{"id":11348,"date":"2021-01-21T13:54:32","date_gmt":"2021-01-21T16:54:32","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=11348"},"modified":"2021-01-21T14:55:13","modified_gmt":"2021-01-21T17:55:13","slug":"avisa-la-indica-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/noticias\/avisa-la-indica-3\/","title":{"rendered":"Avisa L\u00e1 Indica #3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">No primeiro <strong>Avisa L\u00e1 Indica<\/strong> de 2021, Ana Carolina Carvalho apresenta um lan\u00e7amento especial e ainda nos brinda com sua leitura sens\u00edvel, em um texto complementar, abaixo do v\u00eddeo.<br \/>\nClique na imagem para assistir<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=i3mHJBGARbo&amp;feature=youtu.be\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-11345\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Avisa-la-Indica-Lili-3-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"396\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Avisa-la-Indica-Lili-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Avisa-la-Indica-Lili-3-768x431.jpg 768w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Avisa-la-Indica-Lili-3.jpg 956w\" sizes=\"auto, (max-width: 396px) 100vw, 396px\" \/><\/a><\/p>\n<p>____________________________________________________________________<\/p>\n<p><strong>Uma leitura da alma perdida<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Ana Carolina Carvalho<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nada \u00e9 por acaso. Os livros nos encontram, nos ca\u00e7am. E generosos, nos deixam achar que fomos n\u00f3s quem o achamos numa livraria, num site, na caixa de correio, na estante de casa. Tem sempre a hora certa de l\u00ea-los.<\/p>\n<p>Assim foi com <em>A Alma perdida<\/em>, o livro da escritora polonesa Olga Tokarczuk rec\u00e9m-publicado no Brasil. Trata-se de um livro ilustrado, ali\u00e1s, belamente ilustrado pela tamb\u00e9m polonesa Joanna Concejo. Muitos poder\u00e3o dizer que \u00e9 um livro infanto-juvenil, mas eu mesma j\u00e1 desisti desse ap\u00eandice, posto que os bons livros nos oferecem muitas camadas de leitura e, desse modo, chegam de diferentes maneiras aos muitos leitores que encontram, crian\u00e7as, jovens, adultos. Uma crian\u00e7a poderia encontrar esse livro e ter a certeza de que ele foi escrito para ela, naquele momento de sua vida. Assim como um jovem, questionando-se sobre o sentido da vida, ou ent\u00e3o um adulto, na meia idade, perguntando-se sobre os caminhos tomados.<\/p>\n<p>Fiquemos simplesmente com a denomina\u00e7\u00e3o livro ilustrado. E ofere\u00e7o aqui a minha leitura. Mulher adulta, meia idade.<\/p>\n<p>Tomei o livro em minhas m\u00e3os. Ele chegou-me pelo correio. Tudo em sua capa me remeteu a um passado, algo antigo, desde a cor do papel, amarelecido com pequenas manchas, como uma carta adormecida h\u00e1 anos em uma gaveta &#8211; papel fr\u00e1gil, cheio de hist\u00f3rias \u2013 at\u00e9 a ilustra\u00e7\u00e3o de Joanna, compondo um singelo cen\u00e1rio aludindo a uma vida: uma velha mala de viagem, a cadeira de costas, um palet\u00f3 em seu espaldar e uma inusitada presen\u00e7a acomodada em seu estofado: um vaso de planta. O verde se espalhando, querendo crescer, seus caules como bra\u00e7os, talvez buscando mais do que o passado inerte. Em contraposi\u00e7\u00e3o, no ch\u00e3o, um pequenino vaso de outra planta, sem cor, t\u00edmida, atrofiada.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia com o passado segue nas folhas de guarda, forradas por um papel de parede antigo e carcomido. Junto \u00e0 dobra da p\u00e1gina, uma imagem bastante melanc\u00f3lica, como se estivesse sido posta h\u00e1 muitos anos, no meio de um livro, esquecida. Cena de uma cidade qualquer em dia de inverno. Essa imagem \u00e9 reveladora do que vir\u00e1. Nas p\u00e1ginas iniciais, cenas invernais vistas do alto. O leitor \u00e9 colocado no lugar de quem olha a vida passando em um parque coberto de neve, pessoas caminhando, suas pegadas, crian\u00e7as brincando, adultos indo para l\u00e1 e para c\u00e1.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, a ep\u00edgrafe que nos empresta uma lente para observar melhor essas cenas: <em>Se algu\u00e9m pudesse nos olhar do alto, veria que o mundo est\u00e1 repleto de pessoas que andam apressadas, suadas e exaustas, e tamb\u00e9m veria suas almas, atrasadas e perdidas no caminho&#8230; <\/em><\/p>\n<p>Algu\u00e9m, o leitor, nos olha? \u00a0Somos n\u00f3s mesmo, o leitor e esses que perderam a sua alma. Olhamos melhor as cenas iniciais. Ela nos retrata. Crian\u00e7as brincam e est\u00e3o sempre em pares, os adultos v\u00e3o para l\u00e1 e para c\u00e1. Olga e Joanna nos mostram para que serve a literatura: ela nos revela. Se aceitamos esse espelho, nos encontramos. E talvez tenhamos a chance de reencontrar nossa alma perdida.