O pulo do sapo – Um projeto para aprender sobre seres vivos, leitura e escrita

Desenvolver um projeto didático possibilita trabalhar de forma integrada diferentes áreas do conhecimento. Quando se tem clareza de quais conteúdos e procedimentos específicos devem ser possibilitados às crianças, os resultados são significativos. As mudanças de percurso são feitas sem sustos

Era sempre uma animação chegar naquela creche e ver o gosto que as pessoas tinham pela profissão, pela vida. Lá, o trabalho com as crianças, como deveria ser em qualquer creche, vinha em primeiro lugar. Tudo era pensado e organizado para atendê-las: material ao alcance e à disposição, quantidade e variedade de livros, brinquedos, fantasias etc., conseguidos pelas educadoras “batalhadoras” com a ajuda da comunidade.

Naquela creche trabalhava a Elisângela, a Li, como era carinhosamente chamada pelas crianças. Ela foi minha parceira no projeto “O Pulo do Sapo”, voltado para a turma de 5 anos: eu desenvolvia algumas etapas de trabalho a cada quinze dias, enquanto a Li dava continuidade durante o restante do mês. Essa é a experiência que vou relatar a seguir.

Apresentação do projeto
Após conhecer, observar a sala e conversar com a Li e com a Andréia, coordenadora pedagógica, esbocei um projeto que pudesse trabalhar com questões de leitura e escrita e de conhecimentos sobre seres vivos. As crianças adoram bichos e aos 5 anos o interesse pela escrita é visível e necessário.

Assim, no primeiro dia de atuação direta, levei a idéia do projeto “O Pulo do Sapo”. As duas gostaram tanto que logo se puseram a pensar num meio de levar as crianças até a represa para a “caça aos girinos”. Um entusiasmo só!

Na minha segunda ida sentei-me entre duas crianças e começamos a conversar. Adorei o grupo, tão falante! E conversa vai, conversa vem, puxei assunto sobre bichos. Todos tinham o que dizer: o bicho de que mais gostavam, ou de que não gostavam, dos que tinham medo, dos que não tinham medo, daqueles que tinham em casa ou que queriam ter…Casos e “causos” aos montes permearam a nossa roda.

Vendo o interesse que todos tinham pelo tema, falei da idéia de estudarmos um animal, acompanhá-lo desde pequeno até tornar-se um adulto. Seríamos, portanto, “pesquisadores, cientistas” com a missão de escrever uma revista informativa sobre tal animal.

– Cientista é o homem que cuida dos dentes – disse um garoto.

Depois de esclarecermos o significado da palavra e diferenciarmos cientistas de dentistas, começaram os “chutes” a respeito de qual seria o animal:

– Cachorro! – disse um deles.
– Gato! – disse o outro.
– Macaco! – arriscou um terceiro.

Peguei o livro que eu havia levado e comecei a ler a história: “O Sapo e a Princesa”. E, antes que eu terminasse, todos disseram:
– Sapo!

Perguntei, então, o que sabiam sobre sapos e, juntos, fomos preenchendo os cartazes “o que sabemos” e “o que queremos descobrir”. Os cartazes ficaram assim:

O QUE SABEMOS SOBRE O SAPO
MORA NA LAGOA.
É VERDE.
PULA.
NADA.
COAXA.
NÃO TEM RABO.
COME MOSQUITO.

O QUE QUEREMOS DESCOBRIR
O SAPO TAMBÉM MORA NO MAR?
A SAPA FICA GRÁVIDA?
COMO NASCE O SAPO?
OS SAPOS SÃO PRÍNCIPES? (Acho que influenciados pela história.)
O QUE COMEM?
POR QUE O PESCOÇO DO SAPO INCHA?

Aproveitando o interesse pelos sapos, combinamos nossa saída para a represa a fim de buscarmos “sapinhos”. Foi uma alegria geral! Nesse clima de festa me despedi da turma, ansiosa por voltar logo.

Preparativos para o passeio
Dias depois, nosso passeio! Cheguei na creche e a ansiedade pela saída era geral.Antes, porém, propus às crianças uma breve pesquisa em livros para sabermos de fato o que iríamos buscar: girinos, como são, onde estão.

