Entre adaptar-se e ser acolhido

Até pouco tempo atrás, nas creches e pré-escolas e até mesmo nas escolas de ensino fundamental parecia não haver outro jeito: ou as crianças se adaptavam ou se adaptavam. No entanto, isso vem mudando. As boas instituições de educação têm se preocupado em acolher bem a criança que chega.

A discussão sobre o período de adaptação das crianças a uma instituição
escolar já tem história na educação de nosso país. As dificuldades enfrentadas nos primeiros dias pelas crianças, ao ingressar em uma instituição educacional, eram vistas como um mal necessário pelo qual todas deveriam passar. Era comum apostar que mais cedo ou mais tarde elas acabariam se acostumando, porque de um jeito ou de outro isso acabava mesmo acontecendo.

Sofrimento, insegurança, desamparo e outras possíveis decorrências desse processo eram desconhecidas, por
vezes ignoradas. Mas, para muitos adultos, a lembrança dos primeiros
dias de escola faz parte, para sempre, de recordações pouco agradáveis.
Com o passar dos anos a educação começou a considerar a psicologia e,
em especial, a psicanálise1, preocupando-se cada vez mais com os sentimentos, as emoções, a individualidade, a construção da identidade e o processo de socialização das crianças.

As escolas que atendiam a famílias de classe média e alta foram as primeiras a repensar o processo de entrada da criança, por meio da formulação de procedimentos específicos.
Desde então, inúmeras propostas têm sido implementadas visando receber a criança e sua família da melhor forma possível. Todas elas concordam com o fato de que a entrada na escola pode gerar estresse nas crianças, famílias e profissionais da educação envolvidos no processo.
No entanto, é possível suavizar consideravelmente esse impacto, por
meio de um planejamento cuidadoso e da antecipação de problemas bastante comuns nessa fase. O planejamento da adaptação, embora comum, não está totalmente implementado na educação, principalmente
nas escolas públicas e creches que atendem à população de baixa renda.

Parece existir ainda resistências em planejar-se uma boa acolhida. As explicações são variadas mas sempre reforçam um preconceito: há quem pense que cuidados na adaptação são um “luxo” destinado aos ricos. A criança pobre não precisaria disso, na medida em que mães e crianças de baixa renda já estão acostumadas a sofrer, que qualquer lugar do mundo é
melhor do que suas casas e que quem precisa do serviço deve submeter-se, sem atrapalhar muito. Quando os problemas são constatados, é comum considerá-los como uma “manha” da criança ou excesso de mimo da mãe.

Esse jeito de tratar a questão revela uma concepção assistencialista e preconceituosa, na qual a educação do pobre é vista como um favor.
Felizmente, nesta última década, essa visão tem sido oficialmente
contestada. O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e
Bases da Educação, e mais recentemente o Referencial Curricular
Nacional de Educação Infantil, afirmam o direito da criança a uma
educação de qualidade. Consideramos que o planejamento cuidadoso
da entrada da criança na escola deve ser inerente ao projeto educativo
da instituição, um indicador de qualidade do serviço prestado.

Mais
do que adaptação, é importante pensar em acolhimento.
Esse acolhimento pode ser enfocado de diferentes pontos de vista:

  • o da criança, pelo significado e emoção despertados pela passagem
    de um espaço seguro e conhecido para outro em que é necessário um investimento afetivo e intelectual para poder estar bem;
  • o das famílias, que compartilham a educação da criança com
    a creche/pré-escola;
  • o do professor, que recebe uma criança desconhecida e ainda tem
    as outras do grupo para acolher;
  • o das outras crianças, que estão chegando ou que fazem parte do
    grupo e precisam encarar o fato de que há mais um com quem repartir, mas também com quem somar;
  • o da instituição, nos aspectos organizacional e de gestão, que precisam prever espaço físico, materiais, tempo e recursos humanos capacitados para essa ação.

Neste artigo, enfocaremos o ponto de vista da criança.

A diferença entre adaptar-se à escola e ser acolhido por ela

O nome adaptação pode sugerir apenas o esforço que a criança realiza para ficar, e bem, no espaço coletivo, povoado de pessoas grandes e pequenas, todas desconhecidas, enfrentando relações, regras e limites diferentes do espaço doméstico a que ela está acostumada. Há, de fato, sempre um grande esforço por parte da criança que chega e que está conhecendo o ambiente da instituição, mas entendemos que o processo de conhecer e estabelecer novos vínculos depende fundamentalmente da forma como a criança é acolhida.