<\/p>\n<p>O enredo \u00e9 simples. Jo\u00e3o, homem de meia idade, leva uma vida apressada e dedicada ao trabalho. Faz coisas. O dia todo. Faz, faz, faz. E acha que a vida \u00e9 isso, assim est\u00e1 bom, a vida \u00e9 boa. Sem tr\u00e9gua, sem sentido. Boa? S\u00f3 para que n\u00e3o tem alma. Assim \u00e9. A alma de Jo\u00e3o h\u00e1 muito est\u00e1 perdida, n\u00e3o conseguiu acompanhar seu ritmo insano e sem sentido. Uma vida sem experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o \u00e9 o homem moderno. \u00c9 o nosso retrato. Relembro Agamben<a name=\"_ftnref1\"><\/a><a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>: \u201cO homem moderno volta para casa \u00e0 noitinha extenuado por uma mix\u00f3rdia de eventos &#8211; divertidos ou ma\u00e7antes, banais ou ins\u00f3litos, agrad\u00e1veis ou atrozes -, entretanto nenhum deles se tornou experi\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, ele colapsa. O personagem dessa f\u00e1bula moderna\/contempor\u00e2nea n\u00e3o se reconhece mais. N\u00e3o \u00e0 toa, o colapso acontece em um quarto de hotel, ambiente impessoal. Como era seu nome? Quem era ele? No espelho, apenas uma <em>mancha imprecisa<\/em>. Onde ele estava? <em>Olhou pela janela, mas n\u00e3o sabia muito bem em que cidade se encontrava, porque vistas das janelas dos hot\u00e9is, todas as cidades parecem iguais. <\/em><\/p>\n<p>Ao procurar uma m\u00e9dica, Jo\u00e3o recebe o diagn\u00f3stico: sua alma est\u00e1 perdida. A raz\u00e3o est\u00e1 na forma que Jo\u00e3o encontrou para viver. Sem respiro, sem contempla\u00e7\u00e3o, sem tempo para a experi\u00eancia. <em>As almas se movimentam numa velocidade muito menor que a dos corpos. <\/em>Resta esperar por ela. Dar-se o tempo, finalmente.<\/p>\n<p>Retirar-se.<\/p>\n<p>Enquanto espera sua alma, paisagens sem cor ocupam as p\u00e1ginas do livro. O entorno \u00e9 sempre branco e preto. Tudo est\u00e1 meio borrado. At\u00e9 que em meio aos cen\u00e1rios escuros, surge algu\u00e9m. Uma crian\u00e7a atravessa cenas, passa por situa\u00e7\u00f5es em que est\u00e1 sempre observando. Como se estivesse vivendo a vida passada de Jo\u00e3o, tentando apreend\u00ea-la. Uma tarde em um caf\u00e9, uma festa, um dia na praia, uma viagem de trem&#8230;<\/p>\n<p>O fora e o dentro. Jo\u00e3o aguarda sua alma em casa. Em sua vida quadriculada. Austera. O tempo passa, animais o visitam, seus cabelos crescem, sua barba cobre seu rosto, as plantas se avolumam. Mas tudo ainda \u00e9 cinza.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia&#8230; De uma janela da casa em que ele est\u00e1, uma crian\u00e7a o observa. Pela primeira vez, uma planta verde est\u00e1 no colo de Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua vida ganha a primeira cor.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o pode finalmente viver uma experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Sem pressa.<\/p>\n<p>A alma perdida, Olga Tokarczuk e Joanna Concejo<\/p>\n<p>Editora Todavia.<br \/>\n_________________________________________________________<\/p>\n<p><a name=\"_ftn1\"><\/a><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> AGAMBEN, G.\u00a0<em>Inf\u00e2ncia e Hist\u00f3ria:<\/em>\u00a0destrui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e origem da hist\u00f3ria. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro Avisa L\u00e1 Indica de 2021, Ana Carolina Carvalho apresenta um lan\u00e7amento especial e ainda nos brinda com sua leitura sens\u00edvel, em um texto complementar, abaixo do v\u00eddeo. Clique na imagem para assistir ____________________________________________________________________ Uma leitura da alma perdida \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":226,"featured_media":11345,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1427,1,1418],"tags":[1350,1537,1535],"class_list":{"0":"post-11348","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-avisa-la-indica","8":"category-noticias","9":"category-novidades","10":"tag-avisa-la","11":"tag-livro-ilustrado","12":"tag-livro-infanto-juvenil","14":"post-with-thumbnail","15":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/226"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11348\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11345"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}