Bom! Cheguei com um “aquário” nas mãos como as crianças disseram. Então, tratei logo de sentar em roda e juntos observamos o que havia de diferente naquele “aquário”:

– É que tem esse vidrinho no meio – alguém arriscou.
– E por que será? – perguntei.
– Pro sapinho subir – responderam.

Na verdade, embora ainda ninguém houvesse dito, todos sabiam que o sapo também vive fora da lagoa, pois todos já haviam tido a oportunidade de ver um sapo por aí. Contudo, esta foi a “deixa” para eu renomear com eles aquele novo objeto: na verdade seria no terrário que agora o nosso futuro sapinho iria viver (montamos o terrário juntos – colocamos as pedras, as plantinhas, a bombinha de ar).

Depois, perguntei se alguém já havia visto um sapinho “recém-nascido” ou se já haviam descoberto como um sapo nasce; como não sabiam, fomos pesquisar nos livros que estavam separados. Diante das imagens das figuras as crianças descobriram:

– A sapa bota ovinhos – disse uma criança.
– Olha, ele parece uma bolinha – completou a outra, observando as imagens do livro.

Li, então, pequenos trechos que falavam sobre os girinos e, assim, colocamos no nosso cartaz as seguintes informações que foram apreendidas:

O QUE DESCOBRIMOS ACERCA DO SAPO
NASCE DO OVO.
QUANDO É PEQUENO SE CHAMA GIRINO.
NÃO TEM PATA, SÓ VIVE NA ÁGUA, RESPIRA E NADA.

Coleta, um procedimento de pesquisa
Terminada nossa pesquisa, saímos sabendo exatamente o que iríamos procurar: girinos! Porém, naquele momento, a grande questão para as crianças não era saber mais sobre sapos e sim descobrir quem iria de carro comigo e quem iria com a perua que a Gisélia, diretora da creche, e a Andréa conseguiram emprestar de um senhor da comunidade.

Na verdade as crianças não sabiam o que poderia ser mais divertido e, por isso, essa foi a grande dúvida inicial, resolvida com um revezamento de condução entre a ida e a volta.

O trajeto até a represa foi uma delícia. Passamos por lugares tão bonitos que me fizeram sentir como se estivéssemos fora de São Paulo. Incrível, tudo tão diferente e tão próximo da creche! Ao chegarmos, as crianças ficaram felicíssimas e nós também, pois a princípio parecia termos encontrado “o paraíso dos girinos”.

Todos alegres, à beira da represa, munidos de peneiras e garrafas d’água, “pescávamos” os girinos e espantávamos com a nossa falação os peixes dos pescadores que por ali se encontravam. Saímos da represa muito animados, porém com uma dúvida: será que o que pegamos eram mesmo girinos? Apesar de se aparentarem com girinos pelo tamanho e formato, estavam muito claros para girinos…Enfim, como “bons pesquisadores”, combinamos acompanhar e ver o que aconteceria até a minha próxima visita.

Estratégias de leitura: como as crianças lêem
Na semana seguinte voltei a me encontrar com as crianças. Achei que era o momento de aprofundarmos nossa pesquisa e propus, então, que trabalhassem em grupos. Lamentei não ter à mão uma filmadora durante a realização da atividade de leitura que propus então.

Foram cenas lindas de trabalho, em pequenos grupos, em que o respeito, a colaboração e a troca entre parceiros mais e menos experientes fizeram par ao envolvimento e à dedicação. As crianças se debruçaram sobre os livros buscando vencer o desafio que eu havia lançado durante a roda: encontrar em meio à variedade de livros oferecidos – poesias, trava-línguas, contos, parlendas, textos informativos e livros didáticos, científicos todos acompanhados de ilustrações – aqueles em que havia informações que nos fariam aprender mais sobre os sapos.

Estava proposta, portanto, uma atividade de leitura na qual as crianças teriam que fazer uso de diferentes estratégias a fim de construir um significado.

– Esse não dá para aprender sobre sapo – disse Fabielly observando um livro de histórias.
– Por que você acha isso? – perguntei.
– Você já viu sapa com laço na cabeça? Isso é história, não é de verdade – respondeu ela, já deixando claro o conceito que tinha sobre informações científicas.
– Esse é de música, não é? A Li já cantou esse pra gente? – quis saber Vítor.