Considerar a adaptação sobre o aspecto de acolher, aconchegar, procurar oferecer bem-estar, conforto físico
e emocional, amparar, amplia significativamente o papel e a responsabilidade da instituição de educação neste processo. A qualidade
do acolhimento deve garantir a qualidade da adaptação; portanto, trata-se de uma decisão institucional, pois há uma inter-relação entre os movimentos da criança e da instituição, fazendo parte do mesmo
processo.

O acolhimento na sua dimensão cotidiana

O acolhimento deve acontecer todo dia na entrada; após uma temporada sem vir à escola; quando algum imprevisto acontece e a criança sai mais tarde; depois que as outras já saíram; após um período de doença e, enfim, sempre que o adulto julgar conveniente, porque é bom para toda criança ser bem-recebida e sentir-se importante para alguém. Nós, adultos, também somos sensíveis ao acolhimento. Quando somos bem-recebidos, em qualquer lugar, em geral nossa reação é de simpatia e abertura, o que nos leva a esperar o melhor daquele ambiente e daquelas pessoas. Quando, ao contrário, somos recebidos friamente, nossa tendência é também
ignorar, não nos envolver, passar desapercebidos. E o que acontece
quando somos mal recebidos? A gente jura não voltar mais àquele
lugar! Algo parecido acontece com as crianças e suas famílias quando
chegam à creche ou à pré-escola.

Ao considerarmos que cuidar é
reconhecer e atender às necessidades infantis teremos que necessariamente refletir sobre a questão e organizar com atenção o processo de acolhimento. Como as crianças podem viver a entrada na
instituição de educação Para a criança, entrar na creche, pré-escola ou mesmo na escola implica um processo ativo de construção de novos conhecimentos e de vínculos.

Quando chega à instituição, ela já pode ter expectativas sobre o comportamento dos adultos, das outras crianças
e até mesmo sobre a forma de se relacionar com os objetos e brinquedos, pois construiu referências a partir de suas vivências e experiências, mesmo que seja uma criança bem pequenina, um bebê. Ela precisa de um tempo para ver com clareza as diferenças entre sua casa e a escola e para que transfira seus sentimentos básicos de confiança e segurança
para alguém. Esse tempo é bastante individualizado – algumas crianças
passam por esse momento de forma mais rápida, outras mais lenta – por
isso não se pode preestabelecê-lo.
As crianças lidam fundamentalmente com a ansiedade da separação: a
escola tem um papel fundamental ao estabelecer a separação entre
mãe e filho, isso pode ser bastante positivo para ambos, mas pode,
também, gerar insegurança e fantasias de abandono. Nesse caso, a
escola e o professor precisam se revelar um porto seguro para a criança,
aquilo que lhe garante, por meio da atenção e de atividades adequadas,
que ela não será esquecida.

Algumas crianças demonstram maior
confiança e passam a freqüentar aescola como se, naturalmente, já
fizessem parte daquele ambiente; talvez sejam crianças que já viveram
experiências positivas de separação, ou que esperam este momento
ansiosamente, porque têm outros irmãos que já freqüentam a escola.
Mas grande parte das crianças costuma reagir fortemente à separação
de diferentes maneiras: elas podem chorar ou, ao contrário, ficarem
muito caladas; podem agredir outras crianças, podem adoecer, recusar-se
a comer, a dormir, a brincar. É preciso acolher essas manifestações e conhecer a forma de cada um reagir, considerando como natural dentro
desse processo, sem rotular a criança a partir disso.

Algumas crianças têm rituais específicos para dormir, comer ou usar o
banheiro, outras usam objetos tais como paninhos, chupetas, brinquedos
e ficam apegadas a eles. Essas coisas possuem um significado especial para elas, pois criam a ilusão de que a mãe ou a pessoa na qual investem afeto estão próximas, o que lhes proporciona maior conforto emocional e segurança. Deixar que a criança mantenha seu jeito de ser, seus rituais e sua rotina individualizada, para aos poucos se ajustar ao grupo, proporciona suavidade à transição, sem rupturas bruscas e maior controle do adulto sobre o processo. Conversar com a criança sobre seus sentimentos, sobre a nova rotina, esclarecendo o que vai acontecer com ela, ajudá-la a expressar seus sentimentos e valorizá-la enquanto pessoa, são cuidados que a ajudam a desenvolver sua autoconfiança para lidar com a nova situação.

Cisele Ortiz (psicóloga e coordenadora de projetos de capacitação), 1999.

1 A psicanálise é o conjunto de teorias formuladas por Sigmund Freud (neuropsiquiatra austríaco – 1856/1939) e seus discípulos, no qual há a
valorização do inconsciente que se manifesta independentemente de nossa vontade. A psicanálise nos ajuda a compreender o desenvolvimento
infantil do ponto de vista das emoções.

