{"id":12556,"date":"2013-02-06T14:19:24","date_gmt":"2013-02-06T16:19:24","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=12556"},"modified":"2022-11-04T17:51:13","modified_gmt":"2022-11-04T20:51:13","slug":"a-cidade-em-pontos-de-bordado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisa-la-53\/a-cidade-em-pontos-de-bordado\/","title":{"rendered":"A cidade em pontos de bordado"},"content":{"rendered":"<p>MARIA DA BETANIA GALAS\u00b9<\/p>\n<hr>\n<p>MEM\u00d3RIA E ARTE APOIAM A CONSTRU\u00c7\u00c3O DA IDENTIDADE EM TURMAS DE EDUCA\u00c7\u00c3O DE JOVENS E ADULTOS\u00b2<\/p>\n<hr>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12557 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-5-300x292.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-5-300x292.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-5.png 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>\u00c0 noite, em vez de aproveitar para descansar, cochilando no trem de volta para casa, Maria Ferreira se concentrava no bordado. Ponto por ponto, entre uma e outra esta\u00e7\u00e3o, observava o vaiv\u00e9m dos passageiros, enquanto os desenhos feitos de linha avan\u00e7avam, dando visibilidade a novas figuras.<\/p>\n<p><em>\u00c9 no trem mesmo que eu aproveito para estudar, para fazer os deveres de casa. N\u00e3o tenho outro tempo. N\u00e3o tenho vergonha de falar isso.<\/em><\/p>\n<p>Uma das perspectivas interessantes dessa hist\u00f3ria \u00e9 que o bordado feito por Maria, no trem, era parte de um projeto da aula de artes do curso que frequenta, \u00e0 noite, no Col\u00e9gio Santa Cruz, em S\u00e3o Paulo. Diferente de outras tarefas que costuma fazer no trajeto de casa para o trabalho, do trabalho para a escola e da escola para casa, o bordado provocou conversas, puxou indaga\u00e7\u00f5es, remexeu nos fios da mem\u00f3ria, encantou os olhos de mais gente, afetando uma comunidade maior que o grupo imediatamente envolvido na atividade.<\/p>\n<hr>\n<h6>1 Professora de Artes Visuais do Ensino M\u00e9dio no curso de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos \u2013 EJA, do Col\u00e9gio Santa Cruz, em S\u00e3o Paulo (SP). \u00c9 tamb\u00e9m professora, orientadora de Artes do Ensino Fundamental II e Ensino M\u00e9dio e coordenadora da disciplina Projeto na Escola Viva, em S\u00e3o Paulo (SP).<br \/>\n2 Curso de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos oferecido pelo Col\u00e9gio Santa Cruz, em S\u00e3o Paulo (SP).<\/h6>\n<p>Este texto apresenta as a\u00e7\u00f5es planejadas, as trajet\u00f3rias ressignificadas e os questionamentos mobilizados durante o processo em que o grupo da fase 2 do Ensino M\u00e9dio de EJA esteve envolvido no projeto S\u00e3o Paulo em pontos de bordado\u00b3.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12558 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-5-300x178.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"178\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-5-300x178.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-5-768x456.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-5.png 849w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h5>Sobre os atores da hist\u00f3ria<\/h5>\n<p>A heterogeneidade \u00e9 um dos matizes mais fortes nos perfis dos grupos de EJA. Temos em uma mesma classe diferen\u00e7as de idade de at\u00e9 quarenta anos ou mais, diversos n\u00edveis de leitura, m\u00faltiplos interesses culturais e forma\u00e7\u00f5es religiosas distintas. Entretanto, heterogeneidade e semelhan\u00e7a possuem peso igual neste contexto. Como em sua maioria os alunos s\u00e3o migrantes ou filhos de migrantes, oriundos principalmente de cidades do interior do Nordeste, eles carregam os tra\u00e7os das tradi\u00e7\u00f5es, da fala e de hist\u00f3rias que marcam as popula\u00e7\u00f5es dessa regi\u00e3o. Todos viveram, em maior ou menor intensidade, o drama de n\u00e3o ter podido seguir os estudos no tempo regular.