Fui verificar o que ele dizia e, de fato, era o trava-língua:

“O sapo dentro do saco
o saco com o sapo dentro
o sapo batendo papo
e o saco soprando o vento”

Não sei se Vítor reconheceu pela configuração gráfica do texto, ou se pelo desenho do sapinho estampado na página. Só sei que a Li já lera o trava-língua para eles em outro livro, pois aquele eu havia levado naquela manhã. Li para ele e o sorriso de satisfação atravessou seu rosto:

– Eu não disse?!! – comemorou. Noutro grupo, Gabriel comentava:
– Esse livro não dá para pesquisar, porque sapo de verdade não fuma, referindo-se à imagem que aparecia na capa do livro.

Na verdade o livro era mesmo de história, porém o texto fornecia várias informações sobre sapos. Enquanto isso, outras situações de leitura de imagem iam acontecendo nos grupos:
– O sapo come borboleta, grilo, minhoca… – dizia Thiago Lucas enquanto observava as fotos de um livro informativo.
– Esse livro fala de girinos – disse Fabielly, usando a mesma estratégia.
– Os girinos comem folhas. Esse livro é de história, porque urubu não toca viola – disse Tiago Luan diante das ilustrações da história ‘A festa no céu’.

Estes foram exemplos de estratégias de leitura em que as crianças se valeram da observação do contexto para inferir sobre o que diziam os textos. Eu, por minha vez, tratava de ler pequenos trechos para que eles pudessem confirmar ou não suas hipóteses.

Objetivos da atividade:

  • aproximar as crianças dos textos informativos;
  • criar estratégias de leitura;
  • ampliar os conhecimentos sobre os sapos.

Orientações didáticas:

  • abordar a escrita sempre dentro de um contexto material e/ou um contexto verbal;
  • coordenar o que as crianças já sabem com as informações que são capazes de retirar do contexto do qual o texto faz parte e com as novas informações que são apreendidas.

A reflexão sobre o sistema de escrita
Feito isso, pedi que, em grupos, as crianças registrassem o que haviam descoberto. Uma delas assumiria a função de escriba da turma. Foi então que consegui abordar questões específicas da escrita das palavras.

Um dos grupos, por exemplo, queria registrar que o sapo era inicialmente um girino que vivia na lagoa. No entanto, queria apenas escrever as palavras-chaves:  SAPO, GIRINO e LAGOA.

Perguntei se sabiam onde podiam encontrar a palavra sapo, e Gabriel recorreu à capa do livro em que estava escrito: “A VIDA DE SAPO”

Joice era a escriba da turma e já ia começar a copiar todo o título do livro quando eu li para o seu grupo o que estava escrito, ou seja, forneci a eles uma informação necessária para que pudessem “ler” o que estava escrito (contexto verbal) e fossem capazes de localizar a escrita de determinada palavra:

– Sabendo que aí está escrito A VIDA DE SAPO, onde estará escrito SAPO?

Gabriel apontou precisamente a palavra, mas, embora estivesse convicto de sua “leitura”, não foi capaz de justifica-la. Isso me fez acreditar que SAPO havia se tornado uma palavra estabilizada para ele (como para muitos outros também), em virtude do freqüente uso que estávamos fazendo dela, pois aparecia várias vezes em todos os nossos cartazes.

Em seguida, fizemos outra nova roda, na qual cada grupo falou de suas descobertas a fim de socializar os novos conhecimentos. Encerrei a manhã lendo para eles “A festa no céu”.

Em tempo: os tais girinos eram na verdade pequenos peixinhos que agora já se transformaram em peixões. Por enquanto são os moradores provisórios do nosso terrário, que virou aquário, e fazem o maior sucesso com todas as crianças da creche.

O que as crianças sabem sobre a escrita
Mais tarde, refletindo sobre o encontro, pensei que seria importante conhecer o que aquelas crianças pensavam sobre o sistema de escrita. Precisaria pensar uma forma de fazer um levantamento e estabelecer critérios para a formação de grupos de trabalho para encaminhar atividades de escrita da revista informativa.

Esse foi meu propósito na visita seguinte. Assim que cheguei, as crianças me aguardavam sentadas em roda. Tivemos um bate-papo inicial, mas logo os “sapos” pularam em nossa conversa. As crianças estavam tão envolvidas com o projeto, que “sapo” foi um dos temas abordados pelos seus pais durante a reunião que tiveram na creche. Todos estavam “enlouquecidos” na caça aos danadinhos, pois “não agüentavam mais” ouvir os pedidos incessantes de seus filhos.