Para saber mais:

  • Investigação da criança em interação social, coletânea da ANPEPP volume 1, nº 4
  • Integração Família e Creche – O acolhimento é o princípio de tudo,
    Maria Clotilde Rossetti Ferreira, Kátia Amorim e Telma Vitória, Coletânea de Saúde Mental/FMRP USP/Ribeirão Preto
  • Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil, Brasil, MEC
  • A adaptação da criança pequena à creche/pré-escola, Irene Franciscato, Crecheplan (mimeo)
  • O início da vida escolar – da separação à independência, Nancy Balaban, ed. Artes Médicas

Direto da prática: para refletir com sua equipe

“Ao entrar no berçário depois do almoço, percebi que, ao lado de uma garotinha de cerca de um ano, havia um menino. Pelo seu tamanho, devia fazer parte de outro grupo etário. Eram irmãos. Para se acalmar ele fora levado ao berçário onde a irmã também se adaptava, chorando menos que ele. Estavam deitados, ela enroscada no corpo do irmão, numa posição fetal. Não queria sair de perto dele, não queria ser olhada nem tocada. Tinha uma chupeta na boca amarrada a uma fralda maior do que ela. Percebi que, embora acordados, permaneciam ali encolhidos, se auto-apoiando, tentando sobreviver no meio de vários bebês que dormiam, choravam ou eram atendidos pelas educadoras. O garoto, Carlos, parecia mais calmo e demonstrava interesse em sair de lá. Sentei no chão a seu lado e mostrei alguns brinquedos para tentar atraí-lo. A garotinha não admitia separar-se dele, mantinha o corpo enrolado, o rosto no colo de Carlos. Ele tentava consolá-la e quando ofereci mamadeira a ela, ele lhe disse carinhosamente: ‘quer mamadeira fiinha?’ À medida que ela se recusava e começava a chorar, ele não agüentava e chorava também, chamando pela mãe, embora houvesse um visível interesse pelo instrumento sonoro que usei para acompanhar uma música. Cantei e toquei para eles, e o menino, interessado, pegou o instrumento de minha mão e começou a me acompanhar no ritmo da música. Meu objetivo era dar-lhes recursos para organizar sua emoção, envolvê-los, aproximar-me, descobrir algo que os tirasse da insegurança e do medo, que lhes confortasse. Era preciso ajudá-los. O menino, principalmente, tinha dificuldades em lidar com suas emoções, percebiase que se sentia responsabilizado por apoiar a irmã, mas ao mesmo tempo se “contagiava” em suas emoções (…)
Afinal, ele também era pequeno e precisava de tempo para lidar com seus sentimentos e poder se envolver com outros interesses e com o que o cercava.”

(Do diário de Damaris Maranhão, enfermeira do Crecheplan, em observação feita num berçário, 1998)

Direto da prática: jeitos de planejar uma boa acolhida

(…) “A Creche Carochinha compreende a necessidade de que o processo de adaptação ocorra da forma menos penosa possível, tanto para a criança e sua família como também para as educadoras envolvidas. Tendo isso em mente, prepara a fase do ingresso à creche de forma a promover o conhecimento e a confiança mútuos, buscando favorecer, assim, a integração e o estabelecimento de vínculos entre os familiares e as educadoras. Para isso, o ingresso das crianças e das famílias é cuidadosamente programado por meio de um conjunto de medidas:

  • é dedicada uma atenção especial à família antes do dia do ingresso da criança, quando a entrevista de matrícula tem mais o objetivo de facilitar a integração do que o de obter informações (estas últimas são complementadas em momentos posteriores);
  • a inserção é feita progressivamente, duas crianças por subgrupo, por semana, sendo que cada criança ingressa em um período do dia (manhã/tarde), o que dá às educadoras maior disponibilidade para o
    atendimento ao bebê e à sua família;
  • durante um período, variando entre uma a duas semanas, algum familiar é solicitado a permanecer junto à criança na creche. Esse tempo é gradualmente reduzido, à medida que aumenta o tempo de permanência do bebê na creche, até este mostrar-se mais tranqüilo durante o período integral de sua estada ali.

É importante salientar que essa creche já acumulou uma experiência na promoção de processos de adaptação.
Procura garantir um período específico do ano para receber crianças e famílias novas, normalmente nos três primeiros meses. Da mesma forma, garante que nunca ingressem mais do que duas crianças na mesma semana, na mesma turma, o que faz com que sejam necessárias algumas semanas para completar uma turma de crianças, que, para a faixa etária de 0-2 anos, pode variar de 5 a 8 elementos.”

(Emergência de novos significados durante o processo de adaptação de bebês à creche – Maria Clotilde Rossetti Ferreira, Kátia Amorim e Telma Vitória)


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #2 de janeiro de 2000. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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