<\/p>\n<p>Na semelhan\u00e7a, tamb\u00e9m est\u00e3o vinculados por serem representantes do apartheid social que a excludente sociedade brasileira promove para a maioria desprestigiada pol\u00edtica, econ\u00f4mica e culturalmente<sup>4<\/sup>. Por\u00e9m, as caracter\u00edsticas que d\u00e3o singularidade ao grupo que participou do projeto S\u00e3o Paulo em pontos de bordado s\u00e3o a presen\u00e7a de lideran\u00e7as bastante mobilizadoras no sentido de dinamizar as a\u00e7\u00f5es coletivas, a frequ\u00eancia constante da maioria da classe e, consequentemente, um \u00edndice de desist\u00eancia muito pr\u00f3ximo a zero. Fatores positivos que os ajudaram a construir hist\u00f3rias de sucesso, no \u00e2mbito das experi\u00eancias com a arte.<\/p>\n<hr>\n<h6>3 O projeto S\u00e3o Paulo em pontos de bordado foi desenvolvido pela disciplina Artes, no primeiro semestre de 2012, na classe da fase 2 do Ensino M\u00e9dio.<br \/>\n4 De acordo com Orlando Joia, diretor de EJA do Col\u00e9gio Santa Cruz, \u201co p\u00fablico atendido \u00e9 constitu\u00eddo em sua grande maioria por migrantes, dos quais um grande contingente vem dos estados da regi\u00e3o Nordeste (s\u00f3 da Bahia s\u00e3o cerca de 45%). Uma grande maioria dos alunos s\u00e3o empregados dom\u00e9sticos ou trabalhadores em condom\u00ednios, havendo ainda uma certa quantidade de trabalhadores informais, em fun\u00e7\u00f5es de baixa qualifica\u00e7\u00e3o\u201d (Entrevista concedida \u00e0 autora em 13\/10\/2011).<\/h6>\n<h4>Sobre a realidade de EJA<\/h4>\n<p>Do universo de 141,5 milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds de 15 anos ou mais de idade, cerca de 10,9 milh\u00f5es pessoas (7,7%) frequentam ou frequentaram anteriormente algum curso de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos \u2013 EJA.<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\nO principal motivo para o abandono do curso para a maioria dos entrevistados foi a incompatibilidade do hor\u00e1rio das aulas com o hor\u00e1rio de trabalho ou de procurar trabalho (27,9%), seguido pela falta de interesse em fazer o curso (15,6%). Outros motivos que levaram \u00e0 desist\u00eancia dos estudos foram a incompatibilidade do hor\u00e1rio das aulas com o dos afazeres dom\u00e9sticos (13,6%), a dificuldade de acompanhar o curso (13,6%), a inexist\u00eancia de curso pr\u00f3ximo \u00e0 resid\u00eancia (5,5%), a inexist\u00eancia de curso pr\u00f3ximo ao local de trabalho (1,1%), falta de vaga (0,7%) e outro motivo (22,0%).<br \/>\n[&#8230;] Com rela\u00e7\u00e3o ao rendimento, o maior percentual de pessoas que frequentavam EJA, na \u00e9poca da pesquisa, foi daquelas que estavam na faixa de at\u00e9 \u00bc do sal\u00e1rio m\u00ednimo (3,0%) e as que n\u00e3o tem rendimento (2,6%). A maioria dos que cursavam EJA era formada por pessoas que se declaravam pardas (47,2%), seguidas por brancas (41,2%), pretas (10,5%) e de outra cor ou ra\u00e7a (1,1%)\u201d.<\/p>\n<h6>Dados coletados pelo IBGE, em 2007. Fonte: IBGE. Dispon\u00edvel em: www.ibge.gov.br\/home\/presidencia\/noticias\/noticia_visualiza.php?d_noticia=1375&amp;id_pagina=1<\/h6>\n<h5>Arte, identidade e mem\u00f3ria<\/h5>\n<p>Algumas reflex\u00f5es levaram \u00e0s escolhas curriculares aqui apresentadas, entre elas a de Tomaz Tadeu Silva<sup>5,&nbsp;<\/sup>que diz:<\/p>\n<p>O conte\u00fado do curr\u00edculo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social. Como toda constru\u00e7\u00e3o social, o curr\u00edculo n\u00e3o pode ser compreendido sem uma an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es de poder que fizeram e fazem com que tenhamos esta defini\u00e7\u00e3o determinada de curr\u00edculo e n\u00e3o outra, que fizeram e fazem com que o curr\u00edculo inclua um tipo