Aliás, visitas a lagos, lagoas e represas tinham se tornado rotina nos fins de semana de muitas famílias. Ah! Os peixes também tinham aumentado em quantidade, andavam trazendo para a creche pequenos peixinhos, acreditando que fossem girinos.

Depois de muito falar sobre sapos, girinos e peixinhos, propus uma atividade de escrita. Antes de começar com a sondagem, pedi que me dissessem tudo o que haviam aprendido sobre sapos nos últimos dias e
tratamos de atualizar os nossos registros:

O QUE DESCOBRIMOS SOBRE SAPOS:
COMEM MOSQUITO,ARANHAS E BORBOLETAS

Sempre registrando o que era ditado pelas crianças, fui escrevendo calmamente sob seus olhares atentos, ao mesmo tempo em que ia fazendo perguntas específicas sobre as escritas das palavras, do tipo:“quem sabe como se escreve mosquito?”; “com que letra devo começar a escrever aranha?”; “com que letra acaba?”; “quem tem essa letra em seu nome?” etc.

Depois disso, fiz duas propostas de atividades diferentes: para um grande grupo, o desenho de um sapo e tudo o que ele come para futuramente termos material de escolha para ilustrar nosso livrete. Formei um outro grupo, com apenas três crianças, para poder acompanhá-las melhor naquele dia.

Para esse propus a escrita de uma lista contendo o nome dos “alimentos” do sapo. Gabriel, sabiamente, passou a copiar a escrita que havíamos acabado de acrescentar em nossos cartazes, o que inviabilizava minha intenção de sondar o nível de conceitualização da escrita que apresentavam no momento.

Sendo assim, mudei a proposta para um ditado, também sobre os “alimentos” dos sapos. Tiago mostrou-se silábico com valor sonoro convicto: OOEA para borboleta; AAO para rato (aqui entrou em conflito com a quantidade de letras, mas embora lesse silabicamente, achou melhor acrescentar mais uma letra A); IOA para minhoca; e OIO para mosquito.

Gabriel registrou BOBOEA para borboleta; RAO para rato; ILBLA para minhoca; e OEIO para mosquito, o que me faz desconfiar que já começa a oscilar entre uma hipótese de escrita silábica e uma escrita silábico-alfabética, porém ainda me parece pequeno o repertório de letras que domina.

Já Alexandre apresentou uma escrita pré-silábica, mas durante a leitura, com as minhas interferências, alterou seus escritos iniciais e alcançou uma escrita silábica, porém sem nenhuma correspondência sonora intencional com as palavras pretendidas: PAEF para borboleta; ES para rato; NOF para minhoca; e PFO para mosquito.

Nos demais dias daquela semana, Li deu continuidade ao trabalho de sondagem. Avaliamos que escrever textos informativos para a revista, de próprio punho, seria um desafio muito difícil para aquelas crianças,muitas ainda pré-silábicas, outras silábicas, nenhuma alfabética. Sobretudo porque teríamos pouco tempo para fazer as intervenções necessárias para que aqueles textos pudessem ser lidos de fato.

Avaliamos que seria mais importante aprofundar os conhecimentos das crianças sobre a linguagem que se escreve. Por isso optamos por editar os textos produzidos oralmente por elas, dos quais havíamos sido as escribas, e que já estavam prontos.

Portanto, o passo seguinte foi aprofundar os conhecimentos das crianças sobre os tipos de textos informativos e as características do livrete como portador desses textos.

Durante a sondagem, Li observava todos os meus passos: primeiro o ditado, depois o pedido pela leitura e, por fim, as intervenções que eu julgava adequadas e necessárias nesse momento. Depois, na hora de nossa conversa, perguntei à Li quais haviam sido as suas dificuldades diante da atividade de sondagem que tentara fazer:
– Eu não sabia como interferir, se eu podia sugerir ou não a borracha…Na leitura deles eu também ficava confusa. Aí eu lia assim: bor-bo-le-ta. Eles me respondiam que não sabiam escrever. Aí eu dizia; lembram das vogais que eu ensinei a vocês?

Para responder a essas dúvidas analisei com ela, e sob os olhares atentos e curiosos de Andréa e Gisélia, as atividades que tínhamos em mãos, discutindo cada interferência que fiz, conceitualizando cada estágio das crianças.

