{"id":10649,"date":"2020-05-31T15:30:45","date_gmt":"2020-05-31T18:30:45","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=10649"},"modified":"2020-07-25T10:13:43","modified_gmt":"2020-07-25T13:13:43","slug":"outra-escola-e-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/noticias\/outra-escola-e-possivel\/","title":{"rendered":"Ana Carolina Carvalho -Outra escola \u00e9 poss\u00edvel?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-10650 size-medium\" src=\"https:\/\/www.avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/imagem-texto-Lili-189x300.png\" alt=\"\" width=\"189\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/imagem-texto-Lili-189x300.png 189w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/imagem-texto-Lili.png 314w\" sizes=\"auto, (max-width: 189px) 100vw, 189px\" \/><\/p>\n<p><em>O que o distanciamento social durante a pandemia pode nos ensinar?<\/em><\/p>\n<p>Ana Carolina Carvalho<\/p>\n<p>Em um recente semin\u00e1rio online, o educador e cartunista italiano Francesco Tonucci afirma que se o corona v\u00edrus est\u00e1 mudando o mundo, n\u00e3o h\u00e1 como a escola passar ilesa por esse processo. De fato. Estamos observando mudan\u00e7as nos modos de nos relacionarmos, nos cuidados cotidianos com a higiene, nas atividades culturais, nos formatos dos encontros com as pessoas e nos usos das redes e atividades online. Mudan\u00e7as que dever\u00e3o estar presentes por um bom tempo ainda, pelo que estamos acompanhando.<\/p>\n<p>E a escola? Como reage ou como pode reagir diante de todas essas novidades?<\/p>\n<p>A necessidade de mudan\u00e7a bate \u00e0s portas da escola faz um bom tempo. Quantas vezes j\u00e1 n\u00e3o ouvimos, aqui e ali, quantas vezes j\u00e1 n\u00e3o lemos reflex\u00f5es sobre como o dispositivo escolar est\u00e1 defasado em rela\u00e7\u00e3o aos jovens, aos modos de ser e estar na contemporaneidade?<\/p>\n<p>Certa vez, ouvi uma anedota que dizia o seguinte: uma pessoa veio direto do s\u00e9culo XIX para a atualidade. Ela estranharia uma s\u00e9rie de coisas: os computadores, os celulares, as nossas roupas&#8230; Mas se sentiria em casa na escola: esse lugar ela reconheceria sem crises. N\u00e3o \u00e9 estranho que o mundo tenha mudado tanto e a escola permane\u00e7a praticamente da mesma maneira? Cadeiras enfileiradas, um quadro negro, o professor \u00e0 frente da turma.<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga argentina radicada no Rio de Janeiro, Paula Sibilia, em seu interessante livro <em>Redes ou Paredes, a escola em tempos de dispers\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>, aponta que a tecnologia escolar que conhecemos concebida na \u00e9poca moderna como projeto fundamental dos Estados, que deveriam preparar seus cidad\u00e3os para o mundo, mas fora do mundo, se traduz numa \u201caparelhagem incompat\u00edvel com os corpos e subjetividades das crian\u00e7as de hoje\u201d, e que, portanto, a escola seria ent\u00e3o, uma \u201cm\u00e1quina antiquada\u201d.<\/p>\n<p>A tecnologia rege grande parte do que acontece no mundo, ou ao menos est\u00e1 presente em grande parte daquilo que acontece no mundo. Basta pensar naquilo que muitos de n\u00f3s fazemos todos os dias \u2013 e ainda mais agora: quantos dias somos capazes de n\u00e3o olhar e-mail, n\u00e3o acessar um v\u00eddeo ou texto na internet, n\u00e3o nos comunicarmos por aplicativos como o whatsApp, por exemplo? Quanto de nossos conhecimentos n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddos por meio do mundo digital?<\/p>\n<p>A BNCC<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, documento normativo que rege os curr\u00edculos de todas as escolas do pa\u00eds, sejam elas p\u00fablicas ou particulares, \u00e9 bem claro ao afirmar que \u00e9 preciso que os estudantes brasileiros possam:<\/p>\n<p><em>\u201cCompreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de forma cr\u00edtica, significativa, reflexiva e \u00e9tica nas diversas pr\u00e1ticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informa\u00e7\u00f5es, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.\u201d (BNCC, 2018)<\/em><\/p>\n<p>Embora prevista em um documento normativo, observamos que a tecnologia, visando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o desses cidad\u00e3os que acessam conte\u00fados da rede ou sabem produzir conte\u00fados para a rede, expressando-se por meio das ferramentas dispon\u00edveis no mundo virtual n\u00e3o est\u00e1 realmente presente na escola.<\/p>\n<p>E como a atual situa\u00e7\u00e3o pode nos ajudar a avan\u00e7ar nessa seara?&nbsp; A primeira coisa \u00e9 nos darmos conta que, de modo geral \u2013 sempre h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, claro! \u2013 a escola ainda n\u00e3o sabe muito bem como incluir a tecnologia. Trabalhar com a tecnologia no contexto escolar n\u00e3o significa transpor conte\u00fados presenciais para o formato online, por exemplo. Significa realmente construir conhecimento por meio das redes, produzir conte\u00fado para as redes, dominar as ferramentas dispon\u00edveis na internet.