determinado de conhecimento e n\u00e3o outro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12559 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-5-240x300.png\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-5-240x300.png 240w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/3-5.png 384w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/p>\n<p>No caso dos alunos de EJA, a escolha de conte\u00fados e processos implica o entendimento de que os estudantes, aos quais se destinam as escolhas, s\u00e3o avaliados negativamente pela sociedade, e lutam pela incorpora\u00e7\u00e3o de seus valores culturais \u00e0 sociedade mais ampla. O foco principal, tendo em vista esse quadro de tens\u00f5es, s\u00e3o as conex\u00f5es entre identidade cultural, identidade social, curr\u00edculo, significa\u00e7\u00e3o e poder.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 ministrou aulas para grupos de EJA sabe que as atividades que buscam o protagonismo do aluno por meio de narrativas pessoais, em que a mem\u00f3ria do aluno \u00e9 solicitada, costumam ser muito bem acolhidas pelo grupo. O prazer e a compet\u00eancia com que s\u00e3o elaboradas estas narrativas n\u00e3o deixam d\u00favidas quanto \u00e0 necessidade de afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade e de um lugar social pelo aluno.<\/p>\n<hr>\n<h6>5 Documentos de identidade: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias do curr\u00edculo. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 1999.<\/h6>\n<p>Ocorre que, se por um lado, a evoca\u00e7\u00e3o de uma identidade pelos relatos de mem\u00f3ria traz o conforto do pertencimento a um grupo social e cultural, imprimindo sentido e significa\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria vida, por outro, o lugar que a sociedade imp\u00f5e a este mesmo grupo social \u00e9 o lugar do exotismo, da inferioridade intelectual, do n\u00e3o civilizado. Para o migrante pobre, as origens, percept\u00edveis nas marcas f\u00edsicas, econ\u00f4micas e culturais, tornam-se um impedimento, um muro erguido pelo preconceito baseado na diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma evid\u00eancia do que foi dito antes est\u00e1 na pr\u00f3pria din\u00e2mica social da arte. Aplaude-se a arte popular, mas os artistas e artes\u00e3os, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o destaque nos acervos e exposi\u00e7\u00f5es de galerias e museus.<\/p>\n<h5>Definir as escolhas curriculares<\/h5>\n<p>Embora envolva an\u00e1lises bastante complexas, certamente deveriam entrar em jogo, nos processos de escolha, as quest\u00f5es relacionadas \u00e0 mem\u00f3ria, a identidade e a diferen\u00e7a, de modo que as motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, culturais e institucionais que est\u00e3o na base das rela\u00e7\u00f5es de assimetria e desigualdade social possam ser avaliadas, pensadas e redefinidas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12560 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-6-300x138.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"138\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-6-300x138.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-6-768x353.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/4-6.png 986w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Portanto, partir do saber e da realidade do aluno, valorizando sua viv\u00eancia para gerar aprendizagens, parece ser um caminho claro, mas nem por isso mais f\u00e1cil. Pelo compartilhamento desse saber o aluno deveria adquirir tr\u00e2nsito em outros segmentos mais favorecidos da sociedade. A sua identidade cultural n\u00e3o pode ser fixada como marca imut\u00e1vel, mas como uma possibilidade de troca, de mudan\u00e7a, de reposicionamento social.