Como tarefa, pedi que repetisse a proposta e registrasse por escrito para mim cada colocação feita pelas crianças e todas as intervenções feitas por ela. Na semana seguinte, Li trouxe novamente sua questão:
– Achei difícil na hora de interferir, fiquei com medo.

Notei que a dificuldade de intervir estava relacionada à dificuldade de compreender o que de fato as crianças sabiam, em que estágio estavam. Então conceitualizei novamente com ela cada uma das hipóteses das crianças e, juntas, fomos analisando cada produção e classificando de novo as atividades delas.

Fiz todas as ressalvas possíveis sobre o fato daquela nova classificação não corresponder de fato à realidade, já que eu não havia proposto a atividade para as crianças, nem presenciado o processo de produção e realizado as interferências.

Contudo, fizemos essa análise baseada nos materiais que tínhamos em mãos e de acordo com o que Li me contava sobre a forma como as crianças escreveram e as suas interferências. Foi melhor dessa vez, e com esse esclarecimento Li pôde seguir com seu trabalho.

Ler quando não se sabe ler
Credo! Acho que estou ficando com cara de sapo! Mal piso nesta creche e todas as pessoas vêm falar de sapo comigo. Não são só as crianças, não! Todas as professoras, a Andréa, a Gisélia…Todo mundo desesperado atrás dos tais girinos nos finais de semana.

É, não tem jeito. Ninguém encontra! Mas nem por isso a animação diminui: a Li já falou que vai continuar trabalhando com sapos no próximo semestre e que, na época certa, vai capturá-los na represa.

Mesmo não tendo conseguido observar os girinos, nosso projeto deu muito certo! As crianças me esperavam na sala de leitura, como de costume.Assim que cheguei, e depois da nossa conversa habitual, dividi a classe em pequenos grupos. A intenção era fazer uma pesquisa para adquirir mais informações sobre sapos que fossem interessantes de escrevermos em nosso livrete.

Desta vez, eu, Li e Andréa ajudaríamos as crianças fazendo a leitura dos textos informativos. Primeiro, é claro, elas folhearam bastante os livros, levantaram hipóteses do que poderia estar escrito em determinados trechos, mas, em seguida, nós nos aproximamos e fizemos diversas leituras para os grupos, confirmando ou refutando suas hipóteses iniciais, lendo partes dos textos que nos pediam ou, ainda, destacando trechos que eu já havia selecionado por conterem informações interessantes para as crianças.

Depois, sentamos em roda novamente e cada grupo socializou as descobertas feitas aos demais. A seguir, uma síntese de tudo o que as crianças expuseram:

– Quando o girino nasce, ele é pretinho. Depois cria cauda e depois esse rabo some e nascem as patas e ele vira sapo. – disse uma criança.

– O sapo vive na lagoa e faz xixi, muda de cor, solta o veneno que tem na pele e fica escondido nas plantas quando tem medo. – completou a outra, com o livro nas mãos.
– O sapo só come bichos vivos; ele não bebe água; e enxerga de todos os lados. – disse o representante do terceiro grupo.

E muitas outras crianças se sucederam numa conversa interessante, expondo tudo o que haviam descoberto:

– As patas do sapo servem para nadar; os ovos do sapo não têm casca, parecem gelatina. A rã é maior que o sapo, a pele da rã é macia e a do sapo é áspera.

– Anfíbio é tudo o que vive na água e na terra que nem o sapo.
– Se a gente cobrir o sapo ele morre porque ele respira pela pele.
– O sapo canta para namorar, depois a sapa bota os ovinhos.
– Na pele do sapo tem verrugas e veneno, que é um jeito dele se defender.
– Quando o sapo é girino ele come plantas e quando ele cresce ele come bichinhos.
– O sapo tem coração e pulmão que nem a gente; o nariz do sapo é bem pequenino.
– O sapo tem duas patas na frente com quatro dedinhos e tem duas patas atrás com cinco dedinhos.
– Quando faz frio o sapo faz um buraco na terra para se esconder; o sapo só aparece na primavera.
– Ele gosta de caçar à noite. Existem vários tipos de sapos: o sapo parteiro é aquele que põe os ovos nas costas e é saltador.
– O sapo sobe em cima da fêmea e ela solta os ovos na água e o sapo solta uma coisa branca e aí que vira os girinos.
– O girino se transforma em sapo, chama metamorfose. Passamos as informações para o nosso cartaz de descobertas, que a essa altura já estava bem recheado.