<\/p>\n<p>Outra constata\u00e7\u00e3o que a necessidade do ensino remoto nos escancarou diz respeito \u00e0 desigualdade de acesso \u00e0 internet. Nesta semana, uma mat\u00e9ria do Jornal A folha de S\u00e3o Paulo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> revelou que cerca de 42 milh\u00f5es de pessoas no Brasil <u>nunca<\/u> acessaram a internet. \u00c9 estarrecedor. E outra reportagem gravada em podcast<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> tamb\u00e9m nos trouxe um panorama assustador: cerca de 70 milh\u00f5es t\u00eam acesso prec\u00e1rio \u00e0 internet ou n\u00e3o tem nenhum acesso, apesar de j\u00e1 ter acessado alguma vez na vida. O que isso significa? Que boa parte de nossa popula\u00e7\u00e3o acessa a internet por meio de pacotes de dados, que incluem apenas whatsApp e facebook. O restante que est\u00e1 dispon\u00edvel na rede, como v\u00eddeos do youtube, por exemplo, \u00e9 rapidamente consumido e portanto, pouco acessado.<\/p>\n<p>Bem, aqui tocamos num ponto: se a escola \u00e9 p\u00fablica e se ela precisa formar cidad\u00e3o para o mundo digital, ent\u00e3o n\u00e3o ter\u00edamos, como sociedade, que fornecer meios para isso. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o para este momento, simplesmente. \u00c9 uma quest\u00e3o que diz respeito a garantir igualdade de direitos a todos os estudantes do Brasil. \u00c9 preciso que essas oportunidades e experi\u00eancias sejam vividas na escola e fora dela, j\u00e1 participar de uma rede \u00e9 poder acessar da escola, de casa, em outros locais,<\/p>\n<p>Outro aspecto que nos chamou \u00e0 aten\u00e7\u00e3o: a forma\u00e7\u00e3o dos professores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia. Estamos cuidando da defasagem da forma\u00e7\u00e3o de nossos professores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia, j\u00e1 que a grande parte de nossos docentes n\u00e3o s\u00e3o nativos digitais? O quanto isso tem sido pensado nos programas de forma\u00e7\u00e3o, nos hor\u00e1rios de trabalho pedag\u00f3gico coletivo nas escolas, o quanto as redes t\u00eam amparado os educadores e olhado para essa necessidade urgente das escolas?<\/p>\n<p>Precisamos de uma pandemia para que essas quest\u00f5es viessem \u00e0 tona de modo mais contundente. E se as mudan\u00e7as estavam batendo \u00e0 porta da educa\u00e7\u00e3o h\u00e1 tanto tempo, que tal abrirmos para que a tecnologia deixe de ser visita e habite de verdade as escolas?<\/p>\n<p>Encerro essas breves reflex\u00f5es com um trecho do livro de Paula Sibilia<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, que curiosamente parece ter sido escrito para este nosso momento: \u201co futuro ainda nos reserva muitas surpresas, inclusive em suas vertentes mais imediatas, e nesse turbilh\u00e3o, todas as previs\u00f5es s\u00e3o arredias. Se h\u00e1 algo que n\u00e3o deixa d\u00favida, por\u00e9m, \u00e9 que as novas gera\u00e7\u00f5es falam uma l\u00edngua bem diferente daquela que servia para comunicar os que se educaram tendo a escola como seu principal meio de socializa\u00e7\u00e3o e a \u201ccultura letrada\u201d como seu horizonte universal, com o firme respaldo institucional do projeto moderno abrigado por cada Estado nacional. E desses jovens do s\u00e9culo XXI depende, em boa medida, o desenvolvimento dos pr\u00f3ximos atos desse drama\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sibilia, Paula. Redes ou paredes \u2013 a escola em tempos de dispers\u00e3o. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. P.13<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"http:\/\/basenacionalcomum.mec.gov.br\/\">http:\/\/basenacionalcomum.mec.gov.br\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/05\/cerca-de-70-milhoes-no-brasil-tem-acesso-precario-a-internet-na-pandemia.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/05\/cerca-de-70-milhoes-no-brasil-tem-acesso-precario-a-internet-na-pandemia.shtml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/podcasts\/2020\/05\/podcast-discute-a-desigualdade-no-acesso-a-internet-no-brasil-ouca.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/podcasts\/2020\/05\/podcast-discute-a-desigualdade-no-acesso-a-internet-no-brasil-ouca.shtml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Op. Citi, P. 207.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que o distanciamento social durante a pandemia pode nos ensinar? Ana Carolina Carvalho Em um recente semin\u00e1rio online, o educador e cartunista italiano Francesco Tonucci afirma que se o corona v\u00edrus est\u00e1 mudando o mundo, n\u00e3o h\u00e1 como a escola passar ilesa por esse processo. De fato. 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