<\/p>\n<p>Neste sentido, n\u00e3o basta partir do conhecimento do aluno, mas garantir sua legitimidade. Dar voz ao aluno significa mais do que ouvir a sua opini\u00e3o. As vozes precisam ser autorizadas pelo reconhecimento de que tamb\u00e9m as formas de conhecer por tr\u00e1s dessas vozes s\u00e3o v\u00e1lidas. E mais, o fortalecimento dessas vozes s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no contexto de uma educa\u00e7\u00e3o transcultural que possibilita refletir a partir de diversos pontos de vista.<\/p>\n<h5>Um curr\u00edculo transcultural<\/h5>\n<p>A arte \u00e9 uma forma de abordagem do mundo, uma forma de leitura e indaga\u00e7\u00e3o, de conhecimento e de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa forma, o curr\u00edculo deve ser escolhido pela sua capacidade de convidar \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o, \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o e \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o de julgamentos pela diversifica\u00e7\u00e3o de ideias. Por meio da experi\u00eancia com a arte o aluno poder\u00e1 unir suas narrativas pessoais a outros relatos culturais mais abrangentes, compreendendo que o conhecimento se constr\u00f3i numa rede social bem mais complexa do que a que vivemos com nossos pares.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12561 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-4-228x300.png\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-4-228x300.png 228w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/5-4.png 621w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12562 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-5-227x300.png\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-5-227x300.png 227w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/6-5.png 622w\" sizes=\"auto, (max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><\/p>\n<p>Por isso, se nos museus, arte e artistas s\u00e3o divididos e hierarquizados por crit\u00e9rios de distin\u00e7\u00e3o e de domina\u00e7\u00e3o cultural, nas aulas de arte Da Vinci (1452-1519), Picasso (1881-1973), Aleijadinho (1738-1814), Adriana Varej\u00e3o (1964-), Nh\u00f4 Caboclo (1910-1976) e J. Borges (1935-) devem dividir o mesmo espa\u00e7o. As hist\u00f3rias orais do sert\u00e3o, as narrativas dos passageiros dos \u00f4nibus de S\u00e3o Paulo, as picha\u00e7\u00f5es dos muros e as cr\u00f4nicas dos jornais s\u00e3o bons interlocutores para cria\u00e7\u00e3o. A linha feita a l\u00e1pis na tela digital, a linha escavada na matriz de gravura para o folheto de cordel, a linha que constr\u00f3i tecidos e tapetes em comunidades piauienses, e a linha que engendra os bordados feitos pela fam\u00edlia Dumont, em Minas Gerais, nos ensinam a ver, pensar e fazer o desenho, a descobrir a cor na composi\u00e7\u00e3o, a perceber os contrastes de luz e sombra, a ocupar significativamente o espa\u00e7o, a dominar a forma, a desvendar a linguagem visual.<\/p>\n<h5>S\u00e3o Paulo em pontos de bordado<\/h5>\n<p>Da preocupa\u00e7\u00e3o em oferecer um curr\u00edculo transcultural, capaz de unir as possibilidades culturais que uma metr\u00f3pole como S\u00e3o Paulo propicia com&nbsp; os saberes dos alunos, nasceu o projeto S\u00e3o Paulo em pontos de bordado.<\/p>\n<p>Algumas vezes, durante o curto espa\u00e7o de um semestre, estudantes e professores compartilham algum tipo de acontecimento em que a sala de aula muda de lugar e os modos de aprender e ensinar \u2013 dadas as situa\u00e7\u00f5es imprevistas \u2013 se transformam, abrindo oportunidades de apreens\u00e3o que antes n\u00e3o existiam.<\/p>\n<p>Um desses acontecimentos foi uma caminhada noturna pelas ruas do centro hist\u00f3rico da cidade de S\u00e3o Paulo. Por tr\u00eas horas, as constru\u00e7\u00f5es do tempo do Imp\u00e9rio surgiram de tr\u00e1s das cortinas do passado por meio das hist\u00f3rias de seus personagens, lugares e maneiras de viver, ati\u00e7ando quest\u00f5es e provocando vontades de ver, de sentir e de dizer mais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12563 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-5-300x187.