A edição da revista sobre os sapos
Hoje foi o dia de discutirmos sobre a elaboração da revista. Sentei em roda com as crianças e elas começaram a falar tudo o que sabiam sobre as características de uma revista.
– Tem capa – alguém falou.
– Tem fotografia – completaram.
– Também tem desenho – uma criança lembrou.
– O que mais? – perguntei.
– Só – responderam.
– Não tem nada escrito? – eu.
– É claro – disseram.
– E sobre o que falam? – provoquei.
– De amor – uma menina respondeu.
– Das pessoas – outra.
– Tem signo – um garotinho.
– E do que são as fotos? – eu.
– Das pessoas que estão falando – arriscou uma criança.
– Quem faz a revista? – eu, mais uma vez.
– Tem uma pessoa que escreve – alguém respondeu.

E assim prosseguimos, levantando todos os conhecimentos prévios. Depois passamos a analisar algumas revistas comuns e também revistas específicas (como será a nossa). Diante dessa pesquisa,Tiago descobriu:
– Tem números também – disse ele diante do índice.
– E para que você acha que eles servem? – perguntei.
– Acho que é para dizer os números que já vendeu – respondeu ele.

Achei fantástica a sua resposta e, por isso, fui para a capa da revista onde aparece o número que representava exatamente a idéia do que ele falava. Então perguntei:
– Que número teremos que escrever na capa da nossa revista?
– Um! – vários responderam.
Mas, afinal, o que seriam aqueles números? Diante dessa pergunta, instaurou-se um enorme silêncio, só quebrado por uma criança:
– É quanto custa – arriscou.
– Mas uma revista pode ter vários preços? – perguntei.
Como não sabiam o que poderia significar aquilo, perguntei:
– Como a gente faz para achar o horóscopo nessa revista?
– Vai virando.
– E para que servem estes números? – eu, apontando para os números que aparecem nas páginas da revista.
Tiago percebeu a função de tais números e disse:
– Os números são para saber se a gente tá no certo.

sapo s.m. (sXIV cf. FichIVPM)1. HERP design. Comum aos anfíbios anuros em geral, e em particular aos anfíbios terrestres do gên. Bufo da fam. Dos bufonídeos, de pele rugosa e seca. cf. bufonídeo 2. BS. Pessoa que observa um jogo; peru, mirão (…) Fonte: Dicionário Houaiss

Foi então que expliquei a função do índice e, juntos, verificamos a sua utilidade. Aproveitei e peguei também os livros sobre sapos e fizemos novas constatações. E assim fomos prosseguindo nosso trabalho: escolhemos o título para a nossa revista, nº de edição, vimos a importância do índice, fotos etc.

Finalmente chegou a hora de produzirem os textos. Eu assumi a função de escriba e ia fazendo perguntas – como o sapo nasce; o que ele come etc. – que orientavam o ditado realizado pelas crianças. E como tinha muito assunto, tivemos que combinar um outro dia para continuar, pois nosso tempo já tinha se esgotado.

Demoramos ainda alguns dias para finalizar tudo. O resultado ficou surpreendente, tamanha a quantidade de informações sobre os sapos. E até hoje as crianças pensam e falam sobre sapos, rãs, girinos e companhia.

Uma breve avaliação
De tudo o que fizemos podemos afirmar que o que ficou mais marcado para Li, Andréia e eu, foi a importância de considerar os conhecimentos prévios das crianças antes de tentarmos “ensinar” novos conteúdos e o quanto esse tipo de atitude as aproxima da atividade, fazendo com que se torne significativa para elas. Sobretudo quando são consideradas autoras e produtoras de texto, ainda que tão pequenas, ainda que não escrevam convencionalmente.

A professora, claro, sempre ajuda, mas sem “mão de gato”. Ela intervém para apoiar, dar visibilidade e potencializar o que as crianças sabem, além de intervir para que possam ir além. E o resultado vale por si e ninguém há de negar!

(Kátia Trovato Teixeira de Souza foi professora de apoio do Instituto Avisa lá e atualmente desenvolve projetos de formação no CEDAC.)

