIOSO FAZ AS CRIAN\u00c7AS SE INTERESSAREM PELA LEITURA E AVAN\u00c7AREM EM SEU CONHECIMENTO SOBRE LEITURA O fant\u00e1stico est\u00e1 presente de maneira muito marcante no cotidiano de crian\u00e7as entre seis e sete anos, seja em suas brincadeiras, seja em sua peculiar maneira de enxergar o mundo. 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