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-5-300x187.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-5-768x479.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-5-436x272.png 436w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/7-5.png 964w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Na volta, os alunos mostraram-se bastante entusiasmados com o que viram e ouviram. A maioria n\u00e3o conhecia o centro antigo e ficaram maravilhados com as muitas camadas ou cidades que se escondem na metr\u00f3pole moderna e fren\u00e9tica. Era como se tivessem descoberto os outros cora\u00e7\u00f5es que batiam no corpo da cidade.<\/p>\n<p>Saber captar um assunto que, inesperadamente, mostra-se capaz de sensibilizar o pensamento individual e a experi\u00eancia do grupo, \u00e9 uma das habilidades que um professor de arte n\u00e3o pode deixar de desenvolver.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed a vontade que se instalou no grupo Revista avisa l\u00e1 fevereiro de 2013 deu lugar ao olhar receptivo e criterioso. Passamos ent\u00e3o a visitar outras camadas escondidas de S\u00e3o Paulo, com o aux\u00edlio dos registros fotogr\u00e1ficos realizados por grandes artistas da c\u00e2mera, de Gaensly a Cristiano Mascaro. Muitos livros sobre S\u00e3o Paulo foram folheados para que se pudesse encontrar uma fotografia que, de algum modo, produzisse no aluno-leitor de imagem movimentos de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada aluno escolheu uma foto de S\u00e3o Paulo que dissesse algo sobre ele.<\/p>\n<p>Escolhidas e defendidas as escolhas. A ideia de intervir na cidade, como uma m\u00e1gica que pudesse trazer de volta certa po\u00e9tica perdida, foi a r\u00e9gua e o compasso que faltavam para que se delineasse um projeto em que as interven\u00e7\u00f5es seriam feitas nas pr\u00f3prias fotografias.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o teria de ser algo que, sa\u00eddo do universo do aluno, pudesse marcar a metr\u00f3pole paulistana rec\u00e9m-descoberta na caminhada noturna e nos livros de fotografia.<\/p>\n<p><em>Foi o trabalho mais delicioso que j\u00e1 fiz.<\/em><br \/>\n<em>Quanto mais eu fazia, mais eu tinha vontade.<\/em><br \/>\n<em>A escolha da foto foi assim:<\/em><br \/>\n<em>Desde a fase 5, quando a professora Maggi, <\/em><em>de Hist\u00f3ria, me disse onde S\u00e3o Paulo come\u00e7ava, <\/em><em>que eu comecei a me interessar por S\u00e3o <\/em><em>Paulo antigo.<\/em><br \/>\n<em>Quando comecei a olhar os livros de fotografia, <\/em><em>escolhi a Igreja.<\/em><br \/>\n<em>Saber que S\u00e3o Paulo come\u00e7ou ali&#8230;<\/em><br \/>\n<em>O bordado, eu fazia n\u00e3o sei quantas vezes e <\/em><em>desmanchava. Da\u00ed, as cores que eu mais gostei <\/em><em>de bordar foi com o azul e o vermelho.<\/em><br \/>\n<em>A minha irm\u00e3 viu e adorou. A minha patroa viu <\/em><em>no site da escola e disse que eu sou uma artista.<\/em><br \/>\n<em>Ana Rita, 51, dom\u00e9stica<\/em><\/p>\n<p><em>Foi uma experi\u00eancia muito boa, \u00fanica.<\/em><br \/>\n<em>No come\u00e7o, eu achava que n\u00e3o tinha capacidade <\/em><em>de fazer.<\/em><br \/>\n<em>Depois de pronto, foi uma satisfa\u00e7\u00e3o fora de <\/em><em>s\u00e9rie.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 que antes tudo passava despercebido.<\/em><br \/>\n<em>Agora consigo ver mais.<\/em><br \/>\n<em>A mente abriu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte.<\/em><br \/>\n<em>Leonice de Souza Brito, massagista<\/em><\/p>\n<p>O bordado, que tantas vezes era visto nas m\u00e3os das av\u00f3s e observado com admira\u00e7\u00e3o nas colchas e toalhas vendidas nas feiras do interior e nos camel\u00f4s de S\u00e3o Paulo, foi a linguagem escolhida para intervir na fotografia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12564 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-5-300x192.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"192\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-5-300x192.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-5-768x492.png 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/8-5.png 916w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Al\u00e9m de observar as obras de alguns artistas que se utilizaram do bordado para criar suas obras, como Arthur Bispo do Ros\u00e1rio (1909-1989) e Divino Sobral (1966-), os belos bordados criados pela fam\u00edlia Dumont para ilustrar livros e a pesquisa em livros sobre pontos de bordado foram inspira\u00e7\u00f5es determinantes. No processo de produ\u00e7\u00e3o, enquanto as linhas coloridas avan\u00e7avam entre as sombras e luzes da fotografia impressa em tecido, problemas concretos surgiam solicitando novas ideias e solu\u00e7\u00f5es. Como em todo fazer po\u00e9tico, pensar, criar e realizar aconteciam simultaneamente.<\/p>\n<p>Assim, este jogo de cria\u00e7\u00e3o produziu um pensamento que se fez por meio das cores, das texturas e dos novos volumes e planos redesenhados em linhas. O resultado final \u00e9 uma obra que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais sobre S\u00e3o Paulo, mas sobre toda essa experi\u00eancia inscrita na superf\u00edcie fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o dos trabalhos na biblioteca da escola foi muito importante para o grupo. Nas classes de EJA, esta \u00e9 uma etapa que deve ser bastante cuidada, pois \u00e9 o momento em que existe a possibilidade de troca com outros grupos sociais. Habituados cotidianamente \u00e0 invisibilidade, por desempenhar fun\u00e7\u00f5es na vida profissional que os colocam nesta condi\u00e7\u00e3o, a oportunidade de falar para uma comunidade mais ampla, por meio de suas cria\u00e7\u00f5es, \u00e9 fundamental para que se possa reduzir os estere\u00f3tipos negativos que recaem sobre o grupo e consequentemente fazer crescer a autoestima positiva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12565 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-4-300x247.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"247\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-4-300x247.png 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9-4.png 514w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Enfim, \u201co que importa n\u00e3o \u00e9 nem vencer o caos nem fugir dele, mas conviver com ele e dele tirar possibilidades&nbsp;criativas\u201d<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<hr>\n<h6>6 In: GALLO, Silvio. Deleuze e a educa\u00e7\u00e3o. Belo Horizonte, Aut\u00eantica, 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA DA BETANIA GALAS\u00b9 MEM\u00d3RIA E ARTE APOIAM A CONSTRU\u00c7\u00c3O DA IDENTIDADE EM TURMAS DE EDUCA\u00c7\u00c3O DE JOVENS E ADULTOS\u00b2 \u00c0 noite, em vez de aproveitar para descansar, cochilando no trem de volta para casa, Maria Ferreira se concentrava no bordado. Ponto por ponto, entre uma e outra esta\u00e7\u00e3o, observava o vaiv\u00e9m dos passageiros, enquanto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":227,"featured_media":14408,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1513],"tags":[],"class_list":{"0":"post-12556","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisa-la-53","9":"post-with-thumbnail","10":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/227"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12556"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12556\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}