 

Formação do professor: como fazemos a reflexão sobre a prática

Meu trabalho, como professora de apoio, tem como principal objetivo conseguir avanços nas aprendizagens das crianças. Mas enquanto faço isso também colaboro para a formação da educadora e da coordenadora pedagógica, que têm a rara oportunidade de se desincumbir da gestão da sala apenas para me observar.

Assim foi na Creche Figueira Grande: enquanto trabalhava com as crianças, Li e Andréia faziam suas anotações, registravam suas dúvidas. Duas horas depois uma outra educadora vinha me substituir para que eu pudesse conversar com elas.

Naquele dia, comecei falando sobre a necessidade de termos um tempo no nosso próximo encontro, antes de sairmos para a represa, para a pesquisa em livros, pois na conversa com as crianças havia notado que elas desconheciam a fase dos girinos, pensavam que eles nasciam como sapinhos.

Mal eu terminara de falar, fui interrompida pelo entusiasmo de Li:

– Eu gostei tanto da reação das crianças, das coisas que elas falaram sobre o sapo… Até eu fiquei curiosa! E Andréa acrescentou:
– Eu gostei do jeito que você conduziu a conversa, despertou o interesse de todo mundo. Primeiro você partiu da roda de conversa, falou de animais, os animais preferidos, depois falou de estudar um animal, deixou todo mundo curioso e contou a história do sapo.

Percebendo que as duas estavam tão satisfeitas com a manhã que havíamos tido, pedi que falassem tudo o que haviam observado e, assim, fomos comentando juntas cada questão que levantaram: “Escrever em cartaz o que sabem e o que querem descobrir.” Essa escrita serve como registro de memória e norteia o trabalho, mostrando o que já foi e o que não foi pesquisado, as descobertas feitas e os novos conhecimentos conquistados.

Esse texto ainda dará subsídios para a produção da revista informativa sobre os sapos. Importante escrever na frente das crianças e, mais do que isso, escrever o que as crianças ditam, situação em que se vêem como autoras do texto e passam a perceber a correspondência entre o oral e o escrito, uma vez que começam a tentar acompanhar o tempo da fala com o da escrita no cartaz.

“Através da roda você chegou aonde queria.” Interessante ver como é possível promover uma situação favorável que desperte o interesse das crianças pelo assunto. Fazer uso da roda não só para partilhar o objetivo do projeto,mas também para favorecer a socialização dos conhecimentos que as crianças já possuem.

“Você deixou o cartaz na altura das crianças e não quis colocar em cima do armário.” Os cartazes servirão como material de consulta para as crianças para as suas próximas pesquisas e também para a produção da revista (além da consulta possível para a escrita de determinadas palavras que precisem escrever e que tenham como localizar etc.). As crianças são as autoras do texto e devem se ver como tal; para tanto devemos aproximar o material deles, já que farão uso dele, e não afastá-lo.

Avaliamos, ao final, que tivéramos uma manhã muito produtiva, tanto para as crianças quanto para nós, educadores, que pudemos nos deter mais tempo sobre nossa prática e refletir sobre aspectos deste trabalho que podem nos ajudar a potencializar nosso tempo com as crianças.

Os saberes das educadoras

Como é de costume no nosso projeto de formação, saí da sala com Li e Andréia para que conversarmos sobre o que aconteceu. Li começou:

– Eu nunca tinha feito pesquisa com eles, achava que eles não eram capazes, que não iam conseguir… Serviu para mim, porque eu vi que dá.

A gente nunca pesquisou em livro, eu mesma nunca fiz leitura com eles. Isso de eles ditarem para os outros escreverem também não.

– O que eu fiquei observando foi a interação das crianças.Todo mundo
estava procurando o que você pediu. Mas você trouxe o material necessário, sabia o que ia pedir. É diferente de quando a gente larga o material na mão das crianças e pede que procurem sem a gente mesmo saber se ali tem o que se quer, e elas vão achando qualquer coisa. Mas também tem que ter a maior paciência de ir passando de grupo em grupo, repetir a toda hora aquilo que já falou, em todos os grupos dar a mesma consigna – continuou Andréia.

Por fim, falei para elas dos meus principais objetivos com a atividade e quais orientações didáticas seriam importantes para o planejamento de uma atividade de leitura.

Para saber mais

O Projeto “O pulo do sapo”
Faixa etária: 4 anos
Objeto social do conhecimento: Língua Portuguesa e Ciências
Objetivo do projeto: produzir uma revista com textos informativos sobre a transformação (evolução) de girinos em sapos.
Objetivo didático: aprender os procedimentos de pesquisa através do uso de vários instrumentos, tais como observação direta da metamorfose dos girinos; leitura de textos informativos (leitura por imagens, leitura de antecipação de significados e leitura realizada por adultos); assistir a um vídeo referente ao tema; fazer uso da escrita como registro dos conhecimentos construídos ao longo dos processos (situações de registro expontâneas e produção de textos tendo o professor como escriba); promover o desenvolvimento da oralidade por meio de troca entre as crianças.

Conteúdo específico: seleção de fontes de informação por meio de leituras diversas e outras fontes de pesquisa; uso da escrita como recurso de sistematização; uso da escrita e da oralidade como meio de socialização dos conhecimentos adquiridos e produção de textos informativos sobre sapo.

Justificativa: as crianças pequenas têm um grande interesse por animais. O projeto “O pulo do sapo” proporcionará esse contato ao promover uma postura investigativa por meio da observação direta e por meio de outros recursos de pesquisa (revistas, livros e textos informativos). A produção da revista entra com a função de sistematizar o conhecimento produzido, privilegiando, portanto, o uso da escrita de forma significativa.

Desenvolvimento do projeto: em cada momento, teremos sempre: etapas prováveis; o que a professora quer que as crianças aprendam em cada etapa do projeto.

  1. Atividade inicial – provocar uma discussão sobre os sapos em uma roda de conversa e construir um quadro que deverá ser preenchido ao longo do projeto a partir das questões: o que já sabemos, o que queremos descobrir, o que aprendemos. Promover a troca de conhecimento entre as crianças, sensibilizando-as para o tema.
  2. Buscar em livros, revistas e textos informações sobre o assunto. Aprender a utilizar esses recursos como fonte de informação e criar situações de leitura de imagem.
  3. Levar para a sala de aula alguns girinos para observação. Ter uma postura investigativa e buscar conhecimentos a partir da observação.
  4. Registro das transformações observadas, realizado pela professora a partir do que foi ditado pelas crianças. Presenciar o uso da escrita como um recurso para a coleta de dados e que as crianças sejam as autoras efetivas do texto.
  5. Assistir a um vídeo que trate do assunto, ressaltando alguns pontos que devem ser observados. Reconhecer esse instrumento (vídeo) como mais uma fonte de pesquisa capaz de enriquecer os registros do quadro.
  6. Desenho de observação das transformações ocorridas que irão ilustrar a revista. Uso do desenho como forma de expressão e documentação das transformações observadas e produção de material ilustrativo da revista.
  7. Escrita de textos informativos para a revista a partir do conhecimento construído no desenrolar da pesquisa (professor escriba). Sistematizar as descobertas para a elaboração da revista.
  8. Leitura de contos que têm o sapo como personagem principal (“A festa no céu”, A princesa e o sapo”etc.). Ao entrar em contato com os textos narrativos, descobrir a existência do sapo como personagem de contos, confrontando as características de um sapo real com o sapo das histórias.
  9. Escrever legendas para as figuras que farão parte da revista. Permitir que as crianças tivessem a oportunidade de escrever de próprio punho e a possibilidade de avançar nas suas hipóteses de escrita.
  10. Selecionar imagens e/ou desenhos de que mais gostaram para compor a revista. Que possam discutir e ter material para tornar o texto que escreveram mais atrativo e interessante para o leitor.
  11. Atividade avaliativa: produção de uma revista com textos informativos, referentes à transformação (evolução) de girinos em sapos. Socializar amplamente o que aprenderam sobre o tema por meio dos registros e ilustrações que fizeram, desenvolvendo uma postura de pesquisadores reais.

Ficha técnica:

O projeto foi possível graças à parceria do Instituto C&A; Desenvolvimento Social, Instituto Avisa lá e Sociedade Amigos do Parque Figueira Grande.

  • Creche Recanto Infantil Comunitário.Tel.: (11) 5831-3398. Equipe: Andréia Aparecida Rodrigues Yamachita, Gisélia Marcelino dos Santos Silva, Elizângela Eloy de Souza e Kátia Trovato Teixeira de Souza.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #12 de